Capítulo XXIV

Lucas Narrando:

Não estava nem um pouco afim de jogar bola hoje, então vou para um dos únicos lugares que gosto nessa escola: a sala de música. Eu sou apaixonado pela música, é a forma mais completa de expressar seus sentimentos, relaxar e se divertir. Mas pra mim a música vai além de tudo isso, quando estou tocando ou cantando eu esqueço do mundo a minha volta, a música foi a forma que eu encontrei de esquecer os problemas. Entro na sala de música e observo tudo ao meu redor, exatamente como me lebrava, caminho pela sala e encontro o violão que costumo tocar quando vou ali, pego-o e começo a tocar notas soltas, até que uma das minhas primeiras composições vêm na minha cabeça. Respiro fundo e começo a toca-lá:

Two Again (tradução)

Dois novamente

Eu faria qualquer coisa só para ter dois anos de novo
Imagine o que poderíamos ter feito
Imagine o que nós poderíamos ter sido
Fazendo aviõezinhos de papel até o sol se pôr

Segurando sua mão enquanto você aperta a minha
Segure firme, você disse para nunca soltar
Lembre-se de construirmos castelos de lego
Só para derrubá-los

Tudo mudou, agora você não está por perto
Eu não sou o mesmo, mas eu espero que você esteja orgulhoso
Queria que seu rostinho ainda estivesse por perto
Com aquele sorrisão e aquelas bochechas gordinhas

Imagine todas as travessuras que podíamos ter feito
Imagine a gente companheiros a toda hora
Imagine os momentos bons, ruins, tristes e felizes
Imagine os castigos e broncas

Ficar acordado até tarde, assistir programas proibidos
Ir a escola, quebrar as regras brincar de amarelinha
Subir em árvores, perseguir abelhas apenas para bancarmos os durões
E brigar, brigar, brigar, brigar por coisas de irmãos

E fugir para jogar futebol até o sol se pôr
Meu companheiro, eu queria mantê-lo seguro enquanto você cochila
Dormir em beliches e contar ovelhas
Boa noite, irmãozinho, durma

Até nos encontrarmos novamente, cuide-se meu amigo
E eu vou mantê-lo em meus pensamentos até o fim
Meu pequeno teletubbie no céu com um sorriso
Meu companheiro, eu verei você em breve

Eu sinto sua falta
Como o sol em um dia chuvoso
Quando as estrelas saem para brincar

Oh, eu sinto sua falta
Eu sinto sua falta
Eu quero estar com você meu amigo
Queria apenas que pudéssemos ser dois novamente

Me desconecto do mundo, enquanto canto cada estrofe viajo até o passado e sinto como se estivesse lá, vivendo tudo mais uma vez. Escrevi essa música aos quinze anos e desde então olho a letra quase todos dias, como se fosse uma espesse de laço que me prende ao meu irmão. Lágrimas teimosas escorrem pelo rosto enquanto canto e pela primeira vez em muito tempo me permito chorar.

- Linda música. - Uma voz doce fala assim que termino o último acorde.

- Sofia? - Me viro um pouco assustado, afinal não estava esperando plateia. - Desde quando você está aí? - Pergunto enquanto passo a mão no rosto limpando as lágrimas.

- Desde que começou a cantar. - Ela fala entrando na sala. - Quando compôs essa música?

- Já faz um tempo, mas essa é a primeira vez que canto depois de pronta. - Na verdade nunca tive coragem de cantar. 

- Não deveria escondê-la, é realmente muito boa. - Ela fala ficando ao meu lado.

- Não à escondo, só acho pessoal demais pra ser compartilhada. - Falo e coloco o violão de volta no suporte.

- Foi inspirada no seu irmão, certo? 

- Sim - Respondo.

- Você não me falou muito sobre ele. 

- Não gosto muito de tocar nesse assunto. - Falo curto e grosso sem olhá-la.

