33. Uriel

_ Enquanto esperamos pelo momento de agir, eu gostaria de sobrevoar a cidade e ver a extensão dos estragos que os demônios causaram. _ Uriel disse enquanto almoçavam _ Se não tiver nenhum problema com isso, é claro.

_ Problema algum. _ O Grão-mestre respondeu. _ Vou mandar contactar o piloto e preparar o helicóptero para essa tarde.

_ O senhor me acompanharia? _ Ele perguntou, mesmo temendo que a resposta fosse sim. _ Seria bom passarmos mais algum tempo juntos.

_ Infelizmente não posso! _ Siege respondeu declinando o convite, para seu alívio. _ Preciso cuidar de assuntos urgentes.

Agora, enquanto aguardava o aval do piloto para decolar, ele pensava nas mentiras que contou, e se perguntava se aquilo estava certo. Sempre pensou que haviam furos na história de Siege, mas seu respeito e admiração por ele o impediam de cavar em busca de respostas.

Agora ele precisava delas, e nada o impediria de buscá-las. Nem o grão mestre, nem os Cavaleiros da Nova Terra, e nem ninguém seria capaz de fazê-lo mudar de idéia.

_ Você está parecendo um adolescente confuso, Uriel! _ Ele disse para si mesmo, olhando-se no espelho.

Sua imagem refletida trazia ainda mais questionamentos. Ele sequer sabia precisar sua própria idade. Nos registros de sua detenção em Moscou, diziam que ele tinha doze anos, e três anos depois já era general das hordas demoníacas.

Em seu íntimo, ele nunca acreditou na história do ser resplandecente que teria aparecido para Siege, dando-lhe a missão de fundar a seita, mas ele precisava e queria uma família, e sendo que por anos os treinamentos eram tudo o que precisava suportar para consegui-la, ele tratou de seguir à risca tudo o que lhe era imposto e de aprender tudo o que lhe era ensinado, aprendendo a controlar sua raiva e seu poder, a reprimir as emoções que o deixavam fraco e qual era seu papel nos planos de "salvação" da humanidade

Agora ele devia ter mais ou menos dezoito anos, mas todas as experiências que acumulou o deixavam com aparência mais velha e cansada.

_ Está tudo certo general! _ Balthazard disse, tirando-o de seus devaneios. _ O piloto disse que não teremos contratempos, uma vez que o clima está favorável para voar.

_ Ótimo, Balthazard! _ Ele respondeu aprumando o corpo, tentando não aparentar fraqueza. _ Vamos indo então.

_ O general já pensou no que fará depois de descobrir a verdade? _ Balthazard perguntou, após decolarem.

_ Isso é impossível de se saber Balthazard. _ Ele respondeu olhando pela janela, com um tom sério e pensativo. _ Antes de pensar no próximo passo, preciso saber que verdade é essa que descobrirei.

Permaneceram em silêncio durante algum tempo durante a viagem, e Uriel observou a cidade passando abaixo deles. Flashes de sua infância em Moscou passaram por sua mente. Sua mãe adotiva era linda e seus cabelos loiros e cacheados como os dele davam a ela uma aparência angelical. Ela também tinha olhos azuis como os seus, e quem os visse juntos nunca diria que ele é adotado. Olhando o reflexo de seu rosto musculoso e endurecido pelo treinamento, ele pensou em como teria sido a sua vida se aquele incêndio não tivesse acontecido.

_ O incêndio. _ Ele disse quebrando o silêncio. _ Eu me lembro agora Balthazard!

_ Do que está falando senhor? _ O demônio perguntou, mas antes que Uriel pudesse responder, eles sentiram seus corpos chacoalharem na aeronave.

_ O que está acontecendo? _ O general perguntou ao piloto, enquanto tentava se segurar.

_ Parece que entramos no centro de uma tempestade, senhor! _ O piloto respondeu com dificuldades, enquanto fazia força para controlar o helicóptero. _ Mas é impossível, eu olhei todos os mapas meteorológicos.

_ Eu sei o que é, mestre! _ Balthazard disse, apontando o dedo para um grande tornado que havia aparecido imponentemente ao lado deles, puxando o helicóptero para si.

Olhando para o alto de um edifício, ele a viu, como um espectro macabro. Uma sombra espessa e nefasta saía de seu corpo para todas as direções, como tentáculos de uma tarântula, e alcançavam as nuvens produzindo relâmpagos. Lilith era uma visão bela e terrível ao mesmo tempo, e aquela era a extensão do seu poder demoníaco devastador.

O helicóptero estava agora entrando na coluna de ar, e a nuvem de detritos chocava-se com as hélices, que estavam a ponto de parar. Antes que pudesse pensar em uma forma de proteger os companheiros, Uriel viu o exato momento em que uma barra de metal atravessou o pára brisas da aeronave, atravessando também o capacete do piloto juntamente com sua cabeça, indo parar na parede entre os dois passageiros, fazendo com que o veículo se descontrolasse por completo e fosse tragado de vez pela tromba de ventos.

