A discussão

Enquanto a tranca eletrônica da porta destrancava, Filipa notou a mota de entrega de pizza chegar atrás de si.

Chamou o rapaz, pagou a pizza e encaminhou-se novamente para a entrada. Subiu as escadas preocupada, cheia de perguntas, quase um inquérito. Marco tinha de explicar muito bem explicado o porque de ter faltado ao trabalho!

Ao chegar ao cimo das escadas reparou que a porta estava entreaberta, mas Marco não estava a sua espera na entrada, o que a levou a desconfiar se se teria passado alguma coisa de grave. Empurrou levemente a porta:

- Marco?

- Entra! - disse-lhe ele rudemente do outro lado da casa. Filipa segurou a pizza e fechou a porta.

- Trouxe pizza... o que é que se passou contigo? - perguntou-lhe gentilmente ela enquanto ia ao encontro dele.

- Nada, apenas não estava bem disposto - Marco estava de calções. T-shirt e chinelos, sentado na mesa da cozinha com uma caneca de chá já fria na sua frente, e sabia bem que não ia conseguir evitar aquela discussão com ela.

Dava ideia de que já aí se encontrava há muito tempo. Filipa não compreendia o que se estava a passar, os motivos para Marco não ter ido trabalhar e muito menos para estar com aquela cara!

Revistou rapidamente a sala, reparando que não havia roupas espalhadas, nem lixo, e muito menos sequer vestígios que tivesse almoçado... Isso então é que seria mais estranho ainda: desde que conhecia Marco, nada lhe tirava nem a fome nem o sono!

Pousou a pizza em cima da mesa e decidiu passar revista na casa de banho despercebidamente:

- Deixa-me só ir à casa de banho, volto já. - Para ir a casa de banho, tinha de passar pelo quarto de Marco, espreitou lá para dentro por uns momentos e não havia vestígios de que tivesse sequer saído da cama; ao chegar à casa de banho, não havia vestígios que tivesse trocado de roupa... portanto também não ia em pijama almoçar fora... "a menos que tivesse encomendado" – pensou ela.

Saiu da casa de banho, e regressou ao pé de Marco: ele continuava sentado, com a caixa de pizza na frente dele. De cara enjoada e maldisposto, de feições carrancudas, lá estava ele a olhar para o vazio.

Se Marco não tivesse respondido há pouco, e Filipa soubesse que ele estava vivo, Filipa quase que jurava que Marco estava morto.

- Onde estão os pratos? - Enquanto perguntava ia abrindo as portas, o que ainda o incomodou mais:

- O que é que pensas que estás a fazer? - disse ele de voz carregada.

- Estou à procura de pratos para a pizza e de guardanapos, talheres e de copos... - enquanto ela lhe respondia, viu o caixote do lixo e não viu vestígio de que tivesse pedido comida. Era como se ninguém habitasse na casa. Marco levantou-se e começou a tirar aquilo que Filipa lhe pediu. Enquanto isso, ela abriu o frigorifico à procura de uma bebida para acompanhar a pizza, ficou surpresa da maneira de que Marco lhe falou:

- Podes parar de abrir tudo o que te aparece à frente? - Filipa ao ouvir aquilo estacou... olhou para ele e começou o seu inquérito aguçadamente:

- Mas o que é que se passa afinal?

-Nada! – disse ele, aumentando o tom ligeiramente.

- Nada não! Não apareceste hoje para trabalhar, chego aqui e recebes-me assim?

- Mas estás a gozar comigo? A sério que não sabes mesmo porque é que eu faltei?!

- Claro que não! – Na verdade ela sabia, mas queria e precisava de ouvir pela boca dele.

- Por amor da santa, Filipa! Mas tu achas mesmo que gozas assim comigo? Eu sei que até estás habituada a gozar com outros homens, mas comigo, nunca pensei que o ias fazer! – naquele momento Marco perdeu "o filtro" do que dizia; Filipa fez uma cara de espanto quando as ouviu, continuando:

- Gozar?! Mas do que é que tu estás a falar?

- Se eu te dissesse o mesmo que tu me disseste a mim, eu queria ver como é que te sentias, o problema é que nunca tiveste ninguém que te tratasse como tu me trataste a mim! Eu não sou o teu tapete!!!

- Tapete? Mas do que é que estás a falar? – nesse exato momento Marco já tinha passado o limite que nunca tinha passado com ela, o que a surpreendeu.

- Estás habituada a manipular os homens a teu favor, a fazer deles fantoches, mas a mim não o vais fazer! Gosto de ti, mas gosto demais de mim para te deixar fazer de mim um fantoche!

- Primeiro tapete, agora fantoche.... realmente, nem sei o que me passou pela cabeça para cá vir! Se soubesse que ia ser assim tratada, nem cá tinha vindo! Realmente não mereces que ninguém se preocupe contigo! - Filipa ao dizer isto, começou a dirigir-se para a porta de entrada. Marco vai atrás dela num impulso e agarra violentamente o braço dela.

- Aonde pensas que vais? Vais fugir agora? – Marco estava demasiado alterado para perceber o quanto naquele momento levantou a voz e a quão brusco foi com Filipa ao ponto de ela se surpreender, mais uma vez. Marco pode ver o pânico nos olhos dela.

- Vou-me embora! Não estou para ser assim tratada! – ela não se sentia ameaçada, mas era incapaz de reconhecer aquela pessoa que estava na sua frente.

- Assim como?

- Tratada como uma qualquer! Como uma interesseira! Não preciso e não mereço!

- Não era isso que eu queria dizer-te. - Retorquiu Marco, numa tentativa de minimizar os estragos que fizera. Num impulso Filipa libertou o braço da mão de Marco e abriu a porta, respondendo-lhe:

- Não?! Mas foi exatamente isso que disseste! - Filipa bateu com a porta e deixou Marco pendurado. Passou-lhe num flash muitos dos momentos que passou com Filipa: no trabalho, em dezenas de almoços ou lanches que passaram juntos; nunca tinha discutido com ela, mesmo quando discordavam completamente, não se lembrava sequer de ter sido impulsivo, ou de lhe ter passado o que é que fosse pela cabeça dele, não se reconhecia naquelas atitudes. Mas o que é que passava com ele hoje? De rompante, pegou nas chaves, abriu a porta fechando a atrás de si, e desceu as escadas atrás de Filipa na esperança de chegar à entrada antes de ela sair porta fora furibunda como ia.

Filipa não queria e não ia deixar que Marco voltasse a abordá-la.

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