Frio e Água

Os passos da garota eram rápidos, acostumados, precisos, e eram acompanhados pelos de Ethan, que observava atentamente para cada detalhe de tudo ao seu redor, logo atrás de si. Seja dos degraus de cimento às plantas entrando por entre as aberturas do que poderiam ser as janelas daquela torre deformada no meio de outros tantos prédios abandonados.

As mãos do garoto permaneciam junto à gola de sua blusa, pressionando o corte em seu pescoço. Um pouco de sangue conseguiu atravessar a barreira dos dois dedos que pressionavam o ferimento em sua pele, umedecendo-os em suas laterais e por baixo de suas unhas. Agora, eram mais uma cobertura de células abandonadas para morrer, secando lentamente em uma cor escura.

"Ela realmente cortou". Os pensamentos, mais uma vez, voltam ao exato momento em que a lâmina fria do canivete ameaçava beijar suas células. Não sentia dor alguma, mas serra sua arcada dentária superior nos dentes debaixo, sua língua aprisionada dentro daquela caixa. A respiração voltou a acelerar. Bem próximo a si, o rosto delicado de pele clara e longos fios negros não conseguiram puxar a atenção que os olhos cor de céu nublado dela tinham. A ameaça que sentiu dentro daquele olhar. A partir daquele momento, sabia que não poderia duvidar de nada que viesse daquela garota.

Chegando ao primeiro andar, Samantha dobra no corredor à direita, pausando seus passos quando expõe duas entradas no final

— Temos vários quartos na Torre. — Ela inicia, ainda de costas para ele. Ethan conseguiu notar que, apesar de seu corpo estar estático, os fios cacheados e castanhos da garota mantiveram certo movimento. — Mas também somos muitos, então os dividimos. Não seria possível que nossa base de trabalho fosse apenas dormitórios. Não estamos em um hotel.

Ela põe a mão em um de seus bolsos e retira uma chave de lá. Simples, mas antiga, com sua base circular expondo com orgulho diferentes círculos enferrujados. Os passos retomam sua marcha até a porta no final do corredor e a abre, iluminando o ambiente interior com a luz fraca daquele corredor. Quanto à estrutura do chão e das paredes, o que conseguia ver era uma cópia do restante dos demais cômodos que já esteve da Torre. Camadas grossas de concreto áspero acompanhavam a silhueta da porta de madeira para o interior escuro. A garota que estava seguindo então vira-se a fim de conseguir observá-lo de frente.

— Eu divido o quarto com o James January, você conhece? — Depois de receber um aceno positivo, continua. — Pois é, com o pedido de Thomas para que eu o acompanhasse, agora você vai entrar pro nosso clube também.

— Mas vocês são...? — Ele inicia a pergunta mas não a completa com medo de estar sendo invasivo demais. Não a conhecia, assim como não conhecia mais ninguém. Não lembrava de como se comunicava anteriormente de ter seu lapso de memória, mas imagina não possuir habilidade social alguma com primeiras impressões. Ao menos aquela versão dele, sujo e perdido na frente da garota resistente, não possuía. Ao o modo como ele parou de falar, a garota de pele negra abre um lindo sorriso para o alto.

Ela fechava completamente os olhos ao sorrir, assim como esbanjava sua dentição perfeita enquanto o fazia. Esse detalhe ficou preso na mente de Ethan por um momento mais longo que o necessário.

— Não, nada disso! — Então o fita, ainda rindo de lado. – Tive muita sorte. Geralmente o JJ é responsável por vigiar a Torre, então ele organizou seu quarto fora daqui, como se fosse uma espécie de acampamento. Durmo sozinha desde então.

Ela abre a porta por completo e descansa suas costas na madeira, rente à entrada. Ethan permanece do lado externo.

— Vamos, entre! — Ela diz após realizar um movimento exagerado com a cabeça. Então, leva a mão direita para atrás de si, e a esquerda apontando para o interior do ambiente mal iluminado. Completa o movimento com a cabeça alguns ângulos virada para o chão. - Mi casa es su casa.

Ele entra, o que ativa o sensor de movimento no centro do ambiente e, finalmente, a lâmpada ao seu lado é acesa. O quarto era bem mais amplo que imaginou inicialmente. Três camas, uma em cada parede do lugar, sendo uma ao lado da janela redonda na parede, possuindo uma pequena cômoda deita do mesmo material da porta. Um grande tapete preto estava no centro, quase completando totalmente o chão de concreto. Nas camas adjacentes à porta, algumas mochilas e roupas espalhadas, juntamente com dois ou três livros abertos no total. Uma escrivaninha se fazia presente no canto à noroeste da porta, juntamente com uma luminária própria, cadernos de folhas usadas e mais livros.

— Sua cama é a da janela. — Ela informa sem apontar para a cama em questão. Um pequeno travesseiro descansava sob o tecido que abraçava o colchão. — Se quiser dormir agora, tudo bem. Seu primeiro dia foi bem cansativo e tumultuado. Amanhã pela manhã podemos conversar.

