Cor Intensa
"Peço perdão pelas atitudes de Edward hoje mais cedo. Algumas pessoas podem apelar para qualquer saída quando estão desesperadas, e aquele foi um desses casos. Acredito que a união Resistência-inferiores deva continuar de pé. Devemos sempre lembrar, já que temos esse privilégio, que o verdadeiro inimigo está do lado de fora. Não se preocupem, nada acontecerá contra você ou seus seguidores, tem minha palavra. Manterei contato pela nossa linha direta. Lilian Clo, conselheira dos inferiores."
O rapaz solta o ar em seus pulmões mais uma vez. Os braços despencam com o dispositivo bem acoplado na palma de suas mãos. A luz azul do visor iluminava seu rosto através da escuridão em sua volta, mas devido a distância ninguém conseguia imaginar que aquela era a sétima vez que relia a mensagem da conselheira. Seus fios dourados brilhavam no céu aberto.
— Não conseguiu dormir? — Ethan se aproxima do loiro, que usava o capuz de seu moletom cinza. Ele estava sentado em um tora de árvore com a visão fixa em seus pés. McAllen queria saber onde os pensamentos de seu amigo estavam naquele momento.
Após o incidente com os inferiores, precisariam de um lugar para passar a noite. A ideia era um acampamento na praia, já que o movimento quase nulo os acobertaria. Uma área menos populada do Segmento A. Reconhecimento não seria um problema se não tivesse ninguém para os reconhecer. Para evitar perguntas, as vans com a logo da NUVEM ficaram escondidas em um terreno baldio algumas quadras de onde estavam. Os veículos não comportavam uma noite de sono completa para todos os resistentes, então seria feito um revezamento. Enquanto metade descansava, a outra metade estaria responsável pela guarda do perímetro.
Thomas se voluntariou para adentrar a noite primeiro. Também insistiu que poucas pessoas o acompanhassem. Queria que o máximo de resistentes possível descansasse. Ethan foi um dos que dormiu naquela primeira remessa, mas acordou disposto quando suas poucas horas de sono acabaram.
Apesar da escala, Thomas permaneceu acordado na segunda vigília.
— Estou de guarda, não está vendo? — Ele responde ríspido, sem tirar os olhos do ponto fixo entre seus pés. Guarda o comunicador com a mensagem de Lilian no bolso mais próximo de sua calça.
— Outros resistentes já estão fazendo isso, Thomas, eu sei disso. — Ele dá um passo para mais próximo do rapaz. Seus olhares ainda não se cruzam. Thomas mantém o olhar fixo. Seus músculos estavam tão rígidos quanto a tora que usava como assento. Mesmo um pouco distantes da fogueira, a iluminação das chamas ainda chegava perfeitamente em seus rostos. — E você também sabe.
É quando Thomas encara o menino.
Por uma fração de segundo, Ethan tinha certeza que aquele não era o olhar do primeiro líder da Resistência.
— Eu disse... — As palavras saíam lentamente por entre seus lábios. Seu olhar agora estava fixo nos olhos azuis de Ethan. E eram tão profundos quanto o oceano. Ele deu uma pausa até ter certeza que o moreno o olhava. — Que estou de guarda, Ethan.
Ethan se permanece estático. O primeiro líder revira os olhos, levando-os à imensidão do mar bem ao seu lado. Com a escuridão da noite, o céu estrelado parecia se fundir com as águas, sem a presença do horizonte. Como se sempre fossem um só.
Ethan bufa. Não conseguia entender o porquê dessa emoção destrutiva.
— Bom, se está montando a guarda, não se incomodaria da minha presença aqui com você, não é? — Então senta-se junto a ele no tronco caído. Thomas, mesmo sem querer, cede o lugar, retomando a visão para os próprios pés. Ethan observa as linhas que definem o rosto do garoto ao seu lado. Linhas finas e frias, mas delicadas. — Juro que não vim aqui te atrapalhar, eu só...
