Capítulo 22. Visita às tropas, uma face de Amélia.
O sol dourava suavemente a campina, banhando os campos de grama baixa com uma luz quente e gentil. Amélia corria despreocupada, acompanhada pelas risadas vibrantes das crianças que jogavam uma bola improvisada, seus pequenos corpos ágeis movendo-se com energia interminável. Ela sorriu, absorvendo a alegria inocente ao seu redor, mas logo sentiu a necessidade de parar, o fôlego mais curto do que esperava. Sentou-se no chão, o vestido esparramando-se ao seu redor como uma flor desabrochando. A brisa suave acariciava sua pele, e ela riu baixinho de si mesma, perguntando-se se havia perdido um pouco da juventude que as crianças ainda carregavam com tanto vigor.
Maria, a pequena com seu cabelo ruivo em chamas e um olhar que sempre escondia travessuras, sentou-se ao lado de Amélia, sua mente claramente já traçando um novo plano. Seu sorriso malicioso cintilava como se guardasse segredos. Amélia, com sua alma gentil, não conseguiu conter o afeto que sentia por aquela menina.
— Vamos ver os João? — sugeriu Maria, referindo-se a João Lucas e João Luís, dois dos guardas mais próximos de Amélia. Rumores corriam de que João Lucas, numa noite fria e solitária, teria tido um breve romance com a mãe de Maria, embora nunca confirmado. A menininha, de olhos grandes e curiosos, parecia triste ao mencionar que não os via há tempos.
Amélia particularmente, sem realmente entendi aonde Maria queria levá-la. A menina, com sua mãozinha delicada agarrada à de Amélia, a convertida por um caminho sinuoso, mas com um propósito claro que só Maria sabia. Sem perceber o que estava a enfrentar, Amélia foi guiada até os campos de treinamento, um lugar onde normalmente não deveria estar.
Logo, o cenário ao seu redor mudou. A campina aberta deu lugar a um local mais sombrio, repleto de homens que Amélia mal reconhecia. Eram soldados, alguns já suportados pela vida, outros ainda novos. Maria, encantada pela descoberta, observava os homens atirando adagas em alvos distantes, e seus olhos brilhavam ao avistar João Lucas. Ele estava em uma conversa séria com outros homens, seu semblante tenso, até que seu olhar cruzou com o de Amélia.
—Amélia? — uma surpresa na voz de Lucas era clara. Ele sabia que, com os rumores de seu possível casamento com o Rei Nicolas, aquele não era o lugar mais seguro para ela. Seu coração acelerou ao vê-la ali. Os irmãos de Amélia, especialmente Arthur, deixaram claro que lugares como aqueles não eram adequados para ela. O campo de treinamento, especialmente aquele onde desertores perigosos, era um lugar repleto de ressentimento contra a monarquia.
Antes que Lucas pudesse dizer mais alguma coisa, Maria, como uma pequena tempestade, correu em disparada, sumindo entre as tendas e deixando Amélia sozinha naquele mar de olhares desconfiados e curiosos.
Lucas sentiu o coração apertado. Como sempre, Amélia estava radiante, e ele não conseguiu afastar o sentimento de admiração que guardava por ela. Mesmo com toda a seriedade de seu trabalho, bastava um sorriso dela para fazer qualquer incerteza desaparecer. Mas naquele momento, ele também descobriu que não era o único que observava. O olhar dos homens ao redor, famintos e intrigados, seguiam cada movimento dela. Amélia, com suas curvas suaves e sua postura graciosa, era diferente de qualquer mulher que eles conheciam.
Lucas, instruiu a protegê-la, caminhou rapidamente em direção a ela, posicionando-se à sua frente, bloqueando a visão dos soldados que a devoravam com os olhos. Sua voz saiu baixa, quase numa conversa, relacionada a preocupação.
— Amélia, não deveria estar aqui.
Mas Amélia, com a mesma coragem que sempre a caracterizara, apenas enviou gentilmente e o ignorou, passando por ele com uma confiança que deixou Lucas desarmado. Seu coração batia acelerado. Ela se aproximava dos soldados com a mesma graça que se demonstrava em um salão de baile. Não havia medo em seus olhos; ao contrário, ela parecia curiosa, como se quisesse entender mais sobre aquelas almas duras e sofridas.