— Obrigado, Samanth...

— Sam. — Ela o corta antes que pudesse terminar. — Pode me chamar só de Sam.

Ela sorri. Ethan tenta dizer algo, na verdade, mas sente uma pontada em seu pescoço, impedindo-o. Mesmo assim, tenta não transparecer pelo sorriso que devolve à garota.

— Acho que vou descansar um pouco, caso não se importe.

Ela encena um cortejo exagerado, curvando e erguendo seu corpo de forma teatral, com um movimento lento de sua mão até a cama. Não precisou dizer nada para que roubasse outro sorriso do rapaz. Mas, mesmo entre sorrisos e brincadeiras, aquela ação de respeito o desconforta por um motivo que não saberia explicar caso perguntassem.

Sam deixa o Ethan em seus pensamentos confusos sozinhos quando caminha até a porta atrás de si e a abre. Ela encara os olhos azuis do rapaz próximo a cama paralela à porta, então sorri uma última vez.

— Você é engraçado, Ethan. — É o que diz antes de sair e fechar cuidadosamente a porta.

Ethan retira seus sapatos empurrando-os com os calcanhares e deita na cama, observando, além da pequena janela na parede de concreto, a noite estrelada.

* * *

Água.

Água mais uma vez.

Mais uma vez, seu corpo estava no fundo da água, mas não conseguia se mover.

Em movimentos desesperados, tenta mover seus braços e pernas contra a gravidade, mas só conseguiu olhar para cima.

O brilho do sol estava do outro lado daquela prisão de líquidos.

E a luz da superfície se tornava cada vez mais distante.

Frio.

Sentia frio.

Sentia frio e água.

* * *

Pela segunda vez naquele dia ele acorda sem ar, inclinando o corpo para a frente de uma só vez. A respiração descompensada, seu corpo suado e as mãos trêmulas denunciavam que não passava de um pesadelo.

Leva a mão à própria testa. Depois as duas antes de inclinar-se contra seus joelhos. Fecha os olhos enquanto tenta retomar uma respiração normal. Tudo estava bem agora.

Ele olha ao redor e tudo estaria no mais completo breu se não fosse a janela que mais parecia uma claraboia acima de si. Vê Sam deitada em sua cama, coberta por diferentes mantas, mas mantendo seu rosto à mostra, um sorriso em seu calor confortável. No outro lado, cama de JJ ainda vazia, o que acaba se perguntando que horas já eram.

A dor em seu pescoço volta. Se inclinou rápido demais.

Ele se levanta, tocando seus pés recobertos por meias de lã branca no chão gelado. Vai até a porta. Do lado de fora, as luzes dos corredores permaneciam acesas. Alguém poderia ainda estar acordado por algum daqueles corredores. Ele caminha em passos lentos, mesmo sabendo que não fazia som algum por causa das meias. Sabia também que estava à procura de algo, mas não sabia ao certo o quê.

Encontra as escadas, então as sobe. Era completamente idêntica às primeiras dos andares inferiores. Ethan para no meio dos degraus e observa o céu além da janela. Era madrugada, talvez duas ou três da manhã, não tinha como saber com a lua em sua fase nova. Sente o vento frio tocar sua pele e bagunçar seu cabelo. A noite lembrando-o o quão ambos estavam acordados.

Quando chega ao andar superior, encontra uma área de serviço, também com as luzes acesas, porém piscantes. Vassouras, panos soltos e armários entreabertos davam vida ao lugar. Ele se aproxima, sempre verificando se alguém estava próximo.

Nada.

Chega mais próximo à pia de granito que se encontrava lá. Tira a blusa que vestia e observa a mancha vermelha na gola branca, descendo pelo pescoço para o tronco, mas mantendo uma grande mancha seca na área do ombro. Além de toda a terra, lama e pequenos restos de folhas que decoravam o tecido. Estava imundo. Por um momento se pergunta como foi capaz de deitar na cama naquele estado, mas logo se lembra da exaustão que ainda o assombrava. Coloca cuidadosamente a peça de roupa na pia e gira a torneira de metal.

A água era fria e dançava no tecido, encharcando-o rapidamente. Sente a corrente de água por entre os dedos e lava suas mãos primeiro, retirando o sangue seco guardado por detrás das unhas.

Passa a esfregar a gola numa área ondulada da pia, repetidas vezes. Com a exaustão que tinha desde quando emergiu daquelas águas escuras, os músculos de seus braços pareciam queimar. Ele a levanta à altura dos seus olhos para ver se seu sofrimento estava obtendo êxito.

Nada.

— Esse sangue não sairá tão fácil quanto parece. — A voz era de Ariadne Hope, e ela estava atrás de si. A garota de cabelos negros e raspados na lateral se aproxima do garoto na pia. Ele prende o fôlego pelo susto, o coração em palpitações, mas quando percebe, volta a respirar. — Não conseguiu dormir também?

