Capítulo 11 - Entre Leões

Hinata despertou na manhã seguinte com uma sensação gostosa de aconchego. Quando as lembranças da noite anterior a invadiram e, principalmente, se deu conta do motivo, o rubor costumeiro aqueceu sua face. E mesmo assim, com a vergonha se alastrando por sua pele, sorriu, mergulhando o rosto no travesseiro.

Céus, Sasuke tinha toque e beijos mágicos. No tempo que demoraram para chegar à suíte – longo, devido as inúmeras e alucinantes paradas –, ele cumprira sua palavra. Estivera tão mole por conta dos espasmos de prazer que não mostrara a menor resistência quando ele a jogou na cama e a beijou em sua intimidade.

Antes, só ao ouvir a palavra "oral" com segundas intenções, lhe revirava o estômago em puro nojo; agora, recordando cada sensação abrasadora, lhe esquentava o baixo ventre e causava arrepios, pedindo mais. Literalmente, se derretera sob o domínio dos lábios e dedos de Sasuke Uchiha. No entanto, ela tinha a impressão que estavam indo longe demais e muito rápido. Há dois dias atrás, seu maior medo era um beijo de língua, agora...

A Hyuuga se remexeu, incomodada com o rumo de seus pensamentos. A mão de Sasuke, pousada em sua barriga, desceu perigosamente e o formigamento diante da lembrança do poder daquela mão naquele lugar a fez gemer baixinho.

Agora, pensando no momento em que teria de espelhar aquele beijo tão íntimo, ela tinha sérias dúvidas de que conseguiria. Tinha curiosidade, porém o maior sentimento ao imaginar isso era o medo de fazer algo errado. Recordou que o vira nu meses atrás, porém não fixara a atenção no órgão dele... Na verdade, sua atenção focara no rosto dele tomada pelo horror do acontecido.

Bem, Hinata sabia que teria de fazer um esforço para não desviar ou recuar quando o momento chegasse. Decidiu isso, segurando a vontade de guiar a mão até as palpitações de seu sexo. Em poucos dias, Sasuke a transformara em uma devassa, refletiu, deslizando os dedos pelo braço pousado em sua cintura. Ele se moveu, aproximando seu corpo ao dela e Hinata prendeu a respiração. Ele estava excitado? Olhou para trás. Sasuke estava adormecido, menos a parte que roçava suas nádegas redondas.

Hinata respirou fundo e olhou para frente, confusa. Ela estava só de baby-doll, sua calcinha ficara em algum lugar no trecho do seu quarto até ali. Depois de esgotá-la na noite anterior ele tomara banho e trocara a roupa social por uma cueca boxer preta – novamente por consideração a ela. E agora, estavam ali. Ambos parcialmente nus e a ereção dele comprimida entre suas nádegas.

Mas, longe de estar apavorada, Hinata estava curiosa. Corou com uma breve ideia. Bem... Se ela teria de beija-lo "lá", queria saber como era, dar uma olhada antes de repetir o que ele fizera na noite anterior. Girou devagar para não o acordar. De frente para Sasuke, ela olhou para baixo. Não dava para ver nada com a coberta sobre eles. Olhou atentamente os traços suavizados pelo sono, as pálpebras fechadas, descendo para o nariz aristocrático até chegar aos lábios finos. Como acréscimo a loucura que a atacava naquela manhã, segurou a vontade de tocar os lábios entreabertos dele com os seus.

Lentamente, voltando a sua decisão inicial, a Hyuuga afastou a coberta de seu corpo o suficiente para poder ver melhor o dele. A luz do sol, que as cortinas brancas nas portas de vidro da varanda não continham, clareava o suficiente para Hinata reparar em cada detalhe do corpo do Uchiha. Com ele acordado jamais teria coragem de observar os ombros largos e os músculos definidos de seus braços e tórax, muito menos deter os olhos na parte que despertava sua curiosidade.

Como imaginara: ele estava excitado. O que era estranho, levando em conta que dormia. Ergueu o olhar uma última vez, só para constatar que continuava no mesmo estado, depois o baixou analisando o volume na cueca. Era loucura sequer desejar remover o pano, mas a ideia ainda assim passou pela mente de Hinata.

— Quer que eu tire a cueca para olhar melhor?

A voz rouca fez Hinata dar um pulo de susto e olhar para Sasuke. Ele a observava com olhos semicerrados pelo sono.

— Eu só estava... É que ontem... Você... Então pensei...

— É um belo exercício, mas odeio completar frases sem nexo. — Sasuke tocou a face dela com o polegar, acariciando a bochecha ruborizada. — Mesmo com cara inchada, cabelo emaranhado e bafinho, sua gagueira é o pior de manhã.

Hinata fechou a cara, os lábios comprimidos diante da afronta.

— Vamos, seja sincera e fale o que te passa na mente. — ele ordenou deslizando o dedo pelos lábios fechados.

Se era sinceridade que ele realmente queria...

— Você também não é lindo quando acorda, e seu hálito não é dos melhores... — ela respondeu, vendo-o abrir um sorriso despudorado.

— E, depois da análise, como classificaria o meu corpo pela manhã?

— Eu não analisei! — ela se defendeu, desviando os olhos para o travesseiro dele.

— Ora, vamos! Seja honesta, peguei você! — ele acusou, rindo por dentro com a inquietação dela.

— Eu só pensei... É que ontem...

— De novo a gagueira? — Sasuke reclamou. — Confie em mim Hinata, seja qual for sua dúvida, não é caso para tanta vergonha.

Tensa, Hinata respirou fundo e observou o peito de Sasuke, evitando seus olhos ao falar baixinho:

— É que pensei em como seria beijar você... L-lá embaixo... Como você fez ontem... Em mim... — ela confessou, fechando os olhos por um instante.

— Você quer me fazer um boquete? — Sasuke perguntou, sem esconder a surpresa ao ouvi-la.

— Bem, eu tenho que imitar tudo que você faz... logo pensei...

— Isso é algo negociável. — ele a interrompeu com seriedade, embora seu tom beirasse o gentil ao informar: — Você não é obrigada a isso!

— Mas você fez em mim... — protestou sem entender.

— Eu fiz porque queria fazer. Teve mais a ver com desejar seu corpo do que ensinar algo ou esperar que fizesse o mesmo. — Encaixando o indicador e o polegar no queixo feminino, moveu o rosto dela para olhá-la de frente. — Você é tentadora para um homem como eu. Cada vez que geme e grita de prazer, fico louco por mais. Se você quisesse Hinata, transaríamos nesse exato minuto.

— E-eu... Eu não grito... — ela se queixou em um fio de voz, ardendo de desejo quando a mão dele desceu pela lateral de seu corpo e apalpou sua bunda.

— Ah, grita sim, amor... — ele afirmou, abrindo um sorriso devasso. — E eu posso provar!

E sem esperar por qualquer resposta, Sasuke puxou-a mais para si e beijou seu pescoço, enquanto a mão grande fazia seu caminho para o palpitante sexo feminino. Inebriada pela expectativa do prazer, Hinata gemeu baixinho, levando suas mãos para os cabelos negros dele e erguendo a perna involuntariamente, envolvendo a cintura dele e o puxando para si.

O Uchiha também gemeu, e não se conteve em subir o corpo e ficar ligeiramente sobre ela. Ao contrário do que ele pensava, a doce e pura governanta não se assustou ou se afastou; ela simplesmente jogou a cabeça para trás e expôs ainda mais o pescoço alvo para ele. Nesse instante, Hinata soltou seu primeiro gemido mais alto, e ele deu graças a Deus por ainda estar com a cueca... Ou acabaria fazendo amor com aquela mulher sem nem ao menos pensar nas consequências. Pelos deuses, como ele a queria!

Hinata também não estava em melhores condições. Estava pronta para mais uma das lições quentes e desejosas que seu chefe experiente sabia lhe dar com maestria. No entanto, Sasuke se afastou com a expressão dura e esbravejou para surpresa da Hyuuga.

— Ah, merda!

