água
vinte e sete
Devo ter ficado de molho em água por dias, dormido de olhos abertos e em alguns momentos já esquecidos me secado por inteira e ido para a escola, passado por seus corredores, ouvido o toque e saído e escutado as buzinas, visto as confusões urbanas, pegado o bonde e sacolejado dentro dele, chegado em casa, tirado a roupa e voltado para o estado de molho, cujos minutos formaram horas e talvez dias onde a única paisagem fora a tonalidade branca dos azulejos à minha volta, que ganhava vinhetas ao redor, escurecendo-se pelo baixar do sol para se partirem no bater impaciente na porta, mamãe perguntando o porquê de tanta demora para eu esquecer logo em seguida que estava na hora de sair dali e me secar. Uma dor de cabeça vertiginosa apalpava partes infinitesimais do meu miolo, abaixava-me como que para que eu desembocasse pelo ralo e eu tentava sobreviver apoiando-me nos azulejos que àquela hora refletiam a pouca luz acesa; não lembrava de ter ascendido a nada e no entanto ao olhar para o meu corpo ensaboado via as semibolhas acopladas em minha pele explodirem em suas superfícies furta-cor radiante, tudo era branco e nauseante, as paredes, o sabonete molhado, as porcelanas orvalhadas por respingos d'água, o fundo de meus olhos no espelho, tudo era ludibriado pela luz que se dizia ir até cada um num bate e volta; ela mentia, não se refletia, ela absorvia a tudo como o preto, estava de molho numa escuridão que se fazia ver e enganava. Fugi com brusquidão para a casa à meia-luz, onde a sombra de todas as coisas e a minha se projetava nas paredes e eu estava livre para esquecer. Era uma segunda-feira, mas poderia ser qualquer outro dia da semana, vez que a nomeação do tempo se perdeu no sentido de outrora. Soube que aquele teor agre se passava numa segunda e não num sábado — ou terça — porque Acádio entrou em casa ofegante, fugindo como eu fugia, mas ele queria se desfazer da borrasca que desmanchava o mundo do lado de fora — nas mãos, um exemplar do jornal, nas mãos, a segunda. Quando me preparei para arrancar as páginas de sua mão ele me falou decepcionado: Non, non, receio que seu jornal não tenha sobrevivido à chuvarada, Marié. Encharcado, como a ponta de meus dedos as folhas se desfaziam encarquilhadas em labirintos sem caminho de entrada ou saída, molhados como se tivessem feito-me companhia no banho demorado em que acabara de sair. Não, não, não, disse de forma inconsolada e quando terminei de falar ainda assim os nãos continuaram saindo da garganta como grunhidos raivosos. Um dia sem ler essa coisa não faz mal, menina, mamãe comentou. Fui desprendendo folha de folha e um pedaço ia ficando preso no outro em contínua perseguição, com a tinta derretendo em dégradés. Não, não, não. Fiz menção de sair, tinha um punhado de moeda nas mãos que tremiam sem saber pelo quê e os discos de metal, propícios a receber abalos por menor que fossem, tremiam junto em tintins nervosos. Aonde você pensa que vai, Idalina? Repetiu-se por vezes enquanto eu puxava o trinco e sentia a garoa bruta ensopar a pele recém alagada dos dias em molho. Tranquei a porta, dei um longo suspiro, havia tanto lugar para ir. Balancei as moedinhas na mão, espremi a conformação inexistente de que não haveria crônica de G. naquela segunda e deixei a sala com um rastro de perguntas ignoradas.
