Purgatório

— Tudo bem, senhor Andersen. — A garota disse, enquanto finalizava o novo padrão das bandagens que formavam um curativo no ombro do idoso sentado à sua frente. As faixas brancas de tecido corriam com a pele ressecada do senhor, e faziam uma trava final quando se encontravam por baixo de sua axila. — Já acabei.

Assim como ele, outros esperavam pacientemente por auxílio e atendimento médico, sentados em uma fila no batente daquele corredor. A pouca luz que existia mal conseguia iluminar aqueles rostos de adultos, sozinhos ou acompanhados de filhos, que se espalhavam pelo lugar. Em unanimidade, cansados, sujos e doentes.

Aquela era uma pequena parcela de toda a população escondida por entre aqueles corredores abandonados e mal ventilados. Seres tão inferiores e indesejados como aqueles que rastejavam por entre a escuridão e as paredes.

Estavam em apenas um dos corredores daquela estação subterrânea abandonada. No passado, aquela era a principal rota de ligação entre o Segmento A e o Meridiano. Há quase uma década, um terremoto foi responsável pela criação de uma profunda ravina capaz de engolir trilhos, salas de comando e dezenas de cabines de ferro. A parcela pobre e negada de Delta usou desse acontecimento para a criação de um lar. Ainda eram indesejados, mas era uma situação diferente quando os indesejados viviam em um lugar só e a NUVEM não precisava se responsabilizar mais por aquela raça.

Assim nasceu os inferiores. Dominando uma área abandonada para viver. Usando as salas destruídas que restaram para a organização de recursos e criando salas novas, principalmente quartos, nas paredes da enorme ravina, todas suspensas e agrupadas nas rochas imóveis.

Aquela mulher era a responsável pelos primeiros socorros daquelas pessoas. Muitos se feriam por acidente, o trabalho braçal de construção e limpeza era pesado e cabia para cada um dos habitantes daquele buraco. Os entulhos de concreto e metal eram a floresta daqueles colonizadores. Escadas arruinadas, paredes com infiltrações, mofo e outros fungos nas paredes, nos tetos e em suas peles. Os animais escondidos, infecciosos e peçonhentos, era a fauna a ser dominada e conquistada. Já outros, se feriam de forma proposital. A taxa de suicídio daquela população sem sol era alta, todos sabiam disso, não havia como esconder. A tristeza reinava naqueles corpos, não vivendo, mas sobrevivendo.

— Lilian? — A voz do homem se torna presente com um eco avassalador de fundo, fazendo todos o observarem enquanto se aproximava da mulher, que permanecia agachada na mesma posição, com certa velocidade. — Sabia que estaria aqui. Precisamos conversar.

Ela para imediatamente o que fazia, dando apenas um sinal de cabeça para a mulher que era a próxima naquela fila. Ele leva a garota até uma sala a três corredores de onde estavam, fechando a porta logo em seguida.

— Pensei que fosse me chamar no início da noite. — Ela diz, soltando seus cabelos negros e desgrenhados, presos no coque que usava, permitindo-os a liberdade de cair e tocar a pele de sua nuca.

— Esse era o plano inicialmente, mas não podemos mais esperar. — O homem fala com cuidado, se apoiando com uma das mãos na mesa mais próxima. Sua pele escura se intensificava com a iluminação fraca do ambiente. Era alto e não apresentava nada em sua cabeça além de uma cicatriz profunda no início do nariz que cortava suas bochechas. Seu olhar era alterado. Aquele era ele, mas acompanhado de mais substâncias. — Eu não creio que teremos tanto tempo, de qualquer forma.

A garota se aproxima dele sem perceber. Devia ter por volta de seus 25 anos de idade, aparentando menos por causa de seu rosto.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que teremos de iniciar o corte da população. — Ele diz de uma vez. Sabia que fazer rodeios jamais funcionava com a morena, e aquela vez não seria diferente.

Ela parece perder o ar que segurava nos pulmões por um momento. Os olhos arregalados, as sobrancelhas arqueadas, a garganta seca pelo ar que puxou com a boca aberta.

— Um racionamento, Edward? — Eleva o tom de voz gradualmente. Algumas das pessoas que estavam na fila para atendimento olharam em sua direção quase que imediatamente. — Enlouqueceu?