Ela o encarou espantada e abriu a boca para questionar, mas o som da campainha cortou sua tentativa e esfriou todo fogo do desejo que a dominava. Só havia uma pessoa que o porteiro não anunciava. Uma pessoa que tinha a chave do apartamento e o usaria se ninguém a atendesse em alguns minutos.

Como um raio, Hinata se desvencilhou dele e pulou da cama, pouco se importando por estar praticamente nua da cintura para baixo, e correu para seu quarto, antes que fosse flagrada na cama do Uchiha.

~*S2*~

Seu estado em duas palavras: Entediado e frustrado.

Sasuke não sabia qual era o mais forte, ficavam se revezando, enquanto escutava a mãe e esperava Hinata aparecer. Depois de vestir uma calça moletom cinza e uma camiseta branca com o desenho de dragão nas costas, o Uchiha foi para a sala, no exato momento em que Mikoto desistia de esperar e entrava no apartamento.

Em vez de falar a que veio, sua mãe insistiu que esperarem Hinata acordar – aparentemente, o sono da Hyuuga merecia mais respeito que o dele – e o escoltou até o sofá, recomeçando a tortura dos fins de semana em que cometia o erro de visitar os pais. O monologo "filho, conheço uma moça... blá, blá, blá". Foi fácil afastar sua mente da conversa: mergulhando nas lembranças do corpo de Hinata contra o seu e sua entrega inocente, bem como seus gemidos e seu sabor...

Aflito com o rumo de seus pensamentos esfregou as mãos pelo rosto. Estava ferrado.

— Está passando mal, filho?

— Sim... — respondeu, enfrentando o olhar preocupado de Mikoto. — Mãe, eu te amo, mas cansa escutar essa ladainha sobre a minha vida vazia.

Mikoto sorriu afetuosamente, coisa que Sasuke estranhou. Esperava outro discurso sobre o futuro, os descendentes, sua falta de consideração com a preocupação dela... Tudo, menos essa expressão satisfeita.

— Pelo menos admite que sua vida é vazia — a mais velha comentou, com sua voz doce e sábia.

Respirou fundo e revirou os olhos, consumido pelo aborrecimento.

— Sim, admito. É o que quer escutar?

— Quero escutar que é feliz. Você é feliz, filho? — Mikoto perguntou, pousando uma mão no ombro de Sasuke.

— Porque não seria? — ele retrucou, olhando-a com desdém.

— Não foi o que eu perguntei.

— Esposa e filhos não são garantia de felicidade — Sasuke comentou, amargo. Cruzou os braços e olhou para trás, implorando mentalmente que Hinata chegasse para o assunto mudar.

— Continua a não ser o que perguntei... — insistiu Mikoto, com um sorriso irritante nos lábios.

Sasuke segurou a vontade de ser grosseiro com sua mãe, mandá-la cuidar da própria vida e se conformar com a ideia de que ele nascera para foder as mulheres disponíveis e esquecê-las no dia seguinte, sem culpas e expectativas de ambos os lados.

— Bom dia!

Aliviado em ouvir a voz suave da governanta, Sasuke levantou e virou-se para recebê-la, ansioso para sair do radar de Mikoto. Observando a Hyuuga de cima a baixo, esqueceu o discurso casamenteiro de sua mãe, tudo em que conseguia pensar era em beijá-la e testar os limites da etapa quatro.

Cravando seus olhos claros nos desejosos de Sasuke, Hinata corou e desviou o olhar para as mãos que se apertavam em frente ao corpo.

— Bom dia, Hina! — Mikoto foi até Hinata, envolvendo a jovem em um abraço apertado antes de deixar a distância de um braço entre elas para apreciar a roupa que a Hyuuga usava. Bermuda de linho preta e camiseta púrpura de decote canoa moldada as suas curvas. — Está linda, filha! Não é verdade, Sasuke?

Sasuke voltou a analisar Hinata, dos tênis até o cabelo trançado sobre o ombro, antes de responder com um aceno afirmativo de cabeça, a expressão simulando tédio e indiferença. Sua mãe soltou um resmungo, obviamente contrariada pela falta de palavras enaltecendo a nova aparência da Hyuuga.

Mas, que diferença faziam as roupas? O corpo de Hinata ficava irresistível com ou sem elas. Seus olhos encontraram os dela, que ficou encantadoramente ruborizada. O Uchiha desejava tanto que sua mãe fosse embora, de forma que tivesse Hinata só para si e tirar aquelas peças devagar, beijando e acariciando cada parte exposta...

Oh, merda... Estava malditamente ferrado!

— Esqueça a falta de cavalheirismo do meu filho, Hina... — Mikoto envolveu a cintura da Hyuuga ao mesmo tempo em que segurava o braço do filho, guiando-os de volta ao sofá. Sentou, obrigando-os a fazer o mesmo ao não soltá-los. — Preciso que os dois me acompanhem a mansão hoje. Hanabi conseguiu um estágio com a dona da loja em que te levei Hina. Vamos fazer uma comemoração íntima ao ar livre e ela quer a presença de todos.

Pelo olhar desesperado de Hinata endereçado a ele, Sasuke percebeu que a governanta persistiria em ocultar da família o fim do noivado e queria sua ajuda para fugir do convite. Ele ergueu uma sobrancelha e balançou a cabeça devagar, decidido a ficar longe de um combate contra sua mãe. Além de Mikoto jamais aceitar um "não", era contra ocultar o término. Naruto era o traidor, ele deveria se envergonhar e se esconder dos parentes, não a Hyuuga.

Percebendo que teria que escapar do convite sem ajuda, Hinata disse gaguejante:

— Perdão, mas... não posso...

— E por quê não? — Mikoto indagou.

— Tenho que resolver a situação com Naruto antes... Reatar meu noivado... — Hinata a respondeu com a mesma fragilidade que sentia por dentro. — Não quero preocupá-los sem necessidade.

Mikoto segurou as mãos de Hinata nas suas, apertando-as de leve, o olhar piedoso alertando a jovem governanta de que escutaria algo desagradável.

— Hina, querida... Eles sabem. — Mikoto anunciou, explicando para a surpresa Hyuuga: — Naruto contou ao seu pai.

— E-ele co-contou...? — Hinata balbuciou, completamente atônita.

— O rapaz considerou honrado admitir seu deslize. — A mais velha deu de ombros, como se aquilo fosse natural.

— P-papai sabe s-sobre... — a morena gaguejou, levando uma mão à têmpora, pressentindo uma dor de cabeça.

— Todos sabem sobre a gravidez da Sakura... — Mikoto contou, acrescentando para angústia de Hinata. — Hanabi queria falar com você antes, mas pedi que lhe desse um tempo.

Em silêncio, Sasuke observou Hinata segurar o choro. Naruto fora "honrado" em informar o ex-sogro sobre o rompimento, mas esquecera de preparar Hinata para as consequências de sua atitude. Quando pensava que o Uzumaki já alcançara sua cota de burrice, ele acrescentava mais peso na balança.

— Hina, lamento muito o fim do seu noivado. Sei o quanto amava aquele rapaz. Mas sua irmã precisa de você, do seu apoio. — Mikoto apertou a mão de Hinata. — Hiashi nunca apoiou o curso de design de moda da Hanabi, e é contra o estágio. Creio que, nesse momento, vocês devem se apoiar.

Dividida, sem saber qual decisão tomar, Hinata olhou para Sasuke acrescentando súplica à expressão chorosa, enquanto movia os lábios cheios em um "me ajude", que Sasuke teria silenciado com um beijo se sua mãe não estivesse entre eles, revezando o olhar desconfiado de um para o outro. "Maldição". Aquele era um erro – e dos grandes –, mas Sasuke se intrometeu:

— Mãe, deixe-a em paz... — ele pediu dando de ombros, os lábios sustentando um sorriso debochado. — Deixe-a se esconder da família e chorar pela mula que a brindou com um belo par de chifres.

Mikoto abriu a boca para repreender o filho, mas, para surpresa dos dois Uchiha's, Hinata revidou instantaneamente, furiosa com o ataque de Sasuke:

— Sua secretária que deu o golpe da barriga!

