Chefe {Capítulo 2}

- Qual a graça de ficar os vendo jogando a bola um para o outro?

- Nós vamos ficar aqui tempo suficiente para ele me ver. Depois podemos ir para onde você quiser – passo as mãos pelo meu cabelo e observo Carla cruzar os braços.

- Você não precisa ser a primeira dama toda vez, Annalise. Ele não é o Obama.

- São os fardos do cargo.

As arquibancadas estavam lotadas de garotas que obviamente não tinham mais nada pra fazer. Elas faziam comentários maliciosos e aplaudiam exageradamente quando os mais bonitos do time faziam cestas. Jeff era o mais bonito do time.

- Dá pra acreditar nessas descaradas?

- Ai quem liga – Carla revira os olhos – Quem beija a boca dele é você... e faz mais coisas.

- Não começa – resmungo.

- Eu só estou dizendo que a única garota que ele tem olhos nesse colégio todinho e a loira baixinha e bailarina.

Loira, baixinha e bailarina. Nada daquilo estava errado, era tudo verdade. Eu sou pequena, loira e bailarina. Unicamente. Tudo bem, eu sou uma loira muito bonita e uma bailarina excepcional, dona de uma mente brilhante e rica. Eu sou maravilhosa. Mas fora isso, não há mais nada em mim que chame a atenção.

Minha crise de identidade é interrompida quando ouço as mesmas descaradas que antes estava babando em cima do meu namorado agora começar a babar em cima do meu melhor amigo.

Lucca caminha em linha reta como se estivesse passando pelo tapete vermelho. Ele poderia facilmente desfilar pelo tapete vermelho. Vestido de preto dos pés á cabeça, com a bolsa pendurada em um ombro e com óculos escuros no rosto, ele distribuía sorrisos maliciosos para as garotas que lhe dava "Oi" cheio de segundas intenções. Quando finalmente chega perto de nós e retira seus óculos, o azul brilhante de seus olhos conversa perfeitamente com seu sorriso.

Desgraçado.

- Vossa alteza queria que eu colocasse uma música para combinar com sua entrada triunfal? Ou quem sabe um ventilador grande e deixar o mundo em câmera lenta?

Ele deposita um beijo na bochecha de Carla e me olha com seu sorriso presunçoso.

- Oi, Anniezinha – ele beija minha testa – A câmera lenta e o ventilador é exagero, mas eu gosto da ideia da música. Da próxima vez a gente combina.

- Seu desejo é uma ordem.

Ele se acomoda entre eu e Carla e puxa seu celular do bolso.

- Você trabalhou muito ontem, não é?

- Seu pai me encheu de relatórios – ele resmunga – Terminei era mais de uma da manhã. Algo me diz que hoje vai ter mais.

- Você não está se ocupando demais com esse estágio? – Carla pergunta – Já faltou ontem e hoje apareceu só agora.

- Estou usando minhas aulas livres, não está atrapalhando muita coisa. Não se preocupe.

Lucca passa o polegar pelo queixo da minha amiga de forma tão rápida que se eu não estivesse olhando não perceberia e também não saberia disso. Ela nunca iria me contar. Sou obrigada a engolir minha provável provocação quando o sinal indicando que a próxima aula ia começar faz com que todos comecem a sair do ginásio e o time a deixar a quadra.

Mando um beijo para o meu namorado antes que ele desapareça no meio do time.

***

Faltava menos de meia hora para o fim do período escolar. Eu estava no refeitório junto com Evan e Lucca esperando minha amiga sair da ultima aula. Minha cabeça latejava, fazia tempo que eu não me sentia tão cansada assim e por isso optei por ficar em silêncio enquanto os meninos falavam sobre um jogo qualquer que passou na TV a cabo ontem à noite.

Lucca tinha argumentos mais convincentes. Ele sempre tinha. Eu não faço ideia de quais times eles estavam falando, mas enquanto esperava por Carla e ouvia horas e horas sobre um jogo reprisado, comecei a observar como eles eram diferentes.

Evan era a personificação perfeita da Califórnia. O corpo bronzeado e não tão musculoso, os cabelos loiros, volumosos e rebeldes que nunca ficavam organizados e os olhos de um castanho muito discreto o fazia ter muito sucesso entre as garotas. Ele não precisava ser do time de basquete para ser popular, seu sorriso galanteador e seu carisma conquistavam todos que estavam á sua frente.

Lucca era o completo oposto.

Enquanto Evan era fogo, Lucca é gelo. Os cabelos mais escuros que a noite e os olhos mais azuis do que o próprio céu refletia no seu sorriso cafajeste e na sua postura desleixada. Tentar brincar com ele era como se aventurar em uma floresta inexplorada – imprevisível e tentador. E esse talvez deva ser o motivo que o torna tão desejado por tantas garotas: você nunca sabe o que ele tem para oferecer.

Mas não para mim. Eu o conheço como a palma da minha mão.

- O que você acha, Annie? – Evan pergunta

- Eu acho que vocês são muito entediantes – faço uma bolha de ar no meu chiclete e espero até ele estourar em um som agudo – E eu estou com dor de cabeça.

- Confie em você para estragar o clima – meu melhor amigo resmunga e eu mostro o dedo do meio acompanhado de um sorriso fingido – Vou contar ao seu pai sobre esse comportamento rebelde.

- Conte e eu falo quem me ensinou.

