itatiaia

seis

Houve o tempo em que não existia São Paulo ou Beagá, era somente a rua íngreme e anônima, que não se encontra senão em um desvio errôneo de desatenção. Nas bocas locais a Matriz de Santo Antônio fora a segunda igreja a ser construída em solo mineiro, noutras — menos modestas e mais exageradas —, fora a primeira, merecia o título de igreja mais antiga de Minas Gerais. Ninguém muito longe dali sabia da história, da igreja, do seu título ou do vilarejo.

Era a rua e somente ela. Não tinha nome, nem precisava.

E esse anonimato de rua, de pessoas e de rostos se acha em uma esquina duma estrada de Ouro Branco, onde ninguém entra porque não há quem espere haver gente e tampouco a igreja mais antiga do estado por aquelas bandas. Da matriz se sobe pela única rua, onde há roseiras, muitas, tantas flores de tantas formas e tão exóticas... passava por elas em meus primeiros anos e somente por elas, não havia outra rua ou outra igreja, e assim seus jeitos exóticos de abrir-se e retorcer-se passavam-se despercebidos às minhas vistas pueris, só dando por conta da singularidade daquela rua e das suas rosas quando fui para Beagá e não vi por lá as cores retorcidas, nem encontrei os algodões de seda rosa grudados nos pés; toda uma excentricidade que se perdia em tantos cruzamentos e avenidas. Percebi com a ingenuidade infantil que Itatiaia era Itatiaia e não havia de existir algo como aquele lugarzinho tão esquecido e suas rosas.

Uma das beiradas do vilarejo era um precipício que caia ao mar verde de cabreúvas, aroeiras e eucaliptos. Nos vãos das casas que de fundo tinham o abismo podia-se corajosamente se enfiar, os pés no barranco, as chinelas se arrastando abaixo com a terra... altura, sempre a temi, mas naqueles atos gostosos de tão estúpidos o que valia não era a vida e seus medos, mas apertar os olhos, muito bem — sempre fui ruim das vistas —, e alçar com uma exclamação assustada que nunca se cessava do susto Encontrei! Ali está, ali está ela! No céu verde, embaixo das nuvens grávidas de chuva e seus primeiros filhos que desabavam em miúdos, um rastro branco rompia e quebrava a monotonicidade do verde escuro com o branco que se esguiava, caia e deslizava; a cachoeira, também sem nome, a recompensa pela coragem e atrevimento. Vê-la, traçando caminhos pela mata e cogitando o dia em que se chegaria lá, àquele ponto que parecia tão longínquo e improvável, era, com toda nossa convicção, o mais longe que qualquer um poderia ir; Zoropa e seu Napoleão ou a Capital e seu Palácio do Catete pertenciam só e somente ao imaginário, sequer existiam na verdade verdadeira. Mas a cachoeira se via e portanto era real, era para onde a gente dali — os que estavam dentro ou prestes a sair da criancice — gostaria de gastar uma tarde.

E numa simplicidade que se arranjava com todo o resto — as paredes de tinta batida, as janelas com as bordas coloridas, as rosas — a mãe, a avó, a tia, alguma do sexo feminino e voz voluptuosa, esperneava o nome, o teu nome. Menina ou menino algum, por mais longe que fosse daquela ruazinha anônima para apreciar o deleite da cachoeira, estava distante o suficiente para escapar do autoritário vocativo que vinha acompanhado da construção mental do corpo que guardava a voz; e ela estava de pé numa janela ou numa cancela, com um pano num ombro, a tez raivosa. Corria-se, chegava-se ofegante e com os chinelos virados do avesso, e respondíamos ao extenso questionário sobre nossos passeios, ouvíamos sermão de que era inquestionavelmente proibido ir para as beiradas, para o precipício, pois morreríamos e ninguém acharia nosso corpo preso às árvores, seria uma morte agonizante e portanto nada de abismo — e continuava-se negando a ida até lá, mas a mulher dizia que era sempre bom fazer-se lembrar. Lembrávamos, dávamos de ombros e revirávamos os olhos quando a mulher dava as costas; no dia seguinte regressaríamos ao íngreme que levava à morte. Éramos teimosos e desobedientes, na chuva, com a terra molhada e mais perigosa, tornando-se lama pegajosa que arrastaria nossos pés, mas sonhadores, como todas as crianças o são. Era simples, era a cachoeira e nossa vontade de toca-la, banhar-nos, e escala-la, era o limite máximo da única rua, da matriz e da nossa vida.

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