— Será um sacrifício necessário, Lilian! — Ele rapidamente colocou a mão livre na boca de Lilian, que se espanta com o avanço daquele homem em sua direção. Seu tom de voz ainda era urgente, mas mais singelo, como um sussurro só para os dois. Um segredo. — Já verifiquei os níveis de nossos alimentos e o que temos nos alimenta por cerca de três dias. TRÊS DIAS! Precisamos de mais tempo.

Ela parece não acreditar. Empurra a mão dele para longe de seu rosto, já que odiava quando ele fazia isso, e acaba encostando seu corpo na parede mais próxima para pensar, repensar, planejar.

A falta de alimentos era uma realidade daquele lugar, a garota sabia disso. Apesar das inúmeras missões realizadas pelos mais jovens em busca de suprimentos, e o apoio da Resistência sempre que podem, mesmo assim não era o suficiente. O número dos habitantes do subsolo crescia cada vez mais e os indicadores estavam explodindo. Além da reprodução dos membros existentes, novos inferiores eram recrutados dos casos de extrema pobreza das ruas, ou sobreviventes de Colheitas. Era um crescimento exponencial. Tudo faltava.

Ela olha para ele de relance. "Até mesmo humanidade" ela pensa.

Lilian observa então os demais naquele corredor estreito e abandonado. O olhar cansado, doente e suicida que muitos tinham, sem nenhuma esperança de sobreviver, seja pela fome, seja pela dor, seja pelo futuro racionamento populacional. Alguns dos integrantes mais doentes sabiam que seriam os primeiros da lista, já os mais velhos, tinham a certeza.

Mas isso não significava que precisam se tornar assassinos.

— Edward... — Ela apoia suas mãos nos ombros dele. O tom de voz mais calmo que de momentos atrás. — Não faça isso. Como sua conselheira, reprovo essa atitude.

Ele revira os olhos.

— Não precisamos fazer isso. — Ela continua, seus olhos azuis buscavam os olhos castanhos de seu comandante. — Já passamos por momentos difíceis antes. Já passamos por catástrofes, e agora estamos bem. Não precisamos fazer isso. Por favor.

Edward retira as mãos dela de seus ombros, afastando seus corpos.

— E é por ser a conselheira, que não possui o poder completo. — Diz, seco. Leva a mão a qual tocou a pele de Lilian para o tecido escuro de sua jaqueta, como se limpasse as células dela de si. — Era para me apoiar nesse momento difícil. Fazer seu papel de braço direito do líder dos inferiores. Não conseguiremos passar desse momento. A sorte não está mais do nosso lado.

Ela relaxa os ombros, ainda chocada com as palavras do homem. Jamais falara nada parecido com ela daquele jeito.

— Certo. Faça o que achar melhor, senhor comandante. — Ela diz em um tom pesado, crítico e audacioso. Também gesticulava com os braços, apontando um dedo para o peito do seu superior, podendo sentir os espaços intercostais em seu tórax magro. — Não é o que sempre faz? O melhor para o seu povo? Vá e faça o que Edward Nuevo sempre fez. O melhor para os inferiores.

Então ela sai pela porta com velocidade, deixando-o lá. Sabia que não devia ter dito aquilo. Às vezes brigavam, mas nunca desistia de seu ponto de vista até entrarem em um acordo.

Enquanto corria para o corredor abandonado mais próximo, fazia seu melhor para segurar as lágrimas. Desde que se tornou a vice-líder, a conselheira de Edward, sempre demonstrou seu poder nas decisões finais. Aquelas palavras estavam corroendo seu corpo e sabia que não poderia se deixar levar com aquilo. Aquele ainda não era o fim.

Nem o seu, nem o de mais ninguém.

Ela já tinha passado por perdas suficientes nessa sua nova vida para aceitar outra derrota causada exclusivamente pela NUVEM.

— Senhora Lilian Clo? — Um jovem na faixa dos treze anos de idade se aproxima da garota sem que ela percebesse, sequestrando-a de seus pensamentos. Logo retoma a postura ereta com a presença inesperada. — Não vai para o salão principal?

