28. Uriel
O que Balthazard havia lhe dito mexeu com sua cabeça, afinal ele pensava ser o único com esse tipo de poder. Todas as vezes que perguntou sobre o assunto, recebia a mesma resposta do Grão-mestre: Que ele tinha sido escolhido pelo ser resplandecente para ser o general das hordas e uma liderança dos Cavaleiros da Nova Terra, nos eventos de salvação da humanidade que estavam por vir.
Mas sempre se questionou sobre o fato de que ao invés de combater os demônios, estava sendo treinado para usá-los para oprimir os humanos que deveria proteger. Fôra convencido de que tudo fazia parte de um plano maior , e que se os humanos não sofressem antes, nunca saberiam ser gratos quando fossem libertos da opressão.
_ Você tem certeza do que está me falando, Balthazard? _ Uriel perguntou, depois de processar a informação por um tempo. _ Se existe outros com poderes iguais aos meus, e estão combatendo os demônios, talvez eu esteja...
_ Eu preciso falar com Siegefried sobre isso! _ Ele disse, tentando afastar o pensamento anterior da cabeça. _ Ele deve ter uma explicação para isso.
_ Me perdoe a intromissão senhor! _ Balthazard disse ajoelhando-se em submissão. _ Eu entendo a vossa confiança no Grão-mestre, mas algo me parece errado nessa situação.
_ Você está me dizendo para não confiar no homem que me criou como um filho? _ Ele irrompeu em ira pela ousadia do demônio, agarrando-o pelo pescoço e erguendo-o até aproximá-lo do rosto para olhar em seus olhos. _ Você entende o quão sério é isso?
_ Entendo sim senhor! _ O demônio respondeu, parecendo não temer a ira do seu senhor. _ Mas meu papel como seu familiar, é dizer-lhe o que penso e proteger-lhe de qualquer ameaça que eu julgar que exista, afinal, minha vida agora depende da sua.
_ Em todo caso eu preciso falar com ele. _ Uriel disse, soltando o demônio que ajeitou o terno e se recompôs. _ Mas vou levar em consideração a sua preocupação.
Ele nunca imaginou essa proximidade com um demônio, mas o contrato de familiaridade que fez com Balthazard, estava sendo bem proveitoso para ele, já que o mesmo tinha a obrigação de ser sincero e leal.
Não queria acreditar que Siegfried o estava enganando todo esse tempo, mas algo no que o demônio lhe disse sobre ter algo errado naquela situação fazia sentido, e ele decidiu não falar nada sobre o que descobriram até ele mesmo investigar por conta própria.
Uma coisa era certa: Ele teria de ir até Miraculous Clearing!
_ Com licença, General Uriel. _ Howard disse educadamente após entrar na biblioteca. _ O Grão-mestre solicita sua presença em seu escritório. O senhor pode me acompanhar, por favor.
Uriel assentiu com a cabeça e após fazer um sinal de para que Balthazard esperasse na biblioteca, seguiu o mordomo até o escritório, onde entrou após ser anunciado.
_ Aí está você General! _ O Grão-mestre disse assim que ele entrou. _ Ouvimos falar que você estava em uma reunião particular.
_ Sim senhor. _ Uriel respondeu, deduzindo que Howard havia lhe contado sobre Balthazard. _ Trata-se de Balthazard, um de meus servos.
_ Balthazard, o chefe dos oráculos! _ Disse uma voz masculina vinda de dentro do escritório, e após o giro da cadeira, Uriel pode ver que se tratava de Azazel, o demônio considerado mais poderoso dentre os demônios de elite. _ Já não ouço esse nome faz muito tempo. Acho que desde que ele tentou ser promovido á elite.
_ E não conseguiu. _ Uma mulher que estava em outra cadeira completou. Era Lilith, o ser infernal mais temido de todos, até pelos próprios demônios, apenas Abigor e o próprio Azazel eram capazes de desafiá-la. _ Era fraco demais!
Uriel olhou para as outras cadeiras esperando ver Abigor, mas o terceiro demônio de elite não estava ali. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde estando ele na américa, acabaria encontrando-se com aqueles três, mas não sabia que seria tão rápido.
Agora mais do que nunca, deveria tomar cuidado com o que diria ao grão-mestre, por que se os demônios de elite estavam ali, era porque a situação era mais séria do que imaginava. Siegefried também não confiava neles, mas os chamava sempre que dificuldades extremas apareciam.
_ Ele agora é meu demônio familiar! _ Ele disse, sentindo-se estranhamente ofendido com o tom em que falavam quando se referiam a Balthazard. _ Está mais poderoso e competente que vocês imaginam.
_ Nos perdoe General! _ Azazel disse, levantando-se e fazendo uma reverência, que Uriel sabia que era cínica. _ Não queríamos ofender o seu servo.
_ Isso mesmo! _ Lilith completou sem se levantar, apenas cruzando as pernas de forma provocante. _ Mas não posso deixar de dizer que o senhor fica uma graça defendendo um demônio.
