Capítulo 10🍷Marisa Leone🍷
Duas caixas decoradas com papel de presente em estampa poá, fitas brancas e flores repousavam em minha cama. Na caixa maior, um vestido longo, de alças e estampa floral. Na caixa menor, um par de sandálias altas pretas que combinam perfeitamente com o vestido. Quem escolheu o conjunto teve muito bom gosto e acertou exatamente nas medidas.
Empolgado com o presente de aniversário, Pietro interrompeu uma sintonia misteriosa, que surgiu entre Cesare e eu, enquanto encarávamo-nos no gramado.
Ele é sempre tão formal, fechado e distante. Mas naquela hora demonstrou tanta sensibilidade e preocupação. Fez com que me sentisse protegida e querida.
Custa-me sequer pensar na possibilidade, mas quando estou perto de Cesare sinto que paira algo além do que o laço tutor/protegida representa. Há uma tensão que me instiga e ao mesmo tempo assusta. Não sei se ele já sentiu, porém as vezes suspeito de que também fica intrigado.
Não quero ser a adolescente tola que fantasia coisas com um homem mais velho. Nem criar expectativas que me magoem no futuro. Já fui machucada o suficiente pela vida.
Sou apenas uma garota órfã e inexperiente se comparada às mulheres sofisticadas que meu tutor deve se relacionar. Mas não consigo evitar um frisson toda vez que ele está por perto. Meu corpo desperta rapidamente. O coração dispara, a respiração acelera, os pêlos arrepiam e minha pele parece ficar febril.
Os olhos de um azul profundo de Cesare parecem conter promessas, traços selvagens e um ar de desespero que sempre o faz se afastar.
Não sei como me comportar perto dele. Minha experiência com o sexo oposto é bastante limitada. Micaela vivia dizendo que meu jeito fechado assustava os garotos.
Um dos internos uma vez disse que eu era uma garota inacessível e que nunca arranjaria um namorado dessa forma.
A questão é que nenhum deles nunca me despertou interesse. Sempre preferi me isolar no observatório abandonado do Instituto para ler e observar as estrelas.
É completamente ridículo comparar o os meninos do Instituto com um homem como Cesare. Sempre soube o que os meninos queriam, já meu tutor, nunca sei o que sente ou pensa...
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Coloco uma presilha na lateral de meu cabelo castanho com ondas naturais. Me observo no espelho grande do closet e giro vagarosamente admirando o caimento perfeito do vestido em meu corpo.
Sinto que estou encerrando um ciclo e que um novo se inicia. Sonhei tanto com o momento. Achei que seria com minha mãe e tia Francisca. Porém o destino quis de outra forma. Estou na Itália comemorando os dezoito na casa de estranhos e sem minha família.
_ Está pronta?_ Ouço uma batida leve na porta do quarto e a voz de Nicollo.
_ Sim. Pode abrir.
Pego uma bolsinha que separei em cima da cama, pois mais tarde Giovanni me buscará para sair.
_ Pietro não para de perguntar por você. _ Nicollo coloca apenas a cabeça em uma brecha. _ Mais que bela! Minha cara você está deslumbrante. _ Nicollo põe a mão no peito.
_ Não estou acostumada a me produzir tanto. Nem sei se acertei na maquiagem ou exagerei demais...
_ Então, deveria se acostumar, caríssima. Esse vestido lhe caiu muito bem e você está extremamente bela. Perfeita para comemorar sua maior idade. _ Nicollo estende o braço. _ Por acaso daria a honra a esse velho de acompanhá-la?
_ Você não é nenhum velho, Nicollo! Aposto que deixa muitas italianas suspirando por aí. _ Apoio-me em seu braço sentindo-me mais confiante e segura.
_ O problema é que quem eu quis de verdade não está mais aqui. _ Nicollo sorri triste. _ Dou um aperto de consolo em se braço.
_ Nem fale, como queria que ela estivesse ao meu lado hoje. _ Minha voz sai embargada.
Nicollo dá tapinhas em minha mão.
_ Mas ela está, caríssima! Aqui dentro. _ Aponta em direção ao meu coração. _ E aposto que gostaria de te ver sorrindo e sem a maquiagem borrada.
Respiro fundo.
_ Vamos, então? _ Sorrio agradecida.
Nicollo concorda e me acompanha.
