dócil
trinta
Iria ser professor na Alemanha, como ele um dia me falara que quisera. Otimista completou que seria uma coisa ótima, talvez pudesse traduzir o que já havia escrito e tentar publicar naquela terra onde ele poderia ser somente um escritor, não um fantasma oculto pelo anonimato. Dei-lhe um riso nervoso, mal conseguindo congratula-lo, e lhe despachei um esquálido que ótimo, que coisa boa, sua esposa vai acompanhar-lhe? Desfazendo o sorriso e apoiando a mão na cadeira respondeu secamente que não, que ela não iria porque não se embrenhava com ele nessas coisas, nessas suas viagens. Desconversou logo e passou a recomendar vários tantos outros professores de alemão por ali, mesmo sabendo que nenhum deles aceitaria ensinar-me qualquer coisa que fosse pelo mesmo valor que eu lhe pagava. Assenti a tudo que ele me falava e continuei nesse frenesi até quando já não conseguia mais juntar racionalmente as coisas que me falava. Visitarei seu pai antes de ir, foi a única de suas frases que guardei por parecer-me ela a última.
Em casa senti-me descortinada, como se cada olhar de mamãe, Lucrécia ou Acádio fosse para espiar meu envilecimento; Acádio era o principal, talvez porque eu precisava concentrar tudo em um único alguém ou porque ele realmente conhecia mais do que demonstrava, mas passou-me a incomodar vezes mais que antes. Grunhia em silêncio para ele, ele que já não podia ler o que eu escrevia pela minha recusa em fazê-lo, mas que parecia continuar a rasgar roupa por roupa que abrigava meus pensamentos, certa de que de algum modo ele sabia o que se passava em minha cabeça, minhas perguntas, meus arroubos de pura quimera; que tinha eu para fazer naquela cidade, com aquela gente? Eu não tinha muita coisa, não, não, eu não tinha nada a não ser aquele arrebatamento por G.; que assim fosse, que eu o seguisse e tomasse, por que não embarcar no navio junto dele, por que não, vez que tudo era tão insólito e uma continuidade assim não era outra coisa senão incoerente em sua coerência insólita? Ele era casado nesse país, mas em outro ele poderia ser o que quiser, assim como eu. Peguei as páginas, os linotipos, as ideias ganhavam voz a ponto de se fazerem legíveis a olhos e escutáveis a ouvidos, necessitava reprimi-las naquela prensa; como havia chegado a tal ponto no devaneio eu não saberia dizer, tampouco via irracionalidade alguma ou propriedade devaneada naquelas minhas ideias, era tudo possível, era tudo crível. Eu o amava e ele precisava de alguém, precisava porque eu dizia que precisava, porque eu via que ele era meio homem e eu meia mulher. Encadernei de vermelho as páginas, ordenei padrões florais dourados em sua capa e título; eu não podia ser para ele aquela pessoa, mas queria que ele pensasse que eu era, que aceitasse que eu fosse junto dele e então eu poderia, doravante, tornar-me, bastava seu sim e no entanto antes era preciso ser sugerido. Um eu te amo o surpreenderia e o afastaria, palavras demais amedrontá-lo-ia aos poucos até decair no tédio e, de olhos fechados e mãos ao ar, pediria que eu calasse a boca. Terminei o livro de linotipo, aquele que seria meu último, um exemplar cru de A Dócil. Havia lido e relido aquela história muitas e muitas vezes e mesmo que eu nada tivesse da dócil e G. pouco fosse rude como o senhor da novela, via-me como eu e ele naquelas páginas, era nosso livro, nossa história contada de outra forma, em outros fatos, hora a dócil sendo G., hora o dono da loja de penhores sendo eu. Talvez fosse a taciturnez do homem, ou o fatalismo da dócil, ou ainda a diferença abrupta de idade, mas meu coração levava-me a crer que quando lia e conhecia mais uma vez a mesma história eu lia G. e eu contracenando juntos numa outra história, mas ainda sim sendo eu e ele.
Com o livro recém feito em mãos fui até sua casa, desculpei-me por lhe aparecer assim tão de repente, mas queria despedir-me antes que fosse ele até minha casa dar adeus a papai. Pediu para que eu entrasse em sua casa, onde nem mesmo o ruído engenhoso da máquina de sua esposa perturbava o silêncio; estava tudo silencioso demais e por mais que ele risse parecia que parte dele se desconfortava por me ter ali em seu chão. Levou-me até os fundos que era a sua cozinha, ofereceu-me água e eu me sentei à mesa a qual debruçamo-nos por tantas tardes. De costas, retendo água num copo, conseguia sentir o cheiro de sua pele apenas por vê-la refletir a pouca luz que lhe batia, aquele odor de aroeira envelhecida por quase um século. Era um princípio de verão e meu suor vinha acompanhado de excessos de nervosismo, sabia o que faria em seguida, conhecia como, de toda forma era tudo incerto. Ao perguntar-lhe sobre a cidade em que moraria na Alemanha, hesitou como se não tivesse sido informado disso ou não houvesse importância, como se o país fosse de todo suficiente para justificativas; balbuciou Dresden e me pareceu tão fictício que não me estendi no assunto nem fiz menção de lhe escrever, como pretendia. Pedaços meus recrudesceram, mas quando ele se voltou para mim novamente e caminhou para pôr o copo de água na minha frente, soube que não podia desistir. Levantei-me, ofereci-lhe o livro de presente e ele o recebeu com seu oh exclamado. Fez de seus braços um meio abraço e logo tratei de completa-lo, pondo minhas duas mãos em suas costas e tocando sua mais superficial camada de pele ao passo que conseguia sentir o mais profundo de seus lamentos. Eu poderia dizer qualquer coisa com minha cara ali escondida em seu pescoço, um eu te amo bastaria e não causaria vergonha enquanto eu permanecesse ali, nem me estender em palavras o sufocaria a ponto de me mandar calar a boca, se tentasse desgrudar de mim eu apenas o afagaria mais e continuaria falando, talvez eu só precisasse de um abraço, mas ele estava em seu fim e a esguichada de ar que G. tomou para trás em instantes o mataria para transforma-lo em dois corpos separados que nada confessariam um ao outro; num reflexo convergi meu rosto no dele e o beijei até que por vontade própria ele se largasse de mim.
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