_ Se o senhor não se importa Grão-mestre. _ Uriel disse ignorando os demônios. _ Gostaria de ir direto ao assunto. Balthazard e eu estávamos checando os acontecimentos de Miraculous Clearing.
_ Claro que não me importo. _ Siegfried respondeu, _ Inclusive, era exatamente sobre isso que eu queria lhe falar.
_ O Grão-mestre nos falou que os seus oráculos descobriu que um Azeroth tinha desaparecido nessa cidade. _ Azazel disse, iniciando a reunião. _ Pois parece que descobrimos o que pode ter causado isso.
_ A placa onde foi registrada a conferência divina. _ Siegfried continuou. _ Um demônio contatou Abigor através de um ritual e lhe passou as coordenadas do objeto.
_ O senhor acha que esse item é capaz de destruir os demônios? _ Uriel perguntou.
_ O item por si só já pode ter uma considerável porção do espírito de Deus e de toda trindade. _ Lilith respondeu, com ar de especialista. _ Mas se alguém souber traduzir uma palavra sequer daquelas linhas, pode sim liberar poder suficiente para destruir até um de nós da elite.
_ Enviamos Abigor para reaver o objeto. _ Siegfried disse. _ Ele possui experiência contra forças divinas, já que liderou os exércitos de Lúcifer na batalha antes da grande queda.
_ E que eu saiba ele perdeu, não é mesmo? _ Provocou Uriel, se deliciando com a expressão de ódio de Azazel e Lilith. _ O quê diz á vocês que agora será diferente?
_ Ele lutou contra um exército de arcanjos cheios do Espírito santo! _ Azazel respondeu calmamente, escondendo a ira latente. _ Simples resquícios desse poder aqui na terra sem a presença divina, não serão obstáculos para um dos Três.
_ Então porque você mesmo não foi Azazel? _ Uriel perguntou, provocando mais uma vez. _ Ou talvez Lilith, já que são tão confiantes.
_ Poderíamos ter ido sim. _ Azazel respondeu sorrindo, sem ligar para a provocação. _ Mas como o senhor sabe General, cada um de nós tem um papel predefinido na organização. O do Abigor é guerrear, e por isso ele foi.
_ Muito bem senhores! _ Siegfried disse, interrompendo a discussão. _ Vamos ao que interessa. Por favor, sente-se General.
_ Nós estamos nos aproximando do grande momento em que vamos nos pronunciar como a grande salvação da humanidade. _ O Grão-mestre continuou, após Uriel se assentar. _ Tudo segue conforme o plano em todo mundo, e as hordas espalharam o caos nas principais metrópoles de todas as grandes nações. Como previsto, as pessoas entraram em completo desespero ao perceberem que foram abandonadas por Deus, e anseiam por um novo governo. Desta forma, eu os convoquei aqui para receber um relatório de suas ações pós-arrebatamento.
_ Tempestades grandiosas e grandes pragas foram liberadas em países tropicais. _ Lilith foi a primeira a se pronunciar. _ Minhas hordas carregam a missão de destruir colheitas e suprimentos, com estratégia semelhante ao que foi feito no Egito. Tudo com o intuito de lembrar aos homens que nenhuma ajuda virá dos céus.
_ O impulso assassino dos homens mediante ao desespero nunca foi tão latente. _ Disse Azazel, tomando a palavra. _ Meus demônios estão espalhando discórdia, inveja e todo tipo de sentimentos ruins, assim eles matarão a si próprios em busca de sobrevivência. E dessa vez, não haverá um juiz ou profeta de Deus para guiá-los de volta ao caminho certo, nem dilúvio para purificar e reiniciar a criação.
_ E seremos nós que ofereceremos a salvação. _ Uriel disse. _ Com meus soldados travestidos de anjos, carregando a bandeira dos Cavaleiros da Nova Terra.
_ E você general, será a cara do novo messias. _ Siegfried disse. _ E oferecerá a paz a todos os homens que aceitarem o nosso governo.
_ Mas ainda existem os que não aceitarão, não é mesmo? _ Uriel argumentou _ Eles serão caçados e exterminados, não é mesmo?
_ Como sempre, existem aqueles que se recusam a aceitar as mudanças. _ Azazel respondeu. _ Como é o caso de Miraculous Clearing. Mas assim que Abigor reaver a placa e destruir quem quer que a esteja usando, não haverá nada na terra que poderá se opor a nós.
_ Mas falando assim, parece que o General está amolecendo. _ Lilith provocou com seu sorriso irônico. _ Isso não será um problema ou será?
_ O General é o mais capacitado dentre nós, Lilith! _ Siegfried disse a repreendendo, visivelmente visando evitar um embate. _ Ele foi treinado para olhar por todos os ângulos e ver todas as possibilidades. Ele é nosso ponto de equilíbrio aqui, então é melhor tomar cuidado com suas insinuações.