Ethan apenas assente em silêncio.

Ela estava com suas costas apoiadas na porta de madeira, metros de distância. Vestia roupas de cores semelhantes às que a viu horas atrás, mas bem mais confortáveis. Um conjunto de peças moletom na cor preta, com a blusa de mangas longas ao menos dois tamanhos maiores do que o seu corpo pedia.

— Meu irmão me contou que lhe cortei. — Ela sussurra lentamente, como se o comentário fosse para si mesma. — Quero que saiba que não foi minha intenção.

Ele finalmente a encara.

— Tá bom, tá bom! — Ela levanta os braços em rendição com o olhar do rapaz. — No começo foi, mas até antes de ver a assinatura em seu braço. Te cortei sem querer depois.

Tudo aquilo era muito confuso. Ethan se vê mergulhado em pensamentos novamente, com tantas perguntas em mente que acaba esquecendo de buscar respostas verbalmente. Toda aquela situação parecia ainda parte de seu sonho. Da água ao acampamento militar. Do carro à Torre da Resistência. Do quarto àquele pequeno cômodo mal iluminado. Era tudo muito confuso.

Vendo que a blusa branca permanecia indo de um lado para outro nas mãos do garoto, ela pega a roupa de suas mãos e toma as rédeas. As mangas compridas do seu moletom na altura dos cotovelos para que não fossem molhados. O silêncio apenas quebrado com as batidas do tecido contra o granito.

— Ethan, desculpe pelo meu ataque de mais cedo. — Suas palavras são lentas e calmas, demonstrando sinceridade. Seus olhos eram iguais aos de Thomas, mas na pouca luz se tornava um cinza sincero. — É que não é todo dia que se encontra alguém com seu sobrenome e pensei que fosse outro cretino querendo me fazer de idiota.

Ele quase morreu por causa de um sobrenome.

McAllen.

O pensamento da lâmina cortando seu pescoço o faz sentir um frio que percorre todo o seu corpo. Um frio que não pertencia à noite.

E estava vivo pela marca em seu braço.

NUVEM.

— Qual o problema do meu sobrenome? — A pergunta foge antes que ele pudesse contê-la, quase que instantaneamente.

Ela o encara. Seus olhos demonstram um tipo de surpresa que ele não esperava.

— Você não se lembra mesmo, não é?

Ele apenas movimenta a cabeça em forma negativa. Ela suspira, mas ele interpreta como um suspiro de alívio.

— Para falar sobre esse assunto, precisaremos de mais tempo e espaço do que temos na frente de uma pia da área de serviço. — Ela se vira e o fita novamente, aprofundando os olhos azuis do garoto. — Mas em resumo, seu sobrenome tem um grande histórico nesse país e na NUVEM.

A NUVEM.

Mais uma vez ele ouviu essa palavra em poucas variações de tempo. Como se já não bastasse ter acordado com esse nome gravado em sua pele, agora seu sobrenome também estava relacionado. Só poderia ser uma perseguição.

— Um histórico ruim. — Ela finaliza, novamente em um tom tão baixo que talvez a intenção fosse que Ethan não ouvisse. Um sussurro de pensamento que fugiu de algum lugar profundo da mente daquela garota, e que pertencia somente à ela.

Mas ele ouviu. Seu olhar cai para seus próprios pés, como se estivesse envergonhado de algo que não tinha certeza que tinha cometido. Respira profundamente e volta seu olhar para cima.

Ele não desistiria até encontrar todas as respostas.

— Aqui está. — Ela levanta a camisa de manga longa completamente encharcada para que o garoto possa ver. O tecido mostrando sua pureza contra a luz baixa do ambiente. — Não está novinha em folha mas já é algo melhor do que estava antes. Agora é só esperar secar.

Ela lança a blusa na direção dele, fazendo-o segurar desajeitadamente com um movimento repentino e um baque oco. Sente a troca de temperatura entre a umidade da roupa e o calor de seu abdômen despido. Com todos os pensamentos em sua cabeça, não tinha percebido que estava meio despido na frente dela, e então se sente envergonhado, desconfortável e embaraçado, tudo de uma so vez. Sente seu rosto ruborizar contra o ar frio daquela sala.

— Acho que começamos com o pé esquerdo, novato. — Ela o encara e estende a mão, sem forçar um sorriso. — Sou Ariadne Hope.

Com a mão livre, ele segura a dela, devolvendo a saudação.

— Sou Ethan McAllen.

Vendo a blusa ainda no tórax despido do rapaz, e a forma desajeitada com que segurava o tecido, ela toca sua pele repetidas vezes com o indicador, antes de se retirar.

— Aconselho que não vista isso hoje, se é o que está pensando. Aqui faz frio à noite. — Então sai pela porta, deixando-o acompanhado apenas da lâmpada piscante da área de serviço.

Ele olha para sua camisa e sorri, estendendo-a abertamente num pequeno espaço livre de um varal distante. Depois, sai pela porta também, rumo ao seu quarto.

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