— O que só mostra o quanto Naruto é uma mula. Não soube nem prevenir a gravidez da amante. — ele replicou desdenhoso, acrescentando impiedoso: — Também mostra o quanto ele te respeitava. Quantas ele teria depois de casado? Quantas ele teve nos últimos seis anos?

Hinata empalideceu, muda diante daquela última ofensa ao seu relacionamento. Imaginara que Sasuke era seu amigo, que estava do seu lado, mas, novamente, o Uchiha demonstrava que sua arrogância e crueldade não tinha limite.

— Céus, Sasuke! Ficou louco? — reclamou Mikoto abraçando Hinata pelos ombros. — Peça desculpas!

— Por dizer a verdade? — questionou ignorando a descompostura.

— Vou buscar uma água com açúcar para você, querida. — Mikoto levantou, cravando no filho um olhar duro de censura.

Assim que Mikoto sumiu no corredor, Sasuke tocou o braço de Hinata. Revoltada com o Uchiha, Hinata puxou o braço para longe dele, o rosto voltado para o outro lado.

— Agora você poderá dizer a ela que não vai por minha causa — Sasuke indicou, sem se abalar com a raiva que a Hyuuga externava.

Hinata o encarou com curiosidade.

— Então... O que disse foi invenção para me ajudar?

— Em parte. — Sorriu para a emburrada Hyuuga e explicou: — Naruto é uma mula – o que é ofensivo ao animal –, mas ele só te traiu com a Sakura por estar bêbado. Ela foi a única com quem ele se envolveu desde que começou a namorar você. Foi o que ele disse para o Gaara e para mim. Isso torna Sakura uma vítima das idiotices dele e não uma oportunista. — indicou para irritação da Hyuuga, que tinha certeza que Sakura se ofereceu descaradamente para atrair Naruto. — De qualquer forma, te dei uma escapatória, embora creia que deva ir.

— Todos vão rir de mim e meu pai zombará da situação... Ele nunca apoiou meu namoro... Nada do que faço desde então o agrada... — ela disse, sem acrescentar que, mesmo antes, sentia que não era a filha desejada ou da qual Hiashi se orgulhava.

— Conhecendo Hanabi, o riso das outras pessoas será o menor dos seus problemas se não for. — Sasuke comentou, conscientizando a Hyuuga que a irmã não perdoaria se faltasse. — Mas a decisão é sua.

Olhando para as próprias mãos, Hinata lembrou as diversas vezes que a irmã cinco anos mais nova a apoiara. Quando cansara de viver na mansão, Hanabi fora a única a ficar do seu lado. Seu pai se zangara durante meses, mal trocavam uma palavra quando Hinata visitava a família, mas Hanabi sempre a esperava com um sorriso e uma palavra de incentivo. A irmã estava desafiando o pai, como anos antes Hinata o fizera, e o único que desejava era ter alguém aprovando sua decisão.

Mikoto retornou e colocou o copo na mesa de centro. Pesando internamente os resultados de sua decisão, Hinata pegou o copo e tomou um gole.

— Filho, pode me dizer o que significa isso?

Percebendo só nesse momento que Mikoto segurava algo na outra mão, erguida na altura do rosto deles, Hinata olhou curiosa o objeto, cuspindo a água em sua boca ao notar que se tratava de sua calcinha.

— Desculpe-me... eu... — Agitada, ela recolocou o copo na mesa de centro para, com mãos trêmulas, secar a boca, mantendo a vista nos respingos no tapete da sala ao invés da peça na mão da Uchiha.

— É só uma calcinha Hyuuga, não uma assombração — zombou Sasuke dirigindo um olhar entediado para a mãe. — Tive um pouco de diversão ontem à noite, com uma mulher que conheci em uma festa. Parece que acabei ficando com um souvenir...

— Você trouxe alguém aqui em um momento em que Hinata precisa de apoio e tranquilidade? — Mikoto estreitou os olhos.

— O apartamento é meu! — Sasuke respondeu, rude. — Não virarei celibatário só porque a empregada é.

— Oh céus, quanta insensibilidade, não acha Hina? — Mikoto questionou para a governanta, que não tirava os olhos do tapete.

A Uchiha voltou a sentar entre eles e pegou as mãos da Hyuuga com as suas. O que fez a calcinha ser depositada nas mãos de Hinata, que imediatamente ficou rubra de vergonha.

— Oh, desculpe-me, filha! Você não tem que tocar algo que não lhe pertence... — Mikoto disse, soltando Hinata para entregar a peça íntima para Sasuke. — Devolva a dona e diga que quem comprou tem bom gosto. É uma peça que eu escolheria.

Hinata arregalou os olhos com as últimas palavras da Uchiha. Ela sabia! Definitivamente se lembrava da bendita calcinha de renda que havia escolhido! Sasuke, por outro lado, agiu como se nada de mais tivesse ocorrido, colocando a calcinha dentro do bolso da calça de moletom.

Mikoto reafirmou o horário da comemoração em sua casa e novamente disse que a presença de Hinata era realmente importante para sua irmã, antes de sair do apartamento.

— Ela percebeu que a calcinha é minha... — Hinata lamentou inquieta depois que a Uchiha partiu. — Aquilo que ela disse... Ela escolheu...

— Minha mãe não percebeu nada — Sasuke duvidou, considerando o medo da Hyuuga infundado. — Ela jamais nos imaginaria como casal. Ninguém cogitaria isso.

O argumento de Sasuke só fez Hinata se aborrecer, mas logo afastou o sentimento. O Uchiha arrogante estava certo. Eles eram totalmente incompatíveis na mente de qualquer pessoa que os conhecesse bem.

— O que é perfeito para nós... — Sasuke ponderou envolvendo os braços na cintura da Hyuuga. — Podemos brincar à vontade, e ninguém desconfiará de nada. — Beijou o pescoço alvo, as mãos subindo o tecido da camisa dela para tocar a pele macia, arrancando um suspiro extasiado da governanta. — Temos que sair para a academia, mas na volta, se ainda preferir se esconder, posso te fazer companhia debaixo das cobertas.

— Seus pais esperam sua presença... — Hinata murmurou, ficando na ponta dos pés e apoiando as mãos nos ombros dele para receber seus beijos. — Desconfiarão que...

— Que sou um péssimo filho? Minha mãe já tem certeza disso — argumentou, deslizando os lábios para mordiscar devagar o lóbulo da orelha. — Um erro a mais ou a menos não vai mudar a opinião deles.

— Mas... e se eu não quiser me esconder?

Sasuke afastou o rosto, observando a face ruborizada e os olhos claros da Hyuuga.

— Você quer ir? — ele perguntou, abrindo um meio sorriso.

— Mikoto tem razão. Hanabi não terá o apoio do nosso pai... — Hinata disse, olhando para ele com determinação — Ela precisa de mim... Não posso me esconder e deixá-la sozinha!

— Essa é minha garota! — Sasuke segurou seu rosto, plantando um rápido beijo estalado nos lábios carnudos. — Hmm... Vamos. Troque-se logo para irmos à academia, ou vamos nos atrasar.

— Podemos ir. Já estou pronta — ela o respondeu, com um sorriso bobo.

— Com essa roupa? — ele arqueou uma sobrancelha, voltando a observar a Hyuuga de cima a baixo. — Está linda, mas é elegante demais para fazer exercícios — explicou as mãos acariciando a cintura feminina.

— É que não tenho outra roupa. A de ontem esta suada, e não quero gastar suas camisetas.

— A academia tem uma loja. Você compra o que precisar e se troca no vestiário.

Hinata corou de leve e assentiu. Sorrindo, ela enlaçou seus braços no pescoço dele, juntando seus corpos e beijando o queixo do Uchiha. Sua iniciativa surpreendeu tanto Sasuke quanto ela própria, que retrocedeu corando ainda mais ao perceber o que fizera. Tentou se afastar, mas ele a manteve junto de si.

