🔥V: CAOS - Adorada loba🔥

Você pode passar a vida inteira sem perceber que aquilo que procura está bem na sua frente.

Um Dia, David Nicholls

Nota inicial; Sejam muito bem-vindos a mais um capítulo...

Boa leitura...♡

OS GALHOS BATIAM EM SEU ROSTO enquanto que corria pela trilha escura da floresta. Caos sentia os pulmões queimando, mas não pararia enquanto não saísse daquela floresta. Ele tinha que encontrar o capitão de seu navio, ou algum porto, um emissário. Mandaria uma carta para sua filha, Nëssa, sobre as montanhas, pedindo ajuda, resgate. Ele não sabia que uma simples viagem exploratória poderia lhe causar tanto aborrecimento, e... encanto.

Encanto por aquela terra - os paredões de pedra, a floresta cheirando a hortelã e orvalho; o mar tão verde como esmeraldas. E, principalmente, encanto por ela. Única, arrogante, de olhos violetas, mas tão.... tão cativante. Enquanto ele atravessava a trilha, acorrentado aos outros, ele ficou observando-a. Parecia tão distante sobre aquele corsel, os seus olhos olhavam tudo e todos, e eram tão afiados que todas as vezes que ela pousava seus olhos nele, Caos sentia as mãos suando, calafrios percorriam seu corpo ao passo de que a garganta secava de tal maneira, que sua língua arranhava. Era um olhar que parecia penetrar sua alma, fugaz e sedento em descobrir todos os seus segredos e artimanhas em apenas um piscar. Era o tipo de olhar que atraía qualquer pessoa - você não consegue parar de olhá-la. A voz da comandante também era forte e poderosa, como uma tempestade prestes a cair, e penetrava em sua alma como faca.

Uma comandante capaz de paralizar qualquer um, pensava, enquanto era arrastado pela trilha. Esses olhos, esse porte... essa mulher...

Eles atravessavam a trilha tranquilamente, até que eles pararam. A comandante ergueu a mão e farejou o ar. Caos também sentiu um cheiro putrido e estranho, e engoliu em seco pouco antes de Alyna gritar "selvagens", e tudo virar um pandemônio. Os guardas dela se dividiram e partiram para cima dos seres humanóides que Caos viu por reflexo. Tinham os membros tortos, ou faltando, e usavam ossos pendurados nos cabelos. Não gritavam, rosnavam, e ele se sentiu como se estivesse em Angband novamente, com os orcs caindo sobre si. Por um momento ele levou a mão na cintura, em busca da espada, mas piscou e viu a pedra do pomo de Ruína cintilar na cintura da comandante.

O ataque dispersou os guardas por alguns micros minutos, tempo suficiente de Gael retirar do bolso um punhal forjado em Gondolin, e romper o que prendia seu grilhão ao deles.

- Vá, majestade! - sussurrou ele - Enquanto há tempo!

Ele não queria deixá-los, mas soltar todos não iria adiantar. Gael colocou o punhal em sua mão e o empurrou ladeira abaixo. Ele rolou por alguns segundos, que mais me pareceram horas, e quando finalmente parou em um vale, não conseguia enxergar nada. Piscou, e tudo se iluminou na sua frente, uma trilha de terra se abriu, a direita. E ele correu, saltando sobre galhos.

Ele não conhecia aquela floresta, não sabia o tamanho de sua extensão, então, parou e olhou em volta. Apurou os sentidos, tentando se localizar. O cheiro da floresta estava mais forte - hortências, rosas negras, orquídeas e bromelias, centenas de milhares de folhagens, musgo e lama. Sentiu o cheiro de um pinheiro, depois de faias e carvalhos, tão fortes, centenários; e cheiro de cogumelos. Cascas de árvores apodrecendo e umidade, muita umidade. Devia haver um lago por perto, à esquerda. Ele avançou naquela direção, sempre com o punhal bem perto e firme em sua mão. Ouviu o som da floresta, esperava encontrar o som coaxante de sapos, assobios dos grilos e o piar das corujas, mas tudo que ouvia era o som do vento gelado arranhando as árvores e murmurando sons fantasmagóricos.

