11 ▹ PARA VOCÊ É EDU
Então talvez nós sempre tenhamos sido feitos para nos encontrar, como se tudo isso fosse o nosso destino. — James Arthur (Maybe).
— Desde quando o pessoal dessa faculdade é fonte confiável? — Eduardo rebateu, provavelmente vencendo o pequeno debate.
Ainda confusa com a proximidade, empurrei-o, e ele apenas sorriu vitorioso, afastando-se de mim ao notar que meus argumentos haviam acabado. Brava e ridiculamente ruborizada, quis me impor. Por isso, virei para ele e o encarei como antes, também o prensando na parede do corredor. De forma patética, eu fiquei na ponta dos pés, numa tentativa de ficar de seu tamanho.
— Então, bondoso estranho — ironizei por ter sido essa a forma que ele me pediu para chamá-lo quando nos conhecemos. — Seja qual for o motivo, não haja comigo dessa forma. Não seja frio comigo. Não estou incluída nesse motivo, então não precisa se esconder de mim. — Respirei fundo, mas não desviei minha atenção dele em nenhum segundo. — Eu sempre estive pouco me fodendo para as suposições dos outros quanto a sua rivalidade com Bruno, e vou continuar enquanto não houver provas.
— A única prova que teriam está morta — ele mencionou simplesmente, como se não houvesse mais nada a ser feito. — Morta — sussurrou, como palavras ao vento.
Não havia entendido o contexto de sua fala. Morta? Quem ou o que estaria morto? Apesar disso, tal fato ainda o magoava, era visível. Em um instante ele mudou de um cara confiante para alguém prestes a desabar, o que, por instinto, me fez agarrá-lo e abraçá-lo.
Queria confortá-lo, mesmo não entendendo a razão. Morta parecia uma palavra forte, então, talvez por isso, eu o tenha envolvido tão forte que mal consegui respirar. Ninguém pareceu se importar de verdade com isso.
No início, Eduardo não retribuiu o abraço, estava assustado com a minha atitude, mas em momento algum me afastou. Mas, assim que retribuiu, deitei minha cabeça em seu ombro, envolvendo-me e me encaixando um pouco mais em seu corpo. De alguma maneira eu senti seu coração se acalmar e manter um ritmo similar ao meu, num amparo capaz de espantar monstros e nos transformar em nosso próprio cais. Os pensamentos pararam de se atumultuar e os gritos internos pareceram cessar, como se aqueles minutos fossem mágicos o bastante para que nada no mundo interrompesse aquela sensação de refúgio.
Após esse estranho momento entre pessoas tão diferentes, mas tão frágeis, nós nos separamos no corredor lotado de alunos e seguimos caminhos contrários, e em meu íntimo, me perguntava o que tinha acabado de acontecer. Como já estava no fim da primeira aula, eu me sentei no chão, ao lado da porta, esperando a próxima professora. Acho que seria economia.
— Tônia! — Bianca se surpreendeu ao me ver assim que saiu da sala. — Por que não estava na aula? Era matéria para prova!
Revirei os olhos, sentindo-me ainda esquisita diante da minha interação intensa com o novato, e a retruquei:
— Eu... — Ergui o rosto, vendo-a em pé a minha frente, carregando uma apostila imensa. — Bianca, por que você não gosta de Bruno?
— Não é que não gosto dele, sequer o conheço — ela respondeu, mesmo estranhando minha repentina indagação. Bia sentou-se ao meu lado, não se importando com o falatório dos jovens que percorriam aquela área. — Eu não gosto da forma que você age ou como se sente diante dele. Não acho que esse amor doentio e platônico te faça bem. Como sua amiga, alguém que só quer o seu bem, acredito que devia se jogar em algo mais sadio, em um amor mais real. Algo de verdade, entende?
— Eu sinto uma conexão com o Bruno, sempre senti, mesmo sem entendê-la — expliquei a ela. Porém, olhei-a um tanto em pânico — Mas o esquisito é que também estou sentindo uma conexão com Eduardo. É como se eu o conhecesse, mesmo não conhecendo. Dá para entender?
