Arquétipo

— Direita, Ethan! Vamos, mais forte! Com a esquerda, agora! — Thomas comandava os golpes para que o garoto repetisse, tendo como alvo as mãos, braços ou pernas do próprio primeiro líder. O objetivo variava entre defender ou desviar dos ataques. — Mais forte!

Depois dos vinhedos e seu cheiro verde, laranja, marrom e roxo, Thomas apresentou o tatame de treinamentos que havia nos fundos da casa das senhoras. Era mais uma sala em cubo daquela construção de poliedros. O primeiro líder passou um bom tempo analisando as paredes, o teto e o chão, Ethan percebeu. A tinta branca do lugar tinha sido afetada pelos anos de exposição aos ventos e raios solares. Grandes aberturas dominavam as paredes, que deveriam ser janelas, mas que nunca foram cobertas por vidro como as demais da casa. O loiro sorri sem perceber. Foi naquele lugar que passou a maior parte da sua infância, principalmente no tatame que dominava o piso de madeira. Horas de treinamento por dia.

Criar.

Aumentar.

Fortalecer.

Sem a presença dos pais, foi treinado principalmente pelas senhoras, já que conheciam o treinamento e as fraquezas do exército da NUVEM por experiência própria. Com as aulas intensificadas, sempre foi apenas questão de tempo, e nunca de dedicação. Dedicação nunca foi um problema para ele, e sim, uma solução. Ele mesmo planejava os momentos das aulas, sempre aproveitando os momentos livres das senhoras. No restante das vezes, praticava sozinho, treinando o que aprendera nas aulas anteriores.

Quando Ariadne soube que ele fazia isso por querer protegê-la, irritou-se e passou a treinar junto com seu irmão. Ela não precisava de proteção. Quem precisava de proteção eram os malditos soldados que a encontrassem em seu caminho. E, realmente, essa sua mentalidade a tornou quem é hoje, com o corpo que tem hoje. Apesar de Thomas ter golpes mais fortes, sempre teve, a senhora Kjaro viu que Ariadne era mais rápida, mais precisa. Que sorria ao machucar, que gargalhava ao ganhar. Que ela seria capaz de aprimorar o treinamento que as décadas de treinamento NUVEM lhe ofereceram. Utilizar dos pontos fracos dos inimigos para ter uma vantagem no campo de batalha.

Afinal, não se combate fogo com fogo. Se combate fogo com água.

— Tenho medo de te machucar. — Ethan respondeu, recuando um passo.

Foi quando Thomas riu da ingenuidade do garoto à sua frente. E abriu um sorriso tão genuíno que inclinou sua cabeça para cima e gargalhou alto. Sentiu o teto logo acima de seu corpo gargalhar de volta.

O primeiro líder responde com um golpe rápido na perna do garoto, fazendo-o ir ao chão revestido.

— A NUVEM não terá nenhum medo de te matar.

Ethan levanta rapidamente e avança no loiro, mas logo é levado ao chão novamente após ser inclinado, caindo sobre suas costas. Ele arqueia as omoplatas lesionadas, a região lombar sensibilizada. O tatame era acolchoado, mas ainda não perdoava as leis da física.

Como uma reação, Ethan tenta repetir o mesmo golpe onde estava, mas falha.

— Vai precisar de mais que isso para derrotar um soldado azul e branco que está em treinamento há anos, Ethan. — Estendeu a mão na direção do garoto caído. — Podem estar se preparando para te matar nesse exato momento. Não sabemos o horário que treinam.
De onde Ethan estava, apenas conseguia ver Thomas de cima a baixo, mesmo posicionado de baixo para cima dele. Ele tinha retirado a blusa xadrez vermelha e de mangas compridas antes do treino começar. Mesmo assim, apenas algumas gotículas de suor pairavam em sua testa, e quase nenhuma marca úmida na regata cinza que vestia. O cinza era mais opaco que a cor de seus olhos. De costas para as aberturas na parede, sua fronte estava mais escura, sombreada. Sua mão ainda pairava no ar, oferecendo ajuda de bom grado.

— Falando assim até parece com Victor Martes. — Ethan levantou-se timidamente, aceitando a ajuda do amigo com uma das mãos.

— Victor...

Victor Martes.

Um silêncio tomou conta do ambiente e por um instante os dois fitaram-se. Ambos apresentavam semelhanças, como os músculos tensos e o suor descendo da testa, mas além disso, algo mais. Algo diferente. Algo filosófico. O desejo de estar ali, fazendo aquilo. Treinando para se defender da NUVEM. Treinando para atacar a NUVEM. Treinando para ganhar da NUVEM.

— Victor é só um idiota. — Thomas diz lentamente e com veracidade, num tom de sussurro interno.

— Desculpe pela comparação. — Ethan disse antes de avançar com um soco na direção de Thomas.

Desviou.

— Por mais que seja verdade, ele tem motivos pra ser assim. — O loiro faz um movimento de aspas com os dedos indicador e médio de ambas as mãos entre um posicionamento e outro no tatame.

— Ah, claro. — Deu um gancho que fez Thomas recuar. — Dá para perceber o quanto ele sente inveja de você e do cargo que ocupa na Resistência.

