Alma
— Com licença, senhora Kjaro, mas eu preciso... — É tudo o que a garota de vestido florido consegue dizer até ter sua visão interrompida pela presença da segunda líder da Resistência. Ela acabara de entrar no quarto reserva dos fundos, lugar que geralmente é esquecido, então tornou-se dispensa para as tintas e telas da senhora pintora. — Ariadne?
A outra garota também é pega de surpresa, virando o seu rosto da escuridão daquela pequena sala para a única entrada iluminada. Por acidente, deixou cair um pequeno pedaço de metal que segurava. O som da corrente fina e dourada ao tocar o chão era uma cobra clamando por atenção.
— Samantha? — Ela pergunta rapidamente, reorganizando os fios do lado não raspado do cabelo. Por causa do espanto com a presença da garota de cachos, leva uma das mãos ao rosto rapidamente, limpando abaixo de seu olho com sua pele áspera. — O que faz aqui?
— Eu quem pergunto. — Ela rebate, com passos lentos em direção ao vão escuro daquela pequena sala. — Pensei que a senhora Kjaro pudesse me ajudar, então entrei. A última pessoa que pensei em encontrar aqui era você. Não estava em uma reunião com as senhoras?
— Não importa muito o que eu vim fazer. — Ela responde, modificando o humor. Decide ignorar por completo a pergunta que lhe havia sido feita. — Importa que já estava de saída.
Ela então atravessa a sala em passadas rápidas e sem nenhum contato visual com Sam, atingindo com força seus ombros no movimento. E durou apenas um segundo e meio, talvez até menos que isso, mas sua percepção de tempo não acreditava nisso. Seus arredores em completa escuridão e sua visão em túnel, com a luz vindo do lado externo daquela dispensa. Estava em velocidade lenta demais para não ser percebida. Durante todo aquele tempo, estava com a respiração presa, o ar dolorido em seus pulmões, o diafragma pressionado e estático, estável. Os olhos seguravam a lubrificação em excesso com certa concentração. Jamais, jamais poderia permitir que aquele líquido escorresse por seu rosto.
Jamais na frente de ninguém.
Quando o seu pé atingiu o chão coberto por carpete, percebeu a ausência de uma parte de si consigo. Vira seu rosto com hiper alta velocidade, sem sair da câmera lenta de sua cabeça. Sam tinha o objeto metálico em suas mãos, a corrente dourada caindo de sua palma. Era um relicário. Um colar com o pingente redondo e talhado, com uma abertura que o fazia se dividir ao meio, tendo uma pequena fotografia de um casal em um de seus centros internos.
Aquele relicário era uma parte do corpo, da alma e da dor de Ariadne Hope. Também era um segredo, guardado consigo desde que se entendia como alguém que teria que correr para sempre em sua vida. Alguém que teria que brigar, que lutar e que matar. Alguém que recebeu um poder que jamais quis, com uma responsabilidade fora da sua linha de realidade. Alguém que recebeu uma liderança devido sua força de vontade de sobreviver. Aquele relicário era o motivo de ter medo de ter sua memória apagada em uma Colheita. Era o seu medo de perder quem era, de onde veio e para onde estava indo. Era o motivo de seu amor e seu ódio, de sua força e sua fraqueza, era o motivo de suas lágrimas diárias de alegria e de dor.
Era uma peça dourada que guardava escondida ao redor de blusas fechadas e jaquetas sempre que possível. Apenas para tê-lo próximo ao seu coração, o metal frio contra seu peito quente.
E Samantha tinha o relicário aberto em suas mãos.
Assim que viu aquela foto sabia que conhecia aquelas pessoas. Eram os Hope, líderes da Aldeia, a primeira Resistência. Reconhecer os pais dos irmãos Thomas e Ariadne Hope não era impossível, apenas complicado. Era uma menina com poucos anos de idade na última vez que os viu pessoalmente, talvez momentos antes do ataque que levou seu pai de si. Além do casal Hope, reconhecia todas as pessoas de cargos altos, responsáveis pela organização daquele acampamento, Todos estavam reunidos em uma fila para tirar uma fotografia. Todos que tiveram suas vidas roubadas.
Seu pai, Malcolm Wit, também estava naquela foto da Aldeia.
Imediatamente, uma de suas mãos vai para o elefante dourado que ostentava no colar em seu pescoço.
Em um movimento rápido, a segunda líder toma posse do pingente nas mãos de Sam.
— O que foi? — A garota de cabelo negro e raspado no lado encara a outra com um olhar analítico, mas o brilho de curiosidade se faz presente em seu olhar. — Pensava que era a única a usar um colar para lembrar das pessoas que te amavam?
Ariadne veste seu pescoço com a pequena corrente do relicário, voltando a escondê-lo por debaixo da blusa que usava, completamente invisível aos olhos externos. Sam vê a garota levar uma mão até a altura de seu seio esquerdo e não conseguia distinguir se ela tocava seu coração ou seu colar. Talvez os dois.
Era os dois.
Ainda com a mão no tecido de sua blusa, Ariadne movimenta algumas caixas dispostas na dispensa com o outro membro livre. Sem manter um olhar fixo, se senta no escuro daquela pequena sala.
— São seus pais, não eram? — Sam pergunta sem rodeios e, logo em seguida, senta-se ao lado da segunda líder. Não se permite relaxar, no entanto. A caixa a qual se apoiava não era segura.
— Eram. — Ariadne corrige, firme. Sua voz tinha um tom melancólico. Ela balança a cabeça para os lados rapidamente para voltar seu tom de voz seguro. Talvez para engolir lágrimas perigosas. — Eram os líderes da primeira formação da Resistência, talvez não lembre. Foram mortos por ordens de Elizabeth Kalista, uma dos Fundadores. Todos eles foram. Eles se sacrificaram para salvar a mim e meu irmão. Fugimos para a floresta, assim como mandaram. As senhoras nos encontraram e... — Ela se emociona, não consegue segurar as lágrimas por muito tempo, nunca conseguiu, mas logo se recompõe ou faz o máximo para fingir que sim. Preferia ter uma pausa em sua fala a chorar. Ela não suporta chorar. Não suporta ser fraca. — E tudo começou.
Sam põe a mão no ombro dela. Já se conheciam há tempos, desde a própria criação da Resistência, mas nunca houve uma amizade entre as duas. Ariadne nunca quis. Ela acreditava que manter distância seria o mais saudável para manter a ordem, afinal, era a segunda líder. Principalmente depois que Thomas decidiu que esse não era o melhor método para ele. Seu irmão era um homem de ligações, de pontes. Essa era a pessoa que ele era e nunca conseguiu mudar. Ela também não, apesar de acreditar que, no final das contas, adotou o método que mais a exauriu mentalmente.
— As senhoras estão preparando o jantar para o grupo e precisam de mais ajuda. — Sam diz em um tom baixo.
— Precisamos ir, então. — Ariadne logo se levanta e se distancia de onde estava sentada segundos atrás, atravessando a porta aberta e deixando a outra garota para trás.
Sam assente com a cabeça, também se dirigindo à saída daquela dispensa escura.
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