Para Amélia, aqueles homens não eram diferentes de nenhuma outra pessoa que ela conhecia. Não os via como ameaças, mas como seres humanos, talvez mais machucados que os outros, talvez mais perigosos, mas ainda assim merecedores de uma chance de redenção.
Amélia observava os homens à sua frente, as adagas em suas mãos refletindo o sol fraco da tarde. Eles tentavam, com uma concentração séria, acertar o centro do alvo, mas suas falhas arrancavam um sorriso suave de seus lábios. Ela viu as lâminas errando o alvo repetidamente e não pôde evitar imaginar o fácil seria para ela, em sua leveza e precisão, derrubá-los um por um.
— você está treinando? — Disse, sua voz como uma melodia leve, chamando a atenção dos soldados que se esforçavam. O sorriso em seu rosto os desarmava mais do que qualquer lâmina poderia fazer.
João Lucas, ao seu lado, observava com um misto de orgulho e admiração. Ele conhecia de maneira única como Amélia cativava as pessoas. Ela não precisa de gestos grandiosos; seu charme inocente, quase etéreo, era suficiente para derreter os corações mais resistidos. Lucas, apesar de sua posição como guarda e de seu autocontrole, não era imune àquele encantamento. Ele podia sentir o peso da atmosfera mudando conforme os homens ao redor, que até então a olhavam com curiosidade, suavizavam suas expressões, registrando algo mais nobre nela.
— Os novatos estão se rendendo às facas — comentou Lucas, com um riso contido. — Mas claramente não tenho o dom.
Os olhos de Amélia brilharam diante do desafio implícito. Ela se virou para ele, seu olhar intenso e determinado, algo que Lucas reconhecia bem. Quando ela queria algo, dificilmente era possível dissuadi-la.
— Posso tentar? — Amélia pediu, com uma doçura que contrastava com a firmeza de seu desejo. Seus olhos suplicantes fixaram-se em Lucas, e ele, mesmo sabendo que aquilo poderia lhe trazer problemas, não conseguiu resistir. Soltou um suspiro resignado e assentiu com a cabeça.
Foi quando uma voz rouca e desdenhosa se fez sentir entre os homens, quebrando o silêncio encantado.
— Essa mulher com adagas? Ela não acertaria nem o chão. — Um dos homens, alto e musculoso, vestido com roupas escuras e uma cicatriz que lhe atravessava o rosto, zumbiu de Amélia com um sorriso debochado.
Antes que qualquer um pudesse reagir, Lucas, num movimento ágil e preciso, desembainhou sua espada e o encostou no pescoço do homem. Sua voz estava ligada de fúria, cada palavra cuspida como se fosse uma lâmina afiada.
— Peça desculpas à dama agora. — O aço da espada brilhou ameaçadoramente sob a luz do dia, e o homem recuou, seu rosto resistido de medo. Ao redor, os outros soldados silenciaram, conscientes das regras rigorosas que regiam o acampamento, onde qualquer deslize poderia resultar em danos severos, até a mesma morte.
Amélia, surpresa, colocou delicadamente a mão no braço de João Lucas, acalmando-o com seu toque suave. Seu sorriso voltou a iluminar o rosto dela, como um raio de sol dissipando a tensão no ar.
— Não precisa disso, João Lucas — disse, sua voz calma e doce. — Eu só queria tentar. Não custa nada.
Lucas, respirando fundo, guardou a espada com um movimento rápido, tentando controlar o turbilhão de emoções que havia tomado conta de seu peito.
— Desculpe — murmurou ele, arrependido. — É o instinto.
Amélia sorriu, compreensiva. Ela conhecia Lucas e sabia que sua dedicação à sua segurança, muitas vezes, o levava a agir impulsivamente. Havia uma ternura em seus olhos ao olhar, como quem olha para um amigo que precisa de conforto, e não de reprovação.
— Você tem passado muito tempo com Arthur — brincou ela, tentando aliviar a tensão, arrancando uma risada rápida de Lucas. No entanto, o homem de vestes escuras não parecia ter se intimidado completamente. Amélia, ainda com aquele brilho travesso nos olhos, voltou-se para ele.
— Vamos fazer uma aposta, então. — Sua voz era doce, mas havia uma ponta de desafio que não passou despercebida.
Lucas ficou tenso por um instante, sabendo que Amélia estava prestes a provocar algo maior, mas ele não interveio. Sabia que quando ela colocou uma ideia na cabeça, não havia volta.