Um som faz sua fala ser interrompida. Não um som que parecesse mostrar perigo, mas sim, tristeza. Era um som quase de soluço. Ethan demora alguns segundos até perceber que a origem daquele som era o rapaz ao seu lado.
O primeiro líder percebe a interrupção na voz de Ethan. Ele se levanta quase em um pulo, criando certa distância entre os dois. Ethan acompanha os movimentos de Thomas com os olhos, e ele dava passos lentos na areia. Conseguia ver as marcas que seus pés descalços deixavam para trás. As labaredas da fogueira criavam sombras inconsistentes nas marcas que seus pés descalços deixavam para trás. Mais alguns passos à frente, usa as costas da mão para limpar seu rosto. Ao menos, era o que aparentava ser. Volta ambas as mãos à cintura, sua cabeça voltada para o céu escuro, enquanto seus pés o levavam em direção ao mar.
Não demora muito para que Ethan siga o loiro em seus passos silenciosos em direção à água escura. Sentia o vento bater em seus cabelos, forçando-os em uma dança livre e sem passos definidos. Sentia também o vento bater em suas roupas, e suas roupas batiam contra sua pele em resposta. Nenhum dos dois disse palavra alguma quando seus pés foram molhados pela primeira onda de água, frio e espuma. E logo veio a segunda onda. E a terceira.
Então o primeiro para. A água já batia confortavelmente nos joelhos de sua calça.
— Sabe, Ethan... Eu sempre fui apaixonado pelo mar. — O loiro inicia, com seu olhar ainda distante. Ondas tímidas buscavam pelo calor de sua pele por baixo das roupas que vestia. O vento despiu o capuz cinza que usava. — Principalmente à noite.
Ethan dá alguns passos adiante, para ficar ao lado do primeiro líder. Seus olhos confusos buscavam respostas nos olhos perdidos do outro. Tudo o que recebeu foram mais perguntas.
— Tem um certo momento que a cor do céu e a cor do mar são iguais. — O primeiro líder continua. — Se você procurar a linha do horizonte, ela se esconde de você. Como se o oceano fosse apenas uma continuação lógica do céu.
Ele leva uma mão até a água escura, e seus dedos brincam com a água por um segundo. Ethan não viu, mas o primeiro líder sorria enquanto fez bolhar de ar aparecessem como mágica ao redor de seus dedos.
— O céu que podemos tocar. — Ele finaliza. — O mais próximo que podemos chegar.
Thomas então se vira para encarar o garoto ao seu lado frente a frente. Do seu ponto de vista, Ethan estava parado, com ambos os braços estendidos, as costas relaxadas e o olhar fixo no seu, finalmente. Atrás dele, apenas a iluminação vermelha, amarela e laranja criada por uma fogueira distante na areia da praia. Ao seu redor, apenas toda a água do mundo. Nenhuma nuvem no céu escuro, iluminado pelas estrelas e pela lua cheia. Era Thomas Hope, Ethan McAllen e água.
E aquela água era azul. Azul como os olhos de Ethan.
Thomas leva a sua mão recém-molhada à cabeça do garoto, e ela pousa em seus fios escuros. Uma gota de água se forma em seu polegar e desce pela testa, pela sobrancelha, pela pálpebra, e então, pela bochecha do garoto.
Naquele momento, tinham aquilo em comum. Escorregava uma gota em ambos os rostos.
Aquela era a primeira vez que via o líder do grupo, o resistente mais resistente, o que mandava e obedeciam, chorar. Sinceramente, nunca nem havia imaginado aquela cena acontecer, muito menos em sua frente. Muito pelo contrário do que Hope pensava que fosse acontecer, McAllen se compadeceu de sua dor. Se sentiu preocupado. Hope observa profundamente a cor forte dos olhos de Ethan. Um azul diferente dos demais, num tom mais escuro. Parecia utilizar o céu como espelho para sua tonalidade. Mesmo com a fraca iluminação da noite, o azul tremulava em diversos tons.
