7. Gabriel
Gabriel guiou Raguel até a sala de monitoramento. Ele nunca se interessou pela profissão do pai, mas, simpático como era, nunca recusou um convite para visitar o laboratório, e conhecia bem suas dependências. Sempre fora mais inclinado para a matemática da mãe que para a química do pai, mas nunca disse nada, para não correr o risco de magoá-lo.
O doutor Rashford, era conhecido mundialmente por seu trabalho com química quântica, e se tornou notável por suas descobertas nos campos da Química Nuclear, Astroquímica, Sonoquímica e Hidrodinâmica quântica, e era procurado por físicos do mundo todo para ministrar palestras e seminários.
Miraculous Clearing era um campo muito fértil de grandes mentes, e havia exportado para o mundo muitos "gênios" em diversas áreas diferentes, e muitos, como era o caso do doutor Rashford e de sua esposa, permaneceram na cidade, proporcionando uma multiplicação e fusão de conhecimento, que refletia em seus jovens e deu á cidade o titulo de maior índice de Q.I por habitante do mundo.
Enquanto seguia para a sala, inclinado a rever o que aconteceu no laboratório, o jovem desviou um pouco seu pensamento do objetivo, e a lembrança do momento que passou com Raguel minutos antes, quando a confortava em seus braços, retirou completamente seu foco. Não devia estar pensando nela, não naquele momento. Sempre criticou homens que perdiam o rumo atrás de um "rabo-de-saia", e nessa crise, o que menos precisava era se transformar em um deles. Não planejou encantar-se por ela, mas quando a viu não pôde evitar.
Ela era uma bela jovem, e seus cabelos naturalmente cacheados e ruivos e olhos verdes, aliados á pele branca levemente salpicada de sardas e ao corpo simetricamente perfeito, já seriam suficiente para qualquer jovem se apaixonar. Mas Gabriel era um jovem muito sensato para se ligar nesses aspectos físicos e superficiais, e o que lhe fascinou foi algo mais subjetivo. Talvez a sinceridade e inteligência que transbordavam do olhar dela. E talvez também, a fragilidade que ela demonstrava naquele momento tivesse despertado algum instinto protetor que ele nem sabia que tinha.
O que ele não podia permitir era confundir as coisas. Ela contava com ele, e ele queria ser útil e não atrapalhar tudo por conta de instintos masculinos primitivos como uma explosão de testosterona.
_ Gabriel _ Disse Raguel, tirando o jovem de seus devaneios, aproximando-se dele para mostra-lo algo no tablet _ encontrei uma lista de desaparecidos. Pode servir para a nossa equação.
_ Ótimo _ Respondeu, tentando não transparecer vergonha pelo que estava pensando _ podemos copiar essa lista para o software de cruzamentos de dados e verificar se tem algum padrão nos desaparecimentos.
_ Eu farei isso então _ Ela disse, empolgada com a tarefa _ enquanto você verifica as câmeras de monitoramento.
A sala de monitoramento do laboratório era bem equipada com aparelhos de última geração, e tinha algumas mesas com computadores e telas específicas para as câmeras de cada setor. E cada tela dessas tinha vários quadros que transmitia as imagens de cada câmera que tinha nesses setores.
_ Nem sei por onde começar _ Disse o jovem a si mesmo, olhando para a infinidade de telas _ Se eu soubesse ao menos a hora que tudo aconteceu...
_ Espere um pouco Raguel! _ Continuou ele agora para a garota, que voltou a atenção pra ele _ quando falamos por telefone mais cedo, você disse que recebeu uma mensagem de sua mãe. Ou estou enganado?
_ Sim _ Assentiu _ Ela pedia para eu encontra-la aqui no laboratório.
_ Perfeito! _ Vibrou ele _ se voltarmos o vídeo até horário em que ela enviou a mensagem, estaremos perto da hora em que tudo aconteceu.
_ A mensagem foi enviada às sete e vinte da manhã _ Disse Raguel, conferindo a mensagem em seu aparelho celular.
