Parte 3

— Hoje é o seu aniversário e eu tenho uma bela surpresa pro senhor — disse Miguel, dirigindo o carro pelo asfalto da cidade de Recife durante uma noite nublada. Lá estou eu ao lado dele, vislumbrando os prédios pela janela com os olhos sempre pesados e cansados.

— Bela surpresa... — eu ri daquilo como se fosse uma brincadeira. — Nesta idade, você ainda acha que vou ser agradado com alguma surpresa? Não, meu filho, eu não vou... Não mais... Para mim acabou-se tudo...

— Oh, pai, não precisa falar assim...

— Um dia você vai entender, meu filho — sorri fracamente, mas por dentro sentia vontade de chorar. — Quando chegar à minha idade, você vai entender...

— O que é que eu vou entender? — ele perguntou. — O senhor vive falando isso. Já passou da hora de dizer, não acha?

Eu continuei olhando os prédios passando, com os olhos cintilando em umidade.

— Toda história uma hora chega ao fim — falei num tom sussurrante. — Que a nossa missão um dia vai chegar ao fim, assim como o nosso sentido de existência vai diminuindo à medida que os nossos ossos vão ficando frágeis como vidro. Ficamos quebradiços, fadados a sofrer a queda definitiva, para no final renascermos em uma nova carne para uma nova missão de vida...

— O senhor tá falando assim desde que a mamãe morreu, pai — Miguel havia ficado encabulado. Percebi isso quando a sua voz alterou. — Agora só vive falando de morte, de renascimento, de Céu, de Inferno, de Purgatório... Por que a gente não fala de uma coisa mais alegre? Que tal falar do meu noivado com a Albana?

— Albana... — mantive um sorriso fraco nos lábios. — Leonilda ficaria orgulhosa de saber que você encontrou a mulher certa...

— Pois é... A gente pretende marcar nosso casamento em breve. A gente vai se casar na igreja, que nem foi o seu casamento com a mamãe.

— Vai ser um casamento lindo, eu não duvido disso... Mas você ainda não entendeu como eu me sinto, meu filho — mesmo ele insistindo em mudar de assunto, eu persisti em continuar no mesmo. — Se Deus tirou Leonilda de mim, significa que eu vou ser o próximo. Sabe o que isso quer dizer? — encarei Miguel, que mantinha os olhos focados na estrada. — Que a minha missão de pai está chegando ao fim...

Miguel enfiou os lábios dentro da boca e desacelerou o carro um pouco. Pude ver que os seus olhos estavam se avermelhando, oscilando um tênue brilho tremulante.

— Oh, pai... — sua voz saiu falha e rouca. — Eu sei que a morte da mamãe te afetou muito, mas isso não quer dizer que a sua vida precisa acabar agora — dos seus olhos havia escorrido uma lágrima, em seguida fungou o nariz e limpou rapidamente com a mão. — O senhor já é um homem aposentado, então por que não aproveita os últimos momentos em paz? Sem pensar em morte ou desgraça... Apenas viver até onde puder... Ser feliz... Ou pelo menos tentar aproveitar o que ainda pode...

Lembrando esse dia, agora eu vejo que no fundo ele estava dizendo para si mesmo: "Não me obrigue a fazer o que eu vou fazer...".

O carro estacionou na frente de um estabelecimento de pintura amarela. A primeira vista eu não sabia do que se tratava. Parecia uma clínica médica ou algo semelhante. Na parte superior da entrada principal estava uma placa retangular marrom com o nome "Lar dos Anciãos" destacado em coloração vermelha. Lar dos Anciãos... Pensei, olhando fixamente para a entrada, uma porta dupla de madeira lisa e cintilante. Que tipo de boa surpresa pode estar em uma casa de velhos inúteis?

Juntos, saímos do veículo. Miguel me segurou pelo braço e me guiou pacientemente até o interior do local, subindo os degraus da frente com cuidado, dando um passo a cada um segundo. Era admirável a tamanha paciência que ele tinha comigo, mas isso me incomodava em demasia, pois estava sendo um peso nas suas costas. Todo o seu futuro brilhante estava sendo interrompido por minha causa, e isso me fazia sentir mal por dentro. Por que então eu senti revolta quando ele me abandonou? Pela primeira vez essa pergunta está martelando na minha cabeça. Não estou eu sendo egoísta? Quem está errado nesta história?

Pensei que Miguel iria vendar os meus olhos como fez nos meus aniversários anteriores, mas não, nós simplesmente continuamos a subir os degraus calmamente. Quando por fim entramos, vi uma sala de espera quase totalmente vazia, tendo apenas eu, Miguel e um homem sentado atrás do balcão na frente da porta, que estava falando no telefone tão baixo que mal dava para ouvir a sua voz.

