primogênito
quatro
O primogênito vem em seu intervalo ao meio dia, chega com sua sacola de sonhos, joga-a na mesa e vem para mim; abraçou-me, ofereceu sua testa para que eu a beijasse. O chá de cereja amargava em minha língua, eu chorava enquanto sorria ao primogênito e seu cabelo espetado, alisando seu queixo anguloso enquanto lhe dava aquela olhada que as mães dão à cria; cresceu, cresceu muito, tornou-se um homenzarrão feito e meu sorriso combinava com o olhar. Trabalhava no trigésimo andar do prédio espelhado ali da frente, atravessava a rua, almoçava em algum canto, passava na padaria e carregava seus dois sonhos, um seco e um molhado de chocolate, vinha para cá, para mim e seu desencargo de consciência. Mamãe almoça muito cedo, reclamava e almoçava sei lá aonde, pois não podia me acompanhar, eu almoçava às dez, na mesa, sozinha porque queria, porque ao meio dia teria Ernesto e, mais um pouco, o primogênito.
A comida não foi comida, desceu sem gosto e misturou-se com o insípido do chá, em uma receita que o resultado era o sabor de tudo que havia vivido até ali. Mas o primogênito trouxe o sonho ensopado de chocolate, sentou-se na ponta da mesa, reclamando que precisava voltar mais cedo. Não vai comer mais, mamãe? Perguntou, mastigando o seco de sua massa e eu alcançava a falta de água e de reflexos que tomava conta de sua boca; não, eu não os sentia, era um incomodo fatal que me deixava distraída, olhando-o morder, triturar, dilacerar aquelas tiras secas de sonho e açúcar. Vou, respondi-lhe, descendo a embalagem marrom e vendo o açúcar preso ao queimado da massa, sua aparência que há anos havia perdido a graça e o apetite que outrora traziam; eu os deixava vim, permitia que o primogênito viesse e se sentasse à mesa e tivesse seu alento, seu descarrego que era fazer-me companhia. Porque eu era muito só, ele dizia, só e quieta e uma santa, boa, boa demais e severa de menos, se estava ali era por pena, pena pelo achismo de sua certeza sobre mim.
Sorriu, naquela contração de músculo e pele que dizia não sou um bom filho, mamãe? E acabava a pergunta e o sorriso para emendar em sua resposta: sou muito bom filho. Ele estava morto.
— Mamãe não quer mesmo comer, hoje?
— Quero, quero sim, falta-me apetite, é só. Acho que o chá matinal me fez mal.
— Mamãe tem que se cuidar, tem que sair mais, caminhar com papai, hum? — sua boca seca seca, esperando meu consentimento, meu olhar terno pelo sua preocupação e pelo amor do filho — Mamãe não tem vontade de visitar Minas? Poderíamos ir em uma excussão, andar por Ouro Preto, rodar Belo Horizonte. Mamãe não nasceu em Ouro Preto? — parou, soergueu as vistas — Engraçado, sou meio que metade mineiro, não sou? E, no entanto, nunca pus os pés lá. Não é hora?
— Itatiaia, — corrigi — não Ouro Preto.
— Não? Sempre disse à Olívia e aos meus amigos que mamãe era de Ouro Preto... não faz mal, nem é tempo de correção. É tudo muito perto, não é?
Sua expressão, linhas e reentrâncias se desfizeram, com ele voltando a comer. Aquela composição de rosto tão banal e sem graça, a voz grave falando mamãe e papai como se fosse a criança de décadas passadas. Ordinário, ordinário em demasia para o nome que eu o dei. Olhei-o em meus braços, meu pequeno bebê, era um menino e eu poderia fazer a homenagem que eu gostaria; Ernesto quis pôr Ernesto mas eu não, não, seu nome eu revelei em um sorriso de reminiscências ainda tão próximas, seria G., G. como o quê? Perguntou-me Ernesto, já discordando do nome. G., respondi-lhe simplesmente, como o imperador. Se quer pôr nome de imperador, ponha de um conhecido... Júlio César! Exclamou... exclamou alguém que já não me lembro do rosto ou da voz, e eu neguei, neguei porque seria G. Como o imperador, disse meu amor, anos antes, explicando-me sobre seu nome, G., como o imperador. E o primogênito teve o nome encurtado e virou Gal, como se chama as generais e generalas, pegou na boca do povo, mas continua a se perpetuar como Gal de G. do imperador. Já meu amor, meu amor foi sempre G., completo e como o imperador.
— Mamãe não vai mesmo comer?
Meu filho, o homem que te deu o nome está morto.
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