Gabriel localizou no sistema o quadro referente ao setor e a sala em que seu pai e a doutora Williams estavam quando desapareceram, programou o início da reprodução para sete e dez da manhã e apertou enter. Ambos se frustraram e ficaram sem entender o que viram quando o vídeo começou. Os uniformes de ambos, e também de outros cientistas já estavam abandonados no chão como Raguel encontrou quando chegou. Enquanto o vídeo seguia sem nenhuma alteração, A garota voltou a consultar o aparelho celular, para verificar se não errou quando disse o horário da mensagem para Gabriel, mas constatou que estava correto e mostrou o aparelho para ele para que visse com seus próprios olhos.
Enquanto os minutos passavam, eles observavam o vídeo sem entender, até que um movimento chamou-lhes a atenção: No canto da tela, quase imperceptível, surgiu uma jovem, aparentemente da idade deles, e que pelas roupas, não era funcionária do laboratório. Não haviam percebido a presença dela, e nem como ela entrou ali. Ela tinha longos cabelos negros e lisos, trajava jaqueta vermelha e calça preta, ambas aparentemente de couro, uma bota estilo militar, e movia-se com leveza e destreza.
Os dois observaram em silêncio o momento em que ela num movimento leve e rápido, retirou o celular do bolso do jaleco da mãe de Raguel, digitou uma mensagem, e enquanto colocava o aparelho de volta, olhou fixamente para a câmera, como se olhasse diretamente para os dois, e foi embora.
_ Parece que não foi sua mãe que lhe enviou a mensagem_ Disse Gabriel, quebrando o silêncio _ e aquela moça parecia estar olhando direto para nós. Você a conhece?
_ Não! Respondeu sem tirar os olhos do vídeo, que Gabriel havia voltado e pausado no momento em que a moça misteriosa olhou na direção deles_ Nunca a vi na vida. Porque ela me mandaria essa mensagem? E porque não estava aqui quando cheguei?
_ Parece que ao invés de esclarecer nossas dúvidas, as filmagens trouxeram mais _ Disse Gabriel em tom irônico e retórico.
Em outro computador, enquanto a companheira ainda tentava entender tudo, olhando para o rosto da desconhecida na tela anterior, Gabriel definiu o horário de inicio da reprodução para quatro horas da manhã e pressionou início novamente.
Raguel voltou atenção para o novo vídeo, e ambos viram o doutor Rashford e a doutora Williams vivos, caminhando pelo laboratório, observando relatórios e fiscalizando o trabalho dos demais cientistas.
Ela puxou uma cadeira, e sentou-se de frente para o vídeo, assistindo cada movimento deles, como quem começa a se interessar por um filme. Gabriel observou o rosto dela iluminar-se por ver a mãe bem, e gostou de ver o pai bem também, mesmo sabendo que a qualquer momento naquele vídeo eles desapareceriam, e puxando uma cadeira, sentou-se também, próximo a ela, como que para ampará-la quando acontecesse, seja lá o que fosse acontecer.
Depois de mais ou menos meia hora de vídeo, a sala onde os cientistas trabalhavam, pareceu estremecer assustando a todos, e uma luz ofuscante atravessou a sala, como se atingisse a todos ali dentro simultaneamente, e quando ela se retirou milésimos de segundo depois, só restaram pilhas de roupa e crachás espalhados no chão.
Dada a velocidade da ação, ambos ficaram sem entender o que acontecera, e voltando o vídeo, o jovem o reproduziu novamente, agora em câmera lenta. Então observaram incrédulos enquanto a sala começava a tremer, e a luz surgia e se dividia, assumindo uma forma humanoide perante cada um deles individualmente, envolvendo-os com a luz que irradiavam, enquanto seus corpos se desconstruíam e evaporavam.
Não podiam acreditar no que estavam vendo. Era surreal demais. Nunca ocorreu a eles que o desaparecimento de seus pais tivesse acontecido daquela forma.