Miguel me guiou na direção de uma cadeira, e lá me sentou cuidadosamente, pegando nos meus ombros e empurrando-os para baixo bem devagar, enquanto pouco a pouco eu ia dobrando os joelhos para baixo até sentir o traseiro enfim repousar sobre o assento. Sempre me entristecia sentir dificuldade em fazer algo que antes era tão simples, e que agora preciso de mãos caridosas para me ajudar dentro de um mundo impregnado pela peste do egoísmo.

Olhar para Miguel era o mesmo que ver a mim quando ainda era jovem, porém numa versão com a pele morena e um corpo bem mais sarado. Antigamente eu parecia um palito de tão fino.

— Muito bem... — ele se agachou para me fitar, com a voz tão pesada que parecia estar prestes a cair no choro. — Agora o senhor... espere aqui... que daqui a pouco eu venho com a surpresa... t-tá bom?... — estava gaguejando de nervosismo, como se uma culpa pesasse na sua garganta. — Posso contar com o senhor...? Promete que não vai sair daqui até eu voltar...?

Fiquei sem resposta por alguns segundos. Estava afundado num completo desânimo. Não me lembrava da última vez que havia sorrido com vontade, sequer me esforçava em tentar recordar. Que surpresa era essa afinal? Eu me perguntava, mas no fundo a resposta pouco importava. Nada mais importava para mim a não ser a saúde e o sucesso de Miguel. A morte de Leonilda foi o pior choque que o meu coração pôde suportar. O pensamento de perder o meu filho sempre passava longe da minha cabeça. Se isso acontecesse, nada mais teria sentido, e eu não esperaria a morte vir para me abraçar, ao invés disso eu iria até ela com as minhas próprias pernas a me entregar de bandeja ao anjo da morte.

Depois de pensar um pouco, dei a ele uma resposta positiva por meio de um aceno de cabeça. Ele sorriu largamente, com os olhos cintilando muito. Naquele momento eu pensei estar o vendo chorando aos berros por dentro e, por meio desse olhar, ele estava me dando uma silenciosa despedida final.

Abraçou-me com força e depositou um beijo na minha bochecha.

— Eu te amo... tá bom...? — fungou o nariz. — Te amo muito... Muito mesmo... Muito... — afastou o corpo de mim e me encarou bem de perto, mantendo o sorriso. Em seguida se afastou hesitantemente, ficando a me encarar por mais alguns segundos, até se virar e sair do estabelecimento, descendo as escadas, levando a mão aos olhos.

Fiquei parado, olhando a porta de saída que havia sido deixada aberta. Os minutos se passaram de tal forma que quase senti um ponteiro de relógio girando sobre a minha cabeça, contando os segundos e os minutos com extrema exatidão. Ele estava demorando para voltar, mas eu era um homem paciente. Esperei e esperei, sem me mover da cadeira, nem mesmo para me recostar nela. Estava parecendo uma estátua velha e descascada, prestes a se quebrar e se desfazer.

Vários pensamentos rodaram a minha mente durante essa espera. Todas eram lembranças de quando Leonilda ainda era viva. Eu vasculhava a minha mente em busca de uma resposta para toda aquela minha tristeza. Não era apenas a morte de Leonilda que estava me devastando aos poucos, era algo que eu não conseguia me lembrar. Esforçava-me para lembrar, mas nunca tinha sucesso, mesmo tentando com todas as forças ainda restantes.

Em meio a essa busca por uma lembrança eu mal percebi que havia se passado uma hora. Miguel já deveria ter voltado com a tal surpresa. No lado de fora estava começando a chover, mas eu continuei a esperar, não sei por que, mas eu continuei... O que pensaria ele de mim se eu saísse dali agora? Não podia fazer aquilo.

Então eu esperei, esperei, esperei... e ele nunca mais voltou. Fui abandonado pelo meu próprio filho. Todo este tempo eu estava sendo apenas um fardo para ele. Naquele asilo decidiu se livrar de mim. Minha vida estava para encontrar o seu fim, sim, mas ainda assim eu chorei de dor e angustia, pois sabia que nunca mais voltaria a vê-lo depois disso. Minha consciência desejava se apagar para sempre e deixar de existir para dar lugar ao julgamento da minha alma no Purgatório. Morrer era tudo que eu desejava, morrer e apenas morrer.

Depois de tanto esperar pela morte e de tanto ela tardar em chegar, decidi ir atrás dela, abraçar a sua foice e deixar que o meu sangue fosse derramado pela sua lâmina. Não é um suicídio o que estou a cometer, mas a antecipação daquilo que é a única certeza que temos na vida.

Este ritual é o fim que eu preciso dar para a minha história.

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