Coração

O quarto era grande. Mais que o suficiente para apenas uma pessoa passar a noite ali. A casa das senhoras era uma construção imensa, na verdade. A arquitetura foi montada inicialmente para aquela ser uma planta de uma base permanente de operações da NUVEM. Com a saída das agentes Runald e Kjaro, e a ausência de uma força opositora que justificasse o desenvolvimento militar, e não científico, o plano inicial foi modificado. Aquela propriedade depois das montanhas do Segmento B se tornou a mais nova morada das mais recentes ex-agentes da NUVEM.

Em geral, era uma casa segura. A localização ajudava bastante, principalmente por suas coordenadas de difícil e demorado acesso. Os quilômetros de videira ao redor da casa contribuem contra alguma eventual invasão, que nunca aconteceu. Sem contar na resistência dos materiais da casa, os rios que passavam próximos, o arame farpado escondido na cerca viva distante da terra das senhoras. Era uma armadilha montada caso a NUVEM tentasse algo. Uma ratoeira montada pelo próprio rato.

Thomas se olhava no grande espelho do banheiro. Seu olhar era neutro. Observava atento qualquer movimento que aquela imagem poderia fazer. O corpo grande e forte do rapaz desnudo no reflexo mostrava seus anos de batalha. As marcas que desenhavam mapas na pele escondida por roupas em outros momentos. As marcas com que aprendeu a crescer. As marcas da liderança.

Sua mão sobe ao rosto, passando pelos cortes em suas têmporas, descendo por sua barba rala deixada por fazer, indo até a grande cicatriz de tiro deixada em sua clavícula. Seus olhos detectam o movimento dos olhos de seu reflexo. Aquela cena já estava impregnada em sua memória, como tinta preta em águas claras. Sempre teve uma memória muito boa. Apesar de já se fazerem anos do acontecimento, conseguia lembrar perfeitamente de cada detalhe.

Era um novato na Resistência. Luca Procter seu nome. Estava fugindo depois de um ataque no Segmento C. Não precisou de muitas noites para ele demonstrar quem realmente era. Thomas organizava o arsenal da base com ele e, quando ficaram de costas um para o outro, houve o disparo. O garoto era jovem, devia ter sido contratado pela NUVEM apenas para uma missão de reconhecimento de local. Talvez até fosse um filho de algum outro soldado. Usou uma pistola automática para dar três disparos seguidos, fazendo um estrondo ouvinte a qualquer um da Torre. Todos os tiros acertaram a escápula esquerda do loiro, fazendo-o cair de surpresa e dor. Não devia ser experiente com o porte de armas, já que o quarto disparo atravessou o lugar dos demais, abrindo uma abertura das escápulas de Thomas até sua clavícula.

O traidor segurava a pistola com as mãos trêmulas. Quando se aproximou do primeiro líder para o ataque mortal, foi atingido à distância por um disparo de espingarda, o impossibilitando de andar. Ariadne, assim como outros resistentes, havia chegado no arsenal e conseguiu interpretar o óbvio. Quando a garota viu a situação do irmão, atirou.

Bastou o primeiro disparo para incapacitar o garoto. Acertou principalmente seus joelhos. O segundo foi o mortal, que calou seus gritos de dor e agonia. Todos os outros cartuchos foram utilizados, mesmo sem necessidade prática. Ariadne não enxergava mais a situação. Apenas recarregava e disparava contra a massa de músculos e sangue. Não sobrou nada reconhecível de Luca naquela noite.

O sentimento de ódio estava disseminado pelas paredes daquela base da Resistência. Houve um traidor entre eles e ninguém percebeu até seu líder ser atacado. Não poderiam confiar em ninguém. A única ordem que a segunda líder deu aos demais foi que limpassem o lugar.

Alguns resistentes levaram Thomas e Ariadne a um hospital no Segmento A, enquanto outros limparam manchas de sangue da zona, queimaram seus pertences junto com a massa que um dia formou o corpo de Luca e descartaram os restos no esgoto mais próximo. Acharam alguns dispositivos de comunicação, mas todos desligados. Se Luca estava se comunicando com a NUVEM, provavelmente iriam ao último lugar em que esteve online. Teriam que achar outra base para a Resistência. Não estavam mais seguros ali.