Os dois foram arremessados de um lado para o outro dentro da cabine, quando os cintos de segurança arrebentaram, e Uriel sentiu uma dor aguda quando sua cabeça se chocou violentamente contra a parede. Lutando para permanecer consciente, ainda viu o seu demônio familiar como rosto ferido gritando por seu nome e tentando se agarrar em algo, até que tudo se apagou.

Quando abriu os olhos novamente, ele viu que estava no solo. Sua cabeça doía e ele sentia seus cabelos cacheados encharcados de sangue, bem como o gosto metálico das hemácias em sua boca. A imagem de Lilith controlando a tempestade que os derrubou invadiu a sua mente e ele pensou logo em Balthazard e temeu que ele pudesse estar morto, mas o som de uma batalha chamou sua atenção.

Levantando-se, ele percebeu que estavam em uma espécie de clarão no meio da cidade, e ao redor dele, criando um raio de uns cinquenta metros, uma parede de ventos colossal cercava todo perímetro. Logo ele viu que estavam dentro do tornado, e olhando para a frente viu Lilith confrontando um ser gigantesco feito de pura escuridão, que ele pode ver que se tratava de Balthazard devido à conexão de familiaridade que tinham.

Nessa nova forma ele tinha aproximadamente três metros de altura, e nem dava para precisar quanto media o alcance de seus braços, já que suas costas por si só já eram colossais.

Ele se defendia enquanto Lilith lançava sobre ele objetos vindos da parede de ar do furacão. Os detritos que atravessam seu corpo, pareciam não poder ferí-lo, enquanto ela já parecia estar muito ferida.

Baltazard era realmente formidável em sua verdadeira forma, e se continuassem lutando daquele jeito ele poderia vencê-la. Como era possível um demônio tão poderoso ser preterido pela elite demoníaca?

_ Desista Lilith! _ Uriel gritou, aproximando-se da batalha. _ Balthazard é mais poderoso que você.

_ Eu sou um dos espíritos impuros originais, Uriel! _ Ela disse, e sua voz era como um trovão. _ Antes de existir mundo, eu já existia. Como podem seres insignificantes como vocês pensarem que podem me derrotar.

_ O meu contrato de sangue com o general me deixou mais forte que nunca! _ Balthazard disse, com voz igualmente poderosa, fazendo Uriel entender o porquê do seu poder estar tão incrível. _ Agora eu sou mais forte que qualquer um dos Três!

_ Olha só que ironia, Baltha. _ Ela disse com uma gargalhada irônica de triunfo. _ O que te deixou mais forte também é o que irá te destruir!

Antes que pudessem entender o que ela estava dizendo, ela lançou mais um ataque. Dessa vez era um microônibus, e o alvo não era o demônio, mas sim o general.

Com uma velocidade incrível tendo em vista o seu tamanho, Balthazard se colocou na frente de Uriel como um escudo, solidificando seu corpo e bloqueando o objeto que fora lançado com extrema facilidade.

_ Essa foi por pouco General! _ Ele disse virando-se para o mestre com um sorriso. O senhor está bem?

Antes que pudesse responder, Uriel viu uma lança de gelo atravessar o peito de Balthazard, seguida de várias outras lanças que perfuraram todo o seu corpo, fazendo-o cuspir um sangue negro e cair com o rosto voltado para a terra, com o micro ônibus caindo em cima de si.

_ Essa cena é mesmo comovente! _ Lilith disse, descendo até o solo e se aproximando, enquanto olhava o rosto desolado de Uriel. _ O poderoso general Uriel, triste com a morte de um demônio.

_ Eu me lembro de tudo Lilith! _ Ele disse, enquanto algumas lágrimas brotavam em seu rosto. A presunção no rosto dela e sua gargalhada de triunfo, o encheram de ira e ele sentiu seu poder crescendo por dentro. _ Você estava naquele incêndio em Moscou. Eu pensei que era um delírio meu, na agora eu sei que não era. Mas, porquê eu?

_ Como você vai morrer aqui, eu acho que posso lhe contar, né? _ Ela disse ainda com seu irritante ar de superioridade estampado no rosto. _ A chefia mandou eu ir matar sua família. Ele queriam que você levasse a culpa e fosse preso junto com Siegfried, tudo por quê precisavam do seu poder, e o pobre do Grão-mestre nem faz idéia de que está sendo usado.

_ Ele pensa que está no comando! _ Ela continuou sussurrando, como se contasse um segredo. _ Não conte pra ele viu!

_ O que eu sou então? _ Ele perguntou. _ E quem está por trás de todo esse plano?

_ chega de perguntas, general. _ Ela disse preparando uma chuva de estacas de gelo, de uma nuvem acima dela. _ Agora é hora de morrer.

