05

No sábado, quando me levantei, minha mãe já havia saído para trabalhar, como de costume. Sem colocar o despertador, eu havia acordado mais tarde do que planejava, então fui direto fazer o nosso almoço. E não demorou muito para Jungwon surgir de pijamas na cozinha, procurando freneticamente pelo que estava cheirando tão bem.

— Hummm, parece que você caprichou na comida hoje, Kang Haerin!

— Quantas vezes vou ter que te falar pra me chamar de noona? Sabe que sou mais velha que você, seja mais respeitoso.

— Dois minutos mais velha. Isso é ridículo — ele torceu o nariz. — Nossa mãe podia muito bem ter feito algo pra eu sair primeiro.

— Como se ela tivesse poder pra isso — ironizei. — Apenas aceite que é mais novo e pronto. Isso nunca vai mudar!

Jungwon fingiu não ouvir, indo cutucar a panela no fogo com uma colher. Ele provou o caldo, fazendo uma expressão satisfeita depois de engolir.

— Perfeito! Tão bom que nem parece que foi você que fez.

— Senta logo pra comer, ou eu juro que te acerto com essa colher de pau, Kang Jungwon!

A ameaça deu certo, levando em conta que meu irmão sentou e comeu tudo em completo silêncio. Me juntei a ele para almoçar, à tarde teria a minha primeira sessão de terapia com uma psicóloga nova. Estava um pouco nervosa, já tinha sido difícil demais me abrir e contar tudo para a minha antiga terapeuta; mudar de cidade e ter que mudar também a única coisa que ainda estava me ajudando a ficar de pé era horrível, mas sabia que precisava disso. Não tinha como aguentar tudo sozinha, e como minha terapeuta indicou uma colega de profissão aqui em Mokpo para cuidar de mim, eu faria isso.

— Pode deixar que eu lavo os pratos, vai se arrumar pro seu compromisso.

Balancei a cabeça assentindo, na maior parte do tempo, Jungwon agia como um garoto de 17 anos imaturo, mas no fundo eu sabia que ele sempre teve um senso grande de responsabilidade, assim como eu. Desde pequenos tivemos que nos virar sozinhos em muitas coisas, então sabíamos quando ajudar um ao outro.

— A mãe disse que hoje vai chegar cedo e fazer o jantar pra gente — falei, fechando as panelas e colocando meu prato na pia —, mas caso ela fique presa no serviço de novo, me avisa que eu trago frango frito na volta.

Ele apenas concordou com um ruído, enquanto limpava a pequena mesa com um pano úmido. De repente, Jungwon limpou as mãos na própria calça, parecendo ter pressa depois de se lembrar de algo.

— Ah, eu quase esqueci! Tenho uma coisa pra te dar.

— Comprou presente pra mim, é? — provoquei, acompanhando com o olhar ele entrar em seu quarto.

— Há! Só se fosse nos seus sonhos! — gritou. Escutei o barulho de seu armário sendo aberto e fechado em seguida — O presente é pro meu sobrinho. Não quero mais que ele viva enfurnado naquele seu quarto minúsculo.

Jungwon voltou com um pacote nas mãos, colocando-o na mesa em minha frente. Tirei o objeto da sacola, abrindo a boca surpresa ao ver que era uma mochila de transporte para gatos, dessas com visor transparente na frente para o bichinho olhar a vista enquanto passeia. Dentro da sacola também havia uma guia com coleira, para que eu pudesse levar Olaf para caminhar.

— Uau… eu nem sei como te agradecer, Won Won.

— Me agradeça parando de me chamar por esse apelido ridículo — respondeu mal-humorado, mas eu sabia que ele estava apenas fingindo. — E leve meu sobrinho pra passear, o coitado já ficou tempo demais naquele quarto fedorento.

— Fedorento é seu quarto! — retruquei, mas em seguida deixei a provocação de lado — Vou levar o Olaf pra passear sempre, ele vai ficar muito feliz com o presente. Obrigada, Won Won.

— Me chame assim de novo e vai se arrepender!

Eu ri de sua braveza, levantando as mãos em rendição em seguida e pedindo desculpas. Ele ainda me ameaçou fechando o punho em minha direção, mas logo riu junto comigo.

