20 - Encontro com a verdade

Mackenzie hesitou fitando o portal de entrada e depois olhando com ressalva para Edlyn. O lugar era escuro e ela tinha, em certa medida, medo de escuro, mas não tinha que fazer isso por Edlyn ou pela floresta. Mesmo que ela não quisesse fazer aquilo, ela precisava, tinha que encontrar a si mesma por ela mesma. Ela não sabia o que estava acontecendo dentro dela. Já não se reconhecia mais. A onda de energia que liberara. Tudo isso precisava de explicação, e sua mãe, que antes sequer o nome podia ser mencionado, agora era o que mais se ouvia falar.

Mackenzie merecia respostas e quando o druida deu dois passos em direção ao interior do templo, ela o interrompeu.

— Eldyn, eu acho que eu quero fazer isso sozinha. — Ela disse com reserva, porque se ele não cumprisse com a vontade dela, as coisas poderiam ficar piores, já que, sabe Deus lá o que este oráculo lhe diria. Se trouxesse à tona seu reinado em Parga e o nome de seu pai fosse mencionado, não sabia o que aconteceria, mas precisava manter seu disfarce a salvo.

Ele suspirou e lançou um olhar relutante, mas em silêncio, recuou.

— Obrigada. — Ela disse com alívio e certa dose de gentileza.

Quando começou a andar mais para dentro da construção, Edlyn perguntou:

— Os seus pais... — Ele soltou no ar, antes de continuar. — Eles são ... ?

— Não! — Ela exclamou com veemência, antes mesmo que pudesse completar a pergunta. "Era evidente que eles não eram bruxos!"

Não podia falar sobre seu pai, mas tinha certeza que ele não seria tão severo se fosse como eles. Ele não mataria os seus e se houvesse algo de estranho com ele, Mackenzie gostaria de acreditar que perceberia, pois, afinal, ele era seu pai. Mas a mãe. A mãe, ela sequer conhecia o rosto e não saber nada sobre ela fazia o peito da jovem Princesa adquirir um peso desmedido. Mas ela queria assumir, a todo custo, que a mãe era humana. Tinha que ser. Não podia macular sagrada imagem dela dessa forma.

— Isso não é possível. — Edlyn garantiu sem muito pensar, ganhando o interesse de Mackenzie que se virou para ficar diante dele. — A magia é transmitida de geração para geração. Você não pode roubar, nem ganhar, nem escolhe-la. Você é parte humana e a outra...

— Eu não sei, Edlyn. — Ela desabafou com a voz embargada. — Meu pai é humano, eu posso garantir, porque se não fosse, gostaria de acreditar que eu saberia. Mas minha mãe... Eu não a conheci, porque...

— Porque ela morreu... — Edlyn completou tão baixo quanto um pensamento.

Ela exalou ruidosamente ao inflar o peito e assentiu com uma tristeza perpassando em seus olhos.

A maioria dos bruxos haviam morrido e ela estava viva porque era jovem demais para ser identificada, mas ele não disse mais nada, e ela se virou de costas para avançar pelo templo.

Druidas não costumavam mentir, mas Edlyn mentiu para Mackenzie. Ele até tentou cumprir com o pedido dela. A garota precisava fazer aquilo sozinha, mas pensamentos e incertezas começaram a importuná-lo.

"E se ela mentisse sobre o que o oráculo viesse a lhe dizer?", foi a primeira coisa que a mente de Edlyn questionou. Ela não queria salvar Angora e havia dito isso várias vezes. Não queria ser bruxa. "Humanos mentem..."

Ele definitivamente não podia confiar. Não podia dar esse espaço para ela. Sua consciência até lhe deu uma fisgadinha, mas isso não foi o bastante para que o druida começasse a entrar no templo.

