08

Quando o sábado chegou, eu levantei mais cedo do que o de costume e coloquei a coleira com guia em Olaf para levá-lo para uma caminhada. Na verdade, a orientação para que eu saísse de casa e tomasse sol todos os dias foi da minha psicóloga. Não queria dar o braço a torcer, mas ela teve razão quando disse que eu regredi depois de ver aquela maldita propaganda sobre o debut do Bloom.

Agora, ela me queria fora de casa a qualquer custo, ocupando minha mente com tudo que fosse possível para minha depressão não piorar. Se isso não desse certo, tinha ficado claro que ela me mandaria para um psiquiatra que poderia me receitar medicamentos para controlar a minha condição.

Coloquei a mochila de transporte de Olaf nas costas, no caso dele se cansar pelo caminho e saímos de casa. A brisa da manhã ainda estava gélida, me fazendo arrepiar quando comecei a descer as escadas do sobrado. Não demorou nem um segundo para que eu ouvisse vozes vindo da casa de Seungmin.

— Não! Eles não podem estar falando sério, vó! — foi a primeira vez que o ouvi falar alto daquele jeito.

— Tente se acalmar, meu filho… sei o quanto é difícil, mas não tem nada que a gente possa fazer agora a não ser esperar o próximo julgamento.

Mesmo sem querer, acabei escutando uma parte da conversa. Paralisei por um instante, não conseguia deixar de me sentir preocupada com os dois.

— Como eu posso ficar de braços cruzados enquanto eles querem soltar aquele monstro?! Ele é um assassino, vó!

Meus olhos se arregalaram, tanto pela frase dita por Seungmin quanto pelo barulho que a seguiu. O som era claramente de um soco em um dos móveis, mas não me atrevi a olhar pela fresta da janela que estava entreaberta. Enquanto a Sra. Kim tentava acalmar o neto com palavras tranquilizantes, me abaixei e continuei a descer os degraus, saindo pelo portão da casa o mais silenciosamente possível.

Caminhei pelas ruas do bairro sem prestar atenção em muita coisa ao redor; meus pensamentos estavam todos em Seungmin e no que ele poderia estar passando nesse momento. Para ser sincera, estava muito preocupada, mas perguntar diretamente a ele sobre o que estava acontecendo poderia ser um pouco demais. Já bastava ter me intrometido sobre sua mãe estar hospitalizada, então não queria forçar esse tipo de abertura, ainda mais quando ouvi uma conversa privada dele com a avó.

Já estava um pouco longe de casa quando me dei conta. Sentei em uma mesa com guarda-sol na frente de uma loja de conveniência e prendi a coleira de Olaf no pé da cadeira. Ele se deitou instantaneamente na sombra, e aproveitei para entrar na loja e comprar uma água para bebermos antes da caminhada de volta.

Já que estava ali e não precisaria estudar pelo resto do dia, pensei que seria legal chegar em casa e assistir um filme, afinal, fazia muito tempo que não tinha um dia assim. Além da água, peguei um pacote de salgadinho, doces e refrigerante e fui para o caixa. O atendente parecia ter a minha idade, e foi simpático enquanto passava minhas compras na máquina.

— Deu oito mil wons.

Embora eu tivesse escutado sua fala, não consegui responder nada. Pouco atrás dele, a pequena televisão ligada mostrava uma entrevista do homem que arruinou a minha vida. Senti minhas mãos tremerem e a nota de dez mil que segurava caiu em cima do balcão.

Eu simplesmente não consegui reagir, assim como aconteceu quando vi, há poucos dias, a propaganda do debut do grupo que eu faria parte, só que dessa vez foi pior. Muito pior. E não tinha ninguém ali que pudesse me ajudar ou entender o que eu estava sentindo.

O nojo que eu tive depois de ver a cara daquele homem pela primeira vez desde o escândalo do ano passado fez meu estômago embrulhar. Cha Minhyuk falava de um jeito animado sobre as garotas e suas ambições de fazer delas o maior grupo de k-pop da geração atual. Seu jeito convincente era o mesmo de quando fez a minha autoestima escorrer para fora de mim gota a gota, até não restar mais nada. Ele era um abusador, mas estava ali, na TV, mostrando seu sucesso como produtor, enquanto eu, sua vítima, estava enfiada em uma cidade do interior, tentando lidar com todos os traumas que ele me causou.

— Moça, o seu troco — saí do transe, percebendo que o atendente já tinha repetido a mesma coisa algumas vezes.

— Obrigada.

Peguei tudo em cima do balcão e saí da loja, tentando não lembrar do rosto daquele homem na TV. Eu só queria desabar ali mesmo, mas não podia fazer isso no meio da rua e de todas as pessoas desconhecidas que passavam por ali e não tinham nada a ver com os meus problemas.

No fim das contas, eu tinha que lidar com isso sozinha. Era isso que eu pensava.

Desprendi a coleira de Olaf da cadeira do lado de fora da loja e caminhamos juntos de volta para casa. Tenho certeza que ele percebeu que eu estava mal, pois se esfregou em minhas pernas quase o caminho inteiro, me fazendo tropeçar algumas vezes no meio da rua.

— Que cara é essa?

