6. A Vinha da Ira
Mentiroso. Traidor. Canalha. Bastardo. Judas. Como tinha coragem? Ele era seu melhor amigo e ela o amor de sua vida, como poderia ter coragem? Mentiroso. Traidor.
O impacto veio quando atingiu o solo. O cavalo relinchou e parou, sendo ume espectador da cena junto da natureza. A lama cobriu a frente de sua camisa, tornando-a marrom, e parte de seu rosto também. Cuspiu saliva, lama, ódio e ressentimento. Maldito.
― Por que não o mata? — uma voz esganiçada perguntou.
― O que?
Encarou a escuridão, seus olhos nublados pela sombra do álcool e da noite. Dois pontos brilhantes reluziam e, quando ouviu a voz novamente, teve a impressão de que a sombra da sombra o respondia:
― Qual é a punição para traidores? Seja o júri, o inquisidor, carrasco e executor.
O álcool pareceu desanuviar-se de sua mente e seus pensamentos se tornaram claros. Sim, julgá-lo. A morte para o traidor. Apenas a morte para um traidor vil como aquele. Seus olhos viam o pântano clareado pela luz da lua cheia, mas a sombra da sombra havia desaparecido. Sua mente estava clara e a decisão feita, portanto, subiu novamente no cavalo do qual caíra e rumou para o caminho pelo qual viera. O riso esganiçado foi abafado pelo trotar ligeiro do animal.
Naquela noite enluarada, o quarto no qual era hóspede naquela casa adquiriu o cheiro de ervas, álcool e morte. O corvo o assistia empoleirado na janela aberta, mas não o percebeu. O ódio o tornou cego mais uma vez.
O dia seguinte trouxe o sol tão raro para aquelas terras. Os convidados do casal se divertiram nos jardins verdejantes e ele esqueceu-se que o dia tinha horas. Elas se arrastavam devagar e a noite parecia nunca chegar. Mas ela veio, junto de uma tempestade que fez o dia virar noite mais cedo do que o habitual.
O jantar foi servido e, quando terminado, todos os homens convidados a se retirarem para o salão de jogos junto do noivo. Quanto às mulheres, restavam-lhes mais algumas horas tediosas na sala de visitas, até que o horário se tornasse respeitável para que pudessem se retirar.
No salão de jogos o cheiro forte de tabaco preenchia o ar junto das gargalhadas, a fumaça dos cachimbos e cigarros lentamente criando uma nuvem de fumaça, fraca como uma neblina prestes a se dissipar.
― Um brinde para o noivo!
Ele pediu pelo brinde e veio em posse da garrafa de vinho. A melhor safra, ele anunciou enquanto enchia as taças. Doce como o mel mais doce e produzido pelo próprio Baco em pessoa. Era o melhor vinho que tomariam em vida, disse junto da risada que tentou esconder enquanto virava o conteúdo de um pequeno frasco em uma taça especifica. Ninguém viu, exceto um cachorro preto que ninguém vira entrar pela porta aberta.
― Um brinde ao nosso amigo mais querido!
Ele disse e o corpo de uma das taças foi envolvido por uma mão. As vozes dos presentes se uniram na repetição das palavras tão calorosas para o dono da casa. Cada um bebeu um gole e não foi preciso mais do que aquilo para que alguns viessem ao chão ou se agarrassem aos móveis com as mesmas mãos que antes seguravam as taças. Todas elas se espatifaram ao caírem e, quando os corpos fizeram o mesmo, convulsionavam em seus últimos espasmos de vida.
O cachorro latia, um latido sobrenatural que mais se assemelhava a uma risada humana, e ele foi o último a tombar em direção ao chão. Sua taça estava vazia e em segundos seu corpo também, pois não havia mais vida ali.
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