Na semana seguinte foi montada a nova base em um prédio de distribuição e purificação de água. Aquela se tornou a Torre desde então.

Talvez fosse uma resposta violenta demais, mas talvez não. Os resistentes, que dariam a própria vida pelo seu líder, sentiram que aquele atentado foi neles mesmos. Nenhum responsável foi punido pela atitude, a segunda líder teve questão disso.

Passa seus dedos gentilmente pela pele cartilaginosa. Ele ainda sentia dores quando tocava na cicatriz profunda. Por um momento, lembra das palavras do médico que o atendeu, e dos termos técnicos de sua anatomia agora reconstruída. Lembra de toda a dor que sentiu. Talvez fosse seu cérebro lembrando de não confiar em qualquer um a partir daquele momento. A dor do trauma machucava não só seu corpo, mas também sua memória. Foi isso o que sentiu quando conheceu Ethan. A possibilidade de estar errado mais uma vez. A possibilidade de ser traído.

Thomas solta a mão, deixando-a despencar para o lado de seu corpo. A ponta grossa de seus dedos toca a pele clara de seu quadril.

Ethan McAllen.

Tudo girava em torno daquele nome agora. O rapaz para quem recebeu ordens para salvar no lago do Segmento C. O Oráculo sabia o que estava fazendo.

Leva ambas as mãos ao seu tórax, e pressiona a carne de sua região torácica. Sentia batidas fortes contra o seu peito, mas sentia que era mais do que a lembrança de estar vivo. Era algo que fugia das obrigatoriedades fisiológicas de bombear sangue para o restante de seu corpo. Seu coração estava ali, e seu coração estava vivo. Seu coração pedia por um momento a sós com seu corpo. Precisavam conversar e ele não tinha sido convidado.

Thomas fecha os olhos e se entrega àquele calor. Seu corpo estava quente com a temperatura daquele sangue. E ele sentia aquele calor dominar seus pensamentos. Sem perceber, suas mãos descem lentamente pelo seu corpo. Seus dedos saem do músculo peitoral maior e descem pelo médio até chegar ao inferior. Consegue sentir ambos seus mamilos quando suas palmas passam por eles até alcançar os músculos da região abdominal. É quando as pontas frias de seus dedos médios e anelares se encontram, desbravando sua linha alba entre os gomos de seu abdome e descem até a sua linha umbilical.

Elas continuam.

Ele abre a boca e sente que puxou o ar do mundo inteiro para si. Sente soltar esse ar em forma de diferentes suspiros. Em certo momento, sua respiração se torna audível, compassada. Era capaz de sentir seu rosto vermelho, quente, sufocado. Estava exausto, estava suado. Seu coração gritava por liberdade da sua caixa torácica. Se sentia preso e queria fugir.

Ele morde o próprio lábio e agarra o vasto lateral de suas coxas. Sua cabeça arqueada para cima. O ar passava por seus dentes. Então ele gira a chave do chuveiro acima de si e deixa que a água fria controle a sua temperatura. Apoia ambas as mãos na parede revestida em azulejos brancos a uma certa distância. A água batia em sua nuca e descia pela linha de suas costas. Seus olhos estavam fechados. Se recusava a olhar na direção dos seus pés descalços.

Quando sua respiração volta ao normal, desliga o fluxo de água fria e puxa uma toalha preta para secar seu corpo. Volta para a frente do espelho e vê o loiro que estava refletido ali. Apesar da tonalidade de um cinza que dominava o verde de seus olhos, nunca se sentiu tão vivo. Veste a blusa e a calça moletom que descansavam na cerâmica da pia abaixo do espelho. Tudo era da mesma cor dos azulejos que o cercavam.

Dá apenas alguns passos com seus pés descalços para fora do banheiro e cai de costas na cama do quarto, os braços estendidos em suas laterais. Observava o teto que o observava de volta.

— Gatinho Thom Thom? — Alice Stone ecoa pelo quarto. Seus pequenos olhinhos espiavam o interior do quarto pela porta agora semiaberta.

