Delta
Além da porta da sala de reuniões, o som de corpos se chocando, de pés e de mãos à alvos humanos ou sacos de areia presos ao teto, retoma à audição de Ethan. De alguma forma, aqueles sons remetiam a algo por entre a névoa que eram as suas memórias, mas qualquer tentativa de descobrir a sua origem era inútil, assim como da primeira vez que tentou. Eram sons quase sólidos, quase maciços. E sabia que, por mais que fosse otimista, não era o som de treinamento que o assombrava, mas sim o som de violência.
Eles caminham juntos, pé ante pé, pelo centro da longa sala de colunas, sem paredes internas. O braço do primeiro líder permanecia por sobre o ombro de McAllen enquanto andam em passadas iguais, e o garoto moreno conseguia sentir o tecido de algodão do moletom cinza do primeiro líder tocar a pele do seu ombro descoberto. Sem mudar seus passos, tenta observar o rosto de Thomas com sua visão periférica. Suas íris quase cinzas observavam todo o ambiente ao seu redor, com uma análise precisa de todos os presente. Quem estava fazendo o quê.
Quando é a vez de Ethan observar o ambiente, percebe que ainda recebia olhares curiosos, confusos.
McAllen.
Como aquele nome poderia ter tanto poder e não fazer nenhum sentido para si mesmo? Como era possível que as suas memórias não registravam absolutamente nada de antes de emergir das águas?
Sentiu uma angústia no fundo de sua garganta e teve que engolir em seco como resposta. Sentia como se fosse ninguém. Um arrepio passa pela espinha dele quando pensa no assunto. Sabia que existia e sabia que estava ali naquele momento, mas rodeado de tantos outros que sabiam quem eles eram, e não fazia ideia de quem ele mesmo era. Ele sabia que tinha uma família, mas não conseguia lembrar de seus rostos, ou de seus nomes, nada. Poderia ser muitos, assim como poderia não ter ninguém.
Então finalmente olha ao redor, para os jovens em treinamento. Tantos deles sabiam quem Ethan era, ou pelo menos imaginavam quem seria. Tantos deles sabiam que ele não deveria estar ali, ou não poderia estar ali, mas ele não entendia o motivo. Ele um dia foi alguém, tudo ao seu redor indicava isso. Alguém que, naquele momento, não era mais.
E se ele não era mais quem um dia foi, quem ele era? Uma farsa? Uma cópia? Onde estavam seus sonhos, suas motivações, seus desejos? Talvez todos eles permaneceram no fundo das águas escuras de onde submergiu. Talvez o fantasma do existencialismo humano foi a única coisa que lhe restou.
— Como foi a primeira noite? — O loiro pergunta ainda em movimento, com o olhar para frente, e salvando o garoto de afundar ainda mais de seus pensamentos.
— Curta. — Ethan responde sem hesitar.
O rapaz maior solta uma gargalhada alta. Ethan percebe que ele fecha ambos os olhos quando sorri.
— É, aposto que sim. — É o que o primeiro líder responde.
A curta caminhada deles se encerra frente a uma porta. Assim como a sala de reuniões, essa não era interna no andar de treinamentos em si. Provavelmente ambas eram salas externas, parte daquelas estruturas acopladas na torre que viu assim que chegou na primeira noite. Thomas usa a mão que descansava no ombro de Ethan para buscar algo que possa ser uma chave no bolso da calça. Quando encontra, roda a pequena base de metal que se prende à maçaneta, mas a porta é aberta antes que pudesse girá-la.
Do lado interno da sala, James January estava parado, os recebendo com um enorme sorriso em seu rosto.
— Eu não lembro de ter te dado uma cópia da chave, JJ. — O primeiro líder diz já entrando na sala.
— Você me deu há duas semanas. — JJ dá espaço para Ethan passar, depois segue para o lado do loiro. Estava com uma blusa e calça diferentes de quando o viu pela última vez. — Ou foram três?
— Mas eu troquei a fechadura ontem pela manhã. — Dito isso, eles se encaram. James olha para Ethan em seguida, sorri e levanta os ombros para ele. McAllen apenas devolve o sorriso.
Ele tinha arrombado a porta.