— Gosto quando demonstra o que sente e é espontânea. Suas atitudes foram inesperadas, tanto quando revidou o que falei como o seu abraço agora, e é assim que deve ser... — encorajou acariciando a bochecha da Hyuuga com o polegar. —Tem uma guerreira dentro de você, Hinata Hyuuga, e eu a quero.

~*S2*~

Com os conselhos de Kiba, Hinata comprou peças de roupas adequadas e trocou a que usava por uma legging preta e regata lilás, simples e confortável.

Teve que retirar os tênis antes de receber as primeiras instruções do Inuzuka que, atencioso, ensinou como colocar a bandagem nas mãos e calçar as luvas que a academia disponibilizava. Em questão de minutos, se flagrou gostando da aula. Sempre com bom humor, mas firme, ele preparou Hinata com exercícios abdominais, ensinou a postura, o posicionamento dos pés, e o encaixe dos golpes. Com as mãos protegidas por equipamentos com espuma, ele estimulava a Hyuuga a desferir socos e chutes, aumentando a intensidade pouco a pouco. E assim eles seguiram: com paradas para hidratar o corpo; correção da postura e movimentos; mais socos e chutes.

Hinata descarregou toda energia represada em cada golpe, gostando tanto – do que pensara que odiaria –, ao ponto de lamentar em voz alta e sem receio quando Kiba deu a aula por terminada.

— É um bom sinal! — O moreno riu, entregando o squeeze que ela comprara junto com as roupas. — Seu noivo não aceitaria menos...

Hinata o encarou confusa por um minuto – duvidando que Naruto aprovasse o curso –, antes de se dar conta que Kiba falava de Sasuke. Relanceou o olhar pela academia, encontrando o "noivo" deitado em um banco horizontal, levantando peso com o auxílio de Shino. Estavam longe, mas, como naquele dia a academia tinha poucas pessoas, podia vê-lo, o rosto suado e a camisa colando ao corpo. Não era à toa que tinha o corpo definido.

Voltou sua atenção para Kiba, que a observava com um sorriso aberto. Não fazia nada inadequado, visto que seu novo treinador achava que Sasuke era seu noivo, mas mesmo assim o calor espalhou-se por seu rosto.

— Vocês causaram um alvoroço ontem! — Kiba comentou ajudando-a a retirar as luvas. — Quem imaginaria, o inalcançável Uchiha, noivo? A mãe dele deve estar em polvorosa.

— Conhece a dona Mikoto?

— Pessoalmente não, mas todos no prédio já ouviram falar, ao ponto que é quase como se a conhecêssemos. — Explicando em seguida: — Também dou aula para o porteiro. Ele tem pavor da mulher... De ambos na verdade!

Hinata assentiu pensativa. O porteiro tinha seus motivos. O prédio pertencia aos investimentos mobiliários dos Uchiha. Fiscalizar a construção do prédio e a venda dos apartamentos tinha sido o último trabalho de Sasuke para a família, antes de surpreendê-los ao ocupar um andar do imóvel e fundar a própria empresa.

Preocupou-se com a possibilidade de o porteiro mencionar o noivado falso para Mikoto. Tinha que falar com Sasuke sobre isso assim que saíssem.

— Então, quer se inscrever nas minhas aulas? — Kiba perguntou, tirando-a dos devaneios temerosos.

— Com certeza! — Hinata assentiu e sorriu para ele.

— Ótimo! Gosto de beleza me cercando. — Ele sorria abertamente, um sorriso idêntico aos de Naruto, o que fez Hinata corar. — Precisará de luvas. Ajudarei a escolher um par perfeito para proteger suas lindas mãos.

Hinata o seguiu em direção a loja da academia, lançando um último olhar para Sasuke, ainda concentrado em seus exercícios. Voltou sua atenção para Kiba, que falava sobre os dias da semana em que dava aulas para iniciantes.

— Você não dá aulas no fim de semana? — ela questionou ao reparar que não citara esses dias.

— Nesses dias os instrutores têm folga. — ele respondeu, dando de ombros.

— Mas você e Shino estão aqui hoje. — Hinata comentou confusa.

— Sasuke paga a parte pelas horas no sábado — o Inuzuka explicou, dando passagem a Hinata ao chegarem à pequena loja. — Normalmente, não pede os meus serviços, mas hoje ele o fez por você.

Aquilo não agradou Hinata. Sasuke tinha que ter lhe consultado antes de gastar dinheiro com ela.

— Quanto custa o seu sábado? — perguntou para saber quanto devia ao Uchiha, porém Kiba interpretou erroneamente a pergunta.

— Quer as aulas nesses dias? — ele questionou, cruzando os braços e a olhando com afeição — Sasuke nos advertiu que é tímida, mas recomendo as aulas coletivas. Nas quartas, dou aulas só para mulheres, caso sinta-se mais confortável. — E completou, com mais um de seus sorrisos contagiantes: — A dinâmica em grupo é em clima de colaboração, respeito e desenvolve a guarda.

Recordando os olhares que recebera no dia anterior, e sua opinião sobre as frequentadoras do local, Hinata tinha sérias dúvidas acerca de ter aulas com elas, ou com qualquer outra pessoa além de Kiba.

No entanto, ela voltou a olhar na direção em que Sasuke estava. Ele conversava com Shino, mas, como se percebesse que era observado, cravou os olhos nela, tão profundamente que era como um afago, levando-a a abaixar a cabeça ruborizada. Ele, que era exímio conhecedor do corpo feminino, a achava atraente. Porque duvidar ou se sentir inferior?

— Quarta será perfeito — ela decidiu.

— Ótimo! — Satisfeito, Kiba passou o braço pelos ombros de Hinata. — Lógico que, se quiser aula extra no sábado, estou às ordens, viu?

A risada descontraída de Kiba levou Hinata a rir também, apagando a surpresa pelo abraço e o instinto de se afastar. Compraram o que a Hyuuga precisaria para as aulas e depois se aproximaram de Sasuke e Shino, confirmando que o treino deles também havia acabado. Kiba informou sobre a decisão de Hinata sobre seus horários de aula, e o Uchiha aceitou tudo com um meneio de cabeça.

Assim que acertaram tudo, os dois saíram da academia para começar a se preparar para a ida à casa dos pais de Sasuke.

— Notei que se deu bem com o Kiba... — Sasuke comentou, ao saírem do elevador rumo ao apartamento.

— Ele é gentil e enérgico — justificou animada, balançando devagar a sacola com as roupas e suas luvas vermelhas. — De certa forma, ele me lembra o Naruto.

Sasuke soltou uma risadinha estranha.

— Não se apaixone por ele.

— Claro que não irei! — Notando o ar prepotente do Uchiha, não resistiu em provocar: — Mas... Se ocorresse, que problema haveria?

Ele só sorriu de canto, seguindo Hinata ao quarto dela, o que deu a oportunidade para que ela falasse sobre o porteiro e questionasse sobre a aula.

— Se chegar aos ouvidos da minha mãe, nego e digo que confundiu os fatos — disse despreocupado. — E, sobre a aula, eu a convenci a fazer, nada mais justo que pagar — pronunciou como se fosse à coisa mais óbvia do mundo.

— Tinha que ter me dito — a morena refutou, estreitando os olhos.

— Você gostou da aula? — Sasuke perguntou, vendo-a assentir positivamente. — Então, considero-me ressarcido.

— Não é tão fácil...

— Temos que nos trocar, não vamos gastar esse tempo discutindo à toa, não é? — Sasuke segurou sua mão, fazendo com que retrocedesse antes de entrar no dormitório. — Eu tive a ideia. Considere como pagamento por cozinhar até nos fins de semana, garantir minhas refeições no trabalho e todos aqueles serviços que faz sem ser sua obrigação — propôs, enlaçando a cintura da Hyuuga.

— É minha obrigação cuidar de você — Hinata esclareceu pousando as mãos no abdome masculino, sentindo com a palma das mãos os músculos firmes. — Sua mãe...

— Minha mãe exagerou nas instruções, robozinho. — Inclinou-se, depositando um beijo casto na franja farta. — Hmm... Creio que deve levar suas roupas para o meu quarto.