— Não entendo, Tônia. Desculpa. — Ela suspirou, balançando a cabeça negativamente. Depois pegou minha mão e a colocou sobre seu joelho. — Faça isso, continue com esse plano maluco, talvez no fim encontre todas as respostas. Só tome cuidado para não se machucar se não for o que você espera, tudo bem?
Eu assenti, pois já era tarde demais para voltar atrás. A professora da próxima matéria vinha em nossa direção e nos mandou entrar. Nós prontamente nos levantamos e seguimos para dentro da sala, para finalizar o dia entre slides e livros.
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A noite trazia consigo uma lua nova que, mesmo tão pequena ainda, rechaçava a mim uma sensação de completude. Talvez esse sentimento fosse justificado pelos últimos acontecimentos também, mas seria loucura algo tão simples e tão despretensioso me trazer tal tranquilidade.
Então culpei apenas o satélite natural da terra.
Devido à proximidade da prova de economia, sentei meu corpo na cadeira e deixei a luminária clarear as palavras do livro. Eu usava óculos de leitura quadrado, de armação preta e simplória, enquanto fiapos do meu coque mal feito caíam sobre minha nuca.
Foi quando escutei um barulho atípico que me despertou dos números. Meus pais não estavam em casa, o que me fez estranhá-lo e ficar receosa. Com medo de ser algum assalto, peguei uma garrafa de vidro, indo em direção ao som, embora eu não fosse tão valente quanto a Bianca.
Uma pequena pedrinha descansava no chão da varanda do meu quarto, e eu sabia que, minutos atrás, aquele objeto não estava ali. Ainda com a garrafa em mãos, pronta para jogar em alguém, de esguelha me aproximei da sacada e olhei para baixo, surpreendendo-me ao ver um rosto conhecido. No sobressalto, acabei deixando cair o objeto, que quase caiu na cabeça de Eduardo.
— Porra, Antônia, quer me matar? — ele se queixou ao desviar da garrafa de vidro.
— O que está fazendo aqui? — Ignorei sua pergunta, ainda chocada com sua presença. — Como sabe meu endereço?
— Tive que te seguir para saber em que casa mandaria as flores, me desculpa por isso, mas foi o único jeito — Eduardo confessou, com uma expressão de culpa um tanto charmosa. — Vim te chamar para fazer algo, garota da blusa manchada, mas só se você quiser.
Minha boca se abriu, mostrando ainda mais meu espanto.
— Existem formas mais comuns de me chamar, sabia? Tipo bater na porta! Eu quase morro pensando em ser assalto! — briguei, apesar de haver em meu rosto tivesse um sorriso contente. — E não sei se é seguro me encontrar com alguém que me segue na volta da faculdade.
À vontade, o novato apenas riu de minhas palavras, como se eu fosse ridícula em parecer estar brava, embora talvez eu estivesse sendo mesmo. Porém, sua risada era tão contagiante e rara, que isso me fez sentir mais jovial.
— Foi por uma boa razão. Era provável que, se eu te perguntasse, diria não — argumentou, tendo ciência que mais outra pequena discussão havia ganhado.
Devido sua justificativa plausível, saí da janela e pus uma jaqueta, pois o tempo estava fechado, apesar de não chover. Deixei um bilhete na geladeira avisando sobre minha saída. Assim que me viu abrir a porta, Eduardo comentou:
— Você realmente se parece muito com alguém que conheci, ao menos fisicamente.
Nós começamos a andar pelas ruas do meu bairro.
— Isso é bom ou ruim? — perguntei, curiosa.
— Depende do ponto de vista — sinalizou. — Ela era uma mulher muito bonita, mas com personalidade e caráter duvidoso.
— Ah — murmurei, sem saber muito o que dizer sobre isso.
Em silêncio, naquele clima ameno, caminhávamos lado a lado até algum lugar desconhecido para mim. É claro que, se tratando do plano, essa situação era benéfica, porém não havia partido de mim, o que me deixava em alerta. Eu esperava que Eduardo fosse uma boa ponte, e se tudo ocorresse bem, uma ponte sem perigos ou transtornos, sem buracos. Poderíamos no fim nos tornar... amigos.
— Para onde vamos?
