Invisível
Mais uma vez, na mesma faixa de horário dos últimos dias, um caminhão carregado de recursos da NUVEM aparecia na entrada do túnel daquela estação de metrô em ruínas. Sempre o mesmo veículo automático, que transportava a mesma quantidade de caixas de mantimentos, aparecia estacionado de maneira misteriosa na porta da concentração dos membros inferiores daquela sociedade, que moravam nas partes inferiores da cidade acima de si. Desde a noite anterior, uma equipe esperava preparada para abordar algum membro da NUVEM que acompanhasse o veículo, mas nenhum agente nunca esteve presente.
Antes mesmo de chegar ao local, as pessoas já descarregavam as caixas de produtos para os armazéns dispostos no subterrâneo daquela estação. Depois de algumas horas aquele veículo será encaminhado para um cômodo interno, assim como os outros três passados, deixados ali até segunda ordem do comandante. Poderiam utilizar de alguma forma as peças de seu maquinário, ou do acolchoado de seus assentos, ou dos grandes pneus ou metais que o acompanhavam, ou do combustível presente em seus tanques cheios. De qualquer forma, aquele veículo era muito mais útil do que apenas uma forma de transporte, principalmente para aquelas pessoas que não tinham nada.
Não tinham um lugar confortável para descansar a cabeça depois de um dia péssimo. Não tinham como se aquecer de uma noite fria, ou de uma inundação sem os sistemas hidráulicos. Além de não terem quase nada para comer, para se proteger, para se cuidar. Homens e mulheres, grávidas e idosos. Crianças.
Fome.
Doença.
Guerra.
Morte.
O corte da população foi evitado. As pessoas agora recebiam uma quantidade considerável de alimentos e medicamentos, esses nunca foram vistos antes. Até algumas centenas de tris foram encontrados no meio das várias caixas de mantimentos, mas nenhum carro possuía algum vestígio de motoristas ou soldados. Nem mesmo algum sinal de rastreadores, alarmes, armadilhas. Não havia nada.
Eram presentes, que anunciavam sua entrega com alarmes altos e luzes piscantes.
A garota de cabelos dourados e desgrenhados permanecia ali, com a lateral do corpo recostada na parede, de braços cruzados contra seu torso. Seu olhar permanecia fixo na van branca e azul, com o grande símbolo da organização inimiga.
Algo estava errado, disso tinha certeza. Nunca tinham recebido nenhum apoio da NUVEM em nenhum momento. Já houveram instâncias em que algumas pessoas eram queimadas vivas nas noites mais perigosas. Não eram casos isolados também, e não tinham um autor para culpar. Às vezes era um soldado da NUVEM, com casos de linchamento de inferiores por militares. Às vezes, um pai de família, com casa e trabalho constituídos, que aproveitou a situação para descontar sua perversidade em uma alma menos afortunada que a sua.
Algumas das características desse grupo é que eram formados por pobres, a maioria idosa ou doente, abandonada devido às regras de convivência da sociedade. Em sua maioria, resistente ao processo da Colheita.
Quase todos aqueles corpos frágeis e cansados de sobreviver eram imunes ao roubo de memórias, sendo essa a principal preocupação da NUVEM. A organização então os transformou em vilões através da mídia. Propagandas eram transmitidas em todo o território nacional acerca dos perigos que esses criminosos eram capaz de fazer, uma vez que não eram pessoas, e sim, mutantes descobertos pela Colheita. Agora eram deixados para morrer e apodrecer no único lugar a eles permitidos viver: Ruínas abandonadas e destruídas pelo tempo.
Lilian balança sua cabeça em um movimento negativo, perdido no escuro onde se encontrava. Esse era o principal motivo de não acreditar naquelas vans de suprimentos. Não havia motivos para começarem a se importar com a população que amaldiçoam e deixam para morrer em sua própria insignificância. Nada havia acontecido, nada havia mudado.