A mulher observa o pequeno garoto. O cabelo bagunçado, desgrenhado e sujo. Situação semelhante à de suas roupas, uma blusa de listras amarelas desbotadas, e uma bermuda cinza, descalço. Então observa a direção pela qual o garoto surgiu, um dos corredores provenientes do salão principal, área mais próxima da entrada da estação de metrô abandonada.

— O que está acontecendo lá, meu querido? — A respiração ainda descompassada, bem como as batidas de seu coração.

— O comandante está fazendo um pronunciamento oficial. — O garoto responde rapidamente, evitando seu olhar. — Pensei que gostaria de saber.

Um aperto no coração é tudo o que ela sente enquanto corria por entre corredores e mais corredores. Edward já iria pôr em prática aquele plano?

Tinha que impedir.

Tinha que ganhar mais tempo.

Uma multidão já se encontrava aos pés daquilo que mais parecia um palanque, mas feito de uma das colunas de concreto e metal derrubadas do salão. Alguns dos inferiores sussurravam uns para os outros a fim de descobrir o motivo daquela reunião, mas ninguém tinha como saber o plano que apenas o comandante e a conselheira dos inferiores conversavam nas últimas semanas. Edward Nuevo estava se preparando para falar.

— Perdoem a interrupção, senhoras e senhores! — Ele inicia seu pronunciamento. Sua voz projetada e propagada pelo eco que era criado pelos corredores infinitos, pelo túnel principal da estação, e pela ravina sem fundo que lhes proporcionou um lar. — Prometo que o que direi é de interesse comum.

Lilian passa a entrar mais por entre a multidão a fim de alcançar o palco. A população de inferiores era de centenas e mais centenas, e nem todos estavam ali ainda. Vinham em passos lentos de outros corredores infinitos, como almas no purgatório. Não conseguia imaginar como foi possível que tanta gente fosse avisada tão rapidamente. Talvez não tenha percebido quanto tempo ficou presa em seus próprios pensamentos.

— Já é de conhecimento geral a nossa escassez de alimentos. — O homem continua. — Mesmo com o aumento de buscas, continuamos com pouco estoque de suprimentos. As equipes já vasculharam todas as residências abandonadas em um raio de quilômetros. Saquear não é nosso forte, já que não temos equipes de batedores treinados, e não queremos a atenção da NUVEM, mas conseguimos sempre que possível. A nossa colheita de vegetais não é o suficiente também, nada é. Algo deve ser feito imediatamente e, após analisar todas as opções, percebi a única saída.

— Não, Edward! — A garota chega o mais próximo que consegue e grita, adquirindo atenção. Tentava passar por entre aqueles corpos mortos-vivos, mas era lenta, não conseguiria chegar ao palanque. — Precisamos de mais tempo, não devemos...

— A situação necessita de uma medida rápida para resultados imediatos - Ele a ignora completamente, retomando o discurso e a atenção da multidão. — Então...

Um estrondo.

Um som estranho vindo do fundo do corredor massivo é ouvido por todos, levando à entrada daquela estação abandonada de metrô onde estavam. Mais parecia uma batida oca e metálica. As pessoas se entreolham, sem nenhuma explicação aparente do que poderia ter sido. Lilian usa desse momento para avançar ainda mais, e consegue chegar aos pés de Edward. Após o susto, o barulho retoma mais uma vez, como um alarme.

A multidão de habitantes seguiu em passos lentos na direção do som, acompanhando os passos rápidos de Edward e Lilian, que seguiam na frente em passos rápidos e curiosos.

A fonte daquele som metálico e oco estava escondida pelos raios solares que vinham do mundo real. Somente quando a visão foi acostumada com a luminosidade que foi possível ver pela primeira vez do que realmente se tratava: uma van branca com listras e símbolos azuis estacionada na entrada abandonada e esquecida que era aquele buraco. O símbolo da NUVEM presente na frente e nas laterais do veículo, com a frase "Ração Militar Reserva" escrita nas portas traseiras. Não existia sinal de motorista, uma vez que nem mesmo uma cabine com volante e controles se fazia presente. Era um dos veículos totalmente autônomos, apenas para transporte de carga.

E pelas janelas, era possível ver o que mais parecia um banquete sem fim de sacas brancas e cheias do alimento desenvolvido para os soldados da NUVEM. Valor nutritivo e energético altíssimo.

Apesar das centenas de pessoas, o único som que ali havia era o eco do alarme que retomou.

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