volta

vinte e oito 

"Dona Idalina, venho aqui tomar a liberdade de escrever para a senhora como esposa de seu tio Acádio. Ele sempre me falou muitas coisas boas sobre a senhora, por isso achei que seria bom lhe informar que ele não passa nada bem, temo que não sobreviva por muito tempo. Se quiser dar um último adeus a ele, a hora é agora. Desculpe-me por essa intromissão, sei que é gente importante e atarefada, mas minha consciência não ficaria em paz se ele fosse embora e eu não lhe deixasse avisada com antecedência, em nome das velhas relações familiares"

Contei naquele mesmo instante, levando baforadas de comida cozinha na cara, que eu regressaria para Itatiaia. Ernesto disse que iria junto e eu neguei categoricamente a sua sugestão; meu tio estava morrendo, eu não precisava de companhia, eu me bastava, iria em um pulo e voltava noutro. A carta era de quase duas semanas anteriores, talvez ele já estivesse morto e eu daria uma viagem perdida, mas não me importo, Ernesto, se assim for, ao menos ajudo a esposa dele com as despeças, farei o que for possível. Ao ir embora de Minas desprendi-me de volumes imensos de muitas coisas, talvez de tudo, e naquela ida amarga uma das poucas alegrias que tive era saber que jamais teria que ver Acádio novamente. Estava envergonhada de seu olhar de brasa em cima de mim, passava longas noites remoendo o que ele sabia ou não sabia, o que havia lido ou não; chegava à conclusão de que tanto fazia a quantidade que ele havia lido e sabido, ele havia lido e agora sabia, era o suficiente para me reduzir a maior das vergonhas. Naquela época redigia textos e mais textos, em letras miúdas e, eu achava, legíveis somente a mim ou a uma vista que se esforçasse muito para decodifica-la. Traços levemente inclinados de borrões de tinta preta que se amalgamavam com o círculo da letra seguinte, criando linhas de grossas camadas negras vazadas aqui e ali. Neles eu expunha G., neles eu me desnudava, escrevia cartas que nunca seriam entregues a ele, umas de teor romântico e que me causavam rubor; registrava aqueles pensamentos e ocultava outros tantos por censura, outros eram mais fraternais, carinhosos, que eu tinha menos vergonha de criar e eu até pensava de modo utópico em um dia, quem sabe, dar a ele uma delas. Eu era ingênua demais, tola o suficiente para acreditar que as pessoas conheciam os limites de privacidade que cada um tinham e sequer supor que alguém daria o trabalho de remexer em minhas coisas e decifrar, como cientistas decifraram a escrita cuneiforme, minhas coisas mais profundas e pecaminosas. Acádio se deu ao trabalho, descobri depois que ele havia sempre, durante toda a minha vida, desde que eu aprendera a escrever e achado graça em registrar o que eu não tinha cara para falar, se dado ao trabalho. Esteve a ler uma por uma das minhas linhas, no começo com dificuldade em entende-las, estressando-se, mas depois se acostumando e, àquela altura de meus 16 anos, virado um profissional de minhas escrituras. Eu deveria ter adivinhado, eu ruminava, Acádio estava sempre um passo à frente; bastava eu me lembrar do meu primeiro beijo, que foi acompanhado aos detalhes, em suas ansiedades e percepções, nas páginas que eu cria serem seguras. Não foi Acádio que, dois dias depois, jogou algumas indiretas a fim de conseguir alguma coisa nova? Lembro bem, lembro muitíssimo bem dele me elogiando de súbito, falando que eu estava muito bonitinha esses dias e que logo mamãe arranjaria um genro. Se já não tiver... e com isso eu estremeci, estava em frenesi pelo acontecimento de dias passados, tinha vontade de conta-lo a todos e Acádio me pareceu tão confiável. Minha cara deve ter ficado desconfiada enquanto eu pensava se lhe contava ou não, e Acádio continuou mamãe já tem, Marié? já tem algum namoradinho? E então contei-lhe tudo no exato como como aconteceu e como ele queria.

Agora eu estava numa plataforma rente aos trilhos que recebiam o trem emergindo da mortalha de fumaça que o cobria; estava sozinha, havia negado a todos as companhias a mim oferecidas, seja para acompanhar-me até a Itatiaia ou até à estação, ficava repetindo a todo momento que meu tio estava para morrer e eu havia de ir sozinha, Ernesto nem Gal compreendiam o que eu queria dizer com aquilo, de certo porque não havia significância embutida para alguém além de mim. Meu tio estava morrendo e só estava fazendo aquele esforço porque sabia que não trombaria com G. em alguma esquina e porque a ideia de Acádio morto me dava um grande alívio. Desde que seus olhares de recriminação caíram cobre mim eu sentia uma pressão que se expandia ou se contraída, à medida que eu estivesse mais perto ou mais longe dele. Ela me fazia sentir-me menor, uma tola, pois ele sabia de uma extensa parte que residia em minha cabeça, minhas opiniões, e eu pegava todos aqueles papeis e tinha vontade de lê-los, conhecer se eu ainda pensava da mesma forma, mas lê-los seria sobretudo conhecer o quanto Acádio sabia sobre mim. A vergonha não deixava, por fim dei a todos eles um fim indigno.