Então aquele azul se tornara estrelado.
Ele então se permite se perder no mar. Sente seu corpo se tornar mais leve que a densidade da água, como se flutuasse. Sentiu as ondas baterem contra seu corpo, assim como batiam em rochas por milhares de anos até que desintegrassem em pó. Sente vontade de pular as ondas, mas já estava fundo demais. Sentiu como se pudesse tocar nas estrelas de verdade através daquele espelho d'água. Aquela era a continuação do céu, afinal. Sentia como se pudesse respirar dentro e fora do mundo, completamente perdido do espaço sideral e nas profundezas abissais.
Sentiu a onipotência do oceano. Sentiu seu abraço acolhedor e infinito.
Quando se sente afogar, solta a respiração que antes estava presa sem nenhum motivo.
— Me desculpe, Ethan. — Ele diz sem ser mais específico, distanciando aquela cor intensa de sua visão. Ele solta as mechas molhadas. — Estou com muita coisa na cabeça e acho que estou perdendo o controle.
Ethan passa a mão pelas costas de Hope, como um gesto de solidariedade, marcando sua presença. Thomas realmente parecia perdido, sua fronte exausta demonstrava isso. Não havia nada para se desculpar, muito menos implorar o perdão a quem quer que fosse. Desde quando foi resgatado pela Resistência, Thomas sempre se mostrou um ótimo líder. Ele era o exemplo a ser seguido por cada um dos resistentes que se sentiam agradecidos por salvar suas vidas, e honrados por poder usá-las ao seu lado na batalha contra a NUVEM.
O mínimo que ele merecia eram algumas horas de descanso.
— Tudo bem, Thomas. — É tudo o que ele diz. — E obrigado pelo que fez por mim lá com os inferiores. Por um momento eu achei...
— Nunca. — Ele corta-o rapidamente, passando a mão úmida contra o moletom que usava. — Jamais faria isso com nenhum irmão da Resistência. Você faz parte de tudo isso, já lhe disse. Não importa quem um dia você foi. O que importa é que hoje você está aqui, conosco.
Ethan dá um sorriso sincero. Seus olhos conectados à alma de Thomas, que sorri de volta.
Aquilo era tudo o que ele mais precisava naquele momento.
A mente de Thomas estava cheia. Nunca havia se sentido assim antes. Sempre conseguia absorver todas as situações com perfeição, mas não mais. Precisava colocar tudo aquilo para fora pela primeira vez. O peso do mundo em suas costas e o seu no próprio no coração. Sentia-se exausto, sentia-se cheio, sentia-se estressado. Sua respiração se tornara lenta por não conseguir mais respirar.
— Sabe, Ethan... — Thomas inicia sem olhá-lo diretamente nos olhos, mas ainda sim via o azul deles no céu e no mar. — Eu sempre fui um garoto sozinho. Eu tinha a minha irmã e me sentia bem com isso. Para mim, ela já bastava. Ao observar o mundo e as pessoas que vivem nele, acabei desenvolvendo a habilidade de ler olhos. Conseguia saber o que as pessoas queriam dizer através de como me enxergavam, e de como elas eram enxergadas por mim.
Thomas separa o contato visual de seus olhos. Por um milésimo de segundo, sentiu que o mar parou.
— Eu acredito que os olhos conseguem falar muita coisa. — Ele continua. Seu olhar atento aos olhos de Ethan. — Mostram felicidade, tristeza, dor, amor. Isso acontece diversas vezes na vida das pessoas e geralmente se passa despercebido, infelizmente. Mas o maior desejo de uma pessoa só pode ser dito por olhos prestes a morrer. Tudo o que ela quer fazer, deixar ou amar. Naquela noite do massacre na Aldeia, eu consegui ler diversos últimos desejos, mas os únicos que realmente me importavam foram os dos meus pais. Quando meu pai foi atacado e foi ao chão, consegui ver a frase "se falhei em proteger minha família, falhei em ser pai". Quando vi os da minha mãe, li "fique salvo e proteja sua irmã". De todos os cadáveres que vi naquela noite, somente o dela sorria.
