5
Mal se dava para ouvir os próprios passos sobre as pedras que formavam o piso do cais. Um longo e largo caminho de pedras cimentadas. Era por cima dele que os homens trabalhavam o dia inteiro, descarregando barcos e carregando as mercadorias. Felizmente não era o que acontecia agora, não no horário de maior movimento, ainda havia pequenos indícios de movimentação e alguns homens trabalhando.
Então Geni podia caminhar livremente.
Havia uma parte mais tranquila do cais, não tão distante da movimentação, mas distante o suficiente para ser possível ouvir os próprios pensamentos. As ondas batiam na parte baixa desse lugar, chocando-se na pequena falésia. Acima, obviamente para não deixar que pessoas simplesmente caíssem na água, corrimãos grossos de ferros curvados formavam a proteção. A altura chegava à cintura de Geni, podia se apoiar com os braços e observar o largo rio escuro.
O cansaço era tamanho... No entanto não era cansaço físico. Sua mente pesava mais que qualquer carga do cais naquele momento, talvez até mais que qualquer uma daquele dia. Da semana. Do Mês.
Da vida, ela firmou.
Fechou os olhos, sentiu o vento, ouviu as ondas. Se pudesse fazer seu corpo relaxar ou fazer sua mente parar de reviver momentos doloridos...
Já passou. Não fique nisso, não fique... Já passou.
E similar ao acontecimento no beco, Geni riu baixinho.
Não queria chorar, era verdade. Já havia chorado tanto. Mas quem notaria suas lágrimas diante de todo aquele rio? Quantas pessoas já tinham chorado na beira daquele cais?
Certamente mais do que Geni pudesse julgar.
Santa havia sido uma das primeiras cidades invadidas pelos espanhóis, expulsando e assassinando os nativos. Havia muito sangue e lágrimas misturados com as águas daquele rio. Com seu fluxo, nada podia entrar nele duas vezes. E nada podia sair também.
Talvez esse fosse o destino da cidade e para seus habitantes, afinal — construída com dor e mantida em dor, iniquidade, desigualdade, desespero... Para alguns, é claro.
Não havia um jeito de romper com tudo isso? Talvez uma maneira de...
— Você! — alguém a chamou. Era um homem, forte e atarracado, com a camisa molhada de suor. Ou era bebida? Bem, não fazia diferença. Geni virou-se para olhar o rio novamente.
Ele se aproximou, os passos pesados contra as pedras.
— Já vi você — disse ele. — No cabaré, ontem. Por que não fica com as outras?
Geni o encarou novamente. Viu no olhar do homem um tipo de entendimento.
— Bem, meu barco está ancorado logo ali. Aquele, vê? Se quiser, podemos ficar mais confortáveis.
Ela não ficou nem um pouco impressionada ao ver o barco de viagem do homem. Ao invés disso, virou-se para o rio. Não era a primeira vez que alguém fazia esse tipo de convite. No próprio cabaré alguns homens já haviam se engraçado para ela. A senhora Cabral e a própria Geni não faziam questão que trabalhasse no cabaré como as outras.
— Vamos lá — insistiu o homem. Ela continuou olhando o horizonte, se perguntando o que poderia haver além de toda aquela água. Talvez o homem pudesse levá-la em seu barco para conhecer esses lugares interessantes e únicos. Porém não era o que ele queria. Quem sabe quantas mulheres ele havia deixado com um neném na barriga. Até mesmo sua própria esposa, se é que havia de ter uma.
Pelo canto dos olhos ela viu ele se aproximando. Escolheu o dia errado, idiota. A impaciência de Geni fez algo se ativar dentro dela, sentiu um leve formigamento nas mãos. Não ergueu para vê-las, mas conseguiu notar a luz branca emergindo dos dedos, quente e brilhosa.
Será que ele viu?
— Não, obrigada — adiantou-se ela.