Dava um sobressalto do cochilo a cada solavanco de parada que o trem fazia, corria para espiar em que estação estávamos, se ainda faltava muito ou se já havia chegado em Ouro Branco. Num trem daquele eu havia ido embora e nunca mais entrado em outro. Enclausurei-me não em São Paulo, mas em alguma de suas ruas, enfiada em seu umbigo, numa casa e sem nunca sair porque uma vergonha me latejava, uma tristeza me abatia e o remorso de Ernesto intensificava a tudo de ruim. Eu havia arrastado ele para aquilo, para mim, eu o detestava e enquanto isso ele perguntava se eu estava bem, se eu estava feliz, no fim concluiu — mais para confortar a si mesmo — que eu sofria por saudosismo. Nunca disparou nada contra mim, jamais se fez de lamentoso por ter eu o iludido daquela forma, mas seu corpo reagia de forma espasmódica a mim, Ernesto não tinha culpa se seus olhos denunciavam a repulsa a minha pele, muito menos dos gestos que juntos entregavam a pergunta que ele se fazia ao ir dormir, por quê, senhor? Por que me casei com isso? E sorria, e me abraçava e contava de seus planos e desejos de me ver boa e feliz. Nunca falávamos de tristeza e infelicidade, mesmo que fossem elas as únicas coisas entre mim e ele. Era sempre esse otimismo, esse futuro que com certeza traria coisas boas, e ele repetia e repetia com tanto fervor que eu só sentia mais nojo por ele e me perguntava, por quê? Por que me casei com isso? Ao contrário dele eu tinha a reposta, como a cínica destruidora de vidas que eu era. Foi Ernesto, mas poderia ter sido qualquer um. Calhou dele aparecer logo depois daquele abraço sem jeito entre mim e G., em seguida à descoberta de que Acádio sabia de tudo. Seu pai era vereador pelo estado de São Paulo, havia estudado com papai no Ginásio e dizia com ar nostálgico ser um grande amigo dele. Mamãe ficou desesperada quando o tal deputado importante anunciou uma visita até a nossa casa tão simples e acabada, quis negar-lhe, quis desaparecer, mas no fim o homem veio e ignorou a casa e sua bagunça, dando atenção somente a papai. Estava em uma visita meio formal e meio familiar, tinha uma avó centenária no interior de Minas e a coitada estava para morrer, tratou de traze-la à capital para receber cuidados. Era uma família muito boa e mamãe tecia elogios gigantescos, mas sempre elevava a mão ao peito ao ver a verdadeiro comitiva que aparecia dia sim e dia não para visitar papai; homens de tweed, homens de chapéu, todos com ares de importância, inclusive o mais novo dentre eles, um mancebo de dezoito anos de nome Ernesto, filho do meio do deputado que acompanhava o pai porque o mais velho estava em estudos laborais na Escola de Medicina. Era muito chegado a mim e logo entendi porquê; achava que aquele meio jeito retraído e taciturno era charme que eu jogava para ele, para fazer-me mais difícil — e ele adorava o desafio que isso representava. Engajava conversas comigo, sugeria um passeio pelo quarteirão enquanto os homens ficavam com papai, elogiava nossas roseiras e sempre encontrava uma rosa no chão para me oferecer; recebia a tudo com o silêncio de sempre, um sorriso comprimido, uma mudada de assunto; ele compreendia a isso como manha, charminho, na certa eu deveria admira-lo muito. Mamãe gostava muito do rapazinho do deputado, um amor de educado, muito decente, eu devia arranjar um assim para mim. A repreensão de Acádio queimava por sobre mim e ele engolia ao café num gole, olhando-me como quem dissesse pobre mãe, essa daí é uma assanhada e não vai para dar bom casamento. Escreve coisas sobre um homem casado!, via-o pensar quando seu olhar cruzava com o meu; parou de trazer-me um exemplar do Estado de Minas sem me dar nenhuma explicação, nem eu o indaguei sobre. À noitinha na dormida eu forçava-me para lembrar de alguns trechos que havia escrito, sem a coragem necessária para conferir se eram eles reais ou imaginários, lembrei-me do tom com o qual eu acusava e descrevia a mulher de G., sentia um suor fosforescente banhar a mim e aos lenções, Acádio lera àquilo, lera a cada coisa! Recusou-se a vender meus livros, sem pôr nenhuma desculpa do porquê, e ia me sentenciando de todas as formas que dava para privar-me de G. e suas aulas; senti mais vergonha, agora ele entedia minha insistência em continuar com as aulas de alemão como um espasmo de sentimentalismo por aquele homem, agora minha raiva e explosão quando o jornal se perdeu na chuva era porquê eu era uma cínica, uma víbora que escondia a tudo que sentia enquanto ia confessando aos cochichos no papel, e havia me jogado em G. porque eu não era nada além disso, uma menina repugnante que desejava a todo custo uma pessoa casada, e havia beijado um homem, um completo estranho, deixado que ele me espremesse porque eu era assim, uma cínica mentirosa, e Acádio sabia de tudo, tudinho, eu queria que ele sumisse, que me deixassem partir com G., com G.! Mas para onde, para o quê? Como uma coisa dessas se ele nada sabia e eu duvidada que tivesse algo mesmo para ele saber; eu apenas desejava coisas sem motivo ou razão, e cria que imagina-las fosse capaz de torna-las reais uma hora ou outra.

Cansada, eu tinha Acádio em minha frente, estirado numa cama com seu sempre terno branco; ao lado um criado mudo repleto de papeis com anotações de ditados franceses, um leve cheiro de cânfora impregnado em seu leito e uma correnteza glacial indo e vindo por uma janelinha dali. Sua mulher, Rita, era pequena e muito prestativa, afofou o travesseiro, passou a mão por sua testa e deu-lhe um beijo na bochecha. Ele arfava de modo calmo, como em últimas respirações, mas ainda lutava e um coração se debatia dentro dele, ainda estava vivo, não havia sumido. Havia envelhecido um tanto nessas últimas três décadas e ganhado um bigode que na certa citava com orgulho; seu ar altivo era o mesmo, ainda que ali sereno, à beira de deixar a vida, e de olhos fechados.

— Marié Idaliné... — cantarolou entredentes, numa contração que era para ser um sorriso — Está velha!

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