O Segredo de Blaire Harrison
seis meses antes de Madeline Stuart morrer
Blaire Harrison não teve uma vida fácil. Seu pai teve câncer quando ela tinha apenas quinze anos e morreu quando ela completou dezesseis. As despesas médicas deixadas eram exorbitantes, e a sua mãe não tinha um plano de saúde bom o bastante. Sendo assim, ela começou a trabalhar como faxineira, primeiro para algumas madames, que se achavam parte da elite, até finalmente entrar no mundo da alta sociedade novaiorquina. O salário aumentou visivelmente — ela juntou a maior parte, para pagar a faculdade — e os maus tratos também. Blaire era constantemente humilhada pelas suas patroas e suas filhas. Era chamada de burra, serviçal, e vários outros adjetivos pejorativos. Jogavam coisas no chão para que ela limpasse, assim como reclamavam de que não estava limpo o bastante, mesmo assim, a garota aguentava tudo em silêncio, porque no fundo tinha um sonho.
Blaire queria ser escritora. E com o dinheiro que ela e sua mãe juntaram, conseguiu uma vaga na faculdade de seus sonhos. Além disso, arranjou uma nova patroa que lhe tratava com respeito, mas é claro que sua felicidade não durou muito tempo, pois logo ela conheceu o pesadelo em forma de vestidos de prada e jóias caras: Dallas Monroe. A ruiva conseguiu tornar os dias de Blaire um verdadeiro inferno. E ainda assim, Dallas não conseguia ser pior que Madeline Stuart. Sempre que estava na mansão, a garota fazia questão de azucrinar Blaire e humilhá-la. Ficava incontáveis horas falando coisas terríveis sobre todas as pessoas de Nova Iorque, e na semana seguinte, estava com essas pessoas. Obviamente, todos caiam no joguinho da Stuart, ela era endeusada, tratada como se estivesse acima de qualquer um e qualquer coisa.
No entanto, Blaire não reclamava. Tinha um emprego, com um salário bom, que lhe pagava as contas e, vez ou outra, um agrado mais superficial. Por isso, nunca levantou a voz a ninguém e manteve-se invisível, desejando apenas passar por aquela fase. O que a loira não sabia, ou fingia não saber, é que era impossível ficar tão perto da elite sem ser contaminado.
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Blaire estava agachada debaixo da mesa, fingindo limpar o chão, enquanto observava Roman White virar a página de um livro. A presença do rapaz na mansão Monroe, sempre calado e inexpressivo, estava se tornando frequente — e sua feição ranzinza só mudava quando via Dallas. Estava encrencada, sabia disso, a garota não conseguia evitar, e, sempre que podia, ficava o observando. Gostava de como o maxilar dele era marcado, e como seu nariz era ridiculamente perfeito, dos seus comentários ácidos e intelectuais, gostava, até mesmo, de ver seus dedos segurando a capa dura do livro.Meu Deus! Blaire pensava, sentindo nojo de si. Ele faz parte de tudo que eu repúdio! E ainda assim, continuava ali, o espionando.
— Psiu! — chamou Dallas, assustando a empregada. — Feche a boca, vai babar no tapete. Ele custa mais que você inteira.
— Desculpe — sussurrou em resposta, voltando a esfregar o chão.
— Amor — chamou Roman, largando o livro. — Largue a garota. Venha aqui, me mostre todas as fotos do vestido que você vai usar hoje. Você sabe que eu adoro ver isso.
— Sarcasmo lhe cai muito bem, sabia?
Blaire suspirou, frustrada, e se levantou. Não queria ver Roman se junto a ele estivesse uma ruiva cruel. Andando no corredor, ouviu seu nome ser chamado por Melinda Monroe, mãe de Dallas. A mulher estava trancada o dia inteiro no escritório, criando uma nova coleção, e não saia nem mesmo para comer.
— Me chamou, senhora?
— Não me chame de senhora, Blaire — disse Melinda, tirando os óculos. — Me sinto velha.
— Desculpa, senhor... Desculpe.
A mulher suspirou, olhando-a e dando um sorriso:
— Você tem um rosto tão bonito, devia ser modelo. Já disse que te dou uma chance, se você quiser.
— E eu já agradeci por isso, mas não é o que eu quero.
Era verdade, mas não totalmente, Blaire chegou a considerar a proposta da primeira vez que foi oferecida, e não aceitou, pelo medo de que se tornasse como as pessoas que tanto criticava. Arrume a mesa mas não se sente com eles, a mãe já havia alertado.
— Ah, vocês jovens, eu não entendo. Bem, de qualquer maneira, eu tenho um trabalho para você.
— Diga.
— Uma amiga próxima fará uma festa hoje — informou Melinda, procurando por algo nos papéis da escrivaninha — e ela precisa de uma ajudante extra. Eu indiquei você.
— Oh, obrigada. Muito obrigada!
— O pagamento vai ser bom, não se preocupe.
Blaire sorriu, sem conseguir disfarçar o alívio.
— Que horas eu devo ir?
— Às sete. Aqui, o endereço para você.
A garota segurou o pequeno cartão e saiu. Passou o restante da tarde limpando, tentando não olhar para a porta quando Roman foi embora. Quando a noite chegou, se trocou e correu para ir para o segundo trabalho, estava pensando se iria de metrô ou ônibus quando a limusine de Dallas parou na sua frente. A janela se abriu e a ruiva abriu um sorriso brilhante.
— Oi, caipira. Quer carona? Estamos indo para o mesmo lugar.
— Eu?
— Tem outra caipira aqui?
— Qual é a pegadinha? Você não seria legal por vontade própria.