Mackenzie dava passos cada vez mais inseguros. As mãos estavam úmidas nas palmas, e de seu ventre subia uma sensação de apreensão e angústia que tornavam todos os seus músculos rígidos, mas isso não a impediu de prosseguir. Mas o que a motivava? A vontade de descobrir quem era? A necessidade de conhecer sua história? De garantir que tudo isso não passava de um grande mal-entendido. Mas porque, agora ela estava se questionando quem ela era? Era essa a primeira pergunta que faria ao oráculo, e embora não tivesse tanta certeza assim de que gostaria da resposta, ainda assim, ela a faria.

Mackenzie era uma garota forte, determinada e muito, muito curiosa. Ela não poderia viver sem ter essa resposta.

Isso, com certeza, a movia.

Ela caminhou de vagar quando as paredes rochosas foram cedendo lugar para ouro e bronze e grandes lustres dourados a livravam da escuridão. Objetos brilhantes de ouro reluziram por todos os lados quando ela se virou para a direita e adentrou em um imenso salão aberto. Era como o salão do castelo e no final do salão, três degraus entalhados a ouro acima, um belíssimo trono dourado se destacava a frente de tudo. Mackenzie analisou as arandelas de velas apagadas presas à parede e deslizou o dedo pela mais próxima conforme avançava pelo lugar. Numa mesa redonda mais a frente, ela admirou uma balança com dois pratos lado a lado, e com o dedo, afundou um dos lados, fazendo com que o outro subisse bem mais rápido do que deveria. Ela deixou os pratos oscilando para trás e focou no que havia ao redor. Nenhum indício de oráculo.

"Nadinha!"

Ela pensou, avançando pelo enorme espaço ao se aproximar da belíssima harpa que jazia ali. Ela estudou as folhas cautelosamente entalhadas que espiralavam todas as bordas do instrumento. Quando ela se atreveu a erguer a mão para tocar em uma das cordas, ouviu-se um assovio muito familiar, e ela sentiu todo o seu corpo esfriar imediatamente.

Não era possível. Ela pensou quando as pernas começaram a bambear.

Ela virou-se de pressa para fitar um de seus maiores medos, uma cobra. O corpo da naja serpenteava predadora no ar e conforme ela se aproximava de Mackenzie a língua bifurcada silvante fez com que ela recuasse para perto da harpa, mas logo a serpente reduziu a distância novamente.

A víbora armou o seu bote em direção a Mackenzie, e em um ato desmedido, a garota pulou para trás, esbarrando na harpa que liberou no ar grosseiros tons muito mal tocados.

Mackenzie caiu no chão de olhos fechados, esperando a dor da picada da cobra, mas isso não aconteceu, e quando se deu conta disso, abriu os olhos.

— Bastaria uma nota. — O homem resmungou, parecendo zonzo.

Os olhos de Mackenzie esbugalharam-se quando ela se deparou com a figura diante de si. Ele ergueu uma das mãos e maneou-a de modo que instantes depois a cobra se transformasse em ouro, impedindo que qualquer outro bote.

O homem era jovem e talvez tivesse um pouco mais do que a idade de Mackenzie. Seus cabelos se pareciam com raios de sol, com os fios cheios e encaracolados. Ela admirou os olhos azuis brilhantes e cheios de si que agora estavam tomados pela confusão e tontura, como se sinos tocassem dentro de sua cabeça; a pele dourada em tom avelã e o queixo forte, com uma mandíbula marcante e sinuosa. Seu nariz parecia ter sido esculpido pelos deuses. Sem dúvida, uma belíssima criatura. Mas ele, ele nada se parecia com as criaturas da floresta, porque ele era um homem. Na verdade, ele era um dos deuses da floresta e quando descia ao plano terreno, ele assumia a forma humana.

O oráculo pareceu se recuperar da tontura e a fitou de um jeito superior e pomposo.

— Uma humana, em séculos... — Ele comentou, olhando ao redor e franzindo o rosto ao dispensar alguma pilha de moedas com um franzir de sobrancelhas.

— Eu quero... — Mackenzie começou a dizer, mas ele a cortou ao dizer:

— Respostas... — ele completou com bastante desdém. — Todos querem...

Mackenzie murmurou para si mesma e deu de ombros ainda no chão.