— Vou sair com Seungmin mais tarde, caso você chegue e não me ache em casa.

— Tudo bem. Ligue se precisar de algo.

— Você também. Boa consulta!

[...]

No caminho de volta para casa, os pensamentos sobre minha conversa com a terapeuta não saíam da minha cabeça. A terapia ainda era o único lugar onde eu conseguia falar sobre tudo que aconteceu, porque reviver aqueles dias em memórias era difícil demais. Muitas vezes tive que pausar as sessões porque simplesmente não conseguia respirar, era horrível pensar em como as pessoas foram tão cruéis comigo e que hoje todas elas estão bem, enquanto eu estou em cacos, cheia de traumas e sem perspectiva alguma do que vou fazer no futuro. Ser idol sempre foi meu plano A, B e C, não sabia fazer outra coisa, senão isso.

Fui tentando expulsar aqueles pensamentos de minha mente conforme me aproximei de casa. Já tinha escurecido e, da rua, vi as luzes do terraço acesas. Subi as escadas, me animando um pouco por saber que minha mãe tinha conseguido chegar mais cedo e poderíamos jantar a sua comida como ela tinha prometido.

O cheiro delicioso de carne sendo grelhada invadiu as minhas narinas antes mesmo de eu chegar ao terraço, foi uma sensação incrível.

— Espero que tenha bastante carne, porque hoje eu vou comer até virar um leitão!

Mal terminei de gritar a minha frase quando meu corpo paralisou no lugar, vendo que Seungmin estava sentado com minha mãe e Jungwon na mesa do terraço. Os três me olharam com surpresa e estranheza, e senti todas as minhas células se reprimirem em vergonha por ter dito aquilo tão alto.

— É bom te ver com apetite, Haerinie — minha mãe disse, enquanto os garotos me encaravam como se eu fosse maluca — Vem comer, a gente tava te esperando!

Caminhei até a mesa no centro do terraço e me sentei ao lado de minha mãe sem dizer uma única palavra. Se eu levantasse um tantinho sequer a cabeça, daria de cara com Kim Seungmin e, por algum motivo, eu não queria isso.

Minha mãe me serviu uma porção de arroz e colocou alguns pedaços de carne em cima, continuando a grelhar o restante em seguida. Peguei os pauzinhos e comecei a comer o mais rápido que podia. Quanto antes terminasse, antes poderia correr para o meu quarto.

— Woah! Você não tava brincando quando disse que ia comer até virar um leitão! — Jungwon me olhou boquiaberto, eu tentei responder, mas minha boca estava cheia demais — Nunca pensei que te veria comer tanto de novo, você sempre vivia naquelas dietas malucas quando era trainee.

Terminei de engolir a comida, erguendo minha cabeça para fuzilar meu irmão com o olhar. Mesmo sem pronunciar nenhuma sílaba, eu dizia claramente para ele que não devia tocar nesse assunto, ainda mais com Seungmin aqui. Minha mãe acariciou minhas costas.

— É um alívio te ver comer tão bem, filha. Você não imagina o quanto fiquei preocupada todas as vezes que passou dias sem colocar um grão de arroz sequer na boca…

Respirei fundo, lembrando de cada problema que tive com minha alimentação desde que me virei trainee. Naquela época, eu fazia apenas uma refeição por dia, para evitar ganhar peso. Sempre foi difícil, mas foi ainda pior depois que todas aquelas mentiras sobre mim vieram à tona e fui expulsa da formação de debut. Eu parei de comer porque não tinha mais apetite. Na verdade, meu estômago vivia embrulhado e não conseguia comer nada. Foram meses vivendo assim.

— Tá, gente, mas será que ninguém tem um assunto mais interessante pra falar? — já havia percebido que eu seria o tópico mais discutido naquele jantar, então precisava tentar mudar o rumo da conversa pelo menos.

Seungmin pigarreou, e eu pensei que ele finalmente me ajudaria a sair daquela situação.

— E o filhote de gato que você pegou naquele dia, Haerin? Tá cuidando dele?

Mas Kim Seungmin só piorou a minha situação.

— G-gato?! — tossi, quase me engasgando com o refrigerante que tomava — Do que você tá falando?!

— Não vai me dizer que já esqueceu? Você só faltou jogar uma pedra na minha Nala porque ela queria brincar com aquele gato de rua no parque!