— O quê?! — ela inqueriu, confusa com a troca de assunto.

— Andar todo dia até aqui para se trocar é bobagem. Meu closet tem espaço suficiente para as suas roupas — Sasuke justificou.

Hinata ergueu o rosto para encará-lo.

— Mas... E quando você receber visita? E se Mikoto notar?

— Minha mãe podia ter te flagrado seminua no corredor hoje, em sua adorável fuga, coelhinha — ele a alertou, abrindo um sorriso ao lembrar-se de como estava quando acordaram — Com suas coisas no closet poderá se trocar e sair pelo escritório. Mesmo que ela visse poderia dizer que arrumava o lugar. — e afastou uma mecha grudada na lateral do rosto suado, ajeitando-a atrás da orelha enquanto sugeria: — Deixe algumas aqui se acha necessário.

Hinata concordou. Sasuke desfez o abraço e seguiu para o próprio quarto se trocar. Ainda sentindo as lembranças lhe fustigando o corpo e a mente, ela entrou em seu quarto e foi logo retirando as roupas, entrando no banho em seguida. Definitivamente, aquele Uchiha a tornaria uma devassa...

~S2~

A Hyuuga escolheu um vestido de linho branco, com desenhos de lírios decorando a frente, decote redondo, manga curta e terminando acima dos joelhos. Leve como uma comemoração ao ar livre exigia. Calçou sandália rasteirinha e deixou o cabelo solto. Encontrou Sasuke na sala, vestindo bermuda de sarja, camiseta de manga curta preta com estampa tribal prata nas laterais e um par de chinelos de dedo.

Embora temerosa, ela o acompanhou até o estacionamento e entrou no sedan preto de Sasuke, unindo as mãos no colo e apertando-as com aflição.

— Hinata... É só nossa família, não há o que temer — ele a tranquilizou, conduzindo o carro para fora do prédio.

— Você não entende...

— Temos tempo para uma explicação — comentou, visto que levava três horas para chegar ao condomínio em que os Uchiha moravam.

— Meu pai nunca aprovou o namoro, ele vai...

— Hinata, quantos anos você tem? — Sasuke perguntou, interrompendo o lamento da Hyuuga.

— Vinte e Quatro — Hinata o respondeu, sem entender o motivo da pergunta.

— Você mora com seu pai?

— Não, mas...

— Você depende do dinheiro dele?

— Não. Só que...

— Só que nada! — ele a cortou novamente, rude. — A vida é sua. Seus erros e seus acertos. A opinião dele pode ser respeitada, por ser seu pai, mas não deve influenciar suas decisões e nem a magoar — disse, aproveitando o sinal vermelho para olha-la e aconselhar: — Ignore o quanto puder, e quando não, diga: "pai, preciso do seu apoio e não sermão".

— É fácil falar... — ela murmurou, incerta.

— Fazer também é. Essa é a técnica que uso com a dona Mikoto há anos — Sasuke confessou, voltando a prestar atenção à sua frente quando o sinal abriu. — Se estiver se sentindo muito incomodada, podemos sair depois de uma hora de comemoração.

— Estranhariam...

— Sou perito em inventar desculpas para passar despercebido pelo radar de desconfiança — retrucou sarcástico.

— Obrigada, Sasuke! — Sorriu agradecida, mas ele continuava olhando para frente, concentrado no caminho.

Tinham se desentendido por anos, mas, quando mais precisava de um ombro amigo, era ele que estava ao seu lado, apoiando e aconselhando. Sasuke se transformara em um grande amigo, e esse era o único motivo que a levava a desejar agradecê-lo com um beijo.

~*S2*~

Mikoto preparara a festa na área da piscina, todos os empregados tinham sido convidados para comemorar junto dos Uchiha.

Como esperado, Hiashi não permaneceu na comemoração. Hinata o cumprimentou ao chegar, mas depois seu pai sumiu na ala reservada aos empregados. Naquele breve momento percebeu que o pai estava incomodado, embora não tivesse verbalizado nada com ela além de um "boa tarde" seco, evitando que Hinata soubesse se estava chateado com o fim do noivado ou com o estágio de Hanabi.

De sua parte, a Hyuuga mais nova transbordava alegria. Ela a abraçou com força e a arrastou para cumprimentar todos da festa, incluindo a mulher que a contratara. Uma senhora de olhos e cabelo castanho, preso em um coque, que vestia um macacão azul marinho com listras brancas sem manga e que terminava abaixo dos joelhos. Diferente da filha, Nobara Yamanaka, possuía um comportamento calmo, reservado e de poucas palavras.

Seu medo mostrara-se infundado. Ninguém tocou no tema noivado ou Naruto, toda a atenção estava em Hanabi. Hinata só lamentara que Sasuke se afastara assim que chegaram, se juntando a Itachi, Konan e os filhos deles, Shisui e Yahiko, do outro lado da grande piscina. Não porque a presença do Uchiha lhe fizesse falta, mas por precisar de garantias de que partiriam caso algo a incomodasse como ele propôs.

Todos vestiam roupas leves, e por baixo roupas de banho, para aproveitar o sol e a piscina. Hanabi chegou a chamá-la para a piscina, mas se negou por não estar de biquíni. Mesmo que usasse duvidava que tivesse coragem para tanto. Para provar isso, Hanabi chegou a oferecer os seus, mas Hinata negou-se firmemente até a irmã desistir e pular na piscina com Shisui e Yahiko.

Ocupando uma esteira entre Kurenai e Mikoto, Hinata conversava animadamente até a chegada de seu primo, carregando Lean. Levantou perturbada ao ver que, logo atrás dele, estava Tenten. A Mitsashi percebeu sua presença e abaixou a cabeça. A vergonha pelo que tinha dito a outra fez a jovem governanta se afastar sem rumo.

Tinha algum tempo que se afastava quando se deu conta que havia chegado a parte do jardim em que Hidan a atacara, anos atrás. Hinata pousou a mão em uma árvore, sentindo as pernas trêmulas e o coração agitado ao recordar aquele dia. Sentindo-se sozinha e desprotegida, em um lugar que só lhe trazia péssimas recordações, retrocedeu, gelando ao bater em algo sólido que circulou sua cintura com braços fortes.

Assustada, girou com a mão pronta para golpear seu agressor... Parando a centímetros da face surpresa de Sasuke. Vergonha e alívio se mesclaram em sua face ao abraçá-lo com força e soluçar em um principio de choro.

— Calma, calma, sou eu! O que houve, Hina? — ele perguntou estreitando o corpo trêmulo junto ao seu.

— Pensei... Desculpe-me... — as palavras saiam trêmulas, embargadas pela garganta apertada — Foi aqui que o Hidan...

— Tudo bem, eu entendo. — Sasuke a interrompeu acariciando seu cabelo. — Vi quando saiu agitada e vim saber o que tinha te aborrecido. — Encaixou o polegar e o indicador no queixo dela e o ergueu, acariciando de leve a borda do lábio inferior. — Não pense nisso. Estou aqui.

Se pensar, Hinata mergulhou os dedos nos cabelos negros do Uchiha e o puxou para beijá-lo, tomando os lábios dele com os seus, devagar. Era um beijo de alívio, de agradecimento. Sasuke deslizou as mãos pelas costas dela, acariciando-a com a mesma cadência suave do beijo, deixando-o seguir o ritmo imposto por ela.

Quando o beijo se encerrou, Sasuke beijou-lhe a testa, embalando-a em seus braços por alguns minutos. Ao sentir que se acalmara por completo, a soltou para voltarem à festa.

— Não posso... Tenten está lá...

— E o que tem isso de errado? — Sasuke perguntou e franziu o cenho.

Hinata apertou os lábios e desviou os olhos com constrangimento. Desconfiado com a atitude retraída, Sasuke segurou o rosto dela com ambas as mãos e a fez encara-lo.

— Quero uma resposta.

Hinata respirou fundo.

— Brigamos.

— E por causa de que?