O homem com a cicatriz estreitau os olhos, interessado. Ele era enorme, uma sombra que eclipsava até mesmo os homens mais robustos do acampamento.
— Amélia... — Lucas começou, tentando alertá-la.
— Vai ser divertido. Faz tanto tempo que não faço isso. — Amélia virou-se para ele com um sorriso cheio de confiança, uma energia vibrante emanando dela, e Lucas apenas deu de ombros, resignado.
— Valendo moedas de ouro — sugeriu ela, sua voz soando como um desafio velado, mas os olhos brilhavam de alegria.
O homem de cicatriz duradoura uma sobrancelha, um sorriso desdenhoso surgindo no canto de seus lábios.
— Quantas?
— Dez — respondeu Amélia, como se estivesse oferecendo algo trivial. Seu olhar cruzou com o dele, e ela sorriu levemente. A confiança em seu sorriso não era arrogância, mas sim uma certeza silenciosa.
Os homens mais velhos da tropa, que assistiam à cena com interesse contido, mantinham-se em silêncio. Eles já tinham visto Amélia em ação antes e sabiam que ela era mais do que aparentava. Ela sempre usava seus truques para arrancar moedas dos soldados desprevenidos, mas nunca para seu próprio benefício. As moedas ganhas serviam para comprar pequenas coisas para as crianças do acampamento, um gesto de segurança que, no fim, ninguém se atrevia a questionar.
Três novos, inexperientes e inconscientes do que estavam prestes a enfrentar, se prontificaram para a aposta. Lucas olhou para eles com um misto de pena e diversão. Eles, claro, não faziam ideia de que Amélia estava prestes a derrotá-los com a mesma facilidade com que os fariam sorrir.
— Preciso de moedas emprestadas, Lucas — Amélia murmurou com um sorriso suave nos lábios, estendendo a mão para o guarda.
Sem hesitar, Lucas desatou o pequeno saco de moedas que pendia em seu cinto e o entregou a ela. Amélia contou rapidamente e, com um gesto gracioso, atirou o saco de moedas ao chão, como quem sabe que está prestes a recuperá-lo.
— Quem faz mais pontos vencidos — declarou ela, com uma tranquilidade que escondia sua astúcia.
Os alvos à frente eram coloridos, cada círculo representando uma chance de vitória ou fracasso. O branco, o mais externo, não valia sequer um "Parabéns". Amélia se lembrou de seus primeiros dias de treinamento em Kaphi, quando, ao errar e acertar o branco, Pedro, seu irmão, lhe deu leves cascudos, uma lição dura, mas necessária. O amarelo, mais próximo do centro, valia dez pontos; o laranja, trinta pontos; o vermelho, cinquenta; e o círculo azul, com seus exíguos três centímetros de largura, valia meio. Era o alvo mais cobiçado e, ao mesmo tempo, o mais inalcançável. A lâmina de uma adaga comum tinha 2,5 centímetros de largura, e acertar o azul era um feito raro.
Amélia, conhecendo bem suas habilidades, jogou sua primeira adaga sem grande esforço, acertando o círculo branco e garantindo nenhum ponto. As gargalhadas dos homens ao redor ecoaram como trovões abafados, e ela sentiu os olhares se fixaram nela, como se já fizessem resolvido que a vitória seria fácil.
Os jogadores rivais fizeram suas jogadas, acertando trinta e cinquenta pontos com certa competência. As adagas cravaram no laranja e no vermelho, mas o círculo azul permanecia intocado, como se zombasse de todos os presentes.
Amélia, novamente, lançou sua adaga com leveza, permitindo-se errar o alvo de propósito. A falsa hesitação em seus gestos foi tão bem realizada que o homem à sua frente já saboreou a vitória. Ela ouvia o canto de olho, percebendo seu crescente orgulho. Ele não sabia, mas o jogo estava apenas começando.
Na rodada seguinte, ela decidiu mudar o curso. Com um movimento firme e gracioso, lançou a adaga que rasgou o ar até se cravar no vermelho — cinquenta pontos. O empate com o último concorrente trouxe murmúrios entre os observadores, mas Amélia manteve seu sorriso tranquilo.
— É a última, florzinha. Quer desistir? — zumbiu o homem que agora liderava com o peito inflado de orgulho.
