10 - Diga Alguma Coisa
Meu olhar havia mudado nos últimos dias, alguma coisa estava mudando dentro de mim. Havia algo de diferente no ar ao mesmo tempo que eu lutava para me manter intacto. Quantos dias já haviam se passado desde a última vez que eu havia visto Lucas? Uma semana talvez. Eu não me importava muito ou me importava. Na verdade não queria que os pensamentos de saber onde ele estava e o que estava fazendo me perturbassem. Minha mente havia tornado a pensar nele em uma tortura constante.
Era uma tarde de sábado e eu dormia quando meu celular começou a vibrar. Meus olhos ainda estavam fechados e eu tateava a cama à procura dele até que encontrei e atendi sem olhar para a tela do celular.
— Alô — disse sonolento.
— Amor, vem pra cá...
Cocei meus olhos, ouvi ruído de pessoas falando ao fundo junto com uma música.
— Onde você está? — Algo se revirou em meu estômago e meu corpo ficou gélido.
"Isso era o medo? De que tudo acontecesse novamente? Isso era medo de voltar ao ponto de partida, de me arrepender de todas as decisões que já tive?".
— Na casa do Augusto. — Ele me respondeu. — Vem pra cá, amor.
O tom na voz dele estava estranho, então perguntei:
— Você bebeu, Lucas?
— Não, amor.
— Lucas.
— Só uma, amor.
— A verdade, Lucas.
— Ah amor foi uma de cada, a gente andou misturando bebida. — suspirei em reprovação. — Não se zanga comigo, amor, por favor.
— Não estou zangado.
— Então vem pra cá, amor.
— E onde você está? E com quem está? E o que está fazendo aí? Não ia levar o carro pra lavar hoje à tarde?
— Na casa do Augusto, amor. Tô com uns amigos da faculdade.
Novamente meu estômago reclamou. Foi com um amigo da faculdade que tudo aconteceu.
— Sei... amigo...
— É sério, amor, ele é casado não tem perigo. — Eu deveria ter dito algo, mas deixei essa passar. Eu não queria perder o controle da situação, eu não queria perder o meu controle. — Ele tinha marcado uma feijoada com a galera da turma, mas eu não me lembrava, então Julia me ligou perguntando se eu não ia e acabei vindo depois de ter saído do posto de lavagem, porque aqui só tem quatro pessoas e a mulher dele fez um monte de coisa e só tem a gente aqui.
— Entendo.
— Você vem, amor?
— Vou, amor — disse por fim.
— Vou te pegar então.
— Tudo bem então — falei ao desligar o celular.
Levantei-me devagar e fui para o banheiro, tomei uma ducha quente e me troquei, alguns minutos depois ele apareceu na porta da minha casa buzinando. Saí de dentro de casa e vi que no carro havia três pessoas, um homem e duas mulheres. Lucas disse para o homem ir para o banco de trás. Ele desceu e eu entrei. Lucas nos apresentou. O homem se chamava Mateus e as mulheres eram Julia e Vanessa. Coloquei o cinto de segurança e todos me olharam.
— Por que colocou o cinto? — perguntou Julia.
— Lucas, alto desse jeito e do jeito que ele dirige não confio muito — disse por fim em meio a um sorriso.
Lucas olhou para mim e riu. Ele deu partida e saímos dali. Ele deixou os amigos em um condomínio e fomos em direção a casa dele.
— Que foi, amor?
— Nada.
— Você está tão calado — falou ele.
— Só tava pensando.
— Está zangado comigo?
— Não estou.
Ele parou o carro no acostamento da avenida.
— Me perdoa, amor. Não briga comigo não. Eu gosto tanto de você. Não faz isso comigo.
Por alguma razão a minha armadura tinha caído, olhei nos olhos dele e o beijei como no primeiro dia em que nos vimos, por um breve momento eu sabia que tinha feito uma boa escolha, mas que tudo não duraria o suficiente para os planos feitos.