Desconfortável, desviou os olhos e respondeu envergonhada:

— Ela presumiu que o Naruto talvez tivesse enganado a Sakura, que ela foi inocente no caso deles.

— Você brigou com a sua única amiga por causa do Naruto? — Constrangida, ela assentiu. — Vamos!

— Aonde?

— Falar com a Tenten. Vocês precisam fazer as pazes!

— Mas...

— Ela é sua amiga, Hinata, a única pelo que sei. Admitir que errou não lhe fará mal — indicou, cruzando os braços em frente ao corpo ao acrescentar com azedume: — E ela fez conclusões certas: Naruto é um idiota! Perder uma amiga por causa dele é burrice.

Embora odiasse quando ele insultava seu ex. noivo, Hinata aceitou o conselho e o seguiu de volta. Queria segurar a mão dele, pegar um pouco da força que ele irradiava, mas se conteve. O que mostrou ser a melhor escolha quando, no meio do caminho, encontraram Hanabi e Shisui.

— Aí está você, Hina! Neji chegou e quer falar com você... — informou Hanabi olhando curiosa de um para o outro. — O que faziam escondidos aqui?

— Precisava de um tempo longe da família — disse Sasuke dando de ombros. — Vim até aqui e acabei encontrando a Hinata.

A Hyuuga mais velha corou, preferindo não falar nada. Toda vez que tentava mentir acabava gaguejando e se contradizendo. No entanto, aquela era uma resposta tão simplista que Hinata duvidou que a irmã engolisse.

Mas, para sua surpresa e satisfação, Hanabi não fez novos questionamentos, só agarrou sua mão e a puxou de volta a área da piscina. Hinata ainda olhou para trás, a tempo de ver Shisui rir de algo e Sasuke bater de leve na cabeça do sobrinho de dezesseis anos.

Depois de cumprimentar o primo e garantir que estava bem, Hinata parou em frente à Mitsashi, que por sua vez a olhou com insegurança. Sorriu, a outra correspondeu e, sem qualquer palavra, se abraçaram.

— Desculpe-me! — Tenten pediu baixinho, ainda a apertando.

— Eu que peço desculpas! — retrucou com voz embargada. — Você tinha razão.

— Eu não tinha o direito de interferir.

— Você é minha amiga. O que quiser dizer pode fazê-lo sem medo. — Hinata declarou, afastando-se para olhá-la nos olhos e garantir: — Mesmo que eu não concorde, juro que escutarei, e não voltarei a tratá-la daquele jeito.

Voltaram a se abraçar emocionadas.

— Perdi alguma coisa? — Neji perguntou, embalando uma curiosa Lean, que olhava tudo ao seu redor, uma mão rechonchuda agarrada à camiseta do Hyuuga.

— Não. Está tudo bem agora. — Tenten respondeu sorrindo.

Hinata passou as horas seguintes conversando com Tenten, colocando a conversa em dia, embora ocultasse tudo a respeito de sua nova dinâmica com o Uchiha. Algumas vezes olhava na direção de Sasuke e, como se pressentisse seu olhar, ele correspondia com um gesto discreto.

— Tive medo de vir... — confidenciou Tenten, sentada ao seu lado em uma das mesas espalhadas longe da piscina. — Neji não ajudou muito, dizendo que eu seria um "cordeirinho entre leões". E falou que quem mandava aqui era a "leoa mãe" que tentaria me jogar para os braços do Sasuke. Um exagero.

— Nem tanto... — Hinata retrucou tomando um gole de suco de laranja, os olhos indo em direção ao Uchiha. — Dona Mikoto costuma oferecer o Sasuke para as mulheres solteiras.

— Não sei por qual motivo. Qualquer um percebe que ele já elegeu a mulher que quer.

— Elegeu? — a morena perguntou, sem entender.

— Claro! — Tenten abriu um sorriso amplo e olhou para o outro lado da piscina. — Ele não tira os olhos dela desde que cheguei.

— Ela está aqui? Onde? — Olhou para Sasuke, que conversava com Konan, e teve um *insight. — Acha mesmo... que a mulher que ele ama é...? — Levou à mão a garganta sentindo-a seca.

— É óbvio! — Tenten riu, batendo de leve na mão da amiga, pousada na mesa. — Nossa Hina, você é muito fofa e inocente!

Neji chamou Tenten para dar de mamar para Lean, que se contorcia no colo dele, e Hinata ficou sozinha na mesa. Paralisada de choque, olhava de Sasuke para Konan, observando o modo que ele sorria para a cunhada, nas atitudes carinhosas e gentis que ele reservava exclusivamente a cunhada, ligando os fatos. Como não percebera isso antes? Era lógico!

Konan era a mulher por quem Sasuke fora apaixonado e escolhera outro. Os dois tinham trabalhado juntos no projeto do prédio em que ele morava agora. Ele se mudara da mansão logo após o casamento dela com Itachi. Provavelmente fugindo da felicidade do irmão e de Konan, pois estava previsto que, depois de casados, eles morariam no condomínio, à poucas casas de distância da mansão.

Balançou a cabeça e sorriu. Não, aquela era uma ideia ridícula! Tenten estava confundindo a situação...

— Sua relação com o Sasuke melhorou... — comentou Hanabi ao colocar um prato de salgado em frente à irmã.

— Sim — confirmou com um sorriso doce direcionado ao Uchiha.

Sorriso que morreu ao ver Sasuke afastar uma mecha de cabelo da face de Konan e dizer algo que a fez rir. Ele sempre tivera esse cuidado com a cunhada. E agora a ideia de Tenten já não parecia mais tão ridícula assim.

— Percebi um clima quando estavam no jardim. Na verdade, o dia todo.

— Clima? — Hinata encarou a irmã em alerta.

— Vocês são péssimos em disfarçar... — a mais nova disse, encaixando ambas as mãos na cintura fina. — Se é que estão tentando.

— N-não estou... Não diga bo-bobagens...

— Não precisa se envergonhar. Sasuke é irresistível! — disse Hanabi, empurrando o cabelo molhado para longe do rosto e sorrindo encorajadora. — Eu também o agarraria quando ninguém estivesse vendo, se tivesse oportunidade.

— Eu tenho um noivo! — Hinata recordou exaltada, querendo que a irmã tirasse aquela conclusão da cabeça.

— Naruto é um babaca, que graças a Deus tomou vergonha na cara e terminou esse compromisso estúpido. — A mais nova deixou o sorriso morrer, fulminando-a com o olhar.

Hinata empalideceu, surpresa com o ataque e a transformação no rosto da irmã. Sabia que há algum tempo Hanabi nutria raiva do Uzumaki, mas era a primeira vez que a irmã o insultava abertamente desde o almoço de noivado.

— E-eu... A-amo o Naruto — Hinata balbuciou, nervosa.

— Ama mesmo? — Sem esperar resposta Hanabi se afastou, deixando Hinata sem chão com suas suposições.

~S2~

Quando Sasuke a chamou para ir embora já passavam das cinco da tarde e estava cansada de observá-lo paquerando Konan tão descaradamente. Se ele a amava tanto, porque não lutou? Tivera milhões de oportunidade de conquistá-la durante os meses que trabalharam juntos.

Hinata decidiu que não faria o mesmo. Ela se esforçaria o dobro para reconquistar Naruto, ao invés de se contentar com migalhas do relacionamento dele com outra. Provaria a Hanabi e a Sasuke que seu amor era forte e triunfaria apesar das dificuldades.

— Algum problema? — Sasuke perguntou ao caminharem até a garagem da mansão.

— Não... — ela ergueu a cabeça e encontrou o olhar preocupado dele.

— Tem certeza? Você não parece bem.

Ele tentou tocar seu rosto e Hinata se afastou, preocupada que a irmã visse e fizesse mais suposições equivocadas, deixando-o com a mão suspensa no ar e a expressão sombria.

— Estou ótima... Não se preocupe...

Em silêncio entraram no carro e Sasuke manobrou para fora da garagem. Hinata virou-se para a janela do seu lado, observando as casas enormes, os jardins floridos e as poucas pessoas andando nas calçadas.

