inquieto
vinte e quatro
As aulas daquele ano retornaram, enquanto que as das quartas se mantiveram. Ao retorno da escola, vinha junto Rosamélia, cujas conversas vis eu já não queria ouvir, tinha vontade de atropela-las da forma como ela também me atropelava. Sobretudo queria falar-lhe sobre G., encaixa-lo, exalta-lo, comenta-lo, fazia a esses quereres nas brechas que Rosamélia me dava, mas saiam-me descompactadas, um tanto reprimidas, tímidas. Empenhava-me em acrescenta-lo a ponto de tornar-se forçado e acontecer de Rosamélia, que já não era de se esforçar em responder as minhas coisas, simplesmente ignorar, responder com uma exclamação sobre algo que passava por nós ou sobre uma lembrança exaltada que lhe voltara à cabeça. Contrita, eu lhe sorria a implorar para que em sua espontaneidade que lhe era tão natural ela resolvesse puxar G. de algum canto para encaixa-lo naqueles interstícios entre nós; nenhuma vez o fez e nua de expectativas eu aguardava pelo dia seguinte, onde enfim, quem sabe, ela estaria disposta a ouvir-me sobre ele; eu não o amava, não, era ainda algo longínquo do que reconhecemos como amar, talvez tão somente uma admiração que se cria pelo que nos é diferente. Pois havia uma certa inquietação no mundo, tão súbita que em um dia eu caminhava de forma normal pela rua, noutro eu já não conseguia medir a pressão de meus passos, sequer ordena-los, e vinham-me grosseiros demais e a sola rachava os cascalhos, ou tão leves que não me tiravam do lugar, desaprendi a andar não sei pelo quê, desaprendi a atravessar a rua, sendo a vontade de ir para o outro lado a me parecer motivo insuficiente para atravessa-la, tinha que me justificar aos carros, aos passantes, virava o braço para coçar a cabeça e como se fosse esse movimento o real motivo de querer chegar a outra esquina, atravessava a rua e um alívio existia até que a avenida seguinte me aparecesse para dissipa-lo. E a esse frenesi eu alimentava com outro, com uma angustiosa sofreguidão que desejava, no dia seguinte, acrescentar G. numa das conversas com Rosamélia. As intranquilidades eram vaivéns que me soçobravam a modo de já não suportar me dedicar a outros pensamentos que não as envolvessem; amanhã teria Rosamélia e a possibilidade, na quarta teria G., e noutro dia mais de Rosamélia, outra quarta, G..
Noutro dia, quando cheguei da escola, com surpresa encontrei G. em nossa casa, em nossa cadeira, tomando nosso café. Conversava com papai, ria para ele como se estivessem em uma conversa mútua demasiada irônica; mas ali era um monólogo onde somente G. falava e, apesar disso, notava-se uma certa tranquilidade nos traços brutos de papai; seus espasmos pareciam mortos, seu queixo retornado para trás, se ainda possuísse um riso seria como naquela sua ordenação de traços a olhar de modo embutido para G. enquanto o ouvia falar e rir. Desde então passou a frequentar aquela casa com frequência, sempre querendo passar por despercebido, entrando e juntando-se a papai de forma tão silenciosa e sorrateira que eu me pegava assustada ao me aperceber de sua presença na varanda ou na sala. Lucrécia já nem via mais a necessidade de avisar à mamãe que havia um homem ali para visitar papai; G. recolhia-se e recuava-se com papai e somente ele, fazia questão de descartar mamãe das visitas de forma sutil e fazia tão pouco caso de mim que ninguém diria que nas quartas embrenhávamo-nos em conversas em alemão. Permitia, às vezes, que Acádio se intrometesse ali no meio deles, mas por pouco tempo, e titio deixava os dois homens com ar satisfeito, pois nele havia um desejo imenso de possuir a atenção de G. e uma felicidade absurda quando a conseguia. Achava-o um homem ideal, inteligente, talvez o epíteto que gostaria de se tornar um dia e por isso elaborava extensos comentários sobre o quão inacreditável era aquele homem, e mamãe descordava interrompendo-o, dizendo que, na verdade, ele não passava de um mal-educado que se intrometia em sua casa, já não podendo arruma-la de forma confortável com vergonha pelo homem que havia ali esparramado. Eu entrava em sua defesa, dizia à mamãe que G. fazia bem a papai, que eram amigos e que papai até estava fazendo menos birra desde que sua companhia se juntou a dele. Eu o defendia com certo arrependimento, pois, assim como Acádio, eu e minha inquietação queriam por um pouco de atenção de G. naquela casa, mas tudo que eu recebia era um aceno cordial com a cabeça e que me levava a achar que ele me detestava, mas chegavam então as quartas e ele era comigo o G. de sempre, carrancudo, porém afável; e eu lhe era a mesma Idalina, taciturna em português, loquaz em alemão. As visitas até minha casa passaram a assumir um extrato diferente, compreendi que ali ele não poderia, por algum motivo, ser o mesmo homem e eu a mesma pessoa. Ao passo que entendia a isso, defendia-o detestando-o ao me lembrar de sua indiferença para comigo por debaixo daquele teto. Tinha vontade de questiona-lo sobre durante as quartas, mas a naturalidade com a qual pulava entre os dois estados era tamanha que nas aulas ele era tanto o mesmo que já não podia reconhece-lo como o homem que visitava em silêncio a minha casa. Minha frustração maior se devia as coisas que eu própria inventava, no início cogitei que suas visitas tão frequentes e súbitas tinha em parte a ver comigo, mas por que teriam? Não havia pelo quê e no entanto eu me via querendo que houvesse, que fossem suas visitas por um motivo sobre mim, não sobre papai; e sua indiferença, seu aceno com a cabeça, a distância que punha naquelas horas onde fazia companhia ao moribundo, tudo colocado de modo tão bem ordenado que me parecia ter sido pensado a criar aquele violento vão; e eu me confrangia nesses extremos — se não por mim as visitas eram contra mim. Não era possível, não era crível uma coisa nem outra, irracional eu seguia a sobrepor os passos, a calcaste-los num ritmo que levava à confusão mental de já não distinguir uma coisa da outra; as quartas dos outros dias, Rosa de Amélia, papai de G.. A inquietação; ela era muita.
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