Ethan estava com os olhos fechados naquele momento. Sentia a maresia tocar-lhe o rosto com carinho, mas sua imaginação estava junto a Thomas. Para onde ele narrava seu passado, Ethan sentia que estava lá junto.
— Me sinto na obrigação de cumprir os desejos deles. — Dessa vez, o primeiro líder diz em um tom quase que secreto, como se confidenciasse aquele pensamento para si por muito tempo. — Por isso me esforço tanto. Por isso eu trabalho, me empenho, me coloco na posição de liderança. Essa agora é a minha família. A família que eu formei. A família que eu salvei. Mas, às vezes, essa responsabilidade se torna tão pesada que eu simplesmente... não sei. Sinto como se não estivesse dando o meu melhor.
McAllen abraça o primeiro líder. O ato é retribuído com receio, mas com voracidade. O calor de seus peitos contrariava o frio de suas mãos. As ondas agora molhavam ambos como se fossem um só.
— Se é você quem está fazendo, Thomas. — Ethan sussurra. Sua boca bem próxima ao ouvido do loiro. — Eu sei que está dando mais que o seu melhor.
O loiro sorri. Sua barba rala roçava contra a blusa de seu amigo. Estava feliz porque parte daquilo que sentia preso na garganta já saiu. Suas costas soltam uma carga muito pesada de si, e quase sente que conseguia respirar melhor. Os pés descalços se tocavam apenas pelos dedos com areia fina e fria submersa com eles.
Mas seu coração começa a bater mais rápido. Não falou tudo ainda. Existia uma segunda carga, que crescia mais e mais a cada segundo que passava junto ao garoto em seus braços, e que agora tomava conta de boa parte dos seus pensamentos mais recentes. Uma carga que explicava boa parte do seu comportamento anormal. Uma carga que ele não conseguia descrever em palavras, porque não haviam palavras que a descrevesse com exatidão. O mais próximo disso foi o que confessou para a garota Alice ainda na casa das senhoras. E aquela carga crescia em proporção exponencial.
O oceano ao redor de si dá a sua benção.
— Ethan, eu... — O garoto olhou-o bem nos olhos novamente. Aquele poderia ser o momento. Finalizar tudo de uma vez por todas. Ser salvo ou condenado por palavras que sairiam de si próprio. Eram poucas palavras, a situação já estava montada, bastava dizer.
Todos os elementos diziam que sim. A solidão que o acompanhava e que não mais existia. As sombras que o perseguiam por toda a sua vida, todas fundidas com as águas estreladas. A iluminação do sol através da vigente no céu limpo. O azul do céu caindo líquido nos mares. A inexistência do horizonte, criando um futuro cego e incerto. Seu coração palpitando, tremendo e pulsando tudo o que sentia.
Os olhos azuis escuros conectados aos verdes acinzentados. Havia cor, não palavras. Havia sentimento, não diálogo. Talvez, não fosse necessário.
— Sim, Thomas? — Ethan finalmente pergunta, puxando-o de volta à realidade.
Então Thomas consegue focar naquela cor escura bem à sua frente. O sorriso nos cantos da sua boca se torna uma força tão onipotente quanto o oceano. Uma força inevitável.
— Obrigado. — É tudo o que escolhe dizer.
Talvez não hoje, mas algum dia. No dia certo. No momento certo. Sabia que não conseguiria tirar aqueles últimos momentos da mente por um bom tempo. Lembraria eternamente de cada detalhe. De cada cor. Eram memórias que guardaria com ele mesmo que sofresse uma Colheita, porque as havia guardado em seu coração, e não em seu cérebro.
Aquele deveria ser outro poder dos olhos.
Enquanto caminhavam lado a lado de volta para a areia seca da praia, já não tinha mais certeza de quem era Aquiles e quem era Pátroclo entre os dois.
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