outra
doze
O vai e vem nos trens entre Ouro Branco e Beagá perdurou por dois anos insalubres, de sol, seca e vento que esquentava ao bater e retroceder em nossas peles. A capital fazia bem a Acádio, dizia ele, e com sua jactância nas histórias, nos jeitos e no queixo vivia mais lá do que cá — em caronas que pagava com sua lábia —, papai ia redigindo extensas e exaltadas cartas de pavor ao intruso que se fazia de hospede em sua casa, como o prolongamento que titio sempre fora no lar dos outros. Mas mamãe tinha pressa de ir em definitivo, xotar o irmão, dormir com papai, fazer-se a esposa que era; mas em papai sobrava tempo e desculpas, dizia que a casa ainda não era um lar para damas, tinha que se pôr umas cortinas, talvez encerar o piso, aprontar um enxoval...
Aconteceu numa noite recém posta. Eu mirava à rua cheia de poças d'água da chuva vespertina, os lampiões que iam sendo acesos a salienta-las, até que um fungado gutural foi se espremendo entre as paredes, abafado, contido em sua exasperação; voz... voz tão esguelhada quanto o choro; havia alguém em prantos calados atrás de mim. A parede de tinta batida, a porta, por detrás das camadas eu espiava mamãe reprimindo-se dentro de si, num abraço solitário, a mão num lenço espremendo a boca que rugia aos olhos que se comprimiam. Vovó a amortecia de forma áspera, gladiando com sua própria voz de tom naturalmente estridente para manter a delicadeza no tom. Sussurrava numa gritaria. Nunca gostei dele..., emendou, escondendo o seu eu avisei, mãe..., mamãe pediu, acentuando o choro, aquilo não era hora. Fiz de tudo por ele... ou não fiz?, perguntou, olhando vovó com humilhação, pedindo pelo perdão que não existia, fiz nada, deveria ter estado lá todo esse tempo... Falavam de papai, falavam de sua mulher que não era mamãe; a jovem Maria Luísa, esguia, de porte inglês, avô suíço, pele que fazia espumar a carne que a tocava, a de papai. É passageiro, coisa de homem nessa idade..., sussurrou vovó num grito, não é, não é, mamãe bateu o pé, não duvido que a tenha levado para os reis belgas... não esqueceu isso, menina?... Choro, ela tinha olhos verde-água, a mulher lá da capital, choro, choro, cabelos castanho-avermelhados, vinte e três anos, que era ela, mamãe, perto dessa mulher? E vovó mandou que eu fosse para o quarto, perguntei de mamãe e disse que tava dormindo, com dor de cabeça, que eu fosse me aquietar também.
Indo embora dois dias de silêncio circunspecto de mamãe, sumiu na manhã do terceiro, reapareceu à noitinha, tirando o chapéu com ares de revitalização, quase sorrindo. Contou que nos mudaríamos, logo. Os dias que sucederam a essa noite passaram-se calados e irritadiços, mamãe fazendo uma nova viagem de sumiço, vovó fazendo sinal de silêncio as minhas perguntas, mandando eu me ocupar com alguma coisa.
"Mamãe está com papai?"
"Psssiiii..."
"Onde está a mamãe?"
"Por que não vai mexer nas coisas do seu avô?"
Vez por outra tio Acádio deu as caras, com o cheiro da capital preso no paletó branco; puxava vovó num canto, contava-lhe coisas inaudíveis, antes de ir embora novamente bagunçava meu cabelo à minha pergunta "onde está mamãe?". Tudo era agitado e silencioso, tudo sabia dos outros e das outras e eu não sabia de nada, nem me importava, queria saber cadê mamãe e se ainda chorava. Ao cabo de duas semanas titio retornou para daquela vez ter comigo, sem os sussurros que usava com vovó, mas num grito, num anuncio de que eu ia para Beagá, morar lá, estudar numa escola e tanto. "E mamãe?", "está te esperando". Vovó preocupou-se das roupas, das anáguas e das colônias, e eu da bandeirola belga de dois anos anteriores, da pedra branca que achara na ribanceira duma cachoeira, havia a esfregado, tirando todo seu barro, ficara branca e furta-cor, certeza que era uma pedra de valor, uma das tantas que havia. Assim Acádio levou-me ao casarão na Funcionários, à Rua dos Aimorés, mamãe de pé à espera do bonde que nos trazia, num arroubo quando me viu em seus braços.
