13 - Novo norte

A informação que o druida buscava não estava em seu lugar favorito da floresta, mas esperava consegui-la com uma das criaturas mais astutas e antigas de Angora; se existisse alguém que pudesse saber onde fica o santuário, este alguém era Vastia, o velho e rabugento spriggan do vilarejo.

O druida desceu do cavalo, Mackenzie fez o mesmo, e ele tirou o manto que pendia de seus ombros, ficando com o colete de couro que protegia o peito.

— Você vai usar isso. — Ele disse, mas não esperou que Mackenzie sequer aprovasse, pois se aproximou da garota, passou os braços ao redor de seu pescoço e prendeu ao pescoço dela; que sentiu a maciez do tecido grosso e quente. — Espero que camufle o seu cheio. — Comentou, por fim.

— Meu cheiro? — Mackenzie questionou de imediato, constrangida.

"Estou fedendo?" Ela precisou conter a vontade de verificar, mas o druida esclareceu.

— De humana. Você ficaria surpresa com o faro de um Spriggan — comentou. — Dessa vez, não saia de perto de mim, e não olhe muito para a cara dele. — O druida ia alertando conforme andava. — Ele não é muito agradável e bonito.

Mackenzie deixou uma lufada de ar em forma de risada estremecer seu peito.

— O que foi? — ele indagou em tom confuso. — Do que você está rindo?

— É porque então, você é muito agradável e bonito... — Mackenzie retrucou em tom de brincadeira.

O druida deu de ombros, deixando Minelal escondido atrás de uma árvore suntuosa, e os dois andaram pelo caminho tortuoso da floresta antes de responder:

— Pensei que fosse.

E realmente era, não que ela fosse confirmar isso ou, simplesmente, falar a respeito, o que também não mudava o fato de que o druida era excepcionalmente bonito, e havia de se dizer que mais bonito ainda do que os próprios humanos que já conhecido, porque assim como Mackenzie, ele também era diferente.

Os dois seguiram a diante, afastando galhos de árvores baixas de seus rostos e pisando alto para não tropeçar nos espeças raízes agressivas que brotavam para fora da terra.

— E ainda por cima, muito modesto... — Mackenzie acrescentou, fitando-o as costas dele em meio ao crepúsculo sobre suas cabeças.

— Druidas são abnegados, mas modéstia não é para a nossa espécie, e você também não me parece muito modesta. Tão pequena e mesmo assim, tão cheia de si.

— Isso não quer dizer que eu me considere agradável e bonita. — Ela assumiu com sinceridade.

Mackenzie não se considerava uma Princesa bela ou graciosa, na verdade, como o próprio druida gostava de lembrar, a miudeza e a falta de peso eram coisas genéticas que não poderiam ser evitadas, sem esquecer a palidez, que era ressaltada pelo olhos grandes e extremamente claros que alternavam entre azul e verde água.

Mackenzie era diferente, sim, com uma beleza alva. Mas ser diferente não era sinônimo de feiura, havia beleza ali, ela só precisava parar de se comparar as outras mulheres.

— Mas deveria. — Ele disse, virando-se inesperadamente para Mackenzie, que corou no mesmo instante.

O que ele pretendia ao dizer aquilo? Foi o que Mackenzie se perguntou depois que ele voltou a andar, e ela se encolheu acanhada; sentindo o cheiro refrescante de floresta que emanava de sua capa.

— Talvez. — Ela respondeu, mais para ela do que para ele.

Ela deveria mesmo, um Princesa precisava ser mais segura de si se quisesse governar. No entanto, o assunto morreu quando eles chegaram a uma velha taverna de pedra construída sob uma bela árvore conífera nativa de Angora.

Edlyn foi na frente, e Mackenzie partiu logo atrás como ela imaginou que deveria ser, e o druida empurrou a porta que dava para dentro da taverna; o cheiro de cevada curando os recebeu na entrada, mas ela fingiu que aquilo não fazia seu estômago embrulhar, e os dois andaram pelo lugar que, embora estivesse com velas acesas, ainda era escuro, fechado e úmido.