Lucas estreitou os olhos, sua mão deslizando para a bainha da espada, mas Amélia o deteve com um olhar gentil e calmo.
— Não mesmo — respondeu ela, fingindo um nervosismo que em nada correspondia ao que sentia. — Fico nervoso com vocês me olhando. Podem ir primeiro.
O grupo riu, os homens mais velhos da tropa já conhecendo bem os truques de Amélia, e Lucas deixou escapar um sorriso malicioso, cruzando os braços. Ele sabia o que iria seguir.
Os três competidores se posicionaram, lançando suas adagas com toda a força que puderam reunir. O primeiro deles, aquele que parecia o mais confiante, quase acertou o centro azul. Amélia sentiu um leve sobressalto em seu peito, admirando a proximidade do golpe. Ele tinha acertado o vermelho, garantindo 150 pontos, e parecia satisfeito com o resultado. Seus olhos voltaram aos de Amélia, e ele brilhou de forma lisanjeira, já se vangloriando da vitória. Para ele, derrotar Amélia era como derrotar o próprio rei de Navie.
Mas Amélia, com a serenidade de uma predadora prestes a dar o golpe final, simplesmente curvou os lábios num meio sorriso, mal contendo a antecipação. Todos sabiam que ela estava prestes a dominar.
Calmamente, ela deu um passo à frente, os olhos fixos no alvo. A tensão não era palpável. Ela respirou fundo, seu corpo assumiu uma postura perfeita, o movimento fluindo de seus braços até a ponta de seus dedos. Com soluções quase cirúrgicas, a adaga cortou o ar em um zumbido e se cravou exatamente no centro do círculo azul.
O acampamento inteiro pareceu destruído em aplausos e gargalhadas. Os homens mais velhos batiam palmas e trocavam olhares cúmplices. Amélia, com um sorriso vitorioso de orelha a orelha, virou-se para os perdedores, fazendo uma reverência debochada.
— Desculpem, pessoal. — Sua voz era tão doce quanto o mel, mas carregava um tom de triunfo inegável.
Ela se mudou das moedas espalhadas no chão, abaixando-se com moda para recolhê-las. Com uma graça provocativa, entregue o que desviou a Lucas, que a observava com um sorriso divertido.
— Isso não é justo — resmungou o homem que havia ficado em segundo lugar, incapaz de vencer a derrota.
— Eu teria pago se tivesse perdido. Agora é uma vez de vocês. — Amélia transparente uma sobrancelha, o sorriso travesso ainda presente em seus lábios.
Amélia estava entre os homens, que contavam suas moedas, rindo e trocando piadas, enquanto ela aguardava o que havia ganho com justiça. Tudo parecia correr bem, até que uma voz a chamou à distância. De imediato, Amélia sentiu o corpo se encolher levemente, como se o timbre familiar a puxasse de volta à realidade.
—Amélia? — A voz inconfundível de Nicolas a fez virar-se. Quando seus olhos encontraram o rosto do príncipe, ele parecia espantado e confuso, com uma expressão que misturava incredulidade e desconforto.
A tropa, consciente da presença de Nicolas, foi tomada por uma onda de risadas contidas. João Lucas foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Você está com grandes problemas — ele murmurou entre risos, e os outros rapidamente o acompanharam.
Pedro, ao lado de Nicolas, lançou um olhar severo para os homens, que logo perceberam o peso da situação.
— Vocês também estão — anunciou Pedro, numa tentativa de restaurar um pouco de ordem.
Amélia, com um sorriso brincalhão, inclinado-se numa reverência exagerada.
— Vossa Alteza — saudou ela com especializações, antes de lançar um olhar afiado aos homens da tropa. — O primeiro a falar perde o pescoço. — As palavras, investimentos de humor, arrancaram gargalhadas da tropa. Era o tipo de leveza que só Amélia conseguia trazer para o ambiente, mesmo em meio à hierarquia que cercava a corte.
Nicolas se movia lentamente, seus olhos fixos nela, sem conseguir esconder o turbilhão de emoções que o consumia. Ele observou o riso despreocupado dos homens ao redor, contrastando com o turbilhão que crescia em seu peito. Aquela cena o levou de volta ao dia em que a viu sentada no banco do pátio, conversando com seus guardas. Ela riu, com um brilho nos olhos que agora ele via mais uma vez. Entre os homens que riam, Nicolas reconheceu o mesmo guarda que, naquela época, ousara desafiar sua autoridade com uma espada no pescoço. João Lucas sempre mantinha um olhar de desaprovação quando se tratava dele.