Eu sei que ele ia me responder á altura, mas qualquer coisa que ele pensasse em fazer foi interrompida com seu telefone tocando. Lucca limpou a garganta antes de atendê-lo.

- Chefe?

Eu observei ele cerrar o cenho, se transformar de um garoto simples que há poucos minutos estava falando sobre jogos de basquete para um profissional altamente qualificado para sua área. E ele nem tinha uma área ainda.

- Claro que sim.

Olhei para meu relógio. Meu pai estava realmente interessado em testar quão capacitado Lucca era. O menino nem mesmo tinha terminado seu horário escolar e o seu "chefe" estava ligando claramente para enfiá-lo no meio de mais projetos orçamentais e atas de reuniões.

- Chego em vinte minutos – Meu melhor amigo prende o celular com seu ombro e começa a reunir suas coisas – Obrigada.

- O dever o chama – Evan diz por cima dos ombros enquanto mexe em seu celular.

- Ele sempre chama. Pode levar a Annie pra casa?

- Por um acaso eu tenho cinco anos de idade? – reclamo

- Prefere ir andando?

- Não foi o que eu disse – ergo o dedo indicador.

- Ótimo, problema resolvido – Lucca joga a bolsa em cima de seus ombros e roda as chaves da Ferrari nos dedos – Vejo vocês amanhã.

- Boa noite, princesa – Evan manda-lhe um beijo.

- Sonhe comigo – Lucca responde e dá de ombros.

- Seu pai não está exagerando um pouco? – Evan pergunta quando nos encontramos sozinhos.

- Parece que foi John quem pediu. Disse que quer que o filho seja o melhor no que faz e todas aquelas baboseiras de pai. Desde que não atrapalhe na escola e nem nas inscrições pra faculdade meu pai tem autorização pra fazer o que quiser.

- Faz sentido – ele concorda – Já pensou como será quando seu cão de guarda não estiver mais conosco?

- Ainda bem que eu tenho dois e apenas um está saindo – pisco para ele que revira os olhos.

A verdade é que ainda é um assunto que me assusta. Antes de ter Carla e Evan eu tive o Lucca. Eu sempre tive o Lucca. Pensar na possibilidade muito real de que daqui a poucos meses não terei o meu melhor amigo perto de mim é algo que me assusta. É algo que me desestabiliza e tudo o que eu menos preciso é de uma crise de ansiedade agora.

Eu preciso me demonstrar tranquila para que ele vá tranquilo.

Os saltos pontiagudos fazendo barulho no piso de porcelanato entregam Carla antes mesmo de ela chegar até nós. Ela sempre foi barulhenta, deixar sua marca por onde passava era sua maior conquista. Seus cabelos longos e negros balançam de um lado para o outro enquanto ela anda como uma verdadeira modelo.

São quase quatro da tarde e a umidade tinha acabado completamente com toda a organização, brilho e balanço do meu cabeço que já estava a horas preso em um coque desajeitado, mas Carla consegue se adaptar em qualquer clima e situação para permanecer como uma verdadeira boneca sem defeitos.

- Tenho algo para vocês – ela chega nos entregando dois envelopes delicados em tom azul royal e cinza – Jade Brown me mandou entregar, ela estava atrasada para a ultima aula.

Eu abri o envelope com cuidado para não estragar o lacre em forma do brasão da família Brown. A descrição do local da festa, do tipo de traje e a descrição do baile debutante entregava a elegância de mais uma festa que iriamos.

- Vamos às compras amanhã à noite?

- Claro – concordo.

- O que se dá de presente de aniversário de 15 anos?

- O que você ganhou? – Carla pergunta.

- Quer mesmo saber? – ele sorri malicioso e nós duas reviramos os olhos – Exatamente.

- Não ofereça isso á ela, Davis – repreendo-o

- Claro que não. Seria inapropriado.

- Lucca foi convidado? – pergunto

- Foi – ela puxa o convite dele de dentro da bolsa – Você vai vê-lo entre hoje e amanhã?

- Do jeito que ele saiu correndo daqui pra trabalhar duvido que alguém vá vê-lo nos próximos dois anos – Evan resmunga

- Amanhã vamos todos para a Rodeo. Peço para meu pai dar uma folga para o escravo.

- Será que você tem tanto poder de persuasão assim, Annalise? – Evan me provoca jogando um de seus sorrisos galanteadores.

- Você não tem ideia do quanto.

ª

Evan deixa Carla em sua casa antes de seguir nosso caminho. Passamos os poucos minutos juntos ouvindo musica na rádio local antes de eu descer na frente de casa e o observar estacionar o Jeep Rubicon 2017 cor branca na garagem dele, exatamente na casa ao lado da minha.

A única coisa que eu me preocupo em fazer é tomar o banho de rainha que eu mereço e lavar o meu cabelo. Odeio a umidade da Califórnia. Faço uma hidratação rápida, utilizo o secador para agilizar o processo e pouco mais de uma hora depois me jogo no sofá da sala de cinema com doces, balas e 007: O Mundo Não É o Bastante passando na enorme tela embutida.

Puxo meu celular e digito uma mensagem à Lucca. Ele me responde poucos minutos depois se lamentando pelas muitas horas que ainda teria que trabalhar e como ele sentia saudades de uma vida tranquila como a minha.

Observo o sol se pondo pela janela e sou obrigada a concordar com ele. É uma vida muito tranquila, sem surpresas e com muita facilidade. É uma pena que as coisas não duram para sempre.

E disfarçadamente, a uma boa distância, o Falcão lhe observava.

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