Seus passos alcançaram um solo fofo e macio, tomado por uma espessa camada de musgo, então, Caos sentiu um vento cortante em seu rosto. A trilha se abriu novamente para um vale e uma clareira, e logo adiante um imenso lago escuro brilhava sob a luz da lua cheia.

O rei correu até a margem e se ajoelhou ali. Juntou as mãos em concha e bebeu da água límpida e fresca do lago. Estava gelada, como aquela madrugada. Após se saciar, lavou o rosto da terra e se sentou, segurando o punhal em direção ao buraco da chave do grilhão e inseriu a lâmina ali, e torceu, tentando abrir o que lhe mantinha preso.

Cleck!

Ele ouviu um som suave e a tranca se mover no mesmo momento em que algo pontudo e gelado tocou sua nuca. Caos sentiu o corpo paralisar.

- Se eu fosse você, não faria isso! - aquela voz rosnou e ele se perguntou como ela o encontrara tão rápido.

Estamos no território dela, pensou em seguida.

Caos sentiu a presença de Alyna à suas costas e soltou a respiração lentamente.

- Erga as mãos... - ordenou ela, lentamente -, devagar...

Caos fez o que lhe foi ordenado, mas grunhiu. Ele não cairia sem lutar... não mesmo...

Lentamente, levantou as mãos, mas ao fazê-lo, os grilhões caíram e a lâmina do punhal brilhou na luz da lua. Alyna soltou um rosnado de raiva, mas Caos rolou para longe e se pôs de pé, erguendo o pequeno punhal de lâmina branca.

Seu sorriso sarcástico desapareceu quando ele comparou a lâmina de sua arma com a espada que Alyna empunhava. Escura como a noite, aquela lâmina parecia engolir cada pedaço de sombra da atmosfera. Era tão longa que poderia manter Alyna de pé se necessário, e larga. O punhal em sua mão parecia mais uma faca de queijo ou um abridor de carta comparado à espada da comandante. Não para de me surpreender, pensou, suavemente.

No entanto, sua confiança não o abandonou. Era Caos Fingolfin, afinal, esteve frente a frente com Sauron em inúmeras vezes. Era o elfo que salvou parte da população de Gondolin e os guiou até um novo lar, e foi feito seu rei. Enfrentou milhares de exércitos, venceu todas as guerras que participou e ainda estava ali, o último de uma linhagem inteira. Não seria uma comandante que lhe botaria medo, ou não seria ela capaz de fazê-lo recuar.

- O forasteiro fugiu do ninho - grunhiu Alyna com a espada em riste -, mas deixou uma trilha de migalhas para mim seguir.

Ele forçou um sorriso. - Eu queria mesmo que viesse atrás de mim... - deu um passo para o lado.

A comandante deu um passo para o outro. Ele inclinou a cabeça e viu Ruína na cintura dela. Se eu conseguir chegar perto, só o suficiente.... pensava enquanto fitava aqueles olhos violetas que em meio a escuridão, estavam tão púrpuros que ele não acreditava poder existir; Poderia pegar Ruína. Ai sim seria uma luta equilibrada. Mas eu tenho que chegar mais perto...

- Por que? - ela franziu.

Caos inclinou levemente a cabeça.

- Gosto de me sentir no controle - sibilou ele.

- Típico dos homens - ela bufou e rodou a espada, fazendo a lâmina cantar com o vento -, mas não aqui, forasteiro.

- Você veio atrás de mim - concluiu, orgulhosamente -, então, tem funcionado.

- Não por muito tempo.

Alyna partiu para cima dele, erguendo a espada e depois a abaixando. Caos levantou o punhal para bloquear o ataque, e se aquela lâmina não tivesse sido forjada em Gondolin, certamente teria sucumbido a pressão da comandante. O rei segurou a investida dela enquanto olhava em seus olhos tão intrigantes. Até seu cheiro era cativante e delicioso...

Alyna franziu o nariz e ele notou mais uma vez o quanto aquele ato fazia ela parecer boba e... sexy.

- É forte, ao menos.

- Sim! Muito!