— Não sei, apenas queria não ficar sozinho em casa junto aos fantasmas — Eduardo elucidou, olhando para frente, parecendo um pouco absorto em seus pensamentos. — Se tiver alguma sugestão, pode dar. O importante é a companhia.
Eduardo queria a minha companhia. Minha companhia. Isso fez com que meu cérebro pifasse um pouco, principalmente considerando sua tendência de querer afastar todas as pessoas. Tantas garotas desejavam estar ao seu redor, como Lisandra.
Entre tantas opções, por que a mim?
— Escolheu a pior companhia, sabe disso, não é? — Arqueei uma sobrancelha. Em seguida, tentei me equilibrar no meio fio, esticando os meus braços. Ele me fitou surpreso pela minha incrível habilidade e, por alguma razão, seus olhos brilharam.
Foi tão surreal visualizar sua íris se transformar que, sem querer, me distraí e acabei tropeçando. Preocupado e por reflexo, Edu estendeu o braço e segurou em minha mão, apertando-a firme.
— Então estamos empatados — sussurrou, ainda mantendo-me sob sua visão.
Constrangidos, nossas mãos se afastaram uma da outra.
Antes que pudéssemos prever, havíamos chegado a uma pequena praça com um gramado verdinho e luzes espalhadas por toda parte. Alguns bancos antigos abrigavam casais, idosos que ali descansavam, bem como mães que observavam seus filhos no parquinho.
— Agora que estamos aqui, parecemos até dois amigos — brinquei, sentando-me perto de uma barraquinha de cachorro-quente. — Por isso, poderia me contar um pouco sobre você. Adoraria saber, de verdade.
Ele virou o rosto para me ver, e em seus olhos havia uma expressividade excepcional, o que me deixou, naquele instante, um tanto abobada.
— Pergunte o que quiser, só não posso prometer responder tudo — respondeu com certo mistério.
— Vejamos. — Dei uma pausa, balançando os pés, fingindo estar pensando sobre a pergunta. — Já se apaixonou?
— Sim — revelou simplesmente. — Mas não tenho muito o que falar sobre isso, pois foi uma paixão inconsequente, que tomou conta de tudo, da minha vida. — Eduardo já não olhava mais para mim, e sim para os veículos em movimento na rua, embora eu soubesse que não era a paisagem que ele agraciava. Ele estava perdido em suas lembranças. Talvez nela. — Mas acabou. E o que está vendo agora foi tudo o que sobrou. Ela destruiu tudo.
— Quem foi a doida que deixou algo tão bonito acabar assim? — indaguei em voz alta, isso o fez sorrir. — Nunca pensei que veria alguém dessa forma, você deve ser ainda muito apaixonado por ela, né? Não a conheço, mas se por acaso eu vê-la em minha frente, me avise — pedi.
— Para quê? — perguntou surpreso.
— Para acabar com ela — expus assombrada com a verdade em minha fala.
Ele nada mais respondeu, mas ficou me olhando, me deixando, de repente, tímida. Eduardo sentou-se mais perto de mim e lentamente levou seus dedos até minha face, e eu o acompanhei, sem dizer nada. Nem mesmo um a. Seu polegar tocou firme minha pele da bochecha, mas também havia uma delicadeza, como se tivesse medo de me quebrar, como se eu fosse frágil demais para seu simples contato.
Ele parecia atordoado e confuso, buscando em mim, provavelmente, alguma coisa, como se devesse me achar uma aberração e não conseguisse me ver como tal. E isso me fez lembrar de Bruno, pois este nem ao menos conseguia me encarar direito. Tal constatação me estimulou a soltar a respiração de forma pesada e angustiante.
Eu era tão parecida assim com a mulher que o destroçou? Parecia ser uma ironia bem dada do destino.
— O que foi? — sua voz vibrou próxima ao meu rosto.
— Não é nada. Mas... — Despida de qualquer segunda intenção, ergui o rosto para fitá-lo. — Obrigada por me contar isso. Significa muito. Mesmo.
— E eu estou feliz por não ter conseguido te afastar de mim, por mais egoísta que isso soe. — Ele retribuiu, me surpreendo.
— Então estamos empatados — sussurrei, brincando com sua frase de momentos atrás.