Eu não me surpreendi nem um pouco com a falta de percepção do garoto à minha frente. Era como se o cérebro dele não servisse para nada além de ser um grande paspalho. Ou talvez ele só quisesse me prejudicar mesmo, já que eu deixei bem claro nas entrelinhas que o assunto gato era proibido na frente da minha mãe.

— Que história é essa de gato? — a mais velha me lançou um olhar fatal, esperando que eu me explicasse. Soltei uma risada desesperada.

— Haerin trouxe um gato de rua pra casa!

— Jungwon! — protestei, mas logo me dei por vencida. Se eu não escondesse as coisas, não teria tantos assuntos proibidos assim.

— A mãe não vai expulsar ele, né, mãe?

— Não sei, Jungwon, vocês sabem que não gosto de bicho em casa…

— Mas a psicóloga disse que um bichinho de estimação vai ser bom pra ela — meu gêmeo mentiu na cara dura, mas não poderia dizer que achei ruim. — Né, Haerinie?! Fala pra ela!

Minha mãe voltou sua atenção para mim, esperando que eu confirmasse ou não a informação falsa. Seungmin continuava assistindo a cena atentamente enquanto petiscava a carne grelhada, eu estava perplexa com quantas coisas particulares ele ficou sabendo sobre mim só nesse curto espaço de tempo.

— É verdade, mãe! Ela disse que a companhia de um animal vai fazer bem pra minha… hm… condição.

Seungmin realmente não precisava saber que eu tenho ansiedade e depressão.

— Entendo… — ela ponderou por um momento — Vamos fazer um teste de uma semana então, vou pensar se permito que ele fique depois desse tempo. Mas não quero ver nenhuma sujeirinha ou os móveis arranhados em casa!

— Pode deixar! — exclamei, agora estava alegre — Você vai se apaixonar pelo Olaf!

— Céus, Haerin, você já deu até nome pro gato?

Quando eu ia responder, o celular de Seungmin começou a tocar. Ele pediu licença e se levantou para atender, eu aproveitei sua saída para reclamar com Jungwon o fato dele ter dito coisas que não deveria na frente do Kim. Meu irmão retrucou de volta, fazendo minha mãe ter que parar a nossa discussão quando Seungmin voltou ao terraço.

— Bom, eu… preciso ir — disse meio sem jeito — Senhora Kang, obrigado pelo jantar. Eu queria poder ficar pra ajudar com a louça, mas minha vó vai passar a noite no hospital e pediu pra eu levar uma muda de roupa pra ela.

— Hospital?! — minha mãe fez a pergunta que eu queria fazer — O que aconteceu, querido? Sua avó tá doente?

— Ela tá bem, só vai precisar ficar de acompanhante pra alguém hoje.

Mesmo que a avó dele estivesse bem, a resposta do garoto não pareceu muito alegre. Seungmin estava meio cabisbaixo, muito diferente da forma que estava quando cheguei aqui hoje.

— Entendi — minha mãe certamente percebeu que ele não queria se aprofundar no assunto. — Mas já tá um pouco tarde, você vai dormir lá também?

— Não, eu só vou deixar as coisas dela e voltar pra casa.

— A Haerin pode ir com você, não pode, filha?!

— O quê?! — arregalei os olhos, sem entender porque ela tinha proposto aquilo.

— Eu posso ir, mãe! — Jungwon esperneou, levantando a mão freneticamente.

— Você vai entrar e ir pra cama, isso sim! Se eu te deixo sair agora, você só volta depois que passar a noite no fliperama com seus amigos. Pensa que não te conheço?! — a mulher tinha razão, na verdade. Meu irmão sempre aproveita cada brecha dada para curtir por aí — Haerin vai, tá decidido.

Suspirei, sem saída. Não sabia se minha mãe estava me dando algum castigo por ter trazido um gato escondido pra casa ou se só queria que eu fizesse um amigo pra viver menos solitária na escola.

Olhei em meu celular, já passava das nove da noite. Eu queria ir e voltar logo para dormir, o dia foi mentalmente exaustivo para mim. Levantei da mesa e passei pelo garoto depressa, gritando ao descer os degraus:

— Aposto que chego lá primeiro que você, Kim Seungmin!

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