O som de música infantil vem do quintal. Dois meninos passam correndo pelo saguão, atravessam a sala de estar e saem pela porta de vidro dos fundos da casa. Donatta passa apressada carregando uma bandeja com copos de refrigerantes. Caminho até o jardim e sorrio com a visão de Pietro se divertindo com outras crianças. Ele conseguiu convencer ao pai a fazer a festa temática de fórmula 1.
Bolas brancas e pretas flutuam na piscina. Um animador de festa fantasiado de corredor faz pinturas nos rostos das crianças. Pietro circula pelos convidados com as mãozinhas cheias de presentes e um sorriso impagável no rosto. Os olhinhos azuis brilham em minha direção.
_ Alexandra! Você está vestida de princesa?
Abaixo para ficar em sua altura.
_ Acha que estou parecendo uma princesa, meu amor?
Ele afirma.
_ Você também está lindo nesse macacão de corredor de fórmula 1.
_ Giovanni quem mandou fazer. Ei! Frederico chegou! _ Pietro corre para receber o primo que tem a idade que ele.
Atrás surge Cesare de braço dado com uma moça muito bonita. Eles conversam observando o ambiente. Quando Cesare me vê caminha em minha direção trazendo a convidada. Assim que se aproximam reconheço a moça de olhos azuis que vi em uma foto com Cesare no porta-retratos em seu quarto.
_ Marisa, essa é Alexandra, filha de Maria. _ Cesare me apresenta.
_ Mais que ragazza bela! Da forma que Maria falava, tínhamos a imagem de uma adolescente. Mas você é uma adulta e mui bela.
Sorrio tímida. Ela me estende a mão.
_ Muito prazer, sou Marisa Leone, irmã de Cesare.
Está explicada a semelhança.
_ O prazer é todo meu, Marisa. _ Aperto sua mão.
Sinto-me a vontade com a irmã de Cesare de imediato. Marisa é bem extrovertida e comunicativa, diferente do irmão. Não sei se é mais jovem que ele, mas acredito que a diferença de idades seja pouca.
_ Me dê licença só um minuto? Vou conferir se Frederico entregou o presente ao primo.
Assim que Marisa se afasta, Cesare, que estava de lado em silêncio, me observa.
_ O vestido lhe caiu muito bem. Que bom que acertei.
O encaro. Está vestido de forma casual. É raro vê-lo assim, mas está muito bonito.
_ Obrigada pelo presente. Gostei muito. _ Minha face esquenta.
_ Gostaria de lhe entregar outra coisa... _ Cesare para de falar assim que Marisa se reaproxima.
O que mais quer me dar?
_ Esses meninos são loucos por esses carrinhos de corrida! Frederico tem vários, mas cismou de ficar com os que comprei de presente para Pietro.
_ Isso é culpa de Giovanni que fica incentivando os meninos. _ Cesare reclama com as mãos nos bolsos.
_ Ah, que nada irmão! São só crianças. Isso não quer dizer que irão se tornar corredores quando crescerem. Relaxe. _ Marisa toca o ombro do irmão.
_ E nossa mãe? Tem falado com ela?_ Cesare muda de assunto.
_ Da última vez que falou comigo, estava desembarcando em uma ilha da Grécia. _ Marisa torce um pouco os lábios.
_ Dona Antonella não tem jeito. _ Cesare sacode a cabeça.
A chegada de Giovanni é notada por todos, devido ao alvoroço que as crianças fazem quando veem o mini kart que ele carrega em baixo do braço. Pietro dá saltos de excitação com o presente.
_ Não acredito que ele fez isso! _ Cesare vai ao encontro de Giovanni.
Olho sobressaltada para Marisa.
_ Não esquenta. _ Ela toca em meu braço. _ Ele não vai matar ninguém. Só tem uma certa implicância com Giovanni com esse negócio de corrida.
_ Qual o motivo?_ Especulo curiosa por um pouco de informação a respeito de meu tutor.
_ A mãe de Pietro. _ A expressão de Marisa fica séria. _ Ela morreu porque estava dirigindo embriagada e em alta velocidade.
Levo a mão ao estômago.
_ Sinto muito. _ Desvio o olhar para Cesare, que discute com um Giovanni tranquilo.
_ Lamento mais por Pietro que cresceu sem uma mãe. Meu irmão nunca foi feliz com Bianca Marinho. Foi um casamento arranjado, sabe? E diferente de Cesare, Bianca nunca se esforçou para que desse certo. Mesmo depois de casada continuou levando uma vida de solteira, saindo para noitadas regadas a muita bebida e encontros casuais.