O jovem rapaz deu as costas para Mackenzie e seguiu em direção ao trono, sentando-se com as pernas cruzadas, encarando de sobrancelhas enviesadas a garota se levantar do chão.

— O que eu sou? — Mackenzie soltou, prostrando-se inseguramente a alguns metros do homem.

Ele ergueu as sobrancelhas e deixou a curiosidade relancear em seus olhos. Isso era novo. Pensou ele.

— Interessante... — Ele divagou, analisando-a com uma profundidade surpreendente.

— O que você está vendo? — Mackenzie indagou, presumindo que ele estivesse usando os seus "poderes de oráculo" para lhe dar sua não tão desejada resposta.

— Ora, eu estou vendo você. — Ele disse com nítido tom de obviedade. — Eu não sou clarividente... — Ele soltou, mas parou para pensar de repente. — Mas talvez você...

— Eu sonho com coisas. — Ela se precipitou, dando mais um passo em direção ao oráculo. — Sonho com coisas que frequentemente acontecem. Agora a pouco, senti uma coisa estranha. Minha mão ficou dormente e quando dei por mim, tudo ao redor estava distorcido... Era como se alguma coisa tivesse saído de dentro de mim... O druida disse que essas coisas são transmitidas de geração...

— Está bem, está bem... — O oráculo a interrompeu com pouca sensibilidade ao ouvi-la. — A pergunta mais intrigante dessa história toda é: se você é uma humana como você conseguiu sobreviver e chegar a parte mais remota da floresta.

Mackenzie olhou para as mãos antes de responder:

— Um druida...

— Um druida? — Ele repetiu mais devagar. — Um druida a ajudou a chegar aqui?

Ela deu de ombros. Sim, era o que havia acontecido.

— Ele acha que eu sou capaz de salvar a floresta com os meus... — ela não era capaz de acreditar no que estava prestes a dizer, mas precisa — poderes... Ele acha que você pode me dizer quem eu sou. Mas eu sou só uma garota — o nervosismo a estava fazendo falar demais e embora ela tivesse percebendo que isso não ajudaria, ela não conseguia parar — uma humana que acidentalmente veio parar nessa floresta maluca e está tentando de tudo para voltar para casa. Inclusive, falar com um oráculo.

Ele ergueu o olhar e mediu Mackenzie de cima a baixo com as pálpebras baixas. A barra da camisola encardida e rasgada, os belos cabelos loiros claros encaracolados nas pontas caídos de qualquer jeito por sobre os ombros até a altura da cintura. Ela estava suja, mas ainda assim, ele reconheceria alguém como ela. A bela postura, o nariz empinado e o brilho nos olhos de alguém forjado para governar. Então, ele se levantou como uma raposa astuta.

O oráculo passou por de trás dela e a olhou mais de perto antes de dizer:

— Você fala e se comporta bem demais para uma humana qualquer... — Ele soltou no ar, passando a mão pelos cabelos da garota ao levá-los para as costas e expor o pescoço delgado. — Você não pode vir ao meu templo e desejar respostas que não está realmente interessada em tê-las, Princesa. — A simples menção de seu título a fez estremecer. Seus músculos se tornaram rígidos e em sua garganta um nó se formava. — Apenas diga o que você não tem coragem de dizer. — O oráculo cantarolou no ouvido de Mackenzie, seduzindo-a com uma voz melodiosa. — Diga a verdade, para que eu possa falar algo a respeito.

Mackenzie congelou, e o oráculo se pôs diante dela. O rosto bem apessoado muito próximo do dela, enquanto ela sentia o peso dos olhos dele sobre si.

— Eu não sei do que você está falando. — Ela declarou simplesmente.

— Para uma Princesa, os motivos de seu regresso não são... — ele segurou suas palavras, enquanto a assistia se retrair e hesitar... — tão nobres...

Mackenzie puxou ar para os seus pulmões e ela abaixou o olhar para fitar suas mãos. Uma segurando a outra. Ela ergueu o olhar e o oráculo a encarava em uma espera silenciosa e angustiante.

