vovô
oito
Mamãe gostava especialmente de exaltar vovô, falar o quanto ele era bom, digno, o melhor dos homens, inquestionavelmente. Ele havia partido há muito, chegando a conhecer somente o neto natimorto, chorando por isso, partindo três anos depois, deixando de resto somente seus cobogós. Era um artista, mamãe contava, mãos que tocavam sem espremer a nada, construíam com distância e de forma tão íntima que o resultado não poderia ser outro senão a perfeição. Um a um, elaborava seus cobogós, pondo personalidade distinta a cada novo cliente que lhe aparecia; cinquenta somente para tapar um buraco nos fundos da casa, e vovô fazia os cinquenta como se fossem para o próprio Palácio de Buckhingham. Não que fossem polidos de perfeição, muito pelo contrário, eram lotados de seus erros de mão humana, lascas que se partiam nas bordas, uma irregularidade no tamanho ao coloca-los enfileirados. Mas a sensibilidade das mãos, o olhar depositado, o tempo gasto pensando no desenho, tudo se revelava nos cantos imperfeitos, na altura milimetricamente defeituosa, nos desenhos não gêmeos.
Encantada pelo que ouvia e via dele, das suas mãos e da sua acuidade, apreciava mexer em suas coisas, no resto que sobrou, em seu material já endurecido e malcheiroso pela década de inutilidade, os moldes parados no canto, nas tralhas enferrujadas, e em particular nos cobogós que sobraram — fosse os que se partiram em dois ou três ou os ainda inteiros, levemente descascados. Levantava um, os braços fraquejando, ameaçando desabarem com cobogó e tudo, apoiando na parede que também era revista pelos desenhos, de barro, amarronzados, jogando pó. Punha as vistas pelos buracos dos desenhos, vendo o outro lado coado pela década, pelas palavras de mamãe e sobretudo pelo aspecto imperfeito, quebradiço e finito. Como se visse dentro de um caleidoscópio, o fundo verde doutro lado — das árvores que cobriam os morros — alargavam-se, comprimiam-se e chocavam-se no efeito dos anos, do feitiço da figura póstuma que fora embutido. Ele só podia ser o melhor dos homens e o mundo seria um lugar melhor se ele ainda estivesse por aqui, pensava, pondo de volta no canto o resto, o cobogó de flor de lótus, o único daquela espécie que sobrara. Meu favorito, com sua cor verde água, que eu não encontrava em parede, olho ou água alguma de Itatiaia; como ele chegara àquela cor? Como sequer pensou que poderia chegar a cor como aquela, como, se jamais havia saído de Itatiaia e ali não a achava. Era meu mistério de infância, solucionado pela ideia de ter ele carregado de outra dimensão aquele tom, nas mãos, pondo naquele cobogó, o único naquela forma e cor.
Numa tarde muito quente, de peças grudando à pele, suor nos olhos e em locais inimagináveis, vovó, num excesso de raiva — vez por outra caia num deles —, despedaçou o cobogó extraterrestre. Ele estava comigo, aos meus pés, eu havia feito alguma traquinagem, coisa pouca, algo como ter lascado com o pé algum de seus preciosos móveis. Gritou, pegou-o, levantou-o e jogou-o com desdém, como ar de sentença. Ele se abriu e pedaços se foram pela porta, caindo na grama, mas o estrago pior já havia sido garantido, quando tocou o chão de cimento queimado, falecendo-se enquanto revelava a sua natureza de gesso. Comecei a cata-lo no mesmo segundo, antes mesmo dele cessar seu rodopiar pelo assoalho. Juntei-o, remontei-o do lado de fora, na grama. Tinha certeza, toda desse mundinho, que não havia deixado passar pedaço algum, havia recolhido cada pó que se expeliu e posto de volta, e no entanto... havia buracos, deformações por toda parte, a flor de lótus não se formou de volta, extensos trechos da pintura não existiam mais, como se tivessem ido embora, evaporado antes mesmo do cobogó bater contra o chão, haviam retornado, talvez, a seu antigo universo.
Morreu, eu não veria mais através de sua flor, vi-o despedaçar e vovó também; para ela não era nada, não via a especialidade da cor, a particularidade do formato, tampouco vovô impresso no verniz. E a tudo se atribui um valor nosso, que só faz sentido às nossas tristezas e felicidades, e eu nunca me senti tão só por ser a única sofrer pela morte do cobogó, por ser a única a pô-lo valor; mamãe suspirou uma lamentação, baixou a cabeça, bagunçou de leve meu cabelo; para ela, ele não tinha morrido, não respirava, não falava, era uma coisa material, tão sem vida em sua essência que não conseguia enxergar vovô ali, nem o amando tanto, nem querendo tão bem ao seu dom artístico e principalmente quando contava sobre suas mãos que faziam coisas impressionantes. Havia outros, outros cobogós, num valor que eu atribuiria, não era preciso tanto estardalhaço.
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