rei

onze

Aconteceu de chegar, num final de setembro, um jornal da capital que anunciava a vinda de reis belgas para Belo Horizonte. Mamãe fez pouco caso, folheou-o noutras seções, com seu bico e seu olhar de malgrado, por fim, jogou-o à mesa para quem quisesse usufruir. Largou-o, mas não sem deixar de olhá-lo de quando em quando, como que para confirmar a sua presença mais uma vez, conferindo de que era real e que não fugira. Não tardou um dia completo para que começasse sutilmente os seus comentários. À tardinha disparou a louvar sua falta de tosse, à noitinha sentia-se surpreendentemente saudável, como há tempos não se sentia, na manhã do dia seguinte concluiu que talvez fosse hora de descer as montanhas de Itatiaia, só um tiquinho, e ficar um pouco com papai, logo completaria uma década, o vilarejo já não era tão carinhoso às suas necessidades respiratórias como antes; tinha que se acostumar, Beagá ainda ficava bem no topo, via-se os morros, era o suficiente. Chegou a falar sobre o Rio, a cidade baixa, até conseguia ver-se por lá, admirando o corcovando, imaginado o alto, o mar das alturas, o ar coado por Deus. Devaneou mais um tiquinho, em voz despretensiosa, para ao meio dia seus comentários, conclusões e pensamentos altos transformarem-se em afirmação. Iria para Beagá, ela e eu, logo, já era tempo, apressou-se em comunicar papai por um telegrama, tio Acádio gritou para que acrescentasse sua ida, mamãe riu e negou, tio Acádio provocou-a e acusou-a de querer ir à capital para tirar uma lasquinha do rei belga, mamãe encarquilhou sua tez, fez-se de deslembrada, aquela coisa lá? é, talvez iremos a tempo de distrair Idalina com isso... e voltou a redigir seu telegrafo que estava para virar carta, acrescentou que tio Acádio iria junto, pois ficara envergonhada de ter seus pensamentos tão desnudados por ele, era mesmo uma peste pedante e querida.

No início de outubro de 1920 estávamos nós em Beagá; papai explicando para mamãe que ela não poderia ir junto dele ao encontro com os reis belgas, seria coisa pequena, continuava, íntima, muitíssimo particular, mamãe não iria se divertir, haveria apenas gente como ele e, quando muito, mulheres tediosas que não combinavam em nada com mamãe. Acádio esgueirava-se para fora da janela ampla, da casa ampla, de piso e ambientes amplos. A casa era a última da Rua dos Aimorés, no bairro Funcionários, que descobri com certo espanto ter esse nome por haver ali somente funcionários públicos, homens como meu papai. Estávamos numa capital, havia no centro prédios, fontes e praças em estilo francês, mas naquele finzinho de rua se achava tudo do interior, as coisas que se via em Itatiaia, exceto suas flores. A casa era um casarão em estilo colonial, as janelas de quadradinhos de contorno branco emolduradas de cor azul, o terreno que a circundava era tão grande que mesmo esgueirando-se pela janela não se via outra coisa senão árvores, arbustos e mato, uma natureza que encobria as outras casas e o bonde que passava ali por perto. Era como se estivéssemos numa fazenda, numa casa em Itatiaia. No entanto os sons e cheiros eram outros, havia o barulho de passantes e os pardais pareciam calados, o aroma dos orvalhos condessados existia, mas com um fundo de queimado. Andava-se meio quilômetro, passava-se pelo arco de trepadeiras e a cancela, estávamos na rua de chão vermelho, onde pegávamos o bonde amarelo mais à frente. Tio Acádio segurava a minha mão, assobiando uma canção, mamãe seguia com ar decepcionado, queria estar com marido, com papai que de manhã cedinho havia se levantado e partido para preparar a recepção do rei e da rainha belgas, ao menos seus pulmões estavam sustentáveis e tinha voz e grito para ordenar que Acádio deixasse de assobiar.

Na Praça da Liberdade misturamo-nos à massa de operários, costureiras, pequenos comerciantes e ambulantes que gritavam pipoca, caramelo, balas. Acádio, bruto e gentil, espremia-se entre os troncos que elevavam bandeiras e estandartes nas cores da Bélgica, levava mamãe e eu junto, presas em suas mãos que avançavam determinadas. E sem ninguém se dar conta de nós, chegamos à corda limite entre o povo e a nobreza. Tio Acádio colocou-me em cima de seus ombros, batendo em meus joelhos, motivando-me pelo sei lá o que, enquanto sorria e assobiava e afastava as mãos que balançavam bandeiras belgas em sua cara. Oficiais faziam guarda enquanto a carruagem passava sobre as pedras-sabão, mamãe lamentava-se com o olhar, a boca retorcida, as mãos presas junto à roda do vestido, deixou soltar meu marido irá fazer a recepção deles, ignoraram-na, os homens queriam ver o rei e as mulheres especialmente a rainha. Era a monarquia contraditoriamente em cima de uma cidade construída aos moldes republicanos. Mas eu não pensava nisso, tampouco os animados embaixo de mim.

Quando a passagem se exauriu, os oficiais se espaçaram e o povo largou suas bandeirolas para voltar às vidas, tio Acádio desceu-me de seus ombros, e enquanto eu me aproximava do chão sujo, recém pisoteado e maltratado pelo excesso, alcei com a mão uma das pequenas bandeirinhas largadas, enrolando-a em seu micro mastro e escondendo-a nas dobras do vestido. A cidade estava num caos despreocupado em sê-lo. 

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