33 - Dias de tormenta
A manhã se transformou em tarde e a tarde se transformou em noite na caverna em que Mackenzie fora aprisionada. Ali, no mesmo lugar em que o grifo foi trancafiado, ela se viu do outro lado. O lado mais escuro e apavorante.
No entanto, de todas as coisas, estar presa não era o que mais a fazia estremecer, porque a sensação de que estava prestes a morrer lhe causava muita angustia e aflição. Pensar que sua vida estava por um triz a deixava apavorada. Já havia antecipado a morte infinitas vezes em sua mente, mas nenhuma dela pareceu aproximara-se da realidade. O sono lhe foi roubado, e embora não comesse a algum tempo, também não havia fome, somente o tormento que fazia sua cabeça girar e girar sem chegar a lugar nenhum.
Não muito longe dali, um som de pano se rasgando irrompeu o ar e depois, uma coruja piou um som curto e profundo que levou uma sensação de aflição e mau-agouro ao âmago de Mackenzie. Seria uma noite difícil, já que o vento frio fazia com que seus dentes batessem uns contra os outros e uma onda de arrepios a assolava de tempos em tempos, fazendo com que sua respiração se tornasse pesada. Seus lábios estavam arroxeados e pequenos flocos de neve se formavam sobre seus cílios quando o cansaço bateu em seus ossos e mente. Ela encostou a cabeça na grade e fechou os olhos, com os braços em volta das pernas dobradas, tentando aquecer-se da melhor forma possível. Quando as coisas começaram a se acalmar por dentro, ela se perguntou o que aconteceria com Edlyn. Ele não havia aparecido e não havia sinal de que lhe ajudaria a sair dessa situação, mas alguma coisa dentro dela insistia que isso não era verdade. Ele não a abandonaria, mas antes que qualquer coisa. Ela precisava sobreviver a essa noite extrema.
Naquela noite, em seu sonho, Mackenzie estava diante de seu reflexo no espelho e não gostou do que viu. Ela utilizava uma tiara de pedras de obsidianas, cuja cor contratava sobre o cabelo tão claro quanto a neve. Sua pele perdera o brilho dourado acolhedor. Era como se o calor e a cor de sua pele tivessem esvaído e tudo o que restara era a palidez e a frieza intensa. Com a garganta apertada, ela podia sentir o coração bater sangue insípido num ritmo lento e duro. Era como se tivesse perdido a capacidade de sentir, como se sua humanidade e bondade estivessem aprisionadas em algum canto remoto e inacessível.
Seu manto era grosso e macio como os pelos de um gato felpudo, preto-carvão com detalhes dourados, mas ela sentiu que nem o manto mais quente poderia aquecer aquele corpo tão frio. E ela quis sair de si quando se deparou com seus próprios olhos, o espelho de sua alma estava tomado por um vazio profundo, sombrio e assustador onde ela mesma presumiu que havia se perdido. Um brilho escurecido e acetinado que matizava dor, impiedade e crueldade. Era algo que ela não gostaria de ter visto. Seu coração tão frio e indiferente quanto um dia de inverno extremo.
O sol mal havia nascido quando ela acordou com um resfolegar doloroso na garganta e agitou-se, atormentada com o que acabara de ver, mas não houve tempo para ela refletir sobre aquilo, pois os druidas abriram a cela e avançaram.
O coração dela bateu forte e apavorado nas costelas e ela instintivamente tentou recuar, arrastando o corpo no chão, tentando esquivar-se deles. Mas não adiantou, eles a seguraram pelos braços e a levaram dali.
A poucos passos dali, uma carroça os esperava, e Mackenzie foi colocada na parte de trás. Seus braços foram atados novamente e ela foi instruída a sentar-se na parte de trás, e ela foi amarrada a carroça. Eles saíram por um breve instante, e ela ficou ali, com a cabeça apoiada a lateral da carroça enquanto esperava o seu devir. Passos foram ouvidos novamente e sem se esforçar para se certificar, ela presumiu que eles estavam voltando. O que de fato não era o caso.
— Está tudo bem? — Mackenzie ergueu a cabeça aturdida quando reconheceu a voz de Edlyn e um sentimento de proteção lhe afagasse o coração.
Ele havia voltado. Por ela.
Uma sensação de esperança lhe fez assentir com a cabeça e ela viu os lábios dele esticarem-se num sorriso infeliz.
— Sinto muito que isso tenha acontecido... — Ele se lamentou, fitando-a com olhar simbólico e melancólico.
Ela acenou com a cabeça.
— Comece a desamarrar as cordas. — Mackenzie pediu, agitando-se quando percebeu que ele estava demorando.
Ele negou com um gesto de cabeça e ela perdeu o fôlego.
— O-que? — Ela indagou fracamente, seu corpo paralisando como se tivesse acabado de levar um balde de água fria.
— Eu sinto muito... — Ele respondeu com um olhar tingido de dor.
Seu coração inchou no peito e ar pareceu difícil de respirar. A visão dela se tornou turva quando lágrimas começaram a se formar em seus olhos e escorrer pelas bochechas empalidecidas.
— Você vai permitir que eles me matem? — Mackenzie questionou perplexa, sua voz adquirindo um tom rouco, estrangulado e falho ao imaginar que ele a estava abandonando.
As vozes alheias puderam ser ouvidas gradativamente mais altas, advertindo-os que os druidas estavam voltando.
— Eu preciso ir, mas com o tempo você vai perceber que isso não é verdade. — Ele disse antes de sumir completamente e deixar Mackenzie entregue a própria sorte.
E assim como um sopro, Edlyn sumiu.
Os druidas deixaram um saco pardo, volumoso perto dos pés de Mackenzie e ignorando-a como se ela não estivesse ali, eles instalaram-se na carroça, assumindo à dianteira, batendo as rédeas e entrando em movimento, afastando-se cada vez mais do acampamento druida.
