g.
dezesseis
A pensão por invalidez de papai retraia-se um pouco a cada ano, acompanhada sempre de alguma desculpa da prefeitura, que fazia questão de lembrar que o casarão em que morávamos fora ofertada pelo governo, para uso dos funcionários, e papai, inválido, já não podia ser chamado assim. E a prefeitura, com toda a sua benevolência, frisava que permitia que a nossa família continuasse a residir ali sem nenhum inconveniente, o que já era motivo suficiente para tolerar os cortes e os atrasos. Em suma, nem o respeito que outrora papai impunha com seu título de funcionário público sustentava a sua condição de enfermo. Àquela altura de 1929 a própria casa já não era mais a mesma, com reparos para se fazer espalhados pelo assoalho, pelas telhas, paredes e no entorno, onde o mato — antes um jardim em que nos aproximávamos do bucólico — crescia ininterrupto e sem aparos, selvagem com suas trepadeiras tomando de conta dos portões e ornamentos já recobertos por denso azinhavre. Mamãe começou pois a dispensar certas camareiras, certos faz-tudo, um atrás do outro, mas com muita cautela, sempre se justificando de forma polida e inquestionável; não precisávamos de tantos funcionários..., bastava uma camareira, uma cozinheira, talvez fosse tempo de vender o carro e despachar também o motorista, já que apenas Acádio usufruía de seus serviços... Nessa, no final de um ano apenas Lucrécia sobrevivera as demissões de mamãe, que em momento algum deu o braço a torcer e contou que estávamos em estado crítico nas contas e por isso os cortes. Mamãe ia dando os seus pulos, seus jeitinhos enquanto dividia os afazeres com Lucrécia, não demorou para me incluir a eles.
Lá estava eu na varanda que circundava o casarão, varrendo para fora a folhagem do saibro, enquanto papai em sua cadeira tomava ar ali perto. Ele havia ganhado um novo movimento com a boca e parecia adorar fazê-lo por lhe dar um ar mais irritadiço e desgostoso. Mamãe conversava com ele em tom amistoso, tentando distraí-lo enquanto ele exibia o queixo projetado para frente, com os dentes comprimidos numa espécie de animal do mato, uma das cerca de quatro expressões que ainda conseguia orquestrar. A paciência de mamãe em mantê-lo como parte integrante não se estendia a mim. Eu, já na adolescência, recordava-me de pouquíssima humanidade daquele homem para tê-lo como gente; o que me tinha guardado, além de mísero, era distinto da figura magra e desdenhosa da cadeira na varanda; nas memórias de criança ele era um homem corpulento, sempre de barba feita, de certa forma até um pouco sorridente. Agora, os olhares esguelhados que eu lhe punha enquanto a palha raspava o chão denunciavam-me não mais que uma sombra onde, por debaixo dos dois roupões que a recobria, a pele era consumida por escaras. Sequer saberia dizer se ele ainda me reconhecia como sua filha, não com o olhar tão turvo e impessoal que depositava aqui e acolá sobre mim.
Nesse instante, quando eu finalizava meu afazer para recoloca-lo dentro do casarão, a ferrolho da cancela arranhou e por ela um homem sem chapéu e de pasta embaixo do braço entrou, correndo os olhos pelo casarão e atendo-se a papai. Como se fosse costumeiro fazer visitas a casa, o homem subiu os degraus para a varanda e aprumou-se ao lado do inválido, ficando de joelhos para melhor lhe falar. Pus o queixo apoiado no cabo da vassoura e fiquei a observar a intromissão desavisada, em silêncio circunspecto. O homem, que parecia contar uma história, prolongou-se por não mais que três minutos em sua conversa solitária com papai, só então levantando-se, tirando o pó do paletó, e me vendo parada ali por perto. Apresentou-se como G., estendeu-me sua mão hirsuta — era ele todo hirsuto — e perguntou-me quem eu era além de Maria Idalina, como apresentei-me. Meio surpreendido por ser eu filha de seu amigo Cândido, relembrou da véspera das vésperas de Natal que jantara conosco, há anos.
"Estava em dívida não só com ele, mas com toda a família"
"Aviso à mamãe de sua visita?"
"Por favor, faça isso. Transmita também as minhas sinceras desculpas pelo sumiço... há certos motivos para ele, talvez noutra hora eu e ela possamos conversar melhor. Houve alguma melhora da parte dele?"
"Bem... o senhor acaba de ver como ele está"
E com ricto na boca — que mais tarde descobriria ser comum a ele — fez gesto afirmativo.
"Diria que está... na mesma de anos atrás", concluiu.
Vendo-o distraído demais em analisar papai com o olhar, apressei-me:
"Contarei à mamãe da visita. E darei as desculpas"
E assim se passou a primeira conversa que tive com G., com ele indo embora como o desconhecido que era, sem arrebatamento algum de minha parte. No jantar falei da visita e das desculpas à mamãe, ela dizendo que se lembrava bem dele e Acádio concordando que também, acrescentado que G. era um homem muitíssimo culto e que chegaram a conversar em francês da última vez, com titio, claro, sendo levemente superior a ele, mas só um tiquinho assim de nada, explicou com um gancho de vão mínimo nos dedos. Bem, disse mamãe, só espero que ele não esteja pretendendo vir aqui para empurrar médicos e mais médicos, seu pai é um caso perdido e é crueldade alimentar esperanças de que um dia ele volte a ser um humano. Papai escutava a tudo que se passava com seu queixo projetado.
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