Capítulo único


Fez-se breu. Cabeça erguida em reflexo, chocando a calvície contra a prateleira. A mão a afagar a mágoa. Pés tateando o caminho. Gaveta localizada. Fósforos sacados do bolso e, do próprio, um maço de cigarros salta. Joelhos ao chão, na procura, às cegas.

Tabaco queimando e vela acesa.

Repetida a falta energética, recorrente a cada conjunto de horas que antecede tal data vazia e esperançosa.

- Aqui já não me serve mais... - disse para si, aos risos, enquanto abandonava a velha cidade, o velho estado, o velho país... Abandonou um universo lambuzado por aparências plásticas. Adotou um mundo supostamente temporário de recursos limitados.

Antes, a ceia era farta. Havia pessoas e luzes, além da embriaguez cara, risonha e arrogante. Havia algo. Houve algo. A memória falha.

Da varanda do esconderijo, revolta contra o trecho encandecido da metrópole. Há o lá. Há o aqui: escuro. A espera pela contagem é a pior parte. Muitos estampidos chegam antes da hora, deflagrando a típica inquietude etílica de quem assola a paz dos demais. A felicidade é forçada, ouvidos adentro, na necessidade tola de empurrar os erros desse ciclo planetário para trás.

Clarão. Outro estouro e mais uma buzina musical para estimular a irritação.

- O que vai fazer por lá? - dizia, ela.

O olhar tristonho da amante, úmido, disparado da porta do quarto de motel, atravessando o corredor, perfurou seu poço de esquecimento para brotar falsos arrependimentos. Na verdade, é medo.

Parecia tudo bem resolvido na época.

A aura luminosa da vela saltou sobre o jornal, exibindo a notícia. Ela, livre da cadeia. Um gole em seco e a busca em vão pelo revólver.

- Levarei a maleta - foi o que declarou, logo antes de sair do quarto enevoado pela queima das brasas - Se ficar, serei eu no lugar daquela...

Coça a barba. O vento apaga a vela, feito sopro intencional. O era.

Na mansão, tragou o conhaque e esbugalhou os olhos sobre o cadáver, estirado entre seus pés e os da esposa. Correu com o celular colado ao ouvido, jogando a faca sobre o degrau e pegando a chave do carro no bolso.

- Ficará tudo bem! Meu advogado cuidará de tudo! - ele gritou, se afastando.

Ela apenas chorou, imóvel, decepcionada... Desacolhida.

Nunca mais se viram ou se falaram. A amante convencida, cúmplice, manipulada, seguiu todas as instruções e fez a denúncia falsa através da ligação, abafada pelo som da pirotecnia. Testemunhas falsas, relatos falsos, vidas falsas, amores falsos... Fogos mentirosos de comemoração no céu.

Ruído seco da pancada. Apagão dentro da cabeça.

- Condenada! - voz da sentença, marcando a injustiça: delírio nítido na mente. Culpa tardia sem chance de desculpas.

Despertar.

Muita cera em chamas, desfazendo a escuridão. Nudez forçada e sangue. Imagem dela, visível, ali. Passado presente.

À frente, a face com o tapa-olho - uma das lembranças físicas da reclusão. Marcas na alma apenas imaginadas.

Encontrado, finalmente. Amarrado. Colher serrilhada contra o rosto. Globo ocular arrancado para ressarcir. Grito. Choro. Desespero. Desmaio. Mais cortes com o fio cego. Mais sangue. Cera quente no rosto.

- Quatro...

- Essa será pelo seu comparsa abusador... Não sabe o que fiz pro desgraçado me tirar de lá.

- Três...

Despertar.

- Dois...

Barra de ferro em posição. Pedido de piedade.

- Um...

Indiferença contra a clemência. Sangue retal. Ruído nas entranhas. Sinfônica de explosões e berros desesperados. Vingança.

- Feliz ano novo, filho da puta!

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