Caos girou, chutando-a no abdômen para longe. A comandante caiu as margens do lago, deu uma cambalhota e se pôs de pé. O rei sorriu e tocou o cabo de Ruína, e desembainhou a espada, lentamente, fazendo-a cantar aquela canção lamuriosa e assustadora. A elfa jogou os cabelos negros e o olhou, franzindo.

- Besta! - ela grunhiu, rangendo os dentes.

O rei, no entanto, fez biquinho e sorriu.

- Prefiro que me chame de Caos - falou e rodopiou a espada em volta do seu corpo antes de a erguer -, o seu Caos, adorada loba.

- Loba?

- É tão graciosa e perigosa quanto uma loba - explicou.

Por um momento, um mísero e insignificante momento, algo brilhou nos olhos violetas de Alyna. Caos não sabia se era surpresa, choque, estranheza, medo, ou se era simplesmente o reflexo dos cristais de sua armadura; mas ele viu, ou estava louco, embriagado por sua beleza e sagacidade, ou algo além em suas íris estava demonstrando que alguma coisa a havia atingido de modo estranho e... fatal. Porém, foi por meros segundos, apenas o tempo de piscar, e a comandante estava novamente com aquele olhar frio e cortante que não a abandonava nem por um instante.

A elfa rodou a espada e avançou, correndo em sua direção, Caos ergueu a lâmina alto, para aparar seu golpe, mas ao invés de Alyna atacar, ela saltou sobre uma pedra e voou sobre sua cabeça; fazendo uma cambalhota no ar e caindo de pé, atrás dele. O rei girou e ao fazê-lo, sentiu o soco feroz em seu rosto. Ele perdeu o equilíbrio por algum tempo, e sua cabeça girou, mas ergueu a espada mesmo assim e atacou. Mesmo para uma elfa da escuridão, Alyna tinha uma força muito superior a dele e aquilo o assustou. A cada segundo ela o cativava mais, mostrava-lhe o quanto de segredos possuía... aquilo a tornava ainda mais.... incrível.

Caos recuou um passo e avançou, desferindo um golpe na direção dos ombros dela, mas ela aparou a lâmina e o chutou na coxa. Ele grunhiu de dor, mas permaneceu de pé, e atacou mais uma vez. O rei girou sobre si e Alyna passou rente, fazendo seu perfume flutuar pela brisa da madrugada até ele. Cheirosa, pensou, por um momento, e balançou a cabeça, dissipando o pensamento. Devia se concentrar em derrubá-la, mesmo que parecesse impossível, pois ela se mantinha de pé como uma coluna de um templo.

O rei sacou o punhal também e a atacou, em direção ao seu pescoço, porém, Alyna agarrou a pequena lâmina com tanta força que ele parou.

- Jogando sujo? - ela grunhiu e Caos franziu as sobrancelhas ao ver o sangue começando a pingar de sua mão firmemente fechada contra a lâmina do punhal - O que eu poderia esperar de um homem?

Eles estavam perto, ofegando por causa da luta, e Caos sentiu o hálito quente da comandante roçar em seu rosto. Sua respiração descompassada também formava moinhos nos cachos escuros dela.

O rei grunhiu. - Não sou um homem! Sou um Rei! Um Rei elfo! - a voz dele marchou até ela.

Alyna, no entanto, estalou a língua - Tsc. Tsc. Tsc. Eu não sou idiota. Elfos não tem barba.

O elfo soltou uma gargalhada estridente. - Este aqui tem, minha loba.

- Tem barba porque não é um elfo, e sim, um espião! - concluiu ela.

Aquilo foi pior do que uma paulada na cabeça. Ele gaguejou;

- Es-espião?!

- Você veio do Reino de Adathas, não é? - ela riu, metodicamente - É algum pau-mandado daquele pestilento rei, Adanthas. - ela quase cuspia - Mercenários miseráveis!

Ela se afastou e abaixou a espada, tirando a mão do punhal, e quando ele pensou que ela recuaria, Alyna desferiu um golpe em sua coxa e Caos sentiu a pele se romper na hora. Ele gritou de dor e caiu, de lado, na grama, segurando a perna que se empapava de sangue. Sua cabeça girou por algum tempo até que conseguisse focar o olhar na comandante novamente antes de urrar;

- EU NÃO SOU NORTENHO! VENHO DA TERRA-MÉDIA! - vociferou, enquanto que suas mãos tentavam estancar o sangramento.