Me surpreendi assim que cheguei no portão de casa, Seungmin estava saindo com Nala para um passeio. Me afastei um pouco, vendo que Olaf rosnou para a cadela instantaneamente.

— É a minha cara, ué — tentei não transparecer a tristeza que guardava dentro de mim.

— Você não parece muito bem — disse convicto, puxando Nala para mais perto de si quando viu que ela estava com medo do meu gato.

“Olha quem fala”, pensei. Pelo que ouvi mais cedo quando estava saindo de casa, e levando em conta que a mãe do garoto estava em coma, Seungmin estava sofrendo tanto quanto eu. Até mais. Mesmo assim, ele me olhou preocupado mais uma vez. Apenas balancei a cabeça e neguei, dizendo que estava bem. O garoto não pareceu acreditar.

— Tá tudo bem mesmo? O que tava indo fazer?

— Só fui comprar umas porcarias pra passar o dia comendo e vendo filme.

— Posso ir com você?! — ele olhou sedento para as sacolas que eu trazia — Qual filme quer ver? Eu assino todos os apps de streaming! A gente pode assistir na minha casa!

— Você não tava indo levar sua cachorra pra passear?

— Nala nem queria sair hoje, não é mesmo, garota? — a cadela se retraiu um pouco mais enquanto Olaf tentava cheirá-la — Viu só?! Ela quer voltar pra dentro!

Seungmin passou pelo portão e o segurou para que eu fizesse o mesmo. Eu sabia que ele estava se esforçando para parecer bem na minha frente, só não sabia o porquê de estar fazendo isso.

Eu estava prestes a negar e subir para minha casa quando olhei mais uma vez para o rosto do garoto. Ele exibia um sorriso tímido esperando que eu aceitasse sua proposta, mas consegui ver dentro de seus olhos a tristeza que sentia. Seungmin queria fugir da sua realidade, nem que fosse apenas pelo tempo de duração de um filme.

— Tudo bem, mas eu escolho o que vamos assistir.

Ele não se opôs, então o segui para dentro de sua casa; ele pegou as sacolas das minhas mãos e disse que eu podia deixar Olaf solto se quisesse, já que, segundo ele, Nala seria uma boa anfitriã e não tentaria nada contra o meu filhote. Mesmo assim, optei por colocar o gato na mochila de transporte, ele estava cansado e dormiu em menos de cinco minutos depois que o coloquei lá. Nala também sumiu de nossa vista depois de pouco tempo, talvez tenha aproveitado para ir para a cama também.

— E então… cadê a sua vó? — olhei ao redor meio sem jeito, a senhora não havia aparecido na sala.

— Ela saiu pra resolver umas coisas — disse, colocando dois copos na mesa de centro. — Vai ficar de pé aí mesmo?

Tossi, tentando disfarçar que quase me engasguei por saber que estaríamos sozinhos pelas próximas horas. Me apressei e sentei no tapete, apoiando minhas costas no sofá atrás de mim. Evitei olhar diretamente para ele por pelo menos vinte minutos depois disso.

— Se eu soubesse que ia escolher filme de zumbi, não teria te chamado pra vir! — reclamou, colocando o braço na frente do rosto para não ver um personagem ser atacado — Não faz anos que isso foi lançado? Por que diabos tinha que escolher Invasão Zumbi logo agora?!

— Eu não tive tempo de ver desde que lançou — comi um salgadinho, forçando os ouvidos pra escutar melhor a cena devido aos resmungou de Seungmin.

— Sério? Você era trainee ou uma escrava naquela empresa? — sua pergunta saiu de um jeito indignado — Devia denunciar eles por trabalho infantil abusivo! Quanto tempo você treinou lá?

Pensei um pouco. Foram vários anos da minha vida dedicados àquilo em vão. Decidi não entrar nesse assunto com o garoto, ele já tinha problemas demais para lidar.

— Só para de conversinha e presta atenção no filme — tomei um gole de refrigerante, sentindo seu olhar sobre mim. — Se tá com medo, posso ir pra casa e terminar de ver sozinha.

— Não tenho medo! Só é nojento!

Soltei um riso nasal, satisfeita em ouvi-lo protestar daquele jeito. Continuei aproveitando o filme e os snacks, enquanto Seungmin parecia estar em uma luta interna consigo mesmo cada vez que cenas fortes apareciam na TV.

O filme estava no ápice quando o garoto se mexeu de um jeito inquieto no tapete. Ele claramente estava com medo.

— Bom, como eu já sei o que acontece nessa parte, vou aproveitar pra ir no banheiro. Você pode continuar sem mim!

— Aham… claro — ironizei, e ele não pareceu gostar muito disso.

— Continua me provocando e vou te dar spoiler de todo mundo que morre!

— Yá! Você não ousaria!

Acompanhei seu movimento com os olhos semicerrados, ele estava se levantando do chão para sair da sala quando pisou em algo que parecia ser uma bola de brinquedo de Nala que estava debaixo da mesa.

Seungmin ainda tentou se equilibrar; eu também tentei o segurar para que não caísse de mal jeito, mas, no segundo seguinte, sem que eu me desse conta de como tudo aconteceu, nossos corpos estavam praticamente...

Colados um no outro.

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