5 - UM BONÉ AMARELO

"Seu Antônio do Mercadinho" e Hermes descem da boleia da camionete na BR-101 Sul — que corta as praias ao sul de Pernambuco até Alagoas—, e seguem vagarosamente até a parada de ônibus improvisada que fica rente à BR.

Foram 4 horas de viagem até chegar ali. As pernas cansadas fazem pai e filho parecerem dois zumbis andando.

"Seu Antônio do Mercadinho" coloca a mão no bolso direito e tira de lá um papel pardo que foi dobrado três vezes, com um endereço escrito à mão e dinheiro equivalente a pouco mais que duas passagens de ônibus para Recife e que os ajudará a chegar na casa da família de sua finada esposa.

A barriga da criança dói por causa da fome. Mas, é uma dor suportável quando comparada com a sede que ela sente.

"Seu Antônio do Mercadinho" percebe mais à frente uma barraquinha improvisada que é coberta por uma lona preta e com vários potes plásticos de comida. Um senhor magro que usa um boné amarelo pintado "Dunlop Pneus" vende água, coxinha, caldo de cana e outros lanches e "Seu Antônio do Mercadinho" com Hermes vão na direção dele.

O senhor de boné amarelo escuta atentamente o que o olhar sem brilho de "Seu Antônio do Mercadinho" está pedindo, sem hesitar pega de dentro da sua mochila uma garrafa térmica laranja e serve duas canecas com água para os dois retirantes beberem e se refrescarem com o sabor insípido do líquido incolor.

Mas a água só tem cheiro e sabor para os sedentos que a degustam e sentem o que um saciado não percebe.

As duas canecas servidas com água ali, mataram um pouco da morte.

O homem velho e magro de boné amarelo recebe um abraço inesperado da criança.

A gratidão de Hermes foi revelada pelo gesto inesperado de um abraço na perna esquerda do ambulante, que fez sua garganta ficar seca e travar de tanta emoção. 

"Seu Antônio do Mercadinho" suspira e chora ao ver o filho abraçado na perna esquerda  do homem.

Só quem sofreu sabe avaliar a dor do outro sem precisar dizer uma palavra. E desde o início, o senhor de boné amarelo soube ler os olhos do pai e do filho.

Os olhares se comunicam e constroem pontes imagináveis.

E é com olhar de amor que o ambulante abre a tampa da vasilha de plástico e pega uma coxinha para a criança e um copo de suco.

O senhor de boné amarelo não tem condições de ofertar mais nada... é entre-safra da Cana de açúcar... desemprego... e os trigêmeos recém-nascidos mais a esposa que estão em casa, dependem da merreca de dinheiro que o velho leva para casa todos os dias.

São dois peitos subnutridos para três. A garapa de água com açúcar completa a alimentação dos trigêmeos.

"Seu Antônio do Mercadinho" segura com força as mãos do homem de boné amarelo em agradecimento.

Os gestos de amor são palavras escritas nas tábuas do coração de quem as recebe.

E tenham certeza que a atitude do senhor de boné amarelo teve, gravou no coração de Hermes o amor que seria referência por toda a vida.

Dos seus longevos seis anos, Hermes decidiu que ajudaria todas as pessoas que o procurassem.

Sem uma palavra, somente com olhares e trejeitos de gratidão com os lábios, os três se despedem.

Amar é um verbo.

Hermes, antes de ser içado para subir no primeiro degrau do ônibus, olha para o senhor de boné amarelo agradecendo-o novamente, que retribui o "obrigado" do seu olhar levantando a palma aberta da mão direita na direção do menino, significando um "Adeus".

A casa da família Medeiros está a quase 3 horas dali.

A família de Rute Souza, esposa e mãe falecida, mora em UR-3, que significa "Unidade Residencial 3", que faz parte do bairro da COHAB no Recife e que antigamente era conhecida pela "Vila da COHAB" (Campanha de Habitação do Brasil), construídas entre os anos 1950 e 1960.

A sogra de "Seu Antônio do mercadinho", Dona Abigail, é uma zeladora de santo respeitada na comunidade. Sua filha Rute foi a única filha do total de oito barrigas. "Seu Tota", apelido carinhoso dado ao marido de Dona Abigail, que fora batizado como Tobias Tadeu Tesouro Nabuco da Silva.

Com o casal moram quatro filhos que herdaram o sobrenome "Medeiros" da Dona Abigail ao invés do sobrenome Nabuco, como igualmente aconteceu com todos os outros filhos.

O sobrenome Nabuco pertence à família mais rica de Pernambuco e também a mais mafiosa do Estado (ano que vem, se meu Pai permitir, lançarei o livro OS NABUCOS onde contarei a história da máfia pernambucana).

Dona Abigail e Seu Tota moravam na Rua Xingú, número 96. Uma casa pequena mas com quintal e fundos grandes. É no fundo do quintal que está o Barracão onde acontecem as festas e as oferendas para os orixás.

"Chegaram."

Dona Abigail se levanta da mesa da cozinha ao receber o aviso, interrompendo a conversa que estavam tendo durante o almoço e segue na direção do portão de ferro para abri-lo... Seu Tota já está acostumado com esses rompantes.

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