— Não. — disse parando no ar o outro soco do rapaz. — Dessa vez não tem nada a ver com eu ser o líder. O pai dele se sacrificou para me salvar.

Ethan sentiu seu corpo pesar e o ânimo para treinar se desfez. Dá dois passos para trás com seus pés descalços. Conseguia perceber que o mesmo fenômeno aconteceu com Thomas.

— Se quiser explicar, sou todo ouvidos.

Thomas dá alguns passos para trás, assim como Ethan, desfazendo sua posição de defesa.

— Apenas uma história de infância. — O primeiro líder leva uma mão para a outra, ambas à sua frente. E sua mão esquerda envolveu sua direita como um abraço. Um abraço que precisava. — Em um dia normal da Aldeia, recebi a tarefa de coletar alimentos e plantas medicinais na floresta. Nada demais, coisa que fiz dezenas, senão centenas, de vezes. Mas, naquele dia caminhei por uma trilha diferente da que sempre coletava mantimentos e me perdi quando começou a chover. Passei horas tentando voltar para o caminho de casa, acabei escorregando na lama e caí em um córrego próximo. Quando me dei conta da profundidade daquele lugar, eu já estava me afogando no rio enquanto chovia.

Ethan engole seco. Seu corpo pedia por água depois daquele treinamento.

— Eu estava exausto. Gritava e gritava e gritava. Minha vida dependia daquilo. — Thomas continua. — Eric Martes, o pai de Victor e um dos coletores para a Aldeia, me encontrou e pulou para me salvar. Ele me ajudou a alcançar a margem, porém ele perdeu o apoio que tinha e foi levado pela correnteza.

O silêncio, mesmo que por dois segundos, parecia cortar-lhe a garganta.

— Não teve um dia que eu não visse o olhar de Eric Martes nos meus sonhos, desde então. Seus braços desesperados por um apoio, enquanto eu cuspia água dos pulmões na margem de lama. — Cerrou os punhos. — Não teve um dia que eu não me arrependesse de ter mudado de trilha. De ter ficado na mesma em que eu já estava acostumado, que já conhecia.

— Mas Victor me culpa pela morte do pai, tanto naquela época quanto agora. — O loiro completa, seus olhos dispostos para o horizonte. — E eu não o julgo, porque eu me culpo pela morte dele também.

Com a visão no canto de olho, Ethan consegue ver Martes ao longe, carregando uma grande cesta de uvas frescas. Parecia dar ordens para alguns resistentes mais novos, que corriam para obedecer. Foi só ali que Ethan percebeu a diferença dos dois como liderança. Hope tinha o respeito dos outros. Martes, o medo.

Nesse momento, Ethan abraça Thomas, assim como sua mão direita foi abraçada pela esquerda. Ethan não tinha como falar nada naquela situação, e nada do que ele tentasse falar poderia melhorar aquele sentimento que apenas Thomas sentia. Já o primeiro líder, surpreso com o gesto, estava atordoado demais para responder algo que não fosse corresponder ao abraço do outro. As mãos se reencontrando nas costas cobertas pelo tecido molhado da blusa que vestia.

Ethan era um garoto dócil, sentimental. Talvez não fosse antes de ter suas memórias apagadas, mas essa era a única versão que conhecia do Herdeiro McAllen. Essa poderia ser sua ruína, ao menos Thomas pensa que sim. Esse era um arquétipo clássico da literatura, e já leu centenas de histórias em que o herói se acaba como consequência do próprio sentimento. Do próprio ódio, da própria ganância, da própria tristeza. Do próprio amor. Um exemplo perfeito era Aquiles, o herói grego preferido de Thomas.

Thomas se via muito em Aquiles, e acreditava ser uma versão dele na vida real. Ambos eram altos, ambos eram loiros. Ambos eram fortes. Ambos amavam.

— Ethan... — Thomas separa o corpo dos dois por completo. Os olhos atentos do garoto brilhavam em azul na iluminação do sol. Sua pele, brilhava em ouro. — Você já leu "A Ilíada", de Homero?

Ethan sorri. Não entendia como a cabeça do primeiro líder funcionava.

— Não... — Diz entre um sorriso e outro. Ele tinha certeza que não. — Eu acho que não.

Já Ethan, era muito parecido com Pátroclo. Ambos eram altos, ambos eram morenos. Ambos eram sábios.

— Por quê? — Ethan indaga, tentando desvendar onde o outro rapaz queria chegar com aquela conversa.

Ambos amavam.

Thomas balançou a cabeça em uma negativa para si mesmo. Tenta afastar todos os pensamentos possíveis que teve, tinha e que poderia vir a ter. Expira rapidamente o ar de seus pulmões pelo nariz.

— Quando voltarmos para a Torre da Resistência, me prometa que vai ler esse livro. Deve ter alguma cópia no andar da biblioteca. — Thomas falava, mas sua mente estava em um branco confuso. Apesar disso, conseguiu mentir: ele sabia com certeza que haviam três cópias do livro no andar da biblioteca. — Acho que vai gostar.

Ethan ainda não lembrava de nada antes de acordar se afogando no meio do lago do Segmento C, mas tinha certeza que sua consciência antiga estaria feliz por ele estar ali. Sentia isso em seu peito. Ao menos, ele estava feliz.

Agora ambos sorriam.

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