— Pelo jeito Naruto conseguiu convencer Sakura a perdoá-lo.

O comentário de Sasuke fez Hinata voltar-se para a janela do lado dele. O carro seguia devagar, o suficiente para que a Hyuuga visse Sakura em frente à porta dos Uzumaki, recebendo o abraço de Kushina enquanto Naruto ficava ao seu lado, os lábios esticados em um de seus sorrisos enormes de satisfação.

~*S2*~

O caminho de volta tinha sido angustiante para a Hyuuga. O dia começara promissor, mas a revelação sobre Sasuke e Konan, a suspeita de Hanabi e ver Sakura na casa dos Uzumaki com Naruto ao seu lado, tinha encoberto toda a alegria que tivera. Desde seu comentário, Sasuke não falara mais nada, e ela tampouco puxara assunto.

Ao chegarem ao apartamento, o Uchiha foi para o escritório e Hinata preparou o jantar, levando para ele por saber que não adiantaria chama-lo para a sala de jantar. Como ele recomendara, ela levou algumas de suas roupas e sapatos para o closet dele, arrumando tudo em um canto afastado e longe da porta, para o caso de Mikoto entrar ali.

Terminava de arrumar, quando Sasuke a surpreendeu abraçando-a por trás e depositando um beijo em seu ombro. Virou o rosto para trás e ele segurou seu queixo, beijando-a lentamente. As mãos em sua cintura puxaram o vestido para cima, se introduzindo por baixo do pano para acariciar sua pele devagar.

— Espere...! — Ofegante, Hinata se controlou e afastou-se. — Talvez... Talvez, fosse melhor praticar um pouco mais as etapas um e dois... Não sei se estou preparada para... Atrair o Naruto.

Em silêncio, Sasuke pegou sua mão e a conduziu ao quarto, sentando na cama e indicando que fizesse o mesmo.

— Hinata, nós praticamos essas etapas o dia todo. Creio que foi tão natural que você não percebeu — Sasuke comentou, levando a morena à refletir sobre aquele dia, em todos os momentos em que Sasuke a encorajara. Ela aceitara até mesmo a aproximação de Kiba e tomara a iniciativa em beijar o Uchiha. — Porque quer tanto casar com Naruto? — Sasuke perguntou de repente.

— Porque eu o amo... Ele é especial para mim.

— Especial à que ponto? — O silêncio de Hinata fez Sasuke prosseguir o questionamento. — Alguma vez pensou em sua vida de casada? Nos dias e noites que passariam juntos?

— Sim, é claro.

— E como seria?

Hinata o encarou confusa, mas a seriedade no rosto de Sasuke a fez responder insegura:

— Eu cuidarei da casa. Serei uma esposa perfeita, uma boa anfitriã... Uma boa mãe...

— E no quarto?

Hinata corou.

— Quando fosse o momento, faria o necessário... Seguiria o que me ensinou até agora... E o que mais me ensinar...

— Por você ou por ele?

— Que tipo de pergunta é essa? — Desviou os olhos para o televisor. — Isso não é importante agora. Primeiro tenho que reconquistar o Naruto... Depois penso nisso...

— Tem certeza que o que sente não é amor fraternal?

— Só porque não penso em sexo? — ela o enfrentou, zangada com as perguntas.

— Só porque pensou em coisas que pode fazer com qualquer pessoa.

— Não posso ter filhos com qualquer pessoa! — contestou apertando as mãos no lençol. — É o dia a dia que faz o casal, o companheirismo.

— O companheirismo e a atração, juntos — Sasuke a corrigiu afável.

— Você só entende de atração, não de companheirismo! — Hinata retrucou, segurando a vontade de acrescentar que de nada adiantava se atrair por alguém impossível, como era o caso dele. — Nunca ficou com alguém tempo suficiente para entender um casal.

— Sou bom observador.

— E isso explica o que?

— Meus pais são casados a mais de 30 anos e ainda agem como namorados — disse, contando com uma careta: — Nem imagina o que eu via pelos corredores da mansão, por acidente. Portanto, sei como um casal apaixonado age. Você idolatra o Naruto, é diferente. E, apesar de ser uma ameba ambulante, ele enxergou isso.

— Se acha isso porque me ajuda? — Hinata perguntou, irritada com o comentário dele.

— Gosto de desafios. — Sasuke deu de ombros.

— Sou um desafio? — ela questionou, surpresa.

— Você reconquistar o Naruto é.

— Não acredita que posso reconquistá-lo?

— Sozinha não, mas com a minha ajuda terá alguma chance.

Hinata sentiu alívio. Pelo menos ele se empenharia em sua causa. Estava sendo rude com a única pessoa capaz de ajudá-la.

— Acho que nunca pensei no sexo por causa do que houve no passado. — Sabia que não precisava esclarecer a que se referia. — Seguirei tudo que ensinar e, quando Naruto voltar para mim, tudo será diferente.

— Hmmm...

— Não é simples pensar sexualmente em alguém — reclamou, zangada com a expressão de duvida do Uchiha.

— Depende da pessoa, do nível de intimidade e da sua vontade — Sasuke enumerou, com um sorriso de canto.

— Para você e fácil. Sempre está com vontade.

— Isso é verdade — ele concordou com riso na voz.

Hinata apertou os lábios. Toda aquela conversa sobre compromisso, amor e desejo a fez recordar a suposição de Tenten, e sua própria conclusão a respeito dos sentimentos de Sasuke por Konan.

— Sasuke...

— Hmm?

— A mulher que você amou...

— Esqueça! — Sasuke a interrompeu, fechando a cara — Aquilo foi confissão de bêbado.

— Não posso... — Hinata se negou, juntando coragem para segurar a mão dele e apertá-la para transmitir conforto. O resultado é que Sasuke olhou para as mãos deles unidas e depois para o seu rosto com uma sobrancelha erguida e olhar desconfiado. — Você está me ajudando muito e quero fazer o mesmo.

— E no que consiste essa sua ajuda? — ele questionou incerto.

— Só quero entender... Acho que se você tivesse lutado não continuaria com o fantasma dela em suas costas.

— Fantasma?! — Sasuke repetiu, como se estranhasse a palavra, vendo Hinata assentir.

— É por isso que não consegue arrumar nenhum relacionamento sério... Porque ainda a ama.

— É por isso que rasteja atrás do Naruto? Para que o fantasma dele não a siga? — ele indagou estreitando os olhos, a expressão cada vez mais carregada.

— Quero reconquistar o Naruto porque sei que ele me ama e eu o amo.

— O que você sabe sobre isso? Você não entende nada sobre amor! — ele disse grosseiro, soltando sua mão da dela. — Seu relacionamento com o Naruto era uma grande piada!

— E você entende, por acaso? — Hinata revidou ofendida. Tentava ajudá-lo e ele agradecia sendo ignorante.

— Da minha forma, acredito ser como a **música: — disse, fazendo Hinata encará-lo interrogativa. — "Fogo que arde sem se ver"; como o toque dos amantes. "Contentamento descontente"; como aceitar a felicidade do outro, mesmo que não seja com você. — Completando sem se importar com o espanto e animosidade na face da Hyuuga. — O seu não se encaixa em nada disso. Naruto tinha receio de te tocar, e você medo. E está claro que você jamais aceitará que ele prefira outra.

— Primeiro: Isso é um trecho de Camões. Segundo: Você não sabe nada sobre o meu amor. Terceiro:... — apertou os lábios, contendo o insulto que formigava em sua garganta.

— Solte o que pensa! — ele exigiu, virando-se para ela na cama — Seja sincera comigo, e consigo mesma, uma vez na vida!

Então Hinata estourou, cansada de todas as ofensas que segurara e acumulara em sua garganta durante anos.

— Você é um grande imbecil! — No segundo seguinte, ela cobriu a boca com as mãos, imediatamente arrependida do que dissera. Acabara de ofender o seu patrão. Não só perderia a ajuda dele como era bem capaz de perder o emprego. — Eu... eu... me desculpe...