— Blaire — chamou Dallas, fazendo uma careta de cansaço — você quer uma carona ou não? Se quiser pode ir no metrô cheio de gente pobre e fedida. Deve ser como um lar para você.
A loira revirou os olhos, mas entrou no carro. Dallas não conversou ou sequer olhou para a empregada durante todo o caminho, quando a limusine parou, Blaire olhou pela janela a grande casa à sua frente. Quase o dobro do tamanho da casa dos Monroe. A mansão Stuart.
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B
laire tentou passar despercebida. Ela ajudou com os vestidos, sapatos, separou jóias — ajudou até os empregados a cozinhar e limpar a sala de jantar — fez tudo certo. E não funcionou. Assim que Madeline a viu, colocando roupas no closet, seus olhos brilharam com todas as possibilidades que se abriram para que infernizasse a garota.
— Olha só quem está aqui, a aspirante a escritora.
— Sra.Stuart. Posso ajudar?
— Sim. Dallas está lá embaixo, venha me ajudar com meu vestido.
Obediente, seguiu Madeline até o seu quarto — este, que era o dobro do simples apartamento que Blaire morava com a mãe.
— Onde está a sua roupa?
— Para que a pressa? Não é como se você fosse participar do baile, Cinderela.
— Então, do que precisa? — perguntou Blaire, sentindo o corpo ferver de raiva.
— Meu cabelo, quero que o penteie.
— Esse não é meu trabalho.
— Seu trabalho é o que eu mandar.
Graciosamente, Madeline sentou-se em frente a uma escrivaninha, ligando as luzes em volta do espelho. Com as mãos, empurrou uma escova de cabelo para Blaire e começou a se maquiar. A garota queria gritar e xingar, mas não podia, precisava daquele emprego. Respirando fundo, foi até a Stuart e começou a pentear seus longos e sedosos cabelos, durante um movimento brusco, acabou puxando a cabeça da socialite.
— Aí! Devagar!
— Desculpe.
— Quer saber? — a Stuart se virou com pressa e segurou o pulso de Blaire. — Deixe pra lá. Você não serve nem mesmo para isso, se vira melhor limpando o chão.
— Eu já fiz isso — rebateu sem conseguir segurar a língua. — Está limpo.
Dando um sorriso, Madeline bateu na paleta de maquiagens, sujando o chão com glitter e pó.
— Agora está sujo. Limpe.
Blaire observou em silêncio a garota se levantar e sair. Sua respiração estava tão descontrolada que achou que fosse desmaiar. Bruxa! Não entendia como era possível alguém ser tão cruel, tão absolutamente má e ainda se vangloriar disso. A raiva pulsava pelas veias de Blaire quando ela encarou o vestido de Madeline pendurado em um cabide. Não pensou duas vezes, o enfiou debaixo da saia e saiu correndo. Ela nem sabia o que iria fazer até colocar os pés no gramado e ver um triturador de lixo. Nenhum jardineiro ou segurança a vista.
— Eu realmente vou fazer isso? — se perguntou, jogando o vestido dentro do triturador.
A dúvida lhe rondou a mente quando o dedo indicador parou em frente ao botão que ligava a máquina. Meu Deus! O que estou fazendo? pensou, olhando em volta. Então o viu. Roman estava encostado em uma parede, fumando um cigarro e a encarando. Blaire não sabia que ele já havia chegado, mas isso significava que outros convidados também estavam chegando. Eu vou ser despedida, percebeu com medo, enquanto o rapaz andava em sua direção.
— Esse vestido é de Dallas?
— Não — respondeu Blaire, encarando o chão, lágrimas brotando no fundo dos olhos.
— É de quem?
— Madeline.
— Bom.
Roman, deliberadamente, apertou o botão e ligou o triturador. O vestido se desfez em mil pedaços que caíram no chão, perto às folhas. Blaire tampou a boca, chocada com o que havia acabado de acontecer.
— Se eu fosse você, dava um jeito de sumir com o resto.
Com isso, ele saiu andando, jogando o cigarro no chão.
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Durante todo o evento, Blaire teve que suportar o olhar ardente de Madeline. A Stuart era muitas coisas, mas não era burra, ela sabia que a empregada tinha sumido com o seu vestido. O que foi que eu fiz? pensava Harrison, amedrontada com a ideia de que fosse acusada de roubo ou tivesse que pagar o preço do vestido. Com certeza valia mais do que Blaire possuía no banco. Roman não lhe dirigiu um olhar sequer, pelo contrário, continuou ignorando e mimando Dallas. Finalmente, a festa acabou e Blaire correu para ir embora. Quem sabe podia fugir para o México. Infelizmente, não foi rápida o bastante, antes que pudesse sair pela porta dos fundos Madeline surgiu.
— Está fugindo, ratinha?
— Tenho que pegar o metrô, com licença.
— Não — Madeline se aproximou, ameaçadoramente. — O que você fez com o meu vestido?
— Não sei do que você está falando.
— Sabe quanto custa aquele vestido? — Madeline sibilou. — Eu vou encontrar provas que foi você, e quando eu encontrar, vou fazer da sua vida um inferno.
— Eu não...
— Você vai ter que vender sua alma para o diabo para conseguir me pagar cada centavo de volta.
Blaire, com a visão embaçada de lágrimas, correu para abrir a porta, mas Madeline a segurou.
— Escuta bem, sua pobretona ridícula, a próxima vez que você ousar fazer algo contra mim, eu juro por Deus que mato você. Entendeu?
A garota não soube o que responder, nem precisou, Madeline lhe deu as costas e foi embora.
🔪🔪🔪
Notas da autora:
Agora que vcs conhecem todos os personagens, gostam de algum ou odeiam todos?
E as teorias??me contem!!
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