- Tudo bem,caso queira falar sobre isso estarei aqui. Falar faz bem, falo isso por experiência própria. - Ela fala e dá um sorriso acolhedor, me fazendo lembrar naquele dia na sua varanda, onde ela me contou seu passado e me mostrou sua fraquezas, sem medo ela me mostrou suas fragilidades e seus pontos fracos . E agora ela está aqui na minha frente, falando que se eu quiser fazer o mesmo ela está pronta pra ouvir, a grande questão é: Será que eu tenho a mesma coragem de me expor que ela teve? Não, eu não tenho. Mas de alguma maneira desconhecida a Sofia me passa segurança de uma forma tão inexplicável que quando vejo já estou falando.

- Pedro, o nome do meu irmão era Pedro, ele era dois anos mais novo que eu, nós éramos muito próximos, fazíamos tudo juntos. Meus pais nunca tinham tempo pra nada, então sempre me sentia sozinho, mas tudo mudou quando ele nasceu, ele era alegre, sempre fazia todos sorrirem, fazia de tudo pra levar a vida como uma grande brincadeira onde todos deveriam sorrir e se divertir. - Sorrio ao se lembrar dele e vejo que a Sofia também sorrir. - Minha mãe, nunca gostou muito de mim, e depois que o Pedro nasceu isso ficou cada vez mais claro, eu era uma criança e sofria com isso mas nunca descontei no meu irmão a falta de amor da minha mãe. - Falo e para de falar lembrando daquela mulher. 

- Sinto muito- A Sofia fala e coloca a mão no meu ombro.

- Não é culpa sua. - Sorrio amarelo e continuo. - Quando eu tinha oito anos, estava indo pra uma daquelas excuções da escola, mas a professora acabou sofrendo um assistente e o colégio cancelou a viajem em cima da hora. Naquele dia meu pai tinha viajado com o motorista pra cidade vizinha e era  folga da Maria, só sobrava a Renata, minha mãe, pra me busca na escola, a coordenação tentou inúmeras vezes entrar em contato com ela mas não conseguiu, então acabei voltando pra casa com a mãe de um colega. Quando chego vou atrás da minha mãe, escuto alguns barulhos vindo do escritório, caminho até lá e abro um pouco a porta, vejo um homem com a Renata lá dentro, eles estavam vestindo a roupa, eu tinha oito anos mas não era burro, sabia bem o que os dois estavam fazendo ali, mas essa não é a pior parte. - Falo e sinto a mesma raiva e nojo que senti naquele dia. - A pior parte foi ouvir o homem falar que não alguentava mais aquela citação e que queria viver com o filho dele, queria viver com o Pedro.

- Caramba, não consigo nem imaginar como deve ser difícil pra uma criança descobrir tudo isso de uma vez. - A Sofia fala mais pra ela que pra mim. - O que você fez?

- Depois de descobrir tudo aquilo eu fiquei totalmente sem chão e tentei sair o mais rápido possível dalí, quando estava quase fechando a porta a Renata se vira e me ver, no começo ela ficou um pouco assustada eu diria até que com medo,mas depois ela se transformou em um monstro, terminou de se vesti, pegou meu braço e me levou até o meu quarto, ela me bateu tanto que fiquei com hematomas um bom tempo, depois me disse que se eu pensasse em contar o que eu vê pra alguém ela me mataria e a todos que eu amava sem pensar duas vezes. Depois ela simplesmente me trancou no quarto e me deixou o dia inteiro sem comida  - Falo me lembrando daquele dia. -  E pra me tudo vez sentido naquele dia, eu era o filho do casamento de fachada, que ela só aturava por que queria o dinheiro do meu pai. Enquanto o Pedro era o fruto do seu "amor proibido" que ela não podia assumir pelo simples fato do cara não ter dinheiro pra bancar seus luxos. Ali eu entendi o porque do seu desprezo por mim.

- Isso não justifica nada Lucas, só uma pessoa louca faz algo assim com o próprio filho. -  Sofia fala e posso ver o quanto ficou indignada.

- Você têm razão, ela era louca. Depois daquele dia eu me fechei pro mundo vivia trancado no meu quarto com medo de encontrar ela nos corredores, só saía pra escola ou quando o Pedro queria brincar, na verdade esses eram os únicos momentos felizes que eu tinha, eu sabia que ela não me faria nada na frente do meu irmão, ele e a Maria eram as únicas pessoas que me faziam sorrir. Sempre que ela tinha oportunidade me lembrava do nosso "acordo" ou seja me espancava. 

