Enter
Não era a primeira vez que fazia aquilo, mas todas as vezes poderiam ser a última.
Códigos binários preenchiam janelas abertas na tela do computador à sua frente. Seus dedos eram estavam espaçados e digitavam rapidamente diferentes sequências formadas de zeros e uns. Com o polegar posicionado no botão de espaço, mantinha um padrão na construção de janelas, que abriam e fechavam com alguns comandos. Depois de mais tentativas de derrubar aquela parte do sistema, finalmente uma tela cinza se abre. O desenho já era conhecido. Um triângulo equilátero, que comportava outros quatro triângulos menores dentro de si. Era um Atlas. Mostrava diversas linhas azuis cortando o mapa de Delta, mas todas com origem comum no triângulo central.
O Meridiano.
O Complexo da NUVEM recebia todas as cargas que eram encaminhadas dos Segmentos para o Meridiano. Servia como porto da catalogação de entrada e saída dos carregamentos. Tudo passava por ali.
Uma das tecnologias mais usadas pela NUVEM era o veículo autônomo, um caminhão controlado automaticamente pelo sistema, sem a necessidade de um controle manual como em carros com agentes. O índice de ataques a caminhões cargueiros diminuiu para praticamente zero quando uma segunda van de soldados fazia a escolta dos mantimentos. Afinal, eles estavam assegurando a alimentação de seu pelotão. A comida de um soldado eram seu castelo, e ele era o rei.
A carga era transportada via conexão com o sistema da NUVEM.
O sistema que estava à sua frente, e que tinha total controle sobre.
Aiden Bock estava diante daquele computador. Agora, com o sistema temporariamente inativo, teria que se apressar. Rapidamente, consegue marcar um automóvel isolado no mapa e redireciona sua rota original. Uma nova aba se abre, mostrando um segundo Atlas apenas com a área dos Segmentos passíveis de serem selecionados. O Meridiano sempre seria o ponto de origem. A localização é dada por coordenadas em x, y e z no plano. Coordenadas essas que ele sabia de cor. Mais alguns códigos. Enter. É encaminhado para uma zona marcada em vermelho. Uma zona que era impedida de ser selecionado enquanto o sistema estava estabilizado.
Enter.
A zona de quarentena do Segmento A.
Enter.
A entrada da sede dos inferiores.
Enter.
Não demora muito para que a rota seja redirecionada para o novo alvo. O ponto trocando seu local de chegada é visto até outra janela ser aberta na frente do Atlas selecionado. Pedia alguma senha de acesso ou código para atualizar as diretrizes. O sistema da NUVEM havia sido reiniciado bem a tempo. Apenas fechou a página e desligou a tela. Seu trabalho ali estava feito.
Passou a mandar caminhões de suprimentos limpos para os inferiores já há cerca de um mês. Trabalhava usando a rotina pré-estabelecida pela NUVEM contra ela mesma. Era sempre a mesma carga, no mesmo horário, com a mesma carga, de um veículo automático que ainda não havia sido inspecionado pelos soldados do Complexo. Era como se aquela carga jamais existisse. Assim não seria detectado facilmente pelo sistema.
Obteve sucesso nos últimos dias.
Estava lá quando dois rapazes foram fuzilados por Ivan, seu superior nas operações da NUVEM. Eram inocentes e agora estavam mortos e esquecidos ladeira abaixo naquela montanha. Seus corpos podres soterrados em lama e sangue. Após a Colheita mais recente, nem mesmo suas famílias sabiam que existiam.
A NUVEM sabe de tudo.
— O que está fazendo aí, soldado? — A voz era de Ivan Terry, o motorista e chefe de sua unidade móvel da NUVEM. Ele estava do outro lado daquela sala, olhando-o nos olhos. Suas sobrancelhas anguladas sempre fixas na testa o tornavam ainda mais amedrontador.
Aiden levanta-se rapidamente da cadeira onde estava sentado. Não poderia demonstrar estar nervoso. Se coloca em posição de contingência, a lateral da mão aberta tocando-lhe a testa, enquanto o homem fardado adentrava a sala. A fila de computadores ao seu redor gritava em códigos binários incompreensíveis enquanto o sistema reiniciava. Era um alarme em sua cabeça. A mandíbula rígida mantendo o corpo inteiro em pé. Poderia ser ele o próxima a ir parar na ladeira, decompondo ao poucos no esquecimento de todos. Sua mão já escorregava de sua pele devido o suor na testa.
— Me responda quando falar com você, soldado! — Sua voz cortava os pensamentos de Aiden como uma faca afiada. Uma das facas que seu superior de unidade usava para arremessar contra a parede em seu tempo livre. O hálito morto daquele homem era pesado ao ponto de senti-lo tocando sua garganta. Tenta repelir a vontade de vomitar. — O que está fazendo aqui?
— Estava checando minha escala, senhor. — Diz a primeira coisa que vem à cabeça. Teria que criar a história a partir dali. Respira fundo, mas durante a projeção de suas palavras. — Aguardo uma confirmação da Central de Operações Designadas em relação ao meu PSO.
Suava constantemente. Temia o que seu superior poderia perguntar. Abriu um leque contra si mesmo sem perceber.
— Abrevie o nome da Central para COD, por pertencer ao sistema NUVEM, soldado. — Ivan Terry diz, lentamente. Odiava ter que ensinar os porcos das Torres quando eram redesignados. — Mas jamais o relatório da Programação Semanal Obrigatória. Caso tenha acontecido algum problema com o seu, deveria ter me relatado. Cada agente é obrigado a passar pela nova Programação antes de voltar ao combate externo.
Sentia como se seu medo puxasse seu braço levantado da posição de sentido. A sua musculatura pesava contra a gravidade. Ivan se aproxima o suficiente para ver o sistema aberto nos computadores ao seu lado, e a tela desligada à sua frente. Algo estava errado, aquele soldado não poderia estar fazendo tudo correto. As escalas pessoais eram enviadas para o DISA, o Dispositivo Sensorial Autorizado que cada agente possuía. Um ponto de interrogação é criado em seus pensamentos, mas não tinha nada que incriminasse aquele soldado. A respiração, que não tinha percebido estar presa até aquele momento, soltava-se aos poucos conforme seu chefe se afastava.
— A COD está nos mandando para outra operação no litoral do Segmento A. — Ivan brada sem olhar para trás, saindo pela porta. — Esteja pronto em 5 minutos, novato.
Exceto por si próprio, a sala estava vazia novamente. Computadores o observavam através de suas telas, agora desligadas. Seu coração palpitava o suficiente para ser ouvido naquela sala silenciosa. Sua respiração era descompassada, mesmo com seu diafragma dolorido de tanta força que segurava contra seus pulmões.
Sabia que, por também ser um resistente à Colheita, não seria afetado pela Programação.
A NUVEM mantinha um processo de lavagem cerebral ainda mais potente em sua tropa, mantendo um hábito semanal nos agentes. A Programação eliminava toda a humanidade restante dos soldados, apagando as memórias de assassinatos em massa, abusos de autoridade e toda a sua escala de atividades, muitas delas como operações de subtração da população. Qualquer possível trauma na mente cansada daquela pessoa poderia diminuir a eficácia dos planos deturpados da NUVEM.
— Sim, senhor. — Diz sem pensar, quase de forma protocolar, antes de pressionar o botão Enter naquele teclado uma última vez, desligando a máquina.
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