O destino de Mackenzie, naquele momento lhe pareceu muito incerto e frágil. Depois de passar por tantas árvores de diversos tipos, tamanhos e cores. Bosques, campos, lagos passavam por seus olhos como borrões e ficavam para trás, cada vez mais distante. Ela não sabia o que aconteceria quando a carroça parasse, mas se permitiu acreditar uma última vez em Edlyn a fim de se agarrar a um único fio de esperança.
Os braços de Mackenzie doíam por ficarem pendurados, as cordas ásperas apertavam a pele parecia que lixava a pele conforme os movimentos da carroça. Mas ela não se atreveu a reclamar. Encolheu as pernas tentou apoiar os cotovelos, mas os braços estavam amarrados a uma altura que nem os seus joelhos conseguiam compensar.
À medida que a pele ia ficando desgastada, a tarde chegava ao fim e a carroça parou, fazendo com que Mackenzie se agitar, perscrutando ao redor em pânico. Eles a deixariam ali para morrer? Ela se perguntou exasperada. Os olhos cintilando medo.
— É aqui que vocês vão me deixar? — ela perguntou, temendo pela resposta.
O druida apeou e fez a volta pela carroça. Dusan, o druida que a seguira no primeiro dia apoiou os dois braços no beiram de madeira e fitou-a com uma carranca, antes de sacar a faca de caça que ele portava em algum lugar das vestes.
A lâmina tremeluziu um brilho opaco e Mackenzie prendeu a respiração, fechando os olhos de súbito e encolhendo-se no canto da carroça, presumindo que morreria como um animal encurralado. Mas inesperadamente, não foi isso o que aconteceu e ela abriu os olhos no momento em que os braços caíram sobre as pernas.
— Não me agradeça. — Dusan advertiu, guardando a faca.
— Não abuse da sorte. — O outro druida, Skender, alertou com a mesma brusquidão na voz. — Se fugir, não iremos atrás de você e dessa vez, Edlyn não está aqui para te salvar. Entendido? — Ele perguntou e aguardou uma resposta.
Ela assentiu com a cabeça embora hesitasse.
— Certo. — disse ele com resguarda. — Seguiremos viagem ao nascer do sol.
Uma fogueira foi acesa e um animal assava ao fogo. Mackenzie observava a tudo ainda da carroça, muito fraca e muito cansada, seus os olhos começavam a se fechar involuntariamente, quando sentiu uma cutucada em seu ombro e um cheiro de carne assada emaranhou-se em seu nariz.
— Coma um pouco. — Dusan ofereceu um bom pedaço da carne espetada na ponta de sua faca.
Ela hesitou, olhando da comida para ele como se ponderasse sobre morrer de fome a comer a comida deles, mas embora ela não tivesse erguido a mão para pegar o pedaço, presumiu que a segunda opção era a mais sensata.
— Pegue... — insistiu, movimentando a mão com a carne. — Você não vai nos dar tanto trabalho para morrer na metade do caminho. Então, coma.
Ela franziu as sobrancelhas e fitou a carne com um cheiro tão convidativo antes de pegá-la com as mãos ainda atadas pelas cordas.
Saciada e longe do chão, a noite passou mais rápido e menos torturante do que a anterior e não tardou para que os primeiros raios de sol que atravessavam os pequenos espaços entre as copas a despertassem. Eles abriram o saco e pegaram pedaços de pão antes de dar continuidade à viagem.
No final do dia, Mackenzie analisou a floresta e sentiu gelo em sua garganta ao reconhecer as árvores que ali havia. Seu coração bateu tão forte e rápido quanto as asas do grifo que assim como Edlyn, havia ficado para trás. Essas árvores ficavam no limite da floresta.
— Para onde vocês estão me levando? — Mackenzie perguntou pela primeira vez, sua voz tremulando pânico ao presumir a resposta.
A carroça se deslocou por mais algum tempo e parou. Era o final da estrada e como ela havia imaginado, aquele era o caminho onde a carroça tinha quebrado.
— Vocês não podem me deixar aqui... — Mackenzie imploro, movimentando-se desesperadamente de joelhos na traseira da carroça.
Quando estava na floresta, estava tão desesperada para voltar para casa que não percebera que os dias se passavam e menos ela pensava em voltar. Mas o pânico lhe assolou agora que estava tão perto de casa e precisaria lidar com a verdade de seu poder.
Bruxos não duravam muito tempo entre os humanos e era por isso que hoje existiam tão pouco deles.
Mackenzie engoliu em seco ao se dar conta de que os druidas não a matariam. Eles tinham sido piores. Eles a devolveriam para que os humanos fizessem isso por eles quando descobrissem o que ela era.
Dusan e Skender apearam da carroça e eles pegaram Mackenzie, um de cada lado, tirando-a da carroça à força.
— Eu não quero voltar... — Mackenzie balbuciou em meio ao choro.
— Você precisa! — Skender disse, trocando força com ela. — E na próxima vez que retornar à floresta, você não será devolvida.
Os dois a levaram pelos braços e a deixaram no meio da estrada.
Eles recuaram e Mackenzie deu um passo em direção a eles.
— Você não pode vir conosco. — Dusan disse erguendo a faca, embora se compadecesse da situação da garota. — Será muito pior.
— Vocês não entendem! — Ela esbravejou, fazendo com que os pássaros que haviam nas árvores içassem voo. — Eles vão me matar quando descobrirem...
— O pai de Edlyn, Aeron, também irá... — Skender respondeu com frieza, deixando-a ali, ao léu. Sobre um céu de inverno sem estrelas nem lua. — Tenha uma boa vida.
***
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