Ele ligou o carro e, como há muito tempo eu não tinha feito, deitei no seu ombro enquanto ele dirigia e me afagava, não demorou muito e chegamos a casa dele, fomos para o quarto e mais uma vez acabamos na cama.
***
Lenna adentrou o quarto enquanto a lembrança se desfazia, ela se sentou ao meu lado encostando-se à parede, então coloquei minha cabeça em suas pernas.
— Está tudo bem? — perguntou ela.
— Sim — disse pensativo. — Tudo já estava desmoronando há muito tempo com a gente. Ele já estava falando com outros caras enquanto namorava comigo. Lembrar-me disso não dói tanto como um dia doeu, mas pensar nele me incomoda um pouco.
— Por quê?
— Pelo fato de não conseguir tirá-lo completamente da minha vida. De uma forma ou de outra sempre está presente e quando eu menos espero ele aparece novamente e some da mesma forma. E além do mais desde o episódio das fotos, lá no fundo eu já sabia para onde as coisas estavam indo...
Então fechei meus olhos e adentrei no lado escuro e sombrio da minha mente.
***
Eu acabava de chegar em casa quando Lucas me ligou.
— Oi, amor.
— Oi, amor — respondi.
— Queria te pedir uma coisa.
— O quê?
— Apaga as nossas fotos do Facebook. Meu patrão acabou vendo uma de suas postagens e não gostou.
— E o que tem a ver isso?
— Eu sei, mas ele não gostou e não quero perder o emprego.
— Tudo bem.
— Obrigado, amor.
Então desliguei o celular. Liguei o notebook e abri o Facebook, apaguei todas as fotos que havíamos tirado juntos, todas as postagens, então fui até o perfil dele. Lá não havia nenhuma indicação de que ele estava namorando. Havia sumido. Como se ele fosse solteiro.
Era óbvio.
Ele estava falando com outros caras, mas por algum motivo algo dentro de mim não queria deixá-lo, não queria perdê-lo. Eu o conhecia, sabia de todas as qualidades e seus defeitos. Não estava me enganando, porque eu já sabia de tudo e mesmo assim não queria deixá-lo, mas outra parte de mim queria que tudo acabasse de uma vez. Que a dor fosse embora, que ele se fosse. E tudo aconteceu mais cedo do que eu esperava.
A noite mal estava começando para muitos naquela noite de 11 de junho. Meus olhos estavam incomodados, mas eu estava feliz por mais um dia ter se passado. Eu estava a caminho de casa quando meu celular tocou. Olhei para a tela vagamente e lá estava o nome dele. Peguei o celular, atendi a ligação e pus no viva-voz.
— Oi.
— Oi, amor — falou ele.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, só estou com a cabeça cheia — disse ele.
— Quer falar sobre isso?
— Eu não sei, acho melhor não.
— Amor, antes de tudo somos amigos. Você pode falar o que está acontecendo.
— Estou sobrecarregado. Trabalho, faculdade e namoro. Não sei o que fazer.
— Você precisa organizar melhor o seu tempo.
— Não é apenas isso. Teve também a história do emprego, por causa das suas postagens e das fotos.
"Três...", ele vai acabar comigo.
— Eu não sei se vou me arrepender.
"Dois..."
— E espero que me entenda.
"Um."
— Mas não está mais dando certo.
Silêncio.
O tempo ao meu redor parou. Algo estranho se movia por dentro de mim.
— Tudo bem. — Eu me limitei a dizer.
— Mas a gente pode sair e ficar sei lá... — Ele disse.
— Tudo bem.
— Me perdoe. Até mais. — Então Lucas desligou o celular.
Havia terminado por telefone e a ironia é que disse que jamais faria isso. Até aquele momento eu estava sendo forte, não liguei muito para o que estava acontecendo. Respirei fundo e continuei meu caminho para casa, mas nem eu sabia que aquilo traria consequências desastrosas, tanto para ele, como para mim.
Eu iria me vingar.
Eu iria acabar com a vidinha dele.
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