— Amélia, o que está acontecendo aqui? — A voz de Felipe, outro irmão de Amélia, irrompeu no campo, enquanto ele se aproximava com outros homens. Sua expressão era uma mistura de curiosidade e reprovação.
— Nada — respondeu Amélia, escondendo as mãos inocentemente atrás das costas, o mesmo gesto que faz desde criança quando era pega em alguma travessura.
João Lucas não conteve uma risada ao comentar:
— Além de tirar dinheiro das nossas tropas.
Felipe lançou um olhar severo, mas não conseguiu evitar um sorriso. A atitude de sua irmã, embora imprudente, sempre carregava um charme inescapável.
— Que impressão devemos ter deixado neste momento? — disse Marcelo, rindo da situação, bem ciente de que essa não era a primeira vez que Amélia apostava com os novatos. Sua influência foi tal que muitas mulheres do acampamento se inspiraram nela para se tornarem guerrilheiras.
Pedro suspirou ao ver a irmã, seus olhos encontrando os dela, que brilhavam com o prazer de quem acabara de vencer.
— Eu venci atirando adagas — explicou Amélia com entusiasmo, seu sorriso tão radiante quanto o de uma criança ao receber um novo brinquedo. Ela olhou para Nicolas, como se esperasse sua aprovação, mas ele continuava imóvel, absorvendo o caos em volta com uma mistura de perplexidade e admiração.
— Sorte de principiante — zumbiu um dos homens que havia perdido.
Amélia, com uma rapidez surpreendente, sacou uma adaga escondida em suas botas de couro e lançou-a em direção ao alvo. O som da lâmina cortando o ar foi seguido pelo impacto seco no centro do círculo azul.
— Não culpe sua falta de treinamento dizendo que eu tive sorte — rosnou ela, sua voz agora trazida de um tom severo. Amélia não suportava que seu árduo esforço fosse minimizado com a palavra "sorte". Cada habilidade, cada golpe preciso, foi conquistado com anos de dedicação ao treinamento.
Nicolas assistiu a tudo em silêncio, o peito apertado com a visão de Amélia, tão forte e confiante, mas ao mesmo tempo, tão distante da imagem que ele tinha dela. Era como se, a cada momento, ele descobrisse uma nova faceta dessa mulher que agora o desafiava de maneiras que ele nunca imaginou.
— Devo cortar a cabeça dele? — João Lucas disse com um sorriso sádico, sua mão já segura a bainha da espada.
— Sim — respondeu Amélia, sério, sem hesitação.
Nicolas piscou, surpreso com a rapidez com que a situação se agravava. Antes que eu pudesse intervir, a lâmina de João Lucas estava perigosamente próxima ao pescoço do homem, uma linha fina que separava a vida e a morte.
— João, sempre literal. Estamos brincando — interrompeu Amélia, rindo enquanto via Lucas guardava a espada. — Não somos bárbaros.
— Um trote com os novatos? — Pedro perguntou, desaprovando a atitude. Lucas, sem perder o bom humor, fez um gesto de desculpas para ele. Era óbvio para todos que ele só queria ver Amélia sorrir.
— Só uma brincadeira — explicou Amélia, devolvendo as moedas aos homens. — Obrigada. Foi divertido competir com vocês. Espero que se sintam em casa. Somos uma grande família aqui. É uma honra ter homens corajosos como vocês na linha de frente. Espero poder acompanhá-los mais vezes.
Nicolas comentou enquanto Amélia se curvava de forma graciosa para os homens da tropa. Havia uma força natural em suas palavras, uma liderança inata que comandava respeito. Um por um, os homens inclinam-se perante ela, seus olhos brilhando com admiração e orgulho. Até Nicolas, no fundo, senti o mesmo. Ela era tudo o que ele jamais esperou: uma líder nata, destemida e carismática.
Mas por trás daquela força, Nicolas viu algo mais. Uma mulher que, ao mesmo tempo que conquistou o respeito de guerreiros, ainda guardava uma doçura, uma humanidade que o deixava completamente desarmado.