_ É realmente uma pena, Lilith. _ Uriel disse pausadamente, de cabeça baixa. _ Eu realmente queria saber mais, mas já que você insiste que é hora de morrer, eu terei que te matar então.

Surpresa com mudança repentina dele, Lilith ordenou com um aceno de mão, e a chuva de estacas de gelo o atacou em uma quantidade que seria impossível de escapar, mas para a surpresa dela ele não se moveu sequer um milímetro, apenas levantou a cabeça com um sorriso confiante, para ver que as estacas derretiam antes de tocá-lo.

Olhando para Lilith, Uriel a viu enfurecer-se e levantar ambas as mãos, concentrando toda a força do tornado em uma grande esfera de ventos, revelando toda destruição que ela causara ao redor de onde estavam.

_ Você é só um homem General! _ Ela gritou furiosa. _ Apenas um maldito verme humano. E eu vou pulverizá-lo junto com essa escória que um dia quis ser um demônio de elite.

A menção dela a Balthazard o fez olhar na direção dele, e ver que ele ainda respirava em baixo do micro ônibus foi um alento, mas vendo toda a destruição que o tornado causou na cidade, ele imaginou que estrago ele poderia fazer condensado naquela esfera que ela pretendia lançar contra eles.

_ Esse é o seu fim, Uriel! _ Lilith gritou, lançando contra ele a esfera de ventos com toda a força e raiva que tinha.

Concentrando se, o jovem general fechou os olhos sentindo seu espírito elevar-se, e quando os abriu seu corpo todo estava coberto por uma densa chama vermelha. De suas costas brotavam asas da mesma cor que bloquearam a esfera antes que ela os atingisse.

Cheio de confiança com esse poder que ainda não conhecia, ele projetou as chamas estendendo-as até que elas envolveram toda a esfera de Lilith, suprimindo a por completo e fazendo-a desaparecer como se não fosse nada.

_ Azazel estava correto! _ Ela disse olhando assustada para ele e suas asas imponentes. _ Você é realmente um deles!

Antes que ele pudesse iniciar um contra-ataque, Lilith ordenou um relâmpago que ofuscou a visão dele, e quando ele recuperou o foco ela já tinha desaparecido.

_ General. _ A voz fraca de Balthazard chamou sua atenção de baixo do micro ônibus. _ Uma ajudinha aqui por favor.

_ É pra já! _ Ele disse, e com suas asas ele retirou o peso de cima do demônio. _ Achei que você estava morto.

_ Não é fácil matar o mestre dos oráculos. _ Ele disse ainda sem se mexer. _ Mas foi quase.

Uriel riu, e o ajudou a levantar-se após ele tomar a forma humana. As estacas haviam derretido e várias perfurações em seu corpo sangravam compulsivamente deixando-o bem enfraquecido.

Com seu poder, o general queimou as feridas, cauterizando-as e estancando a hemorragia.

_ Pronto, agora você ficará bem! _ Ele disse, e vendo o temor como o demônio o olhava, ele percebeu que seu poder agora estava ainda maior. _ Parece que você reconhece esse poder, Balthazard. Antes de fugir, a Lilith disse que eu era realmente um deles, você faz idéia do que ela estava falando?

_ Eu posso pensar um pouco antes de respondê-lo General? _ Balthazard disse meio receoso. _ Eu preciso buscar informações para responder mais precisamente.

_ Pode pensar sim. _ Uriel respondeu com um sorriso. _ Precisamos ir á Miraculous Clearing, e você me responde no caminho.

_ Precisamos de outro transporte, Mestre! _ O demônio falou, olhando desoladamente para o grande raio de destruição que a batalha causou. _ Vamos sair dessa zona de caos e procurar um carro.

_ Vamos sim Balthazard. Uriel concordou colocando-lhe a mão no ombro. _ Mas antes posso lhe pedir um favor?

_ Tudo o que quiser general! _ Ele respondeu olhando desconfiado para o jovem á sua frente.

_ Você lutou e se sacrificou por mim hoje. _ Ele disse olhando para o demônio com gratidão nos olhos. _ A partir de agora nós somos amigos, me chame apenas de Uriel!

Após trocarem um aperto de mão os dois deixaram a clareira de destruição, ainda marcados pela intensa batalha contra o demônio de elite, e mesmo tendo vencido parcialmente, eles sabiam que outras batalhas estavam por vir.

Agora mais do que nunca precisavam recuperar a placa que uma hora dessas já estaria em poder de Abigor, e para isso esse novo e devastador poder que despertou seria de imensa ajuda.

Após caminhar por um tempo e testar vários carros pelo caminho, eles encontraram um que funcionava e tinha gasolina e em seu GPS viram que tinham cobrindo uma boa parte do percurso de helicóptero antes de serem atacados por Lilith, e que Miraculous Clearing estava mais perto do que eles imaginavam.

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