Capítulo 4: Salve todos os Santos

Depois do descanso do dia anterior, repleto de emoções, Júlio precisou aguentar as zoações do avô sobre a fantasia de baiano. Além disso, o avô deu todas as dicas para poder curtir os cortejos em Intendente Magalhães. Conforme a experiência do folião da família, o ideal era ir vestido todo de branco, dos pés à cabeça, para conseguir desfilar. Como as agremiações daquela categoria eram escolas sem apoio da grande mídia e com poucas verbas para realização do carnaval, era comum conseguir uma vaga para o desfile em cima da hora.

A chegada mostrou a diferença entre os cortejos realizados na Sapucaí e os de Intendente: os carros alegóricos eram bem mais modestos. Além de serem menores, precisou destacar como ponto positivo o garoto. Ali era possível ver os detalhes das esculturas, os espectadores passavam entre as alas pela concentração, algo impossível nos grandes desfiles por conta do curral. Depois da conversa com dona Teresa, Júlio sabia que as grades verdes que separavam os componentes do público presente na Presidente Vargas delimitavam uma área chamada de curral.

O clima era contagiante: crianças corriam brincando de pega, outras andando de bicicletas ou de patins, adultos faziam filas nas barraquinhas de churrasquinho, cachorro-quente e hambúrgueres. Ambulantes ofereciam bebidas para todos os gostos. Júlio não resistiu e comprou um frango empanado e pediu catupiry no capricho para degustar conforme caminhava até a UPA (Unidade de Pronto Atendimento), ponto de encontro com dona Teresa.

— Graças a Deus você chegou, Júlio! — Dona Teresa se adiantou e o puxou pela blusa. — Eu não pedi pra você chegar cedo?

— Mas ainda está cedo, são oito e meia da noite!

— A nossa escola é a quarta a desfilar e aqui o desfile passa rapidinho. — A senhora também vestia branco e mantinha um pano da mesma cor na cabeça. — Pelo jeito, veio mesmo pra desfilar — disse ao verificar os trajes do garoto —, quero saber se você gostaria de ser o destaque principal do carro da escola?

O esquenta de uma agremiação dificultou a resposta de Júlio, que ficou surpreso do recuo da bateria ser ao lado da UPA. O carro de som testava os microfones e os componentes se ajeitavam em filas.

— Como que os doentes conseguem sossego no meio desse barulho todo?

— Ah, querido, ali dentro só deve ter gente que desfilou ou estava assistindo, a maioria já sai do médico e cai no samba. Agora me responda, que tal ser o destaque principal da escola? Essa sua vida de apoio acabou ontem, hoje será o protagonista da alegoria.

— Eu não sei se tenho coragem e se sei o que devo fazer...

— Querido, só segura no Santo Antônio e rebola! Mas vê se o queijo está bem firme — Júlio a encarou —, aqui as verbas são menores e os queijos são mais populares.

Os dois caminhavam entre no fluxo contrário das pessoas que se dirigiam para as arquibancadas montadas na Estrada e eram gratuitas. Era comum ver pessoas com cadeias de praia colocadas na porta de casa para acompanharem os desfiles de camarote.

— Você não vai me oferecer um pedaço do seu frango? — Júlio estendeu o palito e dona Teresa deu uma mordida generosa. — Nossa, tá uma delícia! Vamos procurar o Valdo para dizer que você vai...

— A família de vocês não cansa não?

— Olha quem fala, você também está aqui! Por falar nisso, cadê sua mãe? Aqui temos escassez de baianas, Júlio, é a grande chance de ela desfilar!

Os pais de Júlio haviam viajado no carnaval, por isso o rapaz estava na casa do avô. A dupla parou ao lado do inconfundível Osvaldo que ergueu as mãos para o céu e logo beijou uma correntinha trazida junto ao peito:

— Tia, nem acredito! — O homem pediu benção à senhora e depois se dirigiu ao garoto: — Nos vemos de novo, rapaz. Qual o seu nome mesmo?

— Por Deus, Valdo, já falei mil vezes que é Júlio!

— Desculpa, Júlio, é muita adrenalina que a memória me falta. — O homem deu um tapa nas costas do garoto, que deu um tranco para frente. — Pronto pra desfilar de Exú?

— Exú? — Júlio não escondeu seu pavor. — Mas esse não é...

— Nem termine, me parece que você não entende muito do babado, né? — Intrometeu-se Teresa. — Exú é um orixá que liga o mundo dos humanos com o dos orixás. Não tem nada a ver com aquela história que é a representação do diabo.

Não houve muito tempo para grandes explicações, Júlio acabou ficando de sunga no meio da rua — dica dada pelo avô — e colocou os trajes do orixá. O garoto descobriu que Santo Antônio era o santo sincretizado nos cultos afro-brasileiros com o orixá Exú, por isso achou que estava mais protegido em cima do carro com essa representação. Do alto da alegoria, ele acenou para dona Teresa, que ia colocar a roupa de baiana e ouviu o pedido do sobrinho Osvaldo:

— Júlio, segura esse Santo Antônio, o carro vai andar!

Realmente balançava bastante, muito por causa das irregularidades da rua, mas não era nada que a barra de segurança não cumprisse o papel. O desfile foi uma experiência diferente se comparada com a Sapucaí, as arquibancadas bem próximas permitiam a troca de reações entre componentes e desfilantes. As cabines de jurados mais perto permitiam a melhor visualização do acabamento das alegorias e das fantasias.

Júlio adorou a nova dinâmica de desfile e quando saltou do carro alegórico até o chão, ao encontrar dona Teresa, soltou:

— Qual a próxima escola que vamos desfilar?

A mulher, ainda com a saia de baiana sobre o corpo apenas riu e disse:

— Você não cansa não?

— Eu não, aprendi com a melhor.

— Adoro uma competição, Júlio, não queira me testar.

— Que bom porque também adoro. — Ele colocou as mãos no ombro da amiga e voltaram correndo e sorridentes para curtirem o resto da folia.

FIM

Chegamos ao fim da maratona do Júlio! Aceito votos (na estrelinha) e comentários. 

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