A Urgência

- Tem quem a venha buscar? – Perguntava o enfermeiro enquanto tirava o cateter a Mia.

- Não.

- Quer que chame um táxi? – Insistiu ele, afinal os calmantes que Mia tinha tomado eram bastante fortes, ela poderia sentir-se desorientada.

- Sim, por favor. – Agradeceu Mia enquanto o gentil enfermeiro se afastava. Viu-o regressar para lhe colocar um penso na costa da mão, onde estivera a levar medicação pelo cateter.

Mia sentia-se entorpecida, como que atrofiada dos músculos, sem forças, sem sensibilidade; até pensar lhe custava, sentia-se deslocada do ambiente, não se sentia presente. Chegou mesmo a desequilibrar-se, aquela sensação era estranha para ela, mais do que qualquer uma outra. Ainda não entendia muito bem o que lhe tinha acontecido, não entendia porque que é que lhe tinham dado medicação, ainda ninguém lhe tinha explicado nada. Tentou-se recordar do que a levou a chegar ali, mas só se conseguia lembrar de fragmentos, nada de concreto, nem sequer conseguia entender se tinha sido um sonho ou não, porque era aquilo que lhe parecia, que ela estava a viver um verdadeiro sonho, real: piscou duas vezes os olhos, voltou a fechar, beliscou o braço e disse: "Eu vou acordar! Quando abrir os olhos isto não passa de um sonho, de um pesadelo", Mas nada aconteceu, tudo continuava igual, até que foi interrompida por uma voz familiar naquele caos mental que a fez despertar:

- Agora vai-se sentar na sala de espera e o médico vai já chamá-la.

- Mas... Só uma pergunta... Afinal o que é que eu tenho? – disse ela com cara apática.

- Não sou médico, não lhe posso responder concretamente a essa pergunta, mas quando falar com o médico ele explica-lhe tudo concretamente e tira-lhe todas as dúvidas.

- Eu compreendo, mas eu nem sei porquê nem como aqui cheguei... e com esta medicação eu estou desorientada. – Disse ela em tom de quase desespero.

- O que a senhora teve foi uma crise de ansiedade e stress. Como chegou aqui de urgência, já depois da crise e as análises revelaram que a crise foi muito forte, teve de tomar medicação de efeito rápido, e claro que a melhor maneira é pelo sangue, mas o médico vai explicar-lhe tudo.

- Obrigada – Mia ao ouvir estas palavras, ficou mais calma e tranquila. Agradeceu mais uma vez enquanto se afastava para a sala de espera da área amarela das urgências.

Ao sentar-se na fila de cadeiras, pegou no telemóvel e começou a pesquisar o que era uma crise de ansiedade e stress; à medida que ia lendo ia encaixando as peças e se ia lembrando de pequenos frames daquela manhã. Foi quando ela se lembrou das palavras de Marta... doeu-lhe novamente, como lhe tinha doído no momento que as escutou. Teve noção que lhe iria doer infinitamente enquanto se lembrasse da mágoa que Marta lhe deixou não só no coração, mas para sempre na alma, e ela nem tinha noção de que era possível sentir tanta dor. Toda a vida tinha fugido de abrir o seu coração a quem quer que fosse, tinha-se esforçado para ser fria, racional, sem sentimentos, e durante muito tempo isso funcionou, foi a sua fortaleza, a sua grande defesa e o impulsionador da sua carreira, mas agora algo mudou: aquilo era novo nela, tinha-lhe virado a vida do avesso e pode compreender o que era "ficar sem chão", e isso não era normal dela! Ela nem se lembrava quando fora a última vez que lhe tinham conseguido "tirar o chão" debaixo dos pés... "Como é que alguém chega a minha vida e consegue arrevesar a minha vida desta maneira?"

- Mia , Mia Bento Marques – Ecoou pela sala. Mia sobressaltou-se e levantou-se de rompante. – Ao gabinete 2 – continuou a voz. Mia dirigiu-se ao gabinete do médico.

Ao entrar pediu licença.

