Capítulo 7

Observei a rotina de Samael para conseguir uma chance de falar com ele. Eu não tinha muito tempo livre para fazer isso, mas consegui perceber que ele também não. Ele parecia ter nenhum horário livre. Passei seis dias o procurando e só o encontrei por acaso.

No sétimo dia de procura eu estava sem sono. Às vezes eu fazia atividades saudáveis como lembrar de péssimos momentos da minha vida e pensar em como tudo poderia ter sido diferente; essas atividades me faziam tão bem que eu tinha energia o suficiente para não conseguir dormir. Então decidi sair para caminhar, o que me fez encontrar Samael por acaso.

Ele estava sentado no chão bebendo uma garrafa de vinho.

– Também não consegue dormir? – me aproximei.

– Só consigo dormir no hospital. – ele me olhou, de baixo para cima.

– Você vai muito pro hospital?

– Passo a maior parte do tempo lá.

– Você é médico? Ou...

– Sim, agora cuido de vidas.

Isso explica por que ele passa a maior parte do tempo fora de casa. Médicos trabalham por muitas horas, certo?

– Normalmente as pessoas bebem sozinhas porque estão tristes ou insatisfeitas. Cadê aquele homem que está sempre com você?

– Homem? Ah! Don está dormindo, ele é melhor nisso do que eu.

– Nisso o quê?

– Dormir.

Eu não sabia se era uma piada, mas estava sem ânimo para risadas falsas. Ele também não riu. Ficamos em silêncio. Nós dois estávamos com roupas leves e aquela madrugada parecia gelada demais. Samael estava com os cabelos bagunçados, assim como os meus, e naquele momento eu me vi nele, bebendo sozinho no meio da noite. Eu costumava ir para festas apenas para beber (ou para sentir prazer (ou os dois)). Ele era bem inacessível, tanto que demorei uma semana para encontrá-lo, o que me fez pensar que ele evitasse as pessoas ou era ocupado demais. Nunca o vi sorrindo, sempre tão sério e com um olhar intenso. Eu sentia que algo nele me atraía de uma maneira incompreensível e pensei que talvez fosse por ele ser uma pessoa triste. Assim como eu era.

– Quer dar uma caminhada noturna?

Sem dizer nada, ele se levantou e eu o segui.

– Está com pena de mim?

– Não. Sinceramente, eu tô achando você parecido comigo. Sei que estou sendo intrometida, mas eu percebi que você e aquele rapaz parecem gostar de se isolar.

As luzes dos postes faziam nosso caminho. Andávamos na mesma direção, ele um pouco mais lento do que eu. O silêncio parecia mais alto que nossas vozes.

– Don precisa estar distante para pensar bem de algo. – ele me olhou. Ele nem se esforçava para disfarçar seu olhar triste. – Eu não vejo diferença entre estar rodeado de pessoas e estar comigo mesmo.

"Eu sabia!", pensei, apesar de ser tão óbvio. Eu tinha vergonha dos meus sentimentos e planejava esconder eternamente que vivia deprimida. Samael não escondia, mas esse jeito podia ser confundido com uma personalidade reservada ou até soberba. Eu só notei porque sabia o que ele sentia. É bem mais fácil entender uma pessoa quando você passa pela mesma situação que ela.

– Eu também afasto as pessoas. Cada pessoa é um mundo e mundos são tão complexos, você nunca sabe o que pode ter neles. Eu mal consigo lidar com meus problemas...

– Não é bom aumentar problemas pequenos.

– Todo mundo sente que seu problema é maior que o dos outros. É como quando se está na escola: imagine uma pessoa ótima em matemática e péssima em português, ela sempre vai achar que quem é ruim em matemática é burro e quem é bom em português é um gênio. A verdade é que cada pessoa é de um jeito, o que é simples pra você pode ser complicado pro outro.

– Você realmente pensa assim? Se você tiver perdido um braço e vê um desconhecido chorando porque arranhou a mão, você vai consolar aquela pessoa?

– Acho que é importante se preocupar comigo primeiro, já que perder um braço pode ser perigoso. Mas, me conhecendo, acho que eu ignoraria meu braço e iria procurar um antisséptico para aquela pessoa.

– Por que você se preocuparia com um estranho?

– Eu me perguntaria se aquela pessoa tem uma família pra se apoiar. Às vezes é mais fácil receber ajuda de um estranho.

Ele parou na minha frente e mostrou seu olhar intenso. Balançou a cabeça, concordando, e apertou os lábios.

– Por que isso acontece?

– Não tenho a mínima ideia.

Nós rimos da nossa própria desgraça. Sei porque a risada dele foi tão sofrida quanto a minha. Ele me ofereceu o vinho e aceitei. Continuamos caminhando em silêncio até terminarmos a trilha.

– É estranho você ter alguma semelhança comigo, mas de certa forma é reconfortante. Você é uma das poucas pessoas em anos que consigo conversar.

"É ótimo ter um parceiro no infortúnio", pensei e não disse nada. Nos despedimos e nem lembrava que a princípio me aproximei dele por causa de Lianne.

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