Capítulo 1

Minha vida nunca foi uma das mais fáceis do mundo, infelizmente a gente sabe que a realidade na favela é outra e que eles não divulgam na internet. Sou a Yasmin Santos, tenho 18 anos e moro na famosa Rocinha, aqui no RJ, com os meus pais. A trajetória dos meus pais é bem complicada, principalmente da minha mãe, uma mulher guerreira para caralho, e que muitas das vezes tem que sustentar a casa sozinha, já que o meu querido pai é um viciado de merda, que só traz desgraça para nossas vidas.

Tem aproximadamente uns cinco anos que meu pai entrou nessa vida de drogas e álcool. Antes ele era um bom marido e um bom pai, porém depois que ele perdeu o emprego, acabamos passando uns apertos e ele não soube lidar muito bem com isso, acabou se jogando no álcool e esse ano acabou se envolvendo com drogas também. Se dependesse de mim, ele já estaria bem longe da gente, em uma clínica de reabilitação ou coisa do tipo. Porém a minha mãe prefere cuidar dele e manter ele próximo da gente.

Sinceramente, essa é uma escolha bem burra da parte dela.

A única coisa que esse cara tá trazendo para a gente ultimamente é dívidas e mais dívidas. E novamente eu ressalto quão guerreira é a minha mãe, mesmo ele nessa situação, ela ainda cuida dele com um enorme carinho. Muitas vezes, quando ele demora muito para voltar para casa, saímos a procura dele pelos bares ou becos daqui, normalmente encontramos ele caído em algum desses lugares. Então trazemos ele pra casa e minha mãe se encarrega de cuidar dele.

E graças a ele, eu tive que começar a trabalhar no auge dos meus 16 anos, fazia alguns bicos por aí, as vezes trabalhava em uns barzinhos aqui da comunidade mesmo, as vezes ajudava as meninas no salão, atualmente tô trabalhando em um shopping lá na zona sul. Não é muita coisa, mas ajuda nas despesas de casa e nas minhas despesas também. Acabo evitando ao máximo de me permitir ter alguns luxos, justamente por não ter essa condição, as vezes acabam me chamando para ir aos bailes e acabo não indo. Não por não gostar, e sim por não ter a condição de comprar uma roupa para ir, ou compra uma bebida por lá. Sem constar que as vezes eu estou tão cansada da rotina que nem tenho pique pra ir.

Antes eu via algumas colegas mais velhas que estudavam e trabalhavam, e que malmente tinham animo pra sair, sempre julgava elas de preguiçosas ou coisa do tipo. Mas depois que comecei a passar por isso, eu tenho é vontade de pedir desculpas por um dia tem chamado elas pra saírem uma sexta a noite.

- Yasmin, o café tá pronto – grita minha mãe de lá da cozinha, me fazendo voltar para a realidade.

Saio do quarto e vou em direção a cozinha. Nossa casa é bem simples, dois quartos, um banheiro, sala e cozinha estilo americano, um quintalzinho pra pôr as roupas e uma varandinha na frente. É simples, mas pelo menos é nossa, graças a Deus não sofremos com questão de aluguel.

- Bom dia, mãezona! Você é a melhor do mundo, sabia? Te amo. – Falo e dou um beijo na bochecha dela.

- Qual foi, garota? Tá querendo o que de mim? – ela pergunta toda desconfiada me olhando.

Dou uma boa gargalhada, mas sou interrompida com algumas batidas na porta. Olho para ela sem entender e recebo essa mesma expressão de volta.

Vou até a porta, ao abrir me deparo com um moleque de mais ou menos uns 16 anos, com uma pistola na cintura e um radinho na mão.

- Aqui é a casa do Eduardo? – ele pergunta me olhando de cima a baixo.

- É sim, qual foi? – pergunto desconfiada já esperando a bomba.

- Avisa a ele que ele tem até sábado para pagar a dívida comigo, se não, tá ligado.

- E quanto que ele deve a você? – minha mãe pergunta enquanto vem rapidamente até a porta.

- Papo de mil reais, tia. – O menino diz – Isso porque cortei a onda dele, se não já tava nuns 3 mil.

- Certo, sábado a gente te entrega o dinheiro. – Ela fala e ele concorda com a cabeça, logo depois vai embora.

Fecho a porta no puro ódio.

- Tu vai tirar mil reais da onde? Só se for do cu. – Falo já puta com a situação.

- Me respeita, Yasmin – Ela fala também estressada.

- Quem tem que te respeitar não sou eu não, quem te deve respeito é o Eduardo, teu marido – Falo indo para o meu quarto.

Vou pegando minha toalha e minha roupa para ir para o trabalho. Ouço ela atras de mim.

- Ele é seu pai, Yasmin – ela diz com a voz mais baixa, aparentemente triste.

- Pai que é pai não deixa a filha passar por essas situações não, meu pai tá morto a cinco anos, aquele cara ali não é nada meu. – Entro no banheiro rapidamente, antes que ela veja as lagrimas em meus olhos.

Porra, eu tô exausta desse cara, todo santo dia tenho que me matar de tanto trabalhar, sem constar a distância que é daqui até o meu trabalho, e quando volto ainda tenho que ir pra escola, que é o lugar onde a maioria das vezes eu aproveito para descansar. Ai quase toda semana vem algum moleque da boca cobrando dívida desse cara, que não faz desgraça nenhuma o dia todo, e eu que tenho que ajudar a pagar essas porras.

Isso me tira do sério legal, não aguento mais passar por esse tipo de coisa por escolhas dos outros.

Após sair do banheiro, me deparo com Carina no meu quarto. A Carina é uma amiga de infância que a favela me deu, e graças a ela que eu permaneço firme e forte aqui, ela sempre tá aqui ajudando a gente, dando suporte para mim. Graças a ela que consegui esse emprego no shopping, trabalhamos juntas em uma loja de joias lá, por sorte ela se tornou muito amiga da dona da loja, e assim que teve a oportunidade, falou de mim para a mulher, e hoje estou com meu emprego.

- Como você tá, amiga? Sua mãe me contou – Ela me olhava com uma certa pena e ao mesmo tempo carinho.

Abraço a mesma e começo a chorar.

- Não tá dando mais pra continuar assim, amiga. Semana passada foi 500 reais, eu tinha acabado de receber o salário, já foi praticamente metade só com isso. – Falo abraçada com a mesma.

- Eu entendo sua frustração, como posso ajudar você? – Ela pergunta enquanto acaricia meu cabelo.

- Não precisa, você já ajuda demais. – Falo me recompondo e limpando o rosto – Vamo ir trabalhar, porque a realidade na favela é foda e não somos herdeiras.

- Só se for herdeiras de dívidas – ela fala seria e depois começa a rir.

- Filha da puta – Jogo meu travesseiro nela e começo a rir.

Depois de sair de casa, a gente passa pelos meninos na entrada do morro, Carina vai falar com seu querido namorado, o PD, e eu fico de longe apenas observando eles. 

Não sei como a Carina consegue se envolver com um dos meninos, sei que cada um ta ali tentando seu corre, mas a gente sabe que essa vida não é pra ninguem e não tem futuro. Eu, particularmente, nunca me envolveria com nenhum deles.  

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