A comandante pegou Ruína novamente e a embainhou, depois chutou o punhal fortemente na direção do lago. Caos observou, impotente, enquanto a lâmina branca nascida das forjas de Gondolin, rodopiar pelos céus antes de mergulhar no lago, silenciosamente. Aquilo fez a raiva nascer dentro dele, e ele conseguiu se levantar, mancando. Agarrou os ombros da comandante e a empurrou fortemente contra uma faia gigantesca que havia ali perto. Caos sentiu a respiração dela, acelerada, enquanto que seus olhos estavam esbugalhados, supresos com como ele estava conseguindo se manter de pé.

- Ouça-me, comandante, você é forte e audaz, mas não está me ouvindo - ele grunhiu, ferozmente. A raiva e a frustração eram as forças que o mantinham de pé - Eu não sou espião de ninguém! Meu nome é Caos Fingolfin I, filho de Maedhros, Rei Sobre as Montanhas Azuis. O montador de olifantes, o caçador de lobos. Eu venho da Terra-média, de Beleriand, quando esta existia; de Valinor, e de Cuiviénen, antes disso. Eu lutei em guerras que você só houve em canções, eu conheci grandes elfos como Finwë, e possuo parentesco com Fëanor, Fingolfin e Finarfin. Eu lutei contra Sauron, saqueei a Fortaleza de Utunmo, e Angband, antes dela. Os orcs me chamaram de "Caos", a primeira vez em Gondolin, quando sozinho eu matei mais de duzentos, e outros na mesma quantidade fugiram ou se feriram. - ele rosnava, ferozmente - Eu não temo a escuridão e nem a morte, já estou vivo tempo suficiente para saber quando devo ou não devo retalhar. Mas eu o sou um inimigo! Sou apenas um elfo, rei, venho de Eriador, e a barba? Se qualquer elfo estivesse vivo a tanto tempo como eu estou, também possuiriam barbas!

De repente, o ar faltou e seus pulmões queimaram, fortemente, e Caos se curvou, segurando firmemente os ombros da comandante. Ela o colocou sentado no chão e olhou a perna dele, totalmente ensopada de sangue. Seus dedos ágeis rasgaram a calça dele e ela estalou os lábios ao ver o corte em sua coxa grossa. Por um momento, ela hesitou, mas o rei estava sentindo muita dor para notar o olhar que ela lançava em direção a sua virilha, onde a calça puxava apertava seu corpo com o jeito torto que ele se sentava, e onde fazia seus músculos e membros parecerem ainda maiores, rígidos e ativos. Por um momento ele desejou uma fricção, mas o jantar em seu estômago rodou.

Alyna rasgou o restante de sua calça e amarrou, com força, imediatamente acima do corte. Ele suava quando ela tirou do bolso uma pequenina garrafinha dourada, tirou a rolha e se inclinou na direção dele.

- Beba! - ordenou.

Ele quis recusar, mas ela forçou o líquido em sua boca e Caos estalou a língua. Tinha um aspecto espesso e era vermelho como sangue, possuía um sabor metálico e quando descia pela garganta, queimava e ardia. E por último, sentia um frescor em sua língua.

O rei se sentiu confuso e franziu. Por que ela o salvaria então?

Parecendo ler seu pensamento, Alyna se inclinou na sua direção e abaixou a voz.

- Bela história, forasteiro, mas aqui ainda está fora da lei - disse-lhe - Este elixir vai curá-lo da ferida da perna, mas não o impedirá de fazer meu trabalho. Assim que estiver bom, você vai voltar a ser meu prisioneiro, e a Rainha decidirá o que fará contigo quando chegarmos a capital.

Os olhos de Caos pesavam e sua mente parecia sido atropelada por uma manada de olifantes.

- Eu sou um Rei - ele balbuciou.

Alyna, no entanto, riu. - Não aqui!

Nota final; E então? Gostaram? Espero que sim! Me digam ai, estou escrevendo com muito carinho para vocês.😊😍

Votem e comentem ai o que acharam. Vou adorar ler.

Beijinhos élficos...

Tenn'enomentielva...

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