Logo após, meu sorriso pareceu estimular um mesmo sorriso dele, no mesmo tom, na mesma sintonia e numa mesma ternura. Por instinto, como se fizéssemos isso naturalmente, nos abraçamos e eu deitei minha cabeça em seu ombro, enquanto sentia seus braços atravessarem minhas costas e não havia como mentir sobre a sensação gostosa desse ingênuo e incauto ato. Era de proteção, era de amparo, e isso soava bizarro.
Assim que levantei a cabeça e decidi desviar minha atenção dele para o nosso redor, encontrei o olhar de Lisandra em nossa direção, parecendo confuso e curioso. Ela cutucou Jéssica e apontou para mim e Eduardo, que nos desfazíamos de nosso abraço.
— Jéssica e seu bando nos viram e devem estar pensando mil coisas — alertei-o.
— Não estamos fazendo nada de errado, certo? — ele murmurou, parecendo pouco se importar em chamarmos atenção. Nos ajeitamos no banco assim que as garotas vieram até a gente.
E foi ali que eu entendi: a ponte, apesar de parecer defeituosa na superfície, não estava de fato. Não quando digamos que uma exceção estava sendo aberta para mim. E eu o agradeceria por isso pelo resto da vida.
— Oi, Edu! — Lisandra o chamou, ignorando-me. Eu apenas fiz minha melhor cara de paisagem.
— Eduardo, por favor — ele interviu com uma expressão pacífica, quase intocável.
— Por quê? — ela insistiu, quase jogando-se em cima dele. Tal cena me deu um certo nojo, me fazendo franzir o nariz, revirar os olhos, cruzar os braços e bater os pés, impaciente. Assim que ela pôs a mão no ombro dele, parecendo íntima, não pude evitar de ir até os dois e retirar suas mãos dali, para enfim dizer:
— É que ele gosta somente quando os próximos o chamam assim, não é, Edu? — Semicerrei os olhos em sua direção, como se o avisasse que era para concordar comigo, o que, ainda bem, ele fez.
Lisandra pareceu constrangida, mas não perdeu a pose.
— Bem, mas como eu estava falando com você, Eduardo. — Ela se colocou entre mim e o novato, fingindo ainda que eu não estava ali. — Eu e minhas amigas estamos no barzinho da esquina, se quiser, pode ir lá ficar com a gente. Temos certeza que somos muito mais interessantes que certas pessoas.
Oferecida. Falsa.
Nunca havia me sentido tão incomodada na vida.
— Obrigado, mas não. Estou acompanhado, já. Se tivesse convidado Antônia, e ela tivesse aceitado, eu iria com toda a certeza — ele disse após se desvencilhar dela e me abraçar de lado, pondo a mão gentilmente na minha cintura e com um sorriso para mim.
— Está convidada, amorzinho. — Lisandra sorriu falsamente para mim.
— Prefiro a companhia de baratas, são bem mais agradáveis, querida — retruquei com uma coragem pouco usual a mim, no mesmo tom de ironia que ela havia usado.
Mal humorada e um pouco chocada com a minha reação, e vendo que não havia mais nada a ser feito, a ruiva se despediu dele com um beijo ridículo no rosto e nos deu as costas, rebolando enquanto se distanciava da gente, como se não tivesse levado um bendito fora.
Alegre por ele não ter me desmentido, pelo contrário, ter sido tão respeitoso comigo, não pude evitar rir de forma alegre e abraçá-lo inesperadamente, para então retirar uma flor violeta no meio das plantas da praça - que parecia ser a única dessa cor em meio a tantas flores branca. Ofereci-lhe a planta que girava em meus dedos.
— Obrigada por não ter me desmentido, Eduardo.
— Pode me chamar de.... — Deu uma pausa, com seu típico olhar iluminado e terrivelmente honesto. — Edu.
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Trouxe mais um capítulo com cheiro de novidades e de uma aproximação atípica entre Tônia e o novatinho haha
O que estão achando? Não deixe de dizer, sua opinião é mt importante e sua interação também! Amo de paixão
Cada capítulo eu trago uma música, cujos trechos que coloco no início é referente a tal canção, então aproveitem para ouvir enquanto leem, só deixa a história mais mágica!
Até o prox que deve vir em breve <3
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