Parte 1

O corredor antes iluminado pelas lâmpadas agora se encontra mergulhado em um breu desolador. Sinto olhos me espreitando, não sei de onde vem, mas posso sentir que me observam. Um frio cortante ataca e sacode as minhas veias. Felizmente estou vestido com um casaco que roubei de um companheiro de dentro do asilo. Que Deus me perdoe por isso quando chegar a minha hora, mas aquilo foi necessário.

O homem que roubei se chamava Danilo, que também foi abandonado como eu. Ele foi levado pelos filhos ao asilo Lar dos Anciãos com a promessa de que reencontraria um antigo amigo da infância, e não era uma mentira, de fato lá estava esse amigo. Os dois conversaram, mataram as saudades, recordaram os bons tempos da juventude, no entanto, quando esse amigo reclamou que o asilo era como um pequeno inferno na Terra, Danilo viu que os filhos há muito já tinham ido embora e ali o abandonaram para todo o sempre.

Até hoje eu guardo na memória as palavras daquele companheiro que reclamou. Quão certas foram suas palavras...

Isto aqui não é asilo porcaria nenhuma! A gente tá é no próprio Inferno, isso sim — ele era desdentado e trêmulo. Acabado, em outras palavras. — Esta miséria! Gente ordinária! A gente cria os filhos com todo amor pra depois jogarem a gente nesta sarjeta e levarem embora toda a nossa aposentadoria! E a gente fica aqui sofrendo — levou as mãos ao rosto e começou a chorar. — Oh, vida miserável, meu Deus!

Os outros idosos começaram a chorar com ele, eu inclusive.

— Ricardo... — uma senhora obesa de óculos chorava em uma cadeira de balanço. — Ricardo, meu filho, cadê você?! — olhava para os lados, desesperada para ver alguém. — Mamãe tá te esperando — seus olhos avermelhavam e seu nariz fungava incessantemente. — Você prometeu que ia voltar logo — abaixou a cabeça. — Nunca te quebrei uma promessa — desatou a chorar aos soluços. — Sempre te dei tudo...

— Meus filhos me largaram aqui faz dez anos — um senhor de cabeça calva e nariz pontudo falava sozinho em um canto. — Nunca mais vão vir nos visitar... Pagamos o preço do nosso amor por eles...

— Ingratidão — pigarreou um senhor careca de bigode grisalho, com a voz alterada. — Colocamos eles no mundo, cuidamos deles, amamos eles, trabalhamos pelo futuro deles, e o que eles fazem no final? Dão pra gente o castigo de viver nesta pocilga. De morrer esquecidos, como se nem existisse...

É por isso que eu digo — bradou Danilo na cadeira de rodas. — Criar filho com amor demais é a certeza de que um dia você vai ser chutado quando virar um estorvo na vida deles! Nunca bati num filho meu, nunquinha! Eu bato no peito pra dizer quantas vezes for preciso — e ele realmente bateu no peito. — Dei tudo o que eles pediam e olha onde eu terminei! É isso que eu recebo por dar amor demais! Isso mata igual veneno!

Eis que um dos enfermeiros chegou e começou a agredi-lo na nossa frente.

Cala boca, velho! Só sabe encher o saco — deu-lhe uma tapa na nuca. — Bora, acabou o recreio! Todo mundo pros quartos! Bora, bora — bateu várias palmas para cima, berrando com a mesma cara mal-humorada de todos os dias. Pouco depois, ele levou Danilo, que continuou a reclamar em sua cadeira de rodas. Foi levado enquanto gritava e xingava o enfermeiro.

Bando de miserável! Bando de diabo! É isso que vocês são! Merecem ir pro quinto dos infernos, tudinho! Se eu pudesse, mandava vocês pra lá agorinha pra sentar no colo do Diabo! Eu mandava mesmo! Tudinho! Não ia sobrar um pra contar a história! Eu ia...