— Olá, princesa Alice! — Ele levanta seu torso para olhar na direção da garota.

— Pensei que a gente fosse brincar juntos hoje, gatinho. — Ela fala enquanto entra um pouco no quarto, fecha a porta atrás de si e dá passos lentos em direção à cama — Fiquei te esperando, mas você nem apareceu.

Ele senta e usa suas duas mãos para puxar a garota para seu colo.

—Sinto muito, Alice — Thomas responde em um tom baixo. — Tive uma tarde cheia hoje. Ethan precisava treinar, então não pude perder a oportunidade. Sinto muito fazer você esperar.

Ethan McAllen.

Ela abre um sorriso ao ouvir aquele nome. O nome do seu mais novo irmão mais velho.

— Ah, se for pra ajudar o príncipe Ethan tudo bem! — Ela diz com segurança, ficando de pé na cama e abraçando-o pelas costas. — Eu sei o quanto você gosta dele.

O rapaz desvia o olhar para outro lado do quarto. Sente seu pulso aumentar de velocidade, e quase consegue escutar as batidas de seu coração. Era isso. Agora fazia sentido. Ele gostava de Ethan. Pelas palavras terem saído de uma garotinha de quatro anos, sentiu medo.

Engoliu em seco.

Talvez estivesse se expondo demais.

Deixando que os outros percebessem.

E se os outros já soubessem?

Não poderia permitir.

— Por quê você está tão triste, gatinho? — Ela pergunta com sua voz doce, sequestrando o primeiro líder de seus pensamentos. — Eu falei alguma coisa errada?

Ele negou com a cabeça, enquanto sua boca sorria um sorriso triste.

Como pode um sorriso ser triste?

— Alice? — Ele chama a menina em um tom sério.

— Sim, gatinho? — Ela responde ainda apoiada nas costas do maior.

— Eu acho que gosto do Ethan. — Ele diz, sentindo que as palavras feriam sua garganta ao serem ditas. Aquela não era a verdade, ao menos não a verdade absoluta.

Enquanto Thomas voltava a se afundar em seus pensamentos, a garotinha apenas sorria.

— Eu também gosto dele, gatinho! — Ela responde, ingênua. — Acho que a Sam também. JJ e até mesmo Ariadne. As senhoras gostaram muito também. Outras pessoas também gostaram bastante dele também...

Não conseguiu ouvir tudo o que a garota em suas costas disse. A verdade é que não tinha mais para onde fugir.

Uma das poucas verdades que ele sabia sobre si.

— Eu acho que amo Ethan McAllen, Alice. — Dessa vez, ele disse para si mesmo. As palavras ecoando para dentro de si, com a certeza de cada letra. Não pensou em outra forma de dizer. Pensou em usar metáforas ou contar uma história, mas poderia perder a linha de raciocínio e não queria isso. Ele queria que a verdade fosse dita. Seu coração se sentia assim. — Tudo bem pra você?

A garota pensou um pouco, colocando uma das mãos no queixo.

— Amar como a senhora Runald ama a senhora Kjaro? — Ela pergunta, obrigando Thomas assentir lentamente com a cabeça. Ela escorrega pelo ombro do loiro e cai no colchão logo abaixo dele. Esbanjava um sorriso alegre. — Tudo bem sim, gatinho! Mas você vai ter que dividir ele comigo também, certo?

Ambos riem, e Thomas deita na cama sorrindo para o teto mais uma vez.

— Trato feito, Princesa. — Ele responde para o ar. — Mas não conte pra ninguém, certo? Deve ser nosso segredo.

Ela assente fervorosamente, ansiosa. Então se deita ao lado dele na cama, como sempre deitou desde que foi encontrada pela Resistência.

Thomas apaga as luzes do quarto, deixando apenas a iluminação do mundo além da janela do quarto responsável pela claridade daquele cômodo. Hope fecha os olhos quando deita novamente na cama e inspira e expira com calma.

Poderia não ser muita coisa, mas aquelas palavras retiraram um peso enorme do peito de Thomas.

Mais especificamente, de seu coração.

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