_ O que dizem no site onde você encontrou a lista dos desaparecidos? _ Ele perguntou, saindo do choque. _ qual é a teoria deles sobre o que aconteceu?
_ Abdução alienígena ou algo assim_ Ela o respondeu, ainda olhando para as formas brilhantes na imagem congelada _ mas essas figuras não parecem ETs...
_ Mas talvez sejam _ ela continuou pegando o tablet com a pesquisa e sentou-se ao mais perto dele, a fim de lerem juntos _ Eu mesmo nunca vi um ET de verdade. Você já?
A proximidade dela agora era diferente para ele, o sorriso divertido que ela lançara ao perguntar-lhe sobre os ETs, e a forma inocente como ela tocava seu braço enquanto lia o artigo, lhe causava um leve desconforto, mas uma parte dele desejava que estes momentos fossem eternos. O toque dela, a maneira como seus lábios se mexiam enquanto ela lia o artigo em voz alta. Como ela poderia ter tal efeito sobre ele, mesmo tendo a conhecido há tão pouco tempo? Será que ela percebia que causava esse efeito nele? Tomara que não, ele pensou.
_ Eu também sinto isso _ Ela disse, retirando ele dos pensamentos.
_ Sente... É... Sente o quê?_ Gaguejou ele, traindo o fato de que não estava prestando atenção no que ela falava e sentindo se envergonhado.
_ Que estamos perdidos _ Ela disse, sem perceber ou fingindo não perceber que ele enrubesceu e recolheu o braço, pensando que ela falava de outra coisa _ Sozinhos, e que o pior ainda está por vir, como o autor do artigo diz.
Ele respirou fundo, depois de quase se entregar, e se concentrou no artigo. Não queria parecer um idiota perto dela. Ajeitou-se na cadeira e acompanhou enquanto ela lia em voz alta. Segundo o artigo, o que ele acreditava ser uma abdução alienígena, para religiosos era o arrebatamento cristão, mas que o padrão de desaparecidos não batia com o perfil de "pessoa arrebatável" de acordo com as escrituras bíblicas, e ele ofereceria argumentos sobre a escolha dos abduzidos.
Na lista dos "desaparecidos", que ele chamava de "abduzidos", ele destacava o fato de que a maioria dos nomes era precedida de um título acadêmico, ora professor, ora doutor. E fez sua própria lista, onde pesquisou os nomes e separou eles em categorias. Com exceção de poucos, foram encaixados nos perfis que a teoria dele criou. Cientistas, matemáticos, filósofos, escritores, escultores, médicos, engenheiros de diversas áreas, músicos, alguns superatletas. Ainda segundo o autor do artigo, todos da lista podiam ser considerados gênios em suas respectivas áreas, e a intenção dos alienígenas era nos deixar sem nossas grandes mentes, e assim esperar nossa autodestruição, ou preparar um ataque enquanto estivermos desprotegidos.
Sobre o escurecimento do sol, ela dizia que posicionaram sua nave de modo a bloquear a luz do sol, e assim nos desestabilizar e cobrir a ação deles aqui na terra.
_É tudo bem encaixado _ disse Gabriel, voltando-se para a tela de monitoramento, e ampliando a imagem com foco na figura humanoide brilhante _ Inclusive nossos pais se encaixam no perfil. Mas quem fez essa teoria, não viu o que nós vimos.
_ Como eu disse _ falou Raguel, focando também no monitor _ Não parecem alienígenas, parecem mais humanos ou...
Ela interrompeu o que dizia enquanto ele movimentava o vídeo em câmera lenta e pausava ela novamente agora no momento exato em que foram consumidos. Eles não haviam visto antes, mas aquela luz não tinha só a forma humanoide. Enquanto ela envolvia cada pessoa naquela sala, ela assumia a forma de grandes asas.
_ SÃO ANJOS! _ Exclamaram simultaneamente, em voz alta deixando um longo eco no laboratório vazio.
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