— Não é tão simples... — Ela tentou se justificar.

— E mesmo assim, você quer voltar... — Ele disse, dando de ombros.

— É claro. — Ela não hesitou em dizer. — É a minha casa. Minha família.

— Mas não se trata somente disso. — Ele decretou com a voz mais firme. — Vá mais longe. Se deseja tanto a verdade, comece sendo honesta consigo mesma.

Então, num impulso, Mackenzie soltou toda a obscuridade o que estava aguardando para si mesma.

— Tudo o que quero é voltar para minha casa. Minha família. Esquecer esse pesadelo obsceno. Não quero salvar coisa alguma além de mim mesma. Vir para cá foi um acidente. Uma decisão tomada em um momento de desespero.

Ele ergueu a sobrancelha e pareceu muito satisfeito com as palavras da garota. Essa era a verdade que ela não estava querendo assumir nem mesmo para ela e isso era um grande progresso.

— Pobre menina... — disse o oráculo — Mas não é errado se colocar em primeiro lugar. — O oráculo ponderou com uma voz cantada, fazendo a volta por ela para prostrando-se de frente para Mackenzie. — Mas presumo que esta não é a rainha que deseja ser.

Mackenzie parou, engolindo em seco e sentindo as palavras dele abraçarem seu coração e esmagá-lo pouco a pouco dentro do peito.

— Esta não é a minha guerra... — ela respondeu, mas sem muita confiança.

Não era sua guerra, ela sabia. Mas porque dentro dela, o sentimento de vergonha e culpa a incomodavam tanto? Não se tratava de obrigação, mas sim, de humanidade e honra. No entanto, ficar aqui a afastava cada vez mais de seu verdadeiro mundo. Ela não se enxergava dentro daquela armadura prateada que vira em sua visão. Não era tão corajosa. Não conseguia salvar a si mesma, então como salvaria toda uma floresta?

— Então, o que você quer de mim? — ele perguntou por fim, afastando-se dela.

Mackenzie pausou e refletiu a respeito.

— Quero que me diga o que eu sou...

Ele ergueu a sobrancelha e soltou um suspiro cansado.

— Sua mãe era uma mulher forte, uma bruxa corajosa. Ela podia ver o futuro assim como você. Na verdade, você é mais parecida com ela do que imagina. Tanto na personalidade quanto... — ele sacodiu a cabeça como se desprezasse o que ia dizer. — Ela arriscou tudo por você, para que você vivesse. Ela pertencia a esse lugar e agora, por alguma ironia, você também está aqui. É tudo o que você precisa saber.

— Eu vi a guerra. — Mackenzie disparou, atraindo a atenção do oráculo novamente, enquanto que em sua garganta um caroço começava a se formar para o que estava prestes a dizer — Eu estava nela, mas eu não consigo me enxergar lá... Existe alguma chance disso não acontecer?

— Não é porque você pode ver o futuro que você pode alterá-lo. — Pontuou o oráculo. — Não é assim que funciona. Imagine que o futuro seja como um rio. Ele segue uma linha reta. A água não volta. Talvez ela faça algumas curvas, mas ela sempre segue adiante. Nem sempre é o que parece, e quando você imaginar que é capaz de modificar qualquer coisa, você estará apenas seguindo essa linha, porque não existem meios para alterá-lo. Aceitar o destino como ele é, é o melhor que você pode fazer. Talvez, tentar evitar a guerra te coloque exatamente no meio dela.

A garganta de Mackenzie se contraiu quando ela tentou engolir o grosso nó que havia ali, e quando ele não desceu, ela se calou.

— Apenas faça o que seu coração desejar e o destino se encarregará do resto.


☆☆☆

Ei, meu amores! Ó nós aqui de novo com mais um capítulo 'frequin' para vocês. Rs
Estou adorando escrever essa parte da história.

Comentem aí, o que acharam e não deixem de dar aquela estrelinha da motivação aqui embaixo.

Beijo, beijo.

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