— Certo, vamos logo começar com isso e depois eu resolvo a fechadura, de novo. — Ele diz ao levar dois dedos à testa.
Ethan olha ao redor. O lugar estava repleto de papéis nas paredes, compassos em cima de escrivaninhas e bússolas por todo o lado. Havia uma mesa ali também, no centro da sala. Sobre ela, outra pilha de papéis e diferentes marcadores. Aquela definitivamente era a sala dos mapas, sem dúvida alguma.
O que mais chamava a atenção era o enorme triângulo encravado no material da própria mesa. Círculos em caneta demarcando áreas, cores diferentes marcavam outras. De todos aqueles símbolos, este era o mais impressionante, lotado de informações, rotas, desvios, limitações. A área maior apresentava outras quatro dentro dele, formando quatro triângulo completamente equiláteros, dentro do triângulo maior. Todas organizadas com nomes. Não havia nada além daquele triângulo na mesa, apenas diferentes tons de azul que inscreviam diferentes praias. Em destaque, em grandes letras brancas na imensidão azul, estava Oceano Nordeste, Oceano Sul e Oceano Noroeste em sentido horário, paralelo às linhas mais externas do triângulo.
De repente ele percebeu que, marcado em um ponto central do mapa, estava escrito NUVEM bem destacado. Por algum motivo, a última coisa que realmente passou em sua mente foram as nuvens do céu. Aquele era o outro nome que o assombrava desde que acordou. Como se já não bastasse o seu próprio.
Ethan se aproximou gradativamente daquele centro da sala. Cada passo mais próximo o permitia ver um detalhe novo no imenso triângulo, fosse uma linha ou um nome. Era um trabalho impressionante, e simplesmente belo. Quando percebe, suas mãos já tocavam as laterais da mesa.
— Chamamos de Atlas. — O primeiro líder se aproxima de Ethan, de forma que seus ombros se tocam por um momento. — É o mapa de Delta.
— Delta? — O moreno indaga, sem mover os olhos, deixando-os nas linhas do enorme triângulo. Não tinha uma legenda específica, mas deduz que cada linha de cor própria tinha um significado. O azul certamente era água, pelas formas desiguais e grandes linhas que cortavam todos os triângulos, bem como toda a área externa do mapa.
Tenta achar as águas de onde acordou.
— É o lugar onde estamos. Um enorme país em formato de triângulo. Cada outra área triangular presente dentro do mapa é denominada de Segmento. A torre onde estamos localiza-se no Segmento B, o triângulo do sudoeste. O do norte e o do sudeste são, respectivamente, os Segmentos A e o C. — O loiro leva a mão para a área triangular central, que está de forma invertida às outras. — Este é o Meridiano. É como se fosse a capital deste país. É aqui onde se concentra a população, os maiores prédios, as tecnologias e, nosso maior alvo no centro, o Complexo de Torres da NUVEM.
Ethan balança a cabeça positivamente, afirmando que está acompanhando cada palavra. Também acompanhava com os olhos os movimentos das mãos do primeiro líder, que dançavam conforme a explicação avançava.
— Afinal, o que é essa NUVEM? — Ele pergunta, agora olhando-o nos olhos. Conseguiu sentir a pele marcada com aquela palavra em seu antebraço ficar mais quente quando pronunciou o nome em voz alta. Leva uma mão à tinta preta somente para descobrir que o calor era psicológico.
— Nova Unidade Voltada Exclusivamente às Memórias. — O outro responde como se fosse óbvio, e depois de um tempo analisando o tom que usou, ele reconsidera. Para Ethan, nada estava óbvio. — Seu acrônimo é NUVEM. É lá onde se encontram os soldados que atacamos na noite passada, os armamentos e tecnologias que usamos. Mas principalmente, cercados da maior segurança de toda Delta, é lá onde ficam os ditadores de Delta.
Ethan claramente é surpreendido com aquele termo, o que fica bem claro pela forma que seu olhar buscou o de Thomas. Ditadores?
