visitante
quinze
Entremente. É o nome que eu daria ao que se passou no miolo, depois de Beagá, enquanto Rosamélia, antes de começarem os devaneios sobre deixar a casa dos pais, tomar um rumo independente. Nesse entremente houve brigas, houve festa, houve natais nefastos e ociosos. Num deles, coisa de 1921 ou 1922, G. apareceu-me pela primeira vez. Esqueci-me do ano, natural quando ainda se é uma criança e pouco valor se atribuí a coisas e datas. Sei que G. estivera nesse natal somente porque fora aquela uma das poucas visitas em conjunto dos antigos amigos de papai, e porque G., quase uma década depois, contar-me-ia que estava entre eles.
Era véspera das vésperas de um natal, coisa que naquela casa já não era lá muito, apesar dos esforços de mamãe. Havia um moribundo preso a uma cadeira, mas mamãe preocupava-se em seguir o rito, engomando roupas, cosendo saias plissadas para ela, catalogando pratos para cear com as mesmas pessoas que jantaria pelo resto do próximo ano; eu, Acádio, papai... talvez até chamasse Lucrécia, coisa que fazia para preencher a mesa que se estendia no meio do casarão com sua dúzia de lugares sempre tão sozinhos. Sem folego e ânimo ia criando tarefas para cumprir, tentando se fazer uma dona de casa como se faziam suas amigas, naquele fim de tarde onde ela lembrou-se da árvore de natal encalhada em algum lugar, numa súbita exclamação de a árvore!
Montou-a num estante, encarregou-me de enfeitá-la e foi-se dizendo que colocaria umas guirlandas aqui e acolá... papai, de tez raivosa, olhava desdenhoso para aquela azáfama desmedida de mamãe e, para irrita-la, passou a tocar em seu desajeito o sino depositado no braço de sua cadeira, que fora colocado por Lucrécia para que ele pudesse se comunicar, alertar sobre fome, perigos ou qualquer coisa que desejasse ou que o incomodasse.
"O que quer, querido?", perguntou mamãe, largando suas guirlandas e indo ter com o moribundo, que continuou com o tintalhar irritante, encarando-a todo encarquilhado, sem lhe dar sinal com o olho de sua real necessidade, como costumava fazer quando queria chamar por algo.
Mudo e desafiando-a em seu silêncio, mamãe percebeu que fazia birra e trocou sua pergunta para uma ordenação; gritou que parasse, elevou as mãos as orelhas para tapá-las, papai inferindo mais e mais força em seu sino, eu vendo a cena por detrás da árvore, mamãe ameaçando espatifa-lo na parede. Alguém batia na porta, mas a discussão de uma só voz e sino não deixava que alma alguma escutasse o chamado, com exceção de Lucrécia, que adentrou a sala com cautela, segurando a barra do vestido. Olhou para mamãe, que se calou junto do sino desafinado que gradualmente foi se extinguindo na correnteza do ar quente.
"Alguém chama à porta! Ande, Lucrécia!"
Papai virou sua cabeça de forma desgrenhada para não ver o grupo de homens que entrava pelo limiar da porta enquanto tiravam os chapéus em cortesia. Mamãe ofereceu a mão a cada um e no rosto pôs seu melhor sorriso, completamente sereno e destoante da figura que ameaçava um sino há momentos. Eu espiava as caras, atenta a cada um. Lembro-me que algo espetou meu pé descalço nesse instante e repentinamente larguei o olhar sobre as visitas e, exclamando um ai!, retirei com um fio de sangue escorrido o espinho que grudara em minha sola. Esse causo adiaria a minha primeira olhada a G., que cumprimentava o moribundo ali por perto do meu pé ferido.
"Que foi isso?", exclamou mamãe em espanto, "Vá limpar-se longe daqui. Esses malditos homens acharam de vir em péssima hora! Vá, vá"
Terminando sua ordem que chegou em um sussurro para não assombrar os homens, mamãe puxou-me pelo pulso e, ocultando-me com o corpo, fez-me subir as escadas e passar aquele resto de tarde guardada no quarto. À noite, abriu a porta num rangido baixo, cuidadosa, confessando-me que pensara que eu havia dormido, estava tão quietinha, o andar de cima tão silencioso... contou-me também que Lucrécia traria minha janta para o quarto, já que um dos antigos amigos de papai resolvera ficar para o jantar e papai estava muito sensível, irritadiço, louco para criar um causo com seu sino que, aliás, já havia providenciado a retirada, ao menos por aquela noite, mas quem sabe ele não acharia outro modo de chamar atenção, sempre encontrava, e não era bom que eu presenciasse a mais uma de suas bizarrices. Homem sem juízo esse que veio ver teu pai, emendou, contraindo a boca em desdém, fora o único dentre os cinco a aceitar o convite que se faz por cortesia... se se oferece janta, recusa-se e agradece, aprenda, Idalina... mas esse aí aceitou de bom grado, disse que tinha certas coisas a falar, alguns especialistas a indicar, pareceu-me meio esfarrapado, acho que só quer mesmo é comida. Mamãe já demonstrava uma violenta exaustão da visita importuna lá embaixo, precisava acabar logo com aquilo... foi-se, deixou-me só novamente. Depois de Lucrécia subir com o jantar e após já ter levado embora os pratos, fazendo-me garantir que dormiria em seguida, ignorei a promessa e com minha curiosidade pueril fui espreitar o que se passava ali por baixo. Pus as pernas lânguidas entre as grades do mezanino e através delas vi a mesa com seus pratos que acomodavam restos em um final de janta. Mamãe estava ao lado de papai, Acádio ao lado do visitante, que recebia olhares carregados de certa admiração por parte de titio. Não se ouvia sobre o que falavam, pois era tudo dito num volume baixíssimo, circunspecto, cada frase com um pouco de reflexão na sucessão, que se estendia em silêncios onde eu encarava fixo o cabelo excessivamente preto da cabeça desconhecida. Numa dessas alongadas quietações, especialmente calada, a visita levantou a atenção para onde eu me encontrava e, meio surpreso por achar minha figura de criança presa à escuridão, sorriu-me de lado por entre sua barba, soerguendo um pouco os talheres que tinha nas mãos. Atordoada por ter sido pega em minha observação, não lhe retribui e ele não se afetou, retomando seus assuntos com mamãe e Acádio.
Já naquela noite eu esqueceria o cabelo preto e o sorriso torto; tampouco relembraria deles quando G. achou de me aparecer de novo, anos depois; menos ainda eu supunha no que, ao cabo de anos, aquele homem sentado em nossa mesa, comendo de nossa comida sob o olhar de uma criança, se transformaria.
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