beagá

cinco


Apalpo aos olhos e tiro deles as primeiras imagens últimas da rua sem nome que era também a única; cavouco mais um tanto e dos olhos retiro as areias que rejuntavam as pedras sabão que a revestiam,  estou nos tempos em que eu desconhecia que ruas precisavam de nomes e onde inexistia cidades com duas ruas ou mais — que impensável ter uma coisa dessa! Ruas, no plural e num mesmo lugar, entrando umas nas outras, cruzando-se, desvencilhando-se, o fim de uma sendo o começou doutra! Então quando retorno a essa outra vida dá em mim uma suspensão dessa realidade enxuta que agora encaro incrédula, onde as preparações não existem, os receios, as raivas, as revoltas, tudo que é inerente ao homem e que se extinguiu de tal forma que restou a mim essa redução; a metamorfose retrocedente de mulher à nesga de massa corrida que se liquefaz na parede sem função definida, e todos que a olham concordam que ela é um erro arquitetônico. E houve depois o tempo da cidade, da verdadeira, a que seria lembrada e, um dia ao acaso, descoberta como fora Pompeia. Desenterrarão seus prédios e suas praças, acharão os trilhos dos antigos bondes e as placas que davam nome as ruas; as pichações, o lixo, os ossos e tudo que era resto e se tornou resto do resto — os homens em poses obscenas, as mulheres em diálogos ultrajantes que nunca encontraram seu fim. E quando tudo ainda existia e eu andava naquele bonde, com meu vestido malva e o gosto de hortelã na boca, vi a Afonso Pena e Belo Horizonte nunca me pareceu tão linda; meus olhos estavam exaustos de ver aquela mesma rua com a mesma cara das mesmas pessoas, mas houve nesse dia, em que tudo ainda respirava, uma falta de luz, um céu nublado, um lixo acumulado em maior volume, ambulantes com voz mais exasperada, numa junção em que tudo era excesso e portanto novo e belo. E naquela epifania ao que se estendia nas ruas, nos céus e nas vozes, ensaiei o que supus dar um verso, o melhor dos versos, de um poema, o primeiro dos meus poemas; Beagá, fiz de tu minha poesia. Era assim, era o verso e era com ele que faria a poesia. Tatuá-lo-iam numa praça, numa pedra de bronze, assim, com meu nome embaixo, em letras itálicas e brilhosas, porque era ele o melhor dos versos daquele poema. Mas não veio poesia nem poema, nem outro verso. Assim, numa frase, morreu-se. O problema começou quando não soube onde encaixa-lo; no fim ou no início? No meio sabia que não, ficaria sobrando, sem nexo, solto e de contrário aos outros melhores versos dos melhores poetas. Nascera e morrera, mas nasceu e morreu para ser uma epígrafe ou um epitáfio, nunca outra coisa. É minha frase, meu verso, minha mentira. Beagá, fiz de tu minha poesia, mas não fiz poesia alguma; talvez pelo excesso de ruas e cruzamentos, talvez porque tudo sempre excedeu-me em demais naquela cidade enquanto que eu nascera numa onde tudo era reduzido ou estava prestes a se reduzir — uma rua, uma igreja, uma imensidão de corpos que sozinhos se definhavam em particular. Eu não escapara, eu também estive pronta para reduzir-me sem complexidades ou camadas profundas, diminuir-me numa única rua que guarda a apenas duas esquinas.  

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