— CALA A BOCA — o enfermeiro desferiu golpes em sua nuca, e o senhor chorou como uma criança, todo se balançando na cadeira de rodas, berrando e guinchando em agonia, chamando o nome dos filhos que o abandonaram.

Marcia, Roberto, Cristiano... Me tirem daqui — lágrimas corriam soltas por todo o seu rosto enrugado. — Me tirem daqui... Me tirem daqui... — mas naquele instante ele perdeu totalmente as esperanças. Fechou fortemente os olhos, fungando o nariz, depois abriu a boca para esbravejar. — Meu Deus! Por que, meu Deus?! POR QUÊ?!

Todos os outros idosos, chorosos e com os olhos lagrimados, partiram para os seus quartos sem dizer uma palavra. Todos os sons morreram naqueles poucos segundos. Eu havia entrado no quarto poucos minutos depois, caminhando lentamente, com as lágrimas ardendo os meus olhos e o coração moído. Levantei os olhos trêmulos para o teto amarelo lentamente, sentindo as lágrimas correndo quentes pelas minhas rugas.

— Meu Deus... — falei com a voz engrossada em choro, tremulando os lábios. — Por que nos abandonaste...? — depois virei os olhos lentamente para a janela à frente, e por um instante eu pensei em acabar com a minha vida ali mesmo; antecipar a minha ida, porém Deus não perdoa aqueles que praticam a maior de todas as covardias. Eu tinha que esperar a minha hora.

No dia seguinte, dentro do asilo, dois senhores vieram a óbito. Um teve derrame cerebral e o outro cometeu suicídio afundando o travesseiro na própria cara até parar de respirar completamente, e esse segundo era o próprio Danilo. Os corpos haviam sido levados para um necrotério no mesmo dia. Ninguém se importou.

Todos os idosos que estavam naquele pequeno inferno apenas esperavam suas horas de partir. Eu já não aguentava mais e decidi tomar uma atitude. Quando descobri sobre o ritual do elevador eu rapidamente pensei: "Se eu posso ir para o outro lado em vida, por que esperar a chegada da morte?" Foi então que, durante esta madrugada, roubei o casaco do velho Danilo no seu quarto e fugi saltando pela janela, quase fraturando a perna no processo, e agora estou aqui, caminhando pelo desconhecido.

Encaro a escuridão do corredor com indiferença, sem me importar com os perigos que com certeza estão me vendo como um visitante indesejado. Tentarão me expulsar? Talvez... Se me matarem, estarão me fazendo um favor. Hora de vagar entre os mortos, ou talvez entre os anjos, ou demônios... ou algo mais...

Inicio passos arrastados, saindo de dentro do elevador, cuja porta metálica se fecha atrás de mim, fazendo as luzes do seu interior não mais clarearem o corredor, deixando-me envolto em uma escuridão ainda maior. Sinto-me sozinho, como sempre estive desde que fui deixado naquele asilo, mas aqui me sinto sujeito a um perigo muito mais vívido. Apesar de ter a sensação de estar sendo observado por olhos invisíveis, certamente não são de coisas vivas. Aquela mulher que entrou comigo no elevador pode estar por aqui... Quem era ela afinal? Ou então... o que era?

Minhas mãos tremulam com o frio intenso. As paredes estão cheias de poeira que fedem a morte, um odor frio e seco. Isto pouco parece com o outro lado da vida, nem o Inferno, muito menos o Paraíso. Assim é o Purgatório? Eu pequei durante toda a minha vida, nunca escondi isso do Senhor, é por isso que estou aqui? Serei julgado pelos males que cometi enquanto ainda em vida?

Ouvi dizer que o Purgatório serve para purificar as almas dos mortos por meio de um castigo que o redimirá de todos os seus pecados, tornando o castigado em uma alma arrependida e, portanto, purificada. Se irei pagar pelos meus pecados com dor, que seja, tudo que mais almejo é reencontrar minha Leonilda em toda sua beleza.