_ Não se preocupe com a resistência general! _ Azazel disse. _ Como Abigor está fazendo agora, nós demônios de elite, iremos eliminar toda potencial ameaça.
_ Isso é o que esperamos! _ Disse o Grão-mestre. _ Me parece que tudo está andando conforme o planejado. Estão dispensados por hora, nos reuniremos novamente após o retorno de Abigor.
_ Fique, por favor, general. _ Siegfried disse enquanto todos se retiravam. _ Tem algo que gostaria de tratar em particular.
_ Sinto que algo o está preocupando filho. _ Ele continuou, após se certificar de que os outros haviam saído. _ Sabe que pode contar comigo, não é?
O tom paternal de Siege sempre desmontava suas defesas, e ele se sentiu inclinado a falar-lhe sobre todas as suas incertezas, mas o alerta de Balthazard ecoava em sua mente e o fez ficar firme.
_ Não é nada. _ Ele respondeu sorrindo. _ Só não consigo confiar neles.
_ E ainda sim aceitou um contrato de familiaridade? _ Siege perguntou. _ Não é contraditório?
_ Nesse caso não! _ Ele respondeu. _ Eu irei precisar dos serviços de Balthazard, e a melhor forma de manter a confiabilidade de um demônio, é prendendo-o a um contrato de familiaridade.
_ Vejo que aprendeu bastante mesmo! _ Disse o Grão-mestre servindo vodka em dois copos e entregando um a Uriel. _ Sinto muito orgulho de você!
_ Obrigado velho! _ Uriel disse, aceitando o copo e o erguendo como brinde. _ Isso é muito importante para mim.
_ Howard disse que vocês usaram a biblioteca e fizeram alguns rituais. _ Siege perguntou após brindar de volta e tomar um gole. _ Encontraram o que procuravam.
_ Sim. _ Uriel respondeu. _ Balthazard usou Grimório de Balaão para ampliar o poder dos oráculos, e conseguiu ver que mais batalhas aconteceram em Miraculous Clearing, mas o poder do objeto divino bloqueou o seu alcance.
_ Isso é de se esperar. _ Siegfried disse. _ Mas não se preocupe mais, Abigor está resolvendo isso! Por hora, apenas descanse e se prepare para quando chegar a sua hora!
_ É o que farei! _ Uriel respondeu, colocando o copo vazio em cima da mesa. _ Almoçamos juntos hoje?
_ Claro! _ Siege respondeu. _ Diga a Balthazard que ele é meu convidado para o almoço. Quero conhecer seu demônio familiar.
Enquanto saia da sala, Uriel pensou se deveria mentir para Siege, e quase voltou e contou a verdade sobre o que o mestre dos oráculos viu. Sentiu vontade de perguntar sobre a origem dos seus poderes, pois, se o que estava destruindo os demônios em Miraculous Clearing era de origem divina, e era semelhante aos seus poderes, seria ele divino também?
Eram muitas perguntas agora, mas ele resolveu simplesmente sair e procurar por conta própria pelas respostas.
_ Eles falaram sobre um objeto divino em Miraculous Clearing. _ Uriel disse a Balthazard assim que voltou a biblioteca. _ Tem certeza do que me disse? Sobre a natureza do poder que confrontou o demônio ser semelhante à minha?
_ Sim senhor! _ O demônio respondeu. _ Eu até poderia dizer que era um poder divino se não tivesse sentido que era semelhante ao do senhor. Digo, eu já confrontei anjos antes, mas o poder que eu senti era maior, tão intenso quanto o do senhor.
_ Eu não sou um demônio Balthazard, e humanos normais não têm poderes. _ Uriel disse. _ O que eu sou então?
_ Eu lamento não poder dizer com certeza general. _ Balthazard disse ajoelhando-se. _ Mas eu sinto luz em seu espírito, e os outros demônios também.
_ Você pode me ajudar a descobrir? _ Uriel disse em um tom de súplica nunca antes visto por ninguém _ Acho que só posso confiar em você agora.
_ É sempre uma honra servi-lo, senhor! _ Balthazard disse, levantando-se e fazendo uma reverência. _ Farei o que for possível para ajudá-lo.
Pela primeira vez Uriel aceitou a bajulação de Balthazard. Talvez porque podia confiar em sua lealdade forçada pelo pacto de familiaridade, ou talvez porque se sentia só, agora que desconfiava de Siege e de todos os outros.
A verdade é que ele não queria esperar Abigor voltar com as respostas. Queria buscá-las por si próprio, então decidiu que iria até Miraculous Clearing sem a permissão do Grão-mestre e pegar a placa, mesmo que tivesse que enfrentar o demônio de elite que foi encarregado de buscá-la.
_ O Grão-mestre nos convidou para o almoço Balthazard. _ Uriel disse. _ Não podemos nos atrasar. Depois continuaremos as investigações.
Ambos seguiram para a sala de jantar assim que Howard anunciou que o almoço estava pronto, e após as apresentações, assentaram-se à mesa e almoçaram enquanto conversavam animadamente.
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