A mulher tentou informar ao comandante dos inferiores da possibilidade daqueles produtos estarem contaminados. Fazia sentindo, seria um genocídio em massa mais rápido e levaria ao fim do problema de forma silenciosa. Até o inferior mais saudável morreria em alguns dias se exposto às toxinas corretas.
Edward não a ouviu.
Outras teorias rondavam em sua mente como os carros estivessem cheios de explosivos ou com a presença de mementuotine gasoso, o que nas quantidades certas faria o cérebro das pessoas queimar enquanto tinham suas memórias alteradas para as de sonhos em alucinações fortes. Por sorte, e nada mais que isso, não foi o caso com nenhum dos carros de suprimentos até então.
Aquele já era a terceira encomenda e nada de suas teorias estarem corretas. Ela perdeu pontos nas reuniões, mas ainda não queria arriscar. Não ficaria feliz com o quarto carro de ração e medicamentos, podendo ser morta no quinto ou sexto.
— Você está bem? — Edward Nuevo aproxima-se dela sem que percebesse, tirando-a rapidamente de seus pensamentos. — Parece cansada.
Lilian observa-o com atenção. Usava uma camisa regata, o que fazia seus músculos aparentarem serem ainda maiores. A grande cicatriz que contava metade de seu rosto negro numa linha direta abaixo de seus olhos, era o que mais chamava atenção. Atravessava sua cabeça careca e reluzia na exposição dos faróis da van recém recebida.
— É, estou cansada. — Admite, e deixa os braços despencarem pelo seu corpo magro. Sente uma dor atravessando diferentes partes do interior de seu crânio. — Não consigo mais dormir. Os inferiores parecem felizes com tudo isso, sem reclamações. Não paro de pensar na possibilidade de todos estarem mortos caso eu acorde amanhã. Tenho pesadelos com isso constantemente.
Ele se aproxima dela alguns passos, mas respeita uma zona pessoal invisível.
— Não vai acontecer, acredite. — Ele garante, diminuindo o tom de sua voz enquanto leva uma de suas mãos para acariciar uma mecha única dos longos cabelos castanhos de Lilian. — Testei tudo em mim primeiro. Cada mordida da ração militar, cada dose de medicação, cada caixa de suprimentos. Além do fato de estarmos recebendo carga da NUVEM, todo o resto aparenta estar normal.
Ela fita-o novamente, com os braços cruzados mais uma vez contra seu corpo rígido.
— Espero que não tenha dito isso para não me preocupar. — Ela afirma, dura. — Fez exatamente o contrário.
Ele ri alto, trazendo-a para um abraço completo.
— Ah, Lilian... — Ele sussurra entre um sorriso amarelo. Nesse momento, eles se afastam poucos centímetros, e ele consegue ver os olhos castanhos quase do mesmo tom que o seu próprio. — É bom saber que se preocupa comigo. Mas eu, como comandante dos inferiores, sou responsável pelo meu povo. Vá descansar agora, tudo ficará bem.
Ela sorri também, mas bem brevemente. Tinha uma relação muito específica com o comandante dos inferiores. Como Lilian Clo, mais um membro dos inferiores, ele a via como igual, com preocupações iguais de cuidar do povo que decidiu acompanhar para um futuro maior. Como Lilian Clo, conselheira do comandante, ele poderia ser bastante difícil de suportar. Era uma boa pessoa, de modo geral. Mas "modo geral" não significa "sempre". Aquele era um momento do modo geral. O que a preocupava era quando estava fora desse modo, principalmente quando abusava das bebidas alcoólicas. Edward conseguia ser uma pessoa completamente diferente quando queria algo que ninguém poderia lhe dar.
Enquanto ela se dirigia para seus aposentos, não parava de pensar no pior e como poderia evitá-lo. E o pior era muito pior que o que qualquer carro cheio de mantimentos, soldados ou gases tóxicos poderia oferecer.
Iria descobrir o que estava acontecendo, disso tinha certeza.
Mais certeza que a dor que sentia ao cair no sono e sonhar, tendo pesadelos que nunca foram sobre todos estarem mortos quando acordasse.
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