— Por ser sincera? Humana? Percebe que se tivesse dito o que realmente pensava ao Naruto esse tempo todo, talvez, já estivessem casados? — Sasuke não poupou as palavras ao finalizar: — Você engoliu humilhações demais por um amor deturpado.

— Naruto nunca me humilhou... — defendeu esgotada em ouvi-lo caçoar de seu amor.

— Ele te abandonava no meio de eventos sem explicação; não escutava seus desejos; sequer notou que eu sempre fui um imbecil com você; ele nunca te defendeu de mim! — Sasuke enumerou, furioso com a cegueira da Hyuuga.

— Vocês são amigos...

— Não sou amigo dele há anos — informou irritado. — Entendo que ele te protegeu quando você mais precisou. Porém, você não deve idolatrá-lo para sempre por algo que qualquer ser humano tem que fazer. Você não é obrigada a amá-lo e casar com ele por causa disso.

— Eu o amo... Ele é tudo para mim...

Aquilo era a gota d'água. Sasuke se aproximou com a expressão destemida, segurou o rosto da Hyuuga com ambas às mãos e se inclinou para beijá-la. Hinata podia ter recuado, negado. Podia até mesmo ter questionado, mas esperou a boca dele encontrar a sua em um beijo intenso. Foi um beijo diferente de todos os que tinham trocado até ali. Não tinha ternura, nem intenção de seduzir; era vigoroso e exigente, a raiva que a discussão causara atiçando Hinata a devolvê-lo na mesma intensidade.

As mãos de Sasuke desceram por seu corpo e seguravam com firmeza a cintura da Hyuuga com possessão. Com um gemido extasiado, Hinata lançou os braços ao redor do pescoço do Uchiha, puxando-o para si. Ela tombou na cama com o corpo quente dele sobre o seu, gemendo mais alto quando os lábios desceram por seu pescoço, mordendo de leve a pele sensível.

Seu corpo vibrava e queimava, buscando o dele e enroscando-se como uma videira. Algo rodopiava em seu estomago, descendo como lava até o ponto que Sasuke despertava toda vez que a tocava, ponto que roçava contra a ereção dele, aumentando seu desejo de descobrir como seria toca-lo ali.

— Não necessito de amor enquanto tiver isso... — ele murmurou beijando sua clavícula e deslizando os dedos por cima de sua calcinha, a vibração de prazer contorcendo Hinata ao ponto de gritar.

De repente, Sasuke cessou os beijos, afastou as pernas que cingiam sua cintura e levantou da cama. Para seu constrangimento, Hinata percebeu que seu vestido tinha sido erguido acima de sua barriga e suas pernas estavam abertas, com Sasuke em pé entre elas. Ela se sentou tensa, ajeitando nervosamente a roupa e os cabelos, evitando olhá-lo.

— Tomarei um banho antes de dormir, quer me fazer companhia?

— Não... — ela sussurrou, envergonhada com o rompante de segundos antes.

— Como queira. — Ele se afastou, mas parou antes de entrar no banheiro e, ainda de costas, aconselhou: — Fantasma nenhum fica em minhas costas e não deveria ficar nas suas, Hinata.

~*S2*~

Hinata odiava acordar no meio da noite com vontade de ir ao banheiro. Além de não querer acordar Sasuke, a perspectiva de andar no escuro até o banheiro do seu quarto não a atraia.

Com cuidado para não despertar Sasuke, removeu o braço que envolvia sua cintura e ergueu-se devagar, sentando-se na cama. Colocou as pantufas e parou por um minuto para admirar o corpo adormecido de seu chefe. Estava escuro, mas o brilho refletido na lua atravessava a cortina, o suficiente para que Hinata percebesse os traços dele.

Depois do que Hinata considerava a primeira "briga de casal" deles, Sasuke retornara do banho em silêncio, parecendo tão zangado como quando entrara no banheiro. Mas, quando deitaram, ele voltou a assumir o papel de amante, envolvendo sua cintura e beijando sua nuca com carinho antes de adormecer.

Não conseguia compreendê-lo, juntar o que conhecia da personalidade dele com o que ele fingia ser. Sasuke fingia tão bem, que às vezes ela se esquecia de ser fingimento e se deixava envolver. Jamais imaginara ser capaz de falar o que falara para ele durante a briga, o que falara nos últimos dias tinha sido surpreendente, mas ofendê-lo tinha sido libertador.

O corpo exigiu que deixasse de admirar o Uchiha. Levantou e estava perto da porta quando a voz sonolenta e rouca a deteve.

— Ainda é noite... Aonde vai?

— Preciso ir ao banheiro.

Ele ergueu a cabeça do travesseiro e, embora estivesse escuro, Hinata sentiu que a olhava intrigado.

— O banheiro é ali. — Apontou para o outro extremo.

— Prefiro utilizar o meu.

— Desde quando você levanta no meio da noite, atravessa o corredor e usa o seu banheiro, tendo um a poucos metros? — Sasuke perguntou, com certo humor na voz.

— Precisamos conversar sobre isso agora? — Ela retrucou, apertando as pernas levemente, com urgência.

— Precisamos se você não usar aquele banheiro. — Voltou a apontar o banheiro da suíte.

Bufando contrariada, Hinata foi para a direção indicada. Minutos depois retornou e, ainda irritada, deitou de costas para Sasuke, na beira da cama. Fechou os olhos com força, decidida a ignorar o corpo próximo ao seu, mas o Uchiha tinha outros planos. O colchão afundou quando ele se moveu para seu lado e voltou a abraçar sua cintura.

— Tudo certo por lá? Não houve nenhuma explosão ou algo do tipo? — Ele perguntou, fingindo-se de sério.

Hinata apertou os lábios, tanto para conter um insulto quanto para não rir da situação absurda. Um arrepio elétrico subiu por sua espinha quando sentiu os lábios dele em sua nuca.

— É agora que você diz que sou o homem da sua vida por deixá-la usar o "meu banheiro". Ou me chama de idiota.

— Idiota. — Ela escolheu sem titubear.

Ele riu.

— Também te amo, linda.

Surpresa, Hinata virou o tronco para olhá-lo, embora só conseguisse perceber o contorno de sua cabeça no escuro.

— O que você disse? — Ela perguntou, com o coração retumbando nos ouvidos.

— Aprenda: Um casal nunca deve dormir zangado um com o outro. Eles devem se abraçar e dizer coisas fofas e melosas. Idiota não é uma delas.

— E se um deles for realmente idiota? — Questionou estranhando sua decepção com a resposta dele.

— Ele deve ser o primeiro a abraçar e dizer coisas melosas... — A virou pela cintura para ficarem de frente. — E deve beijar a parceira. — Beijou os lábios cerrados da Hyuuga. — E seria ótimo se a parceira corresponder... — queixou-se, mordiscando o carnudo lábio inferior da Hyuuga. — Também seria maravilhoso ela dizer que o ama, deixando claro que não está mais zangada.

— E se ainda estiver? — ela perguntou novamente, arrepiada.

— Parceira difícil essa... — reclamou, acariciando a face da governanta. — Deixe-me pensar... Ela diz: "Boa noite! Obrigado por me impedir de andar tanto por algo que posso fazer por perto, só por vergonha".

— Boa noite! Obrigada por me impedir de andar tanto por algo que posso fazer por perto, só por vergonha — ela o repetiu, sorrindo pela bizarrice da situação. — E agora?

— Agora fechamos os olhos, dormimos. ­E, de agora em diante, você passa a usar esse banheiro.

Ela assentiu, fechando os olhos e pousando o rosto no peito dele. Estava quase dormindo quando ele comentou:

— De qualquer forma. Seja lá o que aprontou lá, é você quem limpa.

— Sasuke! — Reclamou, recebendo um beijo rápido e uma promessa tentadora:

— Amanhã terei o dia todo para ensinar que dividir o banheiro pode ser muito prazeroso.

~*~

**Música: Simon se refere a música "Monte Castelo" da banda brasileira de rock "Legião Urbana", que traz citações do poeta português Luís Vaz de Camões em seu soneto 11.

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