- Por quanto tempo esse monstro fez isso com você? 

- Um ano.Depois de um ano ela fugiu com o amante, então finalmente eu pude me ver livre. Mas isso passou logo quando descobri que aquela vagabunda fugiu levando meu irmão e milhões do meu pai. Eu fiquei desesperado, a ideia de nunca mais ver meu irmão me deixou louco, e o desespero só aumentou quando um hospital ligou pra nossa casa falando que o carro que eles estavam acabou perdendo o controle e batendo de frente com um caminhão. A Renata e o cara acabaram morrendo na hora por terem recebido um impacto maior, mas o Pedro ainda estava vivo. Meu pai, eu e Maria fomos praticamente voando pro hospital, aquele foi um dos piores dias da minha vida ficamos horas sentados esperando alguma notícia. E quando finalmente apareceu alguém foi pra dizer que meu irmão tinha sofrido um traumatismo craniano e uma parte do cérebro comprometida, por esse motivo havia entrado em estado de coma. - Sinto lágrimas caindo dos meus olhos e pequenas mãos as limpando, olho para Sofia que me dá um sorriso acolhedor. 

- Se não quiser continuar tá tudo bem. - Ela fala me olhando.

- Não, eu comecei agora vou até o fim. - Engulo o choro e continuo. - Mesmo sendo uma situação delicada ainda tinha uma esperança, então me agarrei a ela com todos as minhas forças. Por ser uma criança eu não podia entrar na UTI, mas como meu pai conhecia alguns diretores do hospital ele conseguiu que eu fosse liberado pr visitá-lo, todos os dias sem exceções a Maria ia me levar no hospital, eu entrava e ficava uma hora contando como estavam as coisas. Essa era a melhor hora do meu dia, porque ali eu tinha certeza que ele ainda tava vivo. 

- E o seu pai? Como ele ficou? - A Sofia pergunta.

- Ele se afundou mais ainda no trabalho, mal ia visitar o Pedro e sempre que tinha oportunidade me lembrava que nenhuma mulher presta é que todas são iguais a minha mãe, que jamais deveria me apegar a ninguém porque todos só queriam o meu dinheiro. - Eu falo e a Sofia levanta uma sobrancelha. 

- Agora eu entendo porque você é assim. - Ela fala baixinho mas mesmo assim consigo escutar, resolvo ignorar pois sei que ela tem razão, grande parte doque me tornei é por conta doque ouvia do meu pai. - Quanto tempo ele ficou em coma?

- Dois anos, durante esses dois anos eu aprendi a tocar violão e passei de só conversar, pra também cantar pra ele todo dia. Em um desses dias eu estava conversando e cantando como sempre fazia quando de repente a máquina que marca os batimentos cardíacos parou, aquele foi um dos dias mais aterrorizante da minha vida, eu me lembro de sair correndo pedindo ajuda e quando eu voltei pro quarto tinha vários médicos e enfermeiros tentando reanima-ló enquanto um dos enfermeiros tentava me tirar da sala, felizmente ele conseguiu voltar e isso me deu mais dois meses com meu irmão. Depois de dois meses aconteceu outro ataque cardíaco, só que dessa vez ele não voltou. Ele se foi, ele morreu nós meus braços. - Depois dessa frase eu chorei, chorei como não me permiti chorar desde que meu irmão partiu. 

"Recomeçar é saber reconhecer suas fraquezas e medos superá-los e seguir em frente."

   

Oi gente, tudo bem?

Eu amei escrever esse capítulo e converso que foi um dos mais difíceis até agora, espero que vocês também tenham gostado.

Deu vontade de colocar o Lucas num potinho e levar pra casa pra cuidar.

SE VOCÊ NÃO OUVIU A MÚSICA CORRE NA MULTIMÍDIA. 

ESSE MÚSICA É INCRÍVEL!!!!

Bjs 😘❤️❤️

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