Eles passaram por mesas cercadas por cadeiras até chegar ao balcão, onde Edlyn falou:

— Preciso falar com Vastia.

— Temo não ser uma boa hora, General. — O velho taverneiro ressalvou condescendente.

"General", Mackenzie se perguntou e naquele momento, refletiu sobre a ironia. Já que druidas eram protetores da floresta, o que levava a crer que eram criaturas pacíficas, só que pelo visto, não era exatamente assim que as coisas funcionavam, porque eles tinham patentes militares, o que levava a crer que também existia um exército.

— É urgente. — Mackenzie interferiu com gentileza, e o taverneiro fitou-a com curiosidade flagrante até causar desconforto na menina, que analisou-o de volta com atenção, e mesmo com a parca luz, era nitidamente observável o curioso tom de pele rosado do velho taverneiro, o que fez Mackenzie pensar: se todos aqui não são humanos, o que ele era?

Mas não houve tempo para isso, porque o taverneiro deu de ombros ao dizer:

— Não é problema meu. Ele está lá em cima.

Edlyn não pestanejou, apressou-se em tomar a escada de pedras com Mackenzie em seu encalço, e logo estava no andar de cima. O druida não pareceu se incomodar com a quantidade de coisas embatumadas por cada canto do lugar à meia luz, na verdade, ele parecia mesmo estar acostumado com tanta quinquilharia.

Eram muitos tipos de livros, empilhados uns sobre os outros. Envelopes de cartas com papel já bastante envelhecido. Várias penas utilizadas para escrever, baús, potes de velas, cartas de baralhos e tudo o que se podia imaginar. No entanto, o que fez Mackenzie olhar por mais um instante foi a enorme estátua de homem que era impressionantemente parecida com a realidade, inclusive nas proporções. No rosto dele podia-se ver esboçado o medo e a surpresa, enquanto os braços e as pernas eram arranjados como quando se leva um verdadeiro susto e você recua com o corpo.

O druida parou de prosseguir quando barulho de pés contra o chão se fez perceber. Ouviu-se um farejar que não durou mais do que três fungadas, e então, alguém disse de lá de dentro:

— Quem está aí?

O druida fitou Mackenzie com uma surpresa discreta, enquanto se perguntava o que havia de errado com o faro do velho cambista; pois ele sempre sabia quem estava entrando em seu território. No entanto, ele deu de ombros e avançou, esgueirando-se pelas coisas que abarrotavam o chão, enquanto dizia:

— Esperava que se lembrasse de mim...

Mackenzie acompanhou o druida, desvencilhando-se das coisas logo depois, o manto deslizando pelo chão e espanando os objetos mais antigos e empoeirados.

— O que faz aqui, General? — A voz cheia e ríspida, muito pouco simpática questionou.

Mackenzie engoliu a seco e tentou conter a surpresa do que estava vendo, quando se deparou com a criatura que segurava uma estatueta de ouro brilhante. A menina sabia o que ele era: um spriggan, Edlyn havia lhe alertado, mas quem ia saber que eles eram assim tão grotescos.

Acontece que springgans eram uma das criaturas mais feias que existiam em Angora, eles eram pequenos, a um terço da altura de Mackenzie, talvez; de pele extremamente amarelada e muito enrugada que não parecia ser consequência da velhice. Os cabelos eram grandes e avermelhados tão desgrenhados quanto a barba crespa. A roupa era velha, a calça rasgada e o colete de tecido muito desbotado. Os pés e as mãos eram desformes e grandes demais se comparado ao tamaninho do corpo.

Mackenzie não conseguiu conter a surpresa.

— Que tal um chá? — O druida retrucou com perceptível ironia.

O velho Vastia encarou-o sem esconder a desaprovação, e Mackenzie ganhou uma cotovelada do druida nas costelas que a fez sair de sua análise desapropriada.