_ Cesare deve ter sofrido muito com tudo isso.
Marisa concorda.
_ Presenciei muitas brigas. Enquanto meu irmão carregava a responsabilidade de tocar os negócios da família, Bianca só pensava em se divertir e traí-lo.
Observo Cesare outra vez. Agora, conformado com Pietro circulando pelo gramado com o novo presente.
_ Seu irmão teve que lidar com muitas responsabilidades desde bem jovem. _ Comento mais para mim, mas Marisa confirma.
_ Sim. E parte da culpa é de nossa mãe e dos Marinhos, que praticamente jogaram Bianca nos braços de Cesare. Na época, ele estava perdido com a morte precoce de nosso pai e acabou cedendo a pressão de todos.
_ Que injusto. _ Digo.
_ Foi aí que no meio desse furacão apareceu sua mãe.
Marisa ganha minha total atenção.
_ Quando Maria chegou em Sambuca estava a procura de emprego para custear as obras de reforma da casa recém adquirida. Pietro tinha três anos e Cesare completamente perdido com a criação do menino. Ela foi um anjo na vida de todos.
_ Minha mãe era maravilhosa. _ Sinto um orgulho invadir meu peito.
_ Ela tomou as rédeas da casa que vivia um caos. Minha mãe ajudou pouquíssimo na criação do neto e as babás que Cesare contratou eram profissionais, mas não ofereciam a atenção e o carinho que o menino precisava.
Começo a suspeitar que a implicância que Donatta tinha com minha mãe era por puro ciúmes.
_ Belas! _ Giovanni interrompe nossa conversa.
_ Primo. _ Marisa o cumprimenta com dois beijos no rosto.
_ Feliz aniversário, Alexandra!
Giovanni beija minha mão cheio de floreios e entrega-me uma bolsa com a logo de uma marca famosa.
_ Para a ragazza mais bela da festa.
_ Ah, obrigada. Não precisava trazer um presente.
Admiro a bolsinha colorida toda cravejada de pedrinhas. Aposto que deve ter sido bem cara. Não é o tipo de coisa que costumo usar, mas sinto-me agradecida pela atenciosidade de Giovanni.
_ Podemos ir?
Giovanni parece ter criado muitas expectativas para esse jantar. Na verdade, esteve assim nas últimas semanas. Ligou várias vezes e esteve na mansão com frequência. Cesare pareceu não gostar muito, mas também não reclamou.
_ Vamos esperar apenas cantarem os "Parabéns" de Pietro. _ Quero estar com o menino nesse momento.
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Após cortarem o bolo, a festa continua. Alguns convidados se despedem, mas as crianças permanecem animadas. Giovanni e eu nos dirigimos à saída juntamente com Marisa, que resolveu deixar Frederico passar a noite com Pietro. Cesare dá atenção aos convidados, então sigo com Giovanni para o carro.
_ Esperem! _ Já estou acomodada no conversível de Giovanni quando Cesare vem descendo a escada de entrada.
Giovanni se apoia na porta ainda aberta.
_ O que foi agora, primo? _ Giovanni responde impaciente.
_ Que horas pretendem voltar? _ Cesare se aproxima.
_ Não tenho certeza. Por causa da festa acabamos perdendo a sessão do cinema. Ainda temos reservas no restaurante, mas se demorarmos muito acabaremos perdendo também nossa vaga.
_ Dê seu jeito. Quero Alexandra em casa antes das 22 horas.
_ Quê?! Está de brincadeira, não é?!
_ Olhe para minha cara e avalie se estou brincando. _ Observo a cena em silêncio.
Nunca uma figura masculina se importou comigo dessa forma. Não sei se me sinto lisonjeada ou reprimida.
_ Às vezes tenho a impressão de que você já nasceu velho, Cesare. Por acaso sabe o que é se divertir?_ Giovanni fecha a porta ao meu lado e dá a volta no carro.
_ Se não trouxer Alexandra no horário estipulado, irei buscá-la pessoalmente e te garanto que nunca mais confiarei que a leve a lugar algum. _ Cesare se apoia na porta e avisa.
_ Relaxe, primo. Deixe comigo. Vou tentar obedecer suas regras. Pelo menos dessa vez.
A última frase Giovanni fala baixo, mais para si. Meus olhos se encontram com os de Cesare. Suas mãos soltam a porta. Ele se ergue. Põe as mãos no bolso e balbucia...
_ Cuide-se, pequena.
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