— A ideia do treino com as adagas foi de Amélia e Marcelo. Elas são mais leves e, dependendo de onde acertar, a pessoa não terá muitas opções. — Felipe explicou a Nicolas e Carlos.
— Posso tentar? — A voz de Nicolas é tão esperançosa. Ele observava tudo com atenção, admirando como Amélia se movia com naturalidade entre os homens, à vontade naquele ambiente. Ela parecia irradiar felicidade, algo que ele não conseguia sentir tão plenamente na corte.
— Claro — Amélia convidou para ele, incentivando.
— Claramente que não, Vossa Alteza. A rainha me mataria se você sofresse nem um arranhão — Pedro disse de forma diplomática, mas o tom não escondeu a preocupação real.
Nicolas sentiu um leve desconforto crescente em seu peito. Amélia já havia conquistado o respeito e a admiração de todos, enquanto ele parecia estar sempre preso às restrições. Não poderia sequer tentar algo tão simples quanto lançar uma adaga? A frustração lhe tomou o rosto, e ele desviou o olhar brevemente.
— Ele não é feito de porcelana, Pedro! — Amélia respondeu irritada, segurando a mão de Nicolas e o conduzindo para mais perto dos alvos, desafiando seu irmão. — Ele pode ao menos tentar.
Nicolas se permitiu ser guiado, o calor da mão dela trazendo uma sensação de conforto que dissipava, ao menos temporariamente, o peso das expectativas reais que carregava. Ele sabia que era difícil controlar Amélia, e por mais que ela estivesse à altura de qualquer perigo, havia uma parte dele que sempre se perguntava até onde ela o levaria. Amélia era uma força indomável, e isso o fascinava tanto quanto o assustava.
— Posso pelo menos tentar? — Ele pediu novamente, desta vez a Amélia, e ela concordou.
Com uma adaga na mão, Nicolas ouviu atentamente as instruções de Lucas sobre como se posicionar. Sentiu a pressão de ter todos os olhares voltados para ele, especialmente o de Amélia, que o observava com um brilho encorajador nos olhos. Respirando fundo, ele mirou o alvo e lançou a adaga.
— Belo lançamento — Amélia disse, sorrindo de maneira sincera. Aquela aprovação silenciosa dela era tudo o que ele precisava.
— Quase acertou o centro — Felipe comentou, visivelmente visível.
— Quem sabe na próxima. — Nicolas respondeu, tentando não demonstrar o nível de frustração de não ter sido perfeito. Ele queria impressioná-la, queria sentir que estava à altura de seus feitos.
Enquanto Felipe se afastava para conversar com ele, Amélia se movia dos homens com quem havia competido. Ela conversou com o homem que tinha sentido a espada de João no pescoço mais cedo, um gesto que parecia trazer ainda mais empatia mulher tão forte.
— Obrigada por me deixarem participar, e peço desculpas pela brincadeira com a espada — ela disse com sinceridade.
— Não tem problema, senhorita. Sua mira é algo impressionante — respondeu o homem, ainda atônito com o talento dela.
— Nem todos têm o privilégio de serem salvos, então aprendi a me virar sozinha. Sou grata por saber me defender— Amélia disse com uma firmeza serena, suas palavras carregando o peso de experiências que Nicolas ainda desconhecia por completo.
— Estamos honrados em servir sob sua proteção, rainha — um dos soldados para ela.
— Obrigada por arriscarem suas vidas pela minha segurança. Não há palavras que expressem minha gratidão — ela disse, genuinamente emocionada. O título de "rainha" parecia pesar sobre ela pela vez, e Nicolas, observando de longe, pôde perceber a mudança em sua expressão pela primeira vez.
Ao ouvir o soldado se referir a ela como rainha, Nicolas se sentiu invadido por um orgulho silencioso, mas também por uma necessidade de afirmar algo mais profundo. Ela era sua rainha, sua futura companheira, e ele queria que todos ali comentassem disso. Quando Amélia se mudou de novo, os olhos dela brilharam de motivação pela competição, Nicolas não perdeu tempo e entrelaçou os braços com os dela, uma demonstração clara de que, além de rainha, ela também era dele.
Ele enviou, e naquele momento, todos souberam: Amélia não apenas governaria ao lado dele, mas seria o coração pulsante de seu reino.
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Esse capítulo contém 3935 palavras.
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