— Se autodenominam Fundadores. – Com a resposta imediata do primeiro líder, Ethan não sabia se sua pergunta escapou sua mente, ou se seu olhar confuso já era o suficiente para denunciá-lo. Thomas se apoia em apenas um braço na mesa do Atlas. — Foram os antepassados deles quem fundaram a NUVEM. Tudo começou como um projeto de inovação científica, e hoje são os responsáveis por controlar todo o governo de Delta. Eles têm todo o poder.
Algo aparece na mente de Ethan, ele consegue sentir, mas suas memórias permanecem na constante neblina e ele não sabe como as tirar de lá. Se pergunta como era possível que toda a história daquele lugar desaparecesse de sua mente.
— Ethan, olhe para esse lugar. — Hope se aproxima do rapaz e apoia seus braços nos ombros dele. Então aponta para o mapa à sua frente. Não um ponto específico mas todo o mapa em si. A imensidão presa naquele triângulo de triângulos. — Essa é a importância do seu sobrenome.
Seu sobrenome. McAllen.
— McAllen é o mesmo sobrenome de um dos cinco Fundadores. — Ele continua. — Se você for quem diz ser, tem muita importância para as pessoas por trás de tudo isso. Tanta importância, que não faria sentido que não tenha suas memórias neste momento, ou que esteja fora da segurança do Complexo de Torres. Que esteja nas mãos das pessoas que querem destruir a NUVEM!
Um alarme toca, e Ethan pensa ser fruto de sua imaginação. Sua mente declarando código vermelho com as informações passadas por Thomas. Nada daquilo fazia sentido, e estava longe de parecer uma história real. Sente outro frio na espinha. Não apenas em todo o prédio através de caixas de som espalhadas nos cantos superiores das paredes, mas também em um pequeno dispositivo preso à bainha do primeiro líder. Era um alarme baixo, abafado, que certamente não era possível ouvi-lo do lado externo da Torre da Resistência.
— Thomas, está havendo outra inspeção. — Era a voz de Ariadne, que entrou pela porta da sala do mapas quase de imediato após o início do alarme. O irmão Hope franze as sobrancelhas levemente como resposta.
— Impossível, eles só fazem isso uma vez por semana! - Thomas solta os ombros do menor e caminha até a porta. O seu tom de voz muda para uma confusão, mas semelhante à dúvida. — O que mostra no radar?
— Um automóvel grande e se aproximando rápido. — Ela responde, então mostra um dispositivo semelhante à uma das bússolas da sala de mapas. Era do tamanho da palma de sua mão, com um visor circular na cor verde. Pela distância onde estava, Ethan apenas conseguia ver um ponto sólido quadricular bem próximo ao centro do visor, passando por diferentes linhas dispostas uniformemente por toda a tela, com seu movimento piscante avançando rápido. — Na linha direta da NUVEM diz que é uma segunda equipe de busca.
— E o que eles dizem? — Ele pergunta antes de atravessar a porta para fora da sala, retornando à área principal de treinamento. — Estão na busca de algum alvo específico ou é uma segunda ronda de rotina?
Ariadne mantém a porta aberta com uma das mãos mesmo após seu irmão sair da sala. Ethan demora uns segundos para entender que aguardava que ele saísse da sala também. Com uma das mechas dos fios negos na face, ela apresenta um semblante de preocupação e encara os olhos do primeiro líder com firmeza.
— Ethan McAllen. — Ela diz lentamente para seu irmão, como se estivesse repetindo as palavras ditas pelo dispositivo de comunicação da linha direta. As palavras saem como se escapassem de um sussurro. — Acham que ele pode ter fugido para essa zona abandonada do Segmento. Área vigiada, com conexões para todo o segmento, bem próxima às comunicações da NUVEM. Devem ter feito buscas por todas as áreas vizinhas durante a madrugada para finalmente estarem aqui.
Sabiam que estavam com ele. O acampamento destruído era prova suficiente para isso. Sem um veículo, jamais poderiam procurar em uma área tão distante do segmento onde estavam. Ethan estaria em uma das cidades vizinhas ao local do ataque sem um veículo.
Então Thomas Hope se vira para encarar os olhos de Ethan metros atrás de si. Quase sente o tempo parar. Em meio à profunda imensidão azul das íris do garoto, um brilho se destacava.
Pânico.
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