Dizer isso fez ele conter o passo, antes que chegasse perto demais. No entanto o idiota era realmente um idiota. Ele ignorou a resposta de Geni e avançou. Segurou o braço dela e a fez se virar para ele.
Tudo foi tão rápido. Algumas palavras ríspidas. Um pedido. Uma luz.
Quanto Geni abriu os olhos o homem estava no chão, distante, assustado e lúcido. As mãos dela estavam estendidas contra ele, e julgou tê-lo empurrado com uma força desconhecida. Ele rapidamente levantou-se e correu, quase gritando. Ela levantou as mãos, checando seus próprios dedos.
Sua camisa estava molhada. Minhas mãos também deviam estar agora.
— Geni?
Ela tomou um susto.
— Está tudo bem?
Ela hesitou, olhando das mãos para ele e de novo para as mãos.
— É claro — disse finalmente, mas não soube se saiu segura o bastante. Tentou ser gentil. — O que está fazendo aqui, Antonio?
— Trabalho aqui, esqueceu? — Olhava para ela com extrema curiosidade. — O que você está fazendo aqui? — Ele se aproximou devagar, sempre olhando para as mãos dela. — Que luz foi aquela, Geni?
Ela recolheu as mãos para trás.
— Uma lanterna — explicou. — Nas mãos dele, ele... estava torrando minha paciência. Foi isso! O empurrei para longe e espero que não volte.
Ela virou-se para o rio, assim Antonio não poderia ver a mentira estampada em seu rosto. Não queria mentir para ele, mas o que haveria de fazer?
Respirou fundo, sentindo o vento frio entrar em seus pulmões.
— Veio aqui para escapar? — perguntou-lhe Antonio. Apoiou-se na proteção de ferro, ao lado de Geni. — Não adianta mentir para mim dessa vez. Sei que vem aqui para fugir desse inferno de cidade. O que aconteceu?
A presença dele acrescentava muito mais ao ambiente do cais, de modo reconfortante. Era como se Antonio fizesse parte do lugar tanto quanto as pedras cimentadas, a proteção de ferros retorcidos, o som da água batendo na pequena falésia ou o vento soprando forte. E não só por ele trabalhar há anos como portuário.
— Você não está trabalhando? — perguntou a ele.
— Tenho tempo para uma amiga. — Ele sorriu, quase triste. Geni retribuiu. — Há semanas você não aparece por aqui.
— Ocupada demais.
— Perseguida demais, você quer dizer?
— As duas me parecem tão parecidas. — Riram juntos, observando o horizonte.
O ar frio estava bom para respirar. O sol se punha cada vez mais, parecendo beijar lentamente o rio. O céu se tornava mais rosado e as nuvens estranhamente escuras.
— Como está a bruxa velha? — Ele riu junto com Geni.
— Certamente viverá mais que a gente. Cada dia mais rabugenta, cada vez menos paciente.
— Então está como sempre?
Geni confirmou rindo e deu de ombros.
— Como está Celina e as crianças? — perguntou.
— Ah, estão muito bem. Mesmo as crianças crescendo cada vez mais, ainda é difícil partir e ficar distante. É difícil não saber se voltarei para casa.
Ela sentiu as palavras dele.
— E como é? — quis saber. Antonio a olhou, esperando entender a pergunta. — Como é ter uma casa? Uma esposa amável e crianças gritando de felicidade quando você chega? Ter paz, finalmente?
— Ah, Geni... — Ele a puxou para um abraço. Talvez pensasse que ela estava chorando, mas foi o contrário. Depois do abraço, ele segurou suas mãos. Nem lembrava mais da luz de momentos atrás. — O que acha que existe depois desse horizonte, Geni?
Ela encarou o sol se pondo, grande e alaranjado.
— Me diga você, Antonio. Você viaja por todos esses lugares. O que há além desse horizonte?
Olhou fundo nos olhos dele.
— Esperança, Geni. Existe esperança.
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