- Pode entrar – disse a suave voz daquele médico. – Mia Bento Marques? – Continuou inquirindo.

- Eu mesma.

- Sente-se, por favor. – disse enquanto lhe apresentava a cadeira em frente a sua secretária. – Então conte-me coisas, o que a levou a ter uma crise destas?

- Pois, não sei doutor. – Mentiu Mia lembrando-se das palavras amargas de Marta novamente.

- Bem, então e foi a primeira vez que a senhora teve uma crise?

- Sim

- Nunca teve uma dor no peito, nem sintomas de alerta?

- Não, doutor.

- E como é o seu ambiente de trabalho? É muito stressante?

- Ora doutor, qualquer ambiente de trabalho que tenha prazos e metas a cumprir é stressante. Mas nunca me senti assim, e já tive muito mais trabalho do que tenho agora.

- Bom, temos que perceber se foi um caso isolado, ou o princípio de qualquer coisa... estas crises podem desenvolver muitas patologias ou ser o princípio de algo maior, portanto a senhora tem de estar atenta. Qualquer sintoma de alerta, dirija-se novamente às urgências.

- Sintomas de alerta? – Mia estava desorientada, não estava a entender o que o médico lhe estava a dizer. – Como assim?

- Bom, para bom princípio, vamos tratar disto como um caso isolado e vou-lhe receitar apenas uns SOS, em caso de necessidade a senhora toma um, e espera que os sintomas passem, se não houver melhoras até ao fim do dia tem de voltar às urgências. Outra coisa é percebermos se a senhora está a desenvolver a síndrome da ansiedade, que se for isso que esteja a acontecer, tem de procurar apoio junto de um profissional da área da psicologia para a ajudar a lidar com as crises e ser medicada corretamente. Podemos ainda estar a falar do início de uma depressão, se assim for, o meu concelho é o mesmo, nunca se esquecendo que pode recorrer às urgências sempre que sentir necessidade. – disse o médico com uma cara séria, o que assustou Mia.

- Certo doutor.

- Mia – com este chamado, Mia sentiu que o caso era mais sério do que parecia – Estas crises podem ser bastante sérias, é importantíssimo que não desvalorize, nem deixe de dar importância. Você é uma mulher jovem, tem uma vida pela frente, e se a sua primeira crise já foi assim, o seu corpo pode não aguentar a próxima ou a outra a seguir. Eu, como profissional de saúde, aconselho-a vivamente a procurar um colega da área da área mental. Já ouviu a expressão "mente sana, corpo sano"?

- Já sim, mas eu nem sei como isto aconteceu, pode não ser nada disso, ou pode apenas ser um episódio isolado.

- Espero que tenha razão, mas não desvalorize. Todos nós em qualquer momento da vida vamos precisar de ajuda, e não é vergonha nenhuma.

- Oh, eu sei, eu não vou desvalorizar, mas não posso ficar "presa" ali a uns comprimidos.

- Mais vale tomar um comprimido por dia do que o corpo não aguentar a próxima crise, e entrar nas urgências com uma paragem cardíaca.

- Mas pode chegar a isso? – Mia percebeu que podia ser mais grave do que ela queria, mas ao mesmo tempo tentava desvalorizar.

- Sem dúvida, e não seria a primeira que entrava aqui nesse estado porque desvalorizou. – Mia ficou de semblante carregado, olhou para a receita que ele lhe dava, e assimilou a informação. – Tome estes comprimidos sempre que se sentir mal, e não hesite em procurar ajuda. Cuide-se!

- Vou cuidar. Obrigada, doutor. – disse ela enquanto se levantava e saia do gabinete.

Ao chegar à rua Mia sentiu o vento frio ladear-lhe o rosto e entrar-lhe na pele, como um acordar matinal num banho frio. Tudo ainda lhe parecia um sonho, tentava encaixar e assimilar tudo, toda aquela manhã que lhe virou a vida do avesso. Foi abordada pelo segurança do hospital que a fez acordar mais uma vez:

- Mia Bento Marques?

- Sim?

- Aguarde aqui que o seu táxi já vai chegar.

- Obrigada. 

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