— Que chá o quê... — O velho respondeu com indelicadeza, sem ao menos se dar ao trabalho de encará-lo, pois estava ocupado demais, olhando para alguma coisa na estante alta de madeira vermelha, que se agigantava até o teto, enquanto praguejava alguma coisa inteligível.

— Minha nossa! — Mackenzie sussurrou para si mesma, recuando um passo quando Vastia, de repente, começou a crescer e se tornar mais do que Edlyn. Ele era um anão que podia se tornar gigante conforme suas necessidades.

"Se contasse, ninguém acreditaria.", ela concluiu assombrada.

O spriggan colocou a peça de ouro maciça no espaço vago, exatamente na última prateleira da estante e depois, reduziu-se a forma que Mackenzie o encontra instantes antes.

— Impressionante. — Vastia disse, sem olhar para a menina. — Vejo que tem companhia.

Mackenzie olhou para o druida com receio e cruzou as mãos diante do corpo; o druida esperava que ele não fosse capaz de farejá-la, no entanto, deixá-la lá fora, exposta à noite, seria tão perigoso quanto trazê-la para perto do spriggan. Pelo menos com ela por perto, ele saberia o que fazer se algo der errado.

— Agora... — Ele estalou, a língua enrolando de um jeito curioso ao pronunciar o som do r, virando-se na direção deles. — Digam-me, o que querem do velho Vastia? — Ele perguntou, enquanto andava puxando as pernas curtas com seus pés compridos até chegar ao outro lado do recinto. — Gostaria de dizer que não tenho mais pó de andrômeda.

"Pó de andrômeda?" Mackenzie se perguntou, ao fitar Edlyn com curiosidade.

— Não é sobre isso... — Edlyn se antecipou. — Preciso de uma informação sobre o templo de Apollo.

Vastia bufou uma risada curta e continuou a encarar o druida com descrença.

— Ora, deixe de brincadeira, garoto. — Ele desconversou, como se fosse uma anedota, enquanto se movimentava para pegava um enorme e pesado baú do chão para soltá-lo sobre um velho balcão que curiosamente combinava com a estante. — Há muitas coisas aqui que você pode ficar, por um preço, é claro. — Vastia foi dizendo, abrindo e tirando coisas, uma seguida da outra com uma agilidade surpreendente. — Flechas, adagas, hum — ronronou sacando uma espada de aço brilhante — essa espada, veja... — Ele disse — um punhal...

— Não é uma piada, Vastia. Você sabe alguma coisa sobre o templo de Apollo?

— Claro. — Vastia respondeu prontamente, fechando com brusquidão o baú que produziu um estrondo seco que fez Mackenzie dar um pulinho. — Sei que você está gastando o meu tempo com essa bobagem desmedida.

— Eu só preciso de um mapa preciso do extremo norte... — Edlyn argumentou.

— Tolice, garoto. — O spriggan se manteve resistente. — Você é um General... Não vai fazer bem a sua fama ficar indo atrás dessas lendas.

— É muito importante. Eu insisto. — Edlyn disse, mantendo-se resoluto. — Um mapa do Norte, é tudo o que peço.

— Pedir, pedir, pedir... — Ele resmungou com fadiga, gesticulando a mão no ar enquanto sacodia a cabeça — Todos sempre querem alguma coisa.

— Você é um cambista, Vastia. — Edlyn zombou. — Não espere menos.

— Hum. — Ele murmurou. — Está bem. — Vastia disse, num suspiro ruidoso, dando-se por vencido quando andou para o outro lado do recinto, em direção a outra estante, crescendo rápido como um gigante novamente para dessa vez pegar algo no alto.

Mackenzie sobressaltou-se ao ver a criatura crescer tão espontaneamente assim, diante dos seus olhos e depois encolher, como se nada tivesse acontecido.

— Há, sim, um mapa. — Ele informou, retornandopara trás do balcão com um bolo de papel velho dobrado. 

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top