Havia sido banhada por tanta água e por tanto tempo — a água tirara o grosso, o tempo descamara a pele de modo sutil para dar lugar a outra —, não era possível que ainda fosse visível a G. os sinais do que eu era. Estava cansada de me contradizer, de querer tornar-me insuportável para ele e em seguida querer que ele me desejasse e confessasse a isso num clamor que era mais meu que dele. No beijo com aquele homem eu havia querido ser repugnante aos olhos de G., naquela quarta estava preocupada em ser a melhor versão de mim. Ia descendo a Rua Guajajaras na época onde a população de borboletas explodia, todas elas réplicas uma das outras, nenhuma especial e de cores exóticas, mas de asas frágeis e ressequidas de cor que não ia muito além de um verde amarelado que podia se passar por catarro, tão sem graça e comuns como a mulher que abriu a porta para mim dizendo que G. estava no banho. Entrei sem esperar por seu convite, sentei-me no sofá revestido por uma manta rasgada de brim e fiquei a olha-la de forma provocativa, isso porque ela estava de perfil aprumando um tecido em sua máquina e não via que eu a fitava de forma tão impertinente. Eu podia competir com ela facilmente, melhor, eu ganharia dela com facilidade. Ela era tão insossa quanto eu, tão sem falta de atrativos quanto eu, talvez tão antipática quanto eu. Mas sua falta de graça, de atrativos e de simpatia eram carências envoltas naquela pele de aspecto esponjoso, acumulados em flancos que só tendiam a decair mais e mais. E história, que bons momentos teria ela vivido com ele se deles eu nada ouvia? Ele não usava aliança como os homens que eu conhecia, até papai usava uma que mamãe havia mandado apertar para caber no seu dedo frouxo, e ele nem fazia seu beiço como costumava fazer com as coisas que desgostava quando ela a punha depois de um banho. Sequer ele e ela trocavam olhares.
"O que diabos está fazendo?", G. perguntou-me com repreensão, em parte espantado.
Dois dos meus dedos estavam como garras prendendo a quase translucida de tão fina asa da borboleta repousa em meu braço. Estava prestes a arranca-la, pronta para matá-la e ver a tira de seu corpo mutilado debatendo-se em agonia. Será que um bicho como aquele, formado por tiras e mais tiras secas e opacas como defuntos, sentiria dor se eu desprendesse dele uma parte que parecia tão morta quanto todo o resto?
G. abanou o ar e a borboleta fugiu para fora da casa, batendo suas asas intactas para a luminosidade da porta dos fundos, olhei copiosamente para G.:
"Borboletas sentem dor?"
Ele me olhou feio, olhou para a mesa, parecia transtornado. Quis morrer por vê-lo tão decepcionado comigo.
"Nunca mais faça isso"
Comecei um choro consternando, nem sei se de verdade, pois lágrimas não vinham e eu me vi fazendo uma força inalcançável na tentativa de umedecer os olhos para acompanhar aquela sacolejada que meus ombros faziam de maneira ritmada. Meus olhos estavam fechados, mas eu podia ver que G. me olhava, para onde mais olharia? Quis lembrar do que desejei esquecer, do homem de dias atrás, já nem sabia quantos, dele e suas mãos e sua saliva na minha boca; ele acentuava meu choro, logo meu fungado saia como um assovio espontâneo, daquele que soltamos sem pensar.
"Ei, ei, ei", era tudo o que G. dizia, pondo a mão de forma nada acalentada em meu braço, "Por que disso?"
Em algum murmúrio daquela tarde eu me vi enfiada nele; não em um abraço, mas numa encostada disforme, onde minha cabeça preludiava apoiar-se em seu ombro e as mãos dele faziam como que iam acumular meu corpo para sim. Via às duas coisas pelos espaços entre os fios de cabelos que cobriam minha cara e visão daquela coisa cinzenta que era o ar da cozinha. Quis que a porta arrebentasse e um silêncio mais profundo do que aquele que nos mastigava viesse para se sobrepor, e ela nos consumisse de forma prolongada até que nos afastássemos um do outro com vergonha; ela ficaria com a imagem na cabeça, pela primeira vez pensaria em mim como um percalço na sua vida, ruminaria dia e noite até explodir questionamentos em cima de G., e ele os acharia estúpidos e se irritaria da forma como detestava as coisas, soltando frases irônicas, concordando sem concordar, numa birra que irritaria a ela.
Os braços hirsutos de G. rasparam em alude sobre minha pele e eu me deixei cair sobre ele; nenhuma porta fora aberta e o silêncio permaneceu tal como estava.
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