"Marié...", Acádio contornou, mamãe o olhou feio, apertando a mão que segurava e me guiava para a casa, "Que que há? Vamos contar à Mariá, Marié..., uai"
"Papai está mal.", revelou mamãe, suspirando.
"Mal como?"
"Verá, querida. Os médicos ainda estão analisando, não se preocupe, nem dê ouvidos ao seu tio, ele já sabe que se falar tanto assim será expurgado da capital"
E num silêncio pós-sentença claudicante Acádio não se aguentava.
"Tá definhando... Marié... Perdoe-me, perdoe-me, má cherié soeur, sou um homem muitíssimo visual"
E numa poltrona jogada às cegas numa das saletas do casarão papai definhava. A mão retorcida no punho, a boca torta, os olhos vacilantes tentando mirar em mim que se aproximava; contornaram toda a roda para no fim errarem o alvo. Por debaixo do roupão via-se os sulcos formando-se em cima da clavícula, no pescoço. A barba crescia e afundava nos buracos de magreza e definhamento que seu corpo agora possuía.
"Papai?"
"Não fala há semanas, má cherié"
"Mas me ouve"
"Não sabemos"
Um grunhido expeliu entre seus lábios secos e ocos.
"Viu, titio? Ele ouve"
"É, que importa, é um invilidé"
Mamãe lhe teceu um beliscão, um novo grunhido, Acádio disse que o anfitrião da casa não gostara de vê-lo sendo maltratado, que mamãe se comportasse.
E enquanto iam arrumando um canto para os novos habitantes do casarão, entrava e saia médicos de olhar arguto, que se prendiam à poltrona do homem que definhava, alisando o queixo, analisando, balbuciando termos inconcebíveis em seus pensamentos altos. Mamãe de braços cruzados custava a acompanhar o raciocínio do doutor, quando ele saia, bradava que era um inútil, que ia atrás de outro, talvez fosse hora de chamar um do Rio ou São Paulo. Papai, mudo, com a tez ensebada, os olhos dilatados e malgovernados. Mamãe tentava lhe dar banho, enfiava-o na banheira enquanto ele murmurava gritos, usando de seu pouco movimento ainda existente para disparar sua mão em socos errantes, que em poucas vezes atingiram mamãe, mas sempre acabavam por levantar a água em que se corpo estava de molho. Mamãe saia com o vestido encharcado, chorando, dizendo que desistia. Não deixava que ela o vestisse, que ela o tocasse. Papai, que nunca fora o melhor dos homens, mas muito calmo, testa desenrugada, agora rangia os dentes e levava a alma junto nas rimas de seu rugido, arregalava os olhos que não conseguia mirar, as veias vermelhas de ódio, recusava tudo de mamãe. Comia se a comida viesse da panela de Lucrécia, a cozinheira e arrumadeira, comia se fosse servido pela mesma Lucrécia, tomava banho se ela o esfregasse, o vestisse. De mamãe, nada.
Via-se correr boatos, ditos de que mamãe envenenara papai, lhe dado uma poção, um pó... Estava assim, doente, por causa dela, do ciúme. Sabiam que havia Maria Luísa, a moça de porte inglês, que andava presa aos braços de papai nos bailes. A esposa deveria ter descoberto, se enciumado, agora havia transformado o homem em planta. As fofocas a princípio eu espiava das bocas de Lucrécia e das outras arrumadeiras e cozinheiras, depois alongou-se para a do motorista, do jardineiro, dos faz-tudo que entregavam as encomendas no casarão. E numa visita aos fundos a conspiração era essa e era só disso que se falava; nas salas mamãe tinha o olhar abatido, Acádio ria e às vezes se juntava ao fundo para fofocar com as cozinheiras, arrumadeiras, motorista e jardineiro, que se continham, nunca expressando nada sobre mamãe e a conspiração, mas somente sobre Cândido, o patrão, o cunhado.
"Será que inválido assim teria algum poder sobre suas posses?" os curiosos lhe perguntavam.
"Espero que não. Que má cherié soeur tenha posse a tudo"
"E o senhor, como o bom homem que é, deveria cuidar de tudo, transformar-se no homem dessa casa, precisaremos"
E com o peito inflado concordava:
"Talvez eu devesse donner un coup de main..."
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top