30 - CAPITULO V
O primeiro dia após a morte de Sophie, no dia do enterro, o Conde me ofereceu ópio e uísque para aplacar a dor, e rejeitei de imediato.
Não pensei duas vezes em dizer não, eu queria sentir cada dor que meu corpo sentia, até me esgotar e morrer.
Eu ansiava pela morte.
A pedido do Conde Vlad, o dono da mortuária, deixou minha Sophie como se estivesse dormindo. O homem sumiu com todos os hematomas da face, sumiu com o crânio esmagado... parecia que o meu anjo estava ressonando... dormindo o sono dos justos.
O pastor anglicano fez uma oratório que até hoje não lembro o que ele disse. O que lembro é do Conde suspirando de tédio. Isso lembro. Mas, se não me engano, foi ele quem pagou todas as custas do funeral da Sophie.
Mas, o pior momento para mim, foi quando minha Sophie desceu a cova... que dor inimaginável eu sentia. E essa dor única e sem pausas, me seguiu sem descanso.
Para onde ia, em todos os lugares, inclusive nos meus sonhos, a dor estava lá renitente como um sino que badala sem parar.
Comecei a frequentar uma casa de ópio. Somente ali, naquele momento, eu me encontrava com Sophie. Ela ainda estava viva nas minhas viagens psicodélicas.
As pessoas dizem que o luto dura sete dias para que nossa mente e desejos pela pessoa que partiu se acostumem com a ausência, mas, mesmo depois de 30 dias, eu chorava a morte de Sophie.
A polícia não encontrou os culpados. Ninguém falava nada. Passei dois meses indo na delegacia todos os dias, cobrando solução, mas nada. Sempre era a mesma resposta que recebia: "Estamos procurando".
O legista, certa vez, em uma dessas minha idas, me viu sentado na recepção da delegacia e ouvi quando ele disse que se fosse com sua esposa, ele não descansaria até achar os culpados, mas, nunca encheria a cara e passaria os dias perambulando feito um morto-vivo.
Confesso que aquilo doeu. Fui para a mansão, e o Conde, como sempre, me recebeu de portas abertas e não me lembro de mais nada.
Só sei que acordei uns dois dias depois. Minha cabeça parecia que iria explodir. A ressaca das drogas e das bebidas estavam me matando lentamente... e esse era o problema!
Eu queria morrer logo e não me importava se seria com dor ou sem... até porque eu sabia que nenhuma dor seria maior do que aquela que estava sentindo.
No aniversário de 3 meses da morte de Sophie, jurei que tiraria minha vida.
Em frente ao Rio Tamisa, eu ruminei como faria isso. Não lembro quantas horas fiquei de frente para aquele imenso espelho preto de água, mas, cheguei numa solução: Eu iria pular da Tower Bridge.
Naquele dia, a noite estava belíssima. As estrelas pareciam brilhar mais do que nas outras noites anteriores. Eu sabia que Sophie me olhava de algum lugar, e por um instante tive paz.
– Eu entendo sua dor.
Eu quase cair da Tower Bridge sem querer.
– Conde Vlad? Como chegou aqui?
O Conde estava olhando para lua. Seus lábios vermelhos se destacavam, mas, não tanto quanto a íris dos seus olhos vermelhos carmesins, que transpiravam para cima o vermelho reluzente.
Seus cabelos brancos estavam soltos e esvoaçantes ao bailar do vento frio.
Ele estava vestido de preto. A sua capa preta bailava em sintonia com seus cabelos brancos.
– Meu nome é Bel-Sar-Uxur (Sua história foi contada nos livros Carne Fresca, Merak – Filha do Fogo, KFA, A Queda, A Torre, Sodoma e Gomorra e Alma Lupina), porém, tenho vários outros nomes.
O Conde vem descendo ao meu encontro por uma escada invisível.
– Eu sou descendente Sumério e minha mãe chama-se Lilith. Foi a deusa que sempre cuidou da minha vida. Amigo Yvi, eu tenho o poder de mudar toda sua vida e dar um sentido para ela... porém, nem tudo serão flores.
– Eu poderei me vingar dos que mataram minha Sophie?
– Sim.
— O que eu preciso fazer? Diga-me o que preciso fazer?
— Você lembra-se da morte dos seus pais?
Nesse momento eu fiquei sem saber o que responder. Como ele sabia da morte dos meus pais? A não ser que...
— Foi você?
O Conde volta a olhar para a lua.
— Sim! Fui eu.
O silêncio tornou-se nosso confidente.
Depois de algum tempo que não sei dizer, perguntei:
— Por que fui poupado?
Recebi um sorriso fraterno daquele vampiro.
— Eu não mato inocentes há muito tempo. Nunca faria mal a você... Na verdade sempre te acompanhei. E me pergunto se você se lembrará disso, caso aceite a oferta que te faça ser um igual.
— Nunca! Nunca mataria uma criança ou inocente. Eu quero ser igual a você e me vingar dos que mataram Sophie. Como faço?
— Se tens certeza, me peça para ser um vampiro.
— Eu quero ser um vampiro!
Eu pedi aquilo sem ter um único ponto de dúvida em meu coração.
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