Olho por cima do ombro. O elevador atrás está fechado, quase invisível nas sombras. Posso tentar voltar ao mundo real a qualquer momento, entrando de novo no elevador e refazendo a sequência de andares... Ou o elevador pode não se abrir e aqui ficarei preso até o fim dos meus dias. Mesmo que seja possível agora, não vou voltar. O mundo não precisa mais de um velho caindo aos pedaços, Miguel não mais me quer por perto, e nem a sua mulher. Apesar de irritado por dentro, sinto que ele guarda certa razão. Sou só um estorvo para o futuro deles.

Olho para frente, determinado, com o queixo levemente empinado e os lábios em um formato de linha apertada. Caminho pelo corredor dando passos normais, como se estivesse caminhando pela rua sem qualquer preocupação. Póc... póc... póc... Esse é o repetido som dos meus passos se estendendo em longos e repetidos ecos. Póc... póc... póc...

Ao andar um pouco, encontro-me com uma porta branca na parede à direita, sem maçaneta, com a madeira branca tão descascada quanto às paredes. A porta também não possui fechadura, e não parece que pode ser aberta por meios comuns. Estendo a mão e pouso-a sobre a porta. O frio percorre minhas veias como um exército de vermes, fazendo-me estremecer, fechando brevemente os olhos e suspirando. Intento empurrar a porta, mas, como antes previsto, está trancada, tão firme quanto uma cortina de ferro. Tento girar a maçaneta, mas o resultado é o mesmo.

Recuo a mão e abaixo. Olho para frente, em seguida retorno a caminhar desengonçadamente, arrastando os pés devagar. Andar por este vazio me traz de volta as lembranças do passado, da época de como eu era um homem solitário e maduro de vinte anos em busca de uma alma gêmea, sempre sonhando acordado. Nunca me satisfazia com nenhuma companheira, pois nunca me sentia completo com elas, em outras palavras, eu não sentia amor mútuo.

Foi quando conheci Leonilda Josefa dos Santos, a mulher com quem me casei e tive os melhores momentos da minha vida. Leonilda era uma mulher que vivia solitária, assim como eu, em busca da outra metade de sua laranja. Ela tinha cabelos castanhos lisos, olhos verdes como esmeraldas, e um sorriso capaz de hipnotizar até os que se dizem imunes. Ela era uma joia que merecia ser apreciada.

Nós nos casamos na igreja, como sempre sonhei em fazer desde pequeno. Foi uma cerimonia e tanto, que nem aconteciam nas telenovelas. Jurei amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte nos separasse. Firmamos nossa união final trocando as alianças.

Dois anos depois nasceu nosso filho, Miguel Valmir Menendes. Cuidamos dele, demos tudo que ele precisava, todo o amor que um pai e uma mãe tinham a oferecer. Leonilda não era uma mãe perfeita, pois hora ou outra implicava com Miguel pelas confusões que ele causava na escola, mas eu sempre estava lá, dando a ele bons conselhos e o abraçando sempre quando necessitava. Amei Miguel tanto quanto amei Leonilda. Fiz questão de demonstrar isso sempre quando podia.

Miguel cresceu, formou-se em direito, empregou-se como advogado e me abandonou dentro de um asilo. Por quê? Eu me perguntei várias vezes dentro daquele asilo enquanto chorava aos prantos sobre a cama, abraçado ao lençol, fingindo estar abraçando Miguel e falando com o mesmo. Eu te dei tudo, meu filho... Por que me abandonou deste jeito?! Por quê?! Mas por dentro eu sabia que essa resposta nunca chegaria, pois ele nunca mais voltaria, e eu não vou ficar sentado esperando o meu coração parar de latejar.

Paro de andar de súbito. Olho para trás, virando-me um pouco para o lado. Não dá mais para ver o elevador. As paredes e o chão próximos ao meu redor estão mergulhados num profundo tom azul escuro, como se acima estivesse um céu dessa mesma cor, mas está tudo negro como se o teto fosse um grande abismo de silêncio. Foi isso que virou a minha vida desde então. Parece que estou mesmo em um Purgatório, prestes a receber julgamento.

Viro os olhos para frente. Percebo algo parado no meio do corredor alguns metros à frente: uma mulher cujos cabelos castanhos escondem toda a face. Da barriga para baixo está escuro demais para enxergá-la, mas da barriga para cima é possível ver que está ali, imóvel, quase camuflada. Será o meu anjo da morte? Eu me pergunto, olhando-a fixamente, sentindo o frio se intensificar e fazer os meus dedos sacudirem freneticamente em tremedeira. Eu não preciso ter medo. Ela veio me buscar. Que cumpra o seu trabalho e me leve de volta para Leonilda. Estou preparado.

Nhurrrrf... Ouço uma respiração soprar atrás da minha orelha esquerda. Suspiro de susto e viro a cara. Ninguém. Olho de volta para frente e a mulher não está mais no corredor. O frio que fez meus dedos sacudirem diminui em um segundo, mas ainda assim sigo a tremer de frio, mas bem menos que antes. Respiro fundo pelo nariz, com os meus dentes rebatendo entre si dentro da boca. É só uma parte do meu castigo... Preciso seguir em frente...

Arrasto os pés para frente, voltando a andar. Após alguns segundos, avisto uma janela quadrada de vidro fechada na parede da direita. Com o coração dando saltos, continuo andando, porém de maneira mais relutante. Ao chegar próximo, olho diretamente para a janela de vidros claros muito próximos do branco e próximo ainda mais do cinza. Não dá para ver nada por trás do vidro, mas sinto que há algo dentro dele que está me vendo muito bem.

Cablóf! Um barulho me faz virar para frente. Blóf... blóf... blóf... O eco se estende longamente pelo corredor, até silenciar. O som foi semelhante a um copo de metal que caiu ou foi atirado no chão de propósito.

Nhurrrrf... Ouço uma respiração atrás de mim, inspirando e assoprando continuamente. Nhurrrrf... Nharrrrf... Meus olhos se arregalam e eu me viro de um suspiro brusco. Há alguém em pé uns dez passos a minha frente. Seu corpo é negro da cabeça aos pés, esbelto e alto cerca de dois metros e meio. Seus olhos são grandes e redondos, muito parecidos com óculos de máscaras de gás. Não tem boca e nem nariz, mas está emanando um som de respiração alta e pesada, como se estivesse de fato usando uma máscara com filtro para respirar.

Seus braços se esticam para os dois lados num formato de cruz, revelando grandes garras de espetos metálicos rubros e oxidados. Seu corpo flutua um pouco acima do chão, com seus olhos negros me seguindo. Recuo um passo, pronto para me virar e desatar a correr. Atrás da criatura, camuflada na escuridão, está a mulher cabisbaixa que entrou comigo no elevador, imóvel como uma estátua.

Quando a criatura negra se move na minha direção, rapidamente me viro e começo a correr desengonçadamente, arrastando os pés a todo o momento. Atrás de mim, ruídos eclodem em minha perseguição: gritos de almas atormentadas chorando murrrrrr murrrrrr! Nas janelas brancas, nas paredes de cada lado, aparecem sombras humanoides, todas com as caras coladas no vidro, esfregando os dedos num sobe e desce frequente, murmurando um choro de agonia murrrrrr!

Eu cuido em não tropeçar ou olhar para trás, apenas correr com o máximo de segurança possível, controlando a respiração atabalhoada. De repente, uma porta a esquerda se abre e bate num brac estrondoso. Mais a frente no corredor, muito depois da porta que se abriu, aparece a mulher cabisbaixa, parada, lentamente erguendo a cabeça para revelar a cara. Atrás de mim, uma sombra voadora no formato de cruz flutua em minha perseguição.

Sem outra opção, eu invado o interior da porta que se abriu, e eis que a ouço se fechar no mesmo brac! Respiro profundamente a recuperar o fôlego, colocando a mão no coração. Porém, ao